O Manuel Narciso pela pena de Brito Camacho (1862-1934) em terça-feira de Carnaval

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Com o sabor e valores de uma época recuada, trago hoje um naco de prosa do esquecido Brito Camacho (1862-1934) a quem Aquilino Ribeiro (1885-1963) dedica um notável estudo no livro De Meca a Freixo de Espada à Cinta (1960).

O Manuel Narciso, maricas dos quatro costados, era ruim trabalhador e detestável pessoa; só para os trabalhos mulherengos tinha jeito e só para os seus amásios tinha demonstrações de estima. Era o pior dos criados, dizia o meu pai; era a melhor das criadas, dizia a minha mãe, e um pouco por esse motivo, mas principalmente por ser irmão da comadre Narcisa, conservou-se na casa até ser velho, muito velho, sempre resmungão, sempre maldizente, escandaloso nos seus actos, que por fim estadeava, provocando a indignação e o nojo. Dizia o compadre Rosa, erudito analfabeto:

– Este diabo é como as sereias, que da cintura para baixo são uma coisa, e da cintura para cima são outra.

Todos os anos, na terça-feira de carnaval, se mascarava de mulher, e era como se a um preso dessem liberdade, abrindo-lhe a porta da cadeia. O compadre João Catarino, quando o via de saias, lenço na cabeça, um xaile pelos ombros, padejando as ancas como as marafonas, não se dispensava de lhe dizer:

– Ó ladrão, tu hoje devias fingir de homem, para te não conhecerem!

 Para o curioso leitor deixo uma ligação onde encontra informação sobre Brito Camacho.

http://www.vidaslusofonas.pt/bcamacho.htm

A fotografia é de Henri Cartier-Bresson, de 1932, tirada em Alicante, Espanha

Entre Almada (Negreiros) e Bicesse, memória de Carnaval

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Tive na vida, até hoje, duas paixões de coup de coeur. A primeira, vão mais de quarenta anos.

Era o Carnaval de 1971. Nesses anos Marcelistas as pessoas abriam as casas a desconhecidos com a maior afabilidade, e as festas privadas de fim-de-semana eram parte integrante do quotidiano de qualquer jovem. Chegado o Carnaval os grupos transformavam-se em multidão.

Naquele sábado combináramos encontrar-nos no atelier de um pintor na baixa. O boca-a-boca: onde vais sábado de Carnaval? transformou o pequeno grupo inicialmente previsto numa multidão que extravasava pela escada da mansarda. Quando chegámos, à entrada  e indiferente a multidão que cirandava, acotovelando-se, encostava-se a mulher dos meus sonhos, embora à data eu não soubesse exactamente como era. Foi o baque da paixão, ali, a iluminar-me a alma.

O caos em redor e a falta de espaço não iam permitir qualquer festa, era preciso encontrar solução alternativa àquela barafunda. Festa tinha que haver. Conferenciámos sobre as alternativas e sugeriu-se a casa da Paula.

– Mas é em Bicesse, alguém lembrou.

– Não faz mal, quantos carros há?

 Havia apenas 2.

– Quem couber vai de carro, quem não couber vai de comboio e vou buscá-los à estacão do Estoril, propôs uma amiga com quem eu ia. E assim se fez. A minha descoberta paixão foi connosco e a festa decorreu com quem quis ir. Durou até bem avançada a manhã. O meu coup de coeur deu em namoro e casamento.

A casa era de Almada Negreiros, e a partir dela  escreveu o poeta AQUI PORTUGAL, poema com que termino esta evocação.

Com ela pretendo lembrar a amiga que, com o seu carro e disponibilidade, permitiu que a festa acontecesse e a paixão de um olhar me fizesse feliz por muitos anos. Lembro-a no éter da net agora que faleceu vitima de cancro da mama.

