Poemas para o Verão: Verão na Cidade de Boris Pasternak

Etiquetas

,

Longe deste verão que agora desfruto, é o Verão das terras gélidas da Rússia de que nos fala este poema de Boris Pasternak (1890-1960), pertencente ao cancioneiro do Dr. Jivago, Iuri Jivago, publicado no final do romance do mesmo nome, originalmente em Itália.
Em vez de sol são aguaceiros e trovoada os protagonistas a dar a atmosfera poética de um amor tumultuoso, ainda que a poesia surja na manhã onde Só as tílias seculares, / Cheias de perfume e flor, / Nos olham com o olhar / De quem passou mal a noite.

VERÃO NA CIDADE

Conversas a meia voz,
E esse gesto impetuoso
Com que afastas os cabelos
De cima do teu pescoço.

E sob o brilho do pente
É que aparece o olhar,
Debaixo do capacete
Dos cabelos ondulados.

A noite quente, lá fora,
Faz prever um aguaceiro.
Dispersam-se os caminhantes,
Matraqueando os passeios.

Do estrondo da trovoada
Ouve-se rolar o eco.
E o vento faz ondular
As cortinas da janela.

Vem a seguir o silêncio
Mas sufoca-se, e não cessa,
Intermitente, a presença
Dos relâmpagos no céu.

Quando por fim a manhã,
Cintilante, vem secar,
Nas bermas e nas valetas,
A água da tempestade,

Só as tílias seculares,
Cheias de perfume e flor,
Nos olham com o olhar
De quem passou mal a noite.

Versos de Iuri Jivago (1957)
Tradução de David Mourão-Ferreira

 

Fra Angelico e os frescos do convento de San Marco em Florença

Etiquetas

Entre os livros de arte que mais aprecio encontram-se os álbum sobre pintura a fresco. Estas pinturas, implantadas nos lugares para que foram concebidas, integrando a arquitectura, transmitem in loco uma impressão de conjunto que as torna a maior parte das vezes inesquecíveis. Concomitante com este prazer do visto, surge a vontade de apreciar o detalhe, o que se revela impossível no lugar. É então que estes álbuns mostram todo o seu valor, dando a ver o pormenor, permitindo fruir o detalhe, e no conforto de casa viajar de novo até uma experiência gratificante.

Entre a extensa lista destas obras primas a fresco vistas sobretudo em Itália, guardo uma memória de afecto por um conjunto em especial, os frescos das celas do convento de San Marco em Florença.

Pintados por volta de 1440 por Fra Angelico (1400-1455) e discípulos, vi-os pouco depois de concluído o restauro, e a impressão foi tão funda e duradoura, que ainda hoje sinto, ao lembrar-me da visita, invadir-me uma funda emoção.

O segredo da paz de espirito que aqueles frescos transmitem está provavelmente na atmosfera do lugar que as pinturas criam na austera nudez das celas, com a serenidade dos personagens, de onde está ausente qualquer tortura facial, ou histriónica representação do desgosto. Apenas a serena contemplação das cenas do nascimento, vida e paixão de Cristo. O auge talvez seja a serenidade com que a própria representação de Cristo crucificado nos olha.

Escolho apenas algumas dessas pinturas para dar corpo ao que escrevi, e talvez algum leitor, que as não conheça, movido pela curiosidade, se decida a procurar as que faltam.

O livro que a isto me trás, FRA ANGELICO The San Marco Frescoes, da autoria de Paolo Morachiello, dá conta, depois de uma introdução à história do edifício e de uma breve nota sobre Fra Angelico, do conjunto dos fresco e de cada um em particular, com o interesse adicional, que o faz único, de mostrar detalhes dos frescos em tamanho real.

Poemas para o Verão – Visita a Alberto Caeiro com László Moholy-Nagy por companhia

Etiquetas

, ,

Alberto Caeiro, dos heterónimos de Fernado Pessoa, será o mais consentâneo com o estado de espírito hedonista que me invade nestas tardes de calor, onde apenas consigo a imobilidade do pasmo.

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa…
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão …
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos …

Fragmento do poema XLI de O Guardador de Rebanhos

Mas por aqui entrado, há um filosofar poético (Cada cousa é o que é) que inevitavelmente surge, mesmo sabendo que Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. / Não me ponho a pensar se ela sente, e o olhar espanta-se.

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,

Fragmento de Poemas Inconjuntos

Está seguramente certo, respondo eu ao Poeta. E naquele andar em circulo do pensamento parado, a cousa volta de novo:

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Poema XXIV de O Guardador de Rebanhos
Tão profunda reflexão com este calor só tem uma solução, um mergulho no mar!
E aí vou. Amanhã haverá mais poesia.

Pareceram-me compatíveis com esta poesia as fotos de László Moholy-Nagy (1895 – 1946) feitas em 1925, no âmbito da Bauhaus, e talvez contemporâneas, grosso modo, desta poesia de Alberto Caeiro.

 

Poemas para o Verão: de novo Sophia com Liberdade e Eugénio de Andrade com As amoras

Etiquetas

,

Aqui nesta praia onde
A minha não é a praia de Sophia onde Não há nenhum vestígio de impureza,
É uma praia popular, onde as multidões se acotovelam quando a maré está alta, ou se espraiam quando chega a baixa-mar.
É uma praia de famílias onde um curioso hiato etário acontece. Encontram-se ausentes os jovens. Apenas nos cruzamos com crianças e adolescentes em idade de ainda acompanharem os pais, ou então casais de meia idade a quem a acessibilidade da praia conforta.
Circulando entre a multidão nos passeios à beira-mar, dou por mim muitas vezes a tentