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Alberto Caeiro, dos heterónimos de Fernado Pessoa, será o mais consentâneo com o estado de espírito hedonista que me invade nestas tardes de calor, onde apenas consigo a imobilidade do pasmo.

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa…
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão …
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos …

Fragmento do poema XLI de O Guardador de Rebanhos

Mas por aqui entrado, há um filosofar poético (Cada cousa é o que é) que inevitavelmente surge, mesmo sabendo que Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. / Não me ponho a pensar se ela sente, e o olhar espanta-se.

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,

Fragmento de Poemas Inconjuntos

Está seguramente certo, respondo eu ao Poeta. E naquele andar em circulo do pensamento parado, a cousa volta de novo:

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Poema XXIV de O Guardador de Rebanhos
Tão profunda reflexão com este calor só tem uma solução, um mergulho no mar!
E aí vou. Amanhã haverá mais poesia.

Pareceram-me compatíveis com esta poesia as fotos de László Moholy-Nagy (1895 – 1946) feitas em 1925, no âmbito da Bauhaus, e talvez contemporâneas, grosso modo, desta poesia de Alberto Caeiro.

 

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