AQUI PORTUGAL

Aqui Portugal

Bicesse

O Fim-do-Mundo mais perto de

Lisboa a da boa flôrdelis

e

Entre a Serra da Lua (Sintra)

As grutas e necrópole daqueles

Que nascidos em Creta

Passaram em Homero

Em Cristo

E a vista de Roma

Saíram do Mediterrâneo

E aqui ficaram e passaram

Trazendo consigo para toda a parte

A civilização da Liberdade individual

Do Homem

Adão e Eva pintados por Lucas Cranach, o velho

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Lucas Cranach, o velho (1472-1553), pintor germânico em actividade na primeira metade do século XVI, ficou para a história da pintura ocidental pela excelência dos seus retratos e por introduzir na pintura alemã a sensualidade dos nus femininos através das alegorias pictóricas de Adão e Eva, sobretudo, mas também utilizando outras figuras e cenas mitológicas.

Reúno a seguir algumas dessas pinturas figurando Adão e Eva numa sequência  que suponho cronológica, onde é um prazer seguir as peripécias da maçã e observar a variedade intencional nas feições e atitudes do par Adão e Eva através das várias obras.

Pinturas de sedução, as representações de Adão e Eva permitem dar conta em cada época  a que a pintura pertence, do papel da mulher nestes jogos de provocação e desejo, que a incitação  a comer a maçã traduz.

Com estes casais representando Adão e Eva estamos longe de qualquer beleza canónica  ou ideal, mas perante imperfeitos e comuns mortais, jovens homens e mulheres, nas idades em que é adequada a descoberta do amor.

De todas as pinturas talvez a terceira seja a mais eloquente na indecisão de Adão em aceitar a maçã, traduzida no gesto de coçar a cabeça. Mas em todas a linguagem corporal permite acompanhar um mundo de intenções e de não ditos que à época eram afinal, interditos.

Estas são pinturas dos exaltados tempos da Reforma de Martinho Lutero, de quem Lucas Cranach foi amigo e prosélito. Encontram-se entre as melhores e mais famosas pinturas suas os retratos de Lutero.

Cantiga, partindo-se de Jorge Roiz de Castelo-Branco

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O afastamento, a distância de quem nos é querido, têm nas imagens poéticas em torno dos olhos alguns dos mais belos poemas de sempre da poesia portuguesa. Um deles é este Cantiga, partindo-se, publicado por Garcia de Resende no seu Cancioneiro Geral, e atribuído a Jorge Roiz de  Castelo-Branco (14??-1515), que agora acrescento ao meu cânone pessoal.

Cantiga, partindo-se

Senhora, partem tão tristes

meus olhos por vós, meu bem,

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.

 

Tão tristes, tão saüdosos,

tão doentes da partida,

tão cansados, tão chorosos,

da morte mais desejosos

cem mil vezes que da vida,

partem tão tristes os tristes,

tão fora de esperar bem,

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.

Jorge Roiz de  Castelo-Branco (14??-1515)

Transcrevi a versão de José Régio em português moderno publicada em  as mais belas poesias do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, 1962, publicada por Realizações Artis.

E agora, com música de Alain Oulman, o poema na voz sublime de Amália

A cadeira em dois poemas de Pedro Tamen

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Devo ao labor de tradutor de Pedro Tamen (1934), longas horas de prazer de leitura, mas é à sua poesia que hoje venho.
É vasta a  obra poética de Pedro Tamen (1934) e sobre ela não tive ainda a oportunidade de uma visão de conjunto. Encantam-me alguns poemas, mas um livro há que me toca de forma especial: Memória Indiscritível. Percorre-o uma atmosfera de despedida e peregrinação. Reflexivo na maior parte dos poemas, pareceria trazer um ponto final à obra poética que afinal, sabemos, não aconteceu.
A cadeira como pretexto e objecto poético não é muito frequente. De Memória Indescritível escolho 2 poemas em que a cadeira é ponto de partida, e onde uma  amarga ironia ao olhar o envelhecimento brilha.

I
Nesta cadeira me sento
é nela que me apresento,
mas menos do que me ausento,
tento, lamento, avelhento,
aqui me invento e rebento;
passo cordura de unguento
e alimento o alento
da vida de sono e pão.

Desta cadeira prossigo
para um outro nó pascigo,
já sem perigo nem abrigo,
amigo como inimigo,
com meu já perdido umbigo
de só nascer por castigo:
ali de vez eu te irrigo,
cintilante coração.

II
Sento-me na cadeira
e olho para o chão:
mesmo à minha
beira abre-se o vulcão

onde o fogo assume
sua condição
de rubro negrume
sem limitação,

sem mira que veja
onde acaba a mão
que tem a bandeja
do vinho e do pão.

Mesmo que não queira,
sorvido me sumo:
desfaz-se a cadeira
e eu desfeito em fumo.

Nota bibliográfica
Memória Indescritivel de Pedro Tamen foi publicado por  GÓTICA, Lisboa, 2000

As mulheres solitárias de Edward Hopper

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Para além das considerações sociológicas ou de escola artística, interessa-me sobretudo, ao ver a pintura de Edward Hopper (1882-1967) a emoção que cada quadro desprende. A frieza das cores toca-nos quase à flor da pele. Atenho-me sobretudo aos retratos de mulheres sós, mesmo quando nos surgem acompanhadas. Transmitem sempre uma pungente solidão.

Estas mulheres pintadas por Edward Hopper esperam, quase sempre sentadas, a chegada do amor(?), ou simplesmente anseiam pelo conforto de uma presença humana quando nos surgem rodeadas de desconhecidos?

Aparentam ser mulheres de classe media ou media-alta, envolvidas por um ambiente de conforto, às vezes olhando o mundo exterior através de um vidro-filtro, outras vezes expectantes. Apenas! O mundo exterior é desconhecido neste universo, ou não importa.

Ei-las:

Testemunho maior desta solidão acompanhada é provavelmente “Gente ao sol” de 1960, com que termino este curta visita.

Flores poéticas

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Também ama!

Não apanhes, ó donzela,
Essa florinha singela,
Que entre teus dedos medrosa
Já se agita com tremor:
Como tu também formosa,
Inocente quanto esquiva,
Ei-la aí já pensativa,
Porque também sente amor.

À mais bela criatura,
Não faças a travessura
De roubar-lhe a pátria e tudo:
Que mal te fez a infeliz?
Nessa cama de veludo,
A filha da Primavera,
Cuidadosa, alguém espera…!
Ouçamos o que ela diz:

“Borboleta, como tardas!
Borboleta, porque aguardas?
Oh! Não sabes quanto eu amo?
Tu não vês sumir-se a luz?
Inda hoje no meu ramo
Não poisaste, mensageira
Da florinha feiticeira,
Que de longe me seduz!”

Cala… Eis chega a borboleta,
Asas d’oiro e violeta;
Poisou na flor que embalança;
Dentro nela se escondeu…
Que lhe segreda?… uma esp’rança…!
Oh! Não colhas, não, donzela,
Essa florinha singela,
Que é mais venturosa que eu!

Encontrei  este poema de um desconhecido Luís Filippe Leite no Almanaque de Lembranças para 1852.
Estranha forma de falar de amor a uma donzela naquele meado do século XIX, relatando uma paixão entre duas flores mediada por uma borboleta. Vejam como os jovens à época se entretinham nos seus jogos de paixão.
Adormecido nas páginas de uma publicação que hoje ninguém lê, ei-lo a vogar no mundo da net neste tecnológico século XXI.

Três retratos por Barthel Bruyn

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Barthel Bruyn (1493 – 1555), pintor alemão de Colónia, influenciado pela escola flamenga de retrato do final do século XV, deixou-nos entre outras, estas deslumbrantes pinturas.

Pintados na convenção do retrato de meio corpo a três quartos, ao olhá-los hesitamos sobre para onde encaminhar a surpresa: se para o rosto das retratadas (e escolhi mulheres nas três idades da vida) mostrando a feliz bonomia da sua condição, se para a eloquência dos gestos das mãos: a flor na mão da jovem expectante sobre a vida por vir,

o livro de orações e a mão pousada na caveira dando conta de efemeridade dos bens terrenos, ou as mãos recheadas de anéis pousadas sobre a filha evidenciando a mulher satisfeita por ter cumprido a função de maternidade que a vida esperava dela. Este retrato da filha imitada da mãe, numa deliciosa redução de escala, ganha hoje uma modernidade, no desrespeito das convenções da pintura de retrato, que os outros não revelam.

Temos também por onde esprairar a vista ao olhar estes retratos prestando atenção à complexidade do guarda roupa usado, pois respeitando uma mesma convenção, os trajes encontram-se repletos de significantes nos seus detalhes e adereços, dando conta do estatuto social e económico das retratadas.

Almada Negreiros – Manifesto Anti-Dantas lido pelo poeta

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MANIFESTO ANTI-DANTAS e por extenso

por

José de Almada Negreiros Poeta d’Orpheu Futurista E Tudo

Todos os meus livros devem ser lidos pelo menos duas vezes para os muito inteligente e daqui para baixo é sempre a dobrar.
Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Dantas ao leme é uma canoa em seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!
O Dantas é Júlio!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d’Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!
O Dantas é um ciganão!
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!
O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair… Mas é preciso deitar dinheiro!
O Dantas é um soneto dele-próprio!
O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.
O Dantas nu é horroroso!
O Dantas cheira mal da boca!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas é o escárnio da consciência!
Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!
O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!
O Dantas é a meta da decadência mental!
E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha dó do Dantas!
E ainda há quem duvide que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero!
Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:
A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram pra português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!
A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.
A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.
A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês.
Vêm descendo pla dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.
E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda… Quem está aí?… E de candeias apagadas?
– Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror… E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d’alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra plo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.
Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pla janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo pra descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres. Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma uma pedaço d’interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia d’investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o público já está farto de saber – que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.
Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente plo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.
A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma merdariana-aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.
Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do “Século” a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta “Júlio Dantas” e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas… E limonadas Dantas- Magnésia.
E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.
E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.
Mas julgais que nisto se resume literatura portuguesa? Não Mil vezes não!
Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.
E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avózinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pinto hu hi e os burros de cacilhas e os menus do Alfredo Guisado! E o raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Artes! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!
E as convicções urgentes do Homem Cristo Pai e as convicções catitas do Homem Cristo Filho!…
E os concertos do Blanc! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
Morra o Dantas, morra! Pim!
José de Almada Negreiros
Poeta d’Orpheu
Futurista E Tudo
1915

Nota

Na gravação aqui disponibilizada o poeta esclarece no final as circunstâncias da edição original do manifesto Anti-Dantas e os motivos da sua composição.

O auto-retrato do artista que acompanha o poema foi publicado no nº 2 da revista ATHENA editada por Fernando Pessoa em 1924.

Jorge de Sena (1919-1978 ) – Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

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Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya de Jorge de Sena (1919-1978 ) acompanha-me desde que adulto me conheço. Já a ele me referi na página O Autor. Hoje arquivo-o integralmente no blog entre o reduzido número de poemas do meu cânone.

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muiltas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Lisboa, 25 de Junho de 1959

Para quem não conheça a pintura evocada no título do poema, eis uma reprodução acompanhada de um detalhe ampliado.

Francisco de GOYA Y LUCIENTES (1746-1828)
O  3 de Maio de 1808: A execução dos defensores de Madrid
Óleo s/tela, 266 x 345 cm, 1814
Museo del Prado, Madrid
Detalhe do indizível enfrentar da morte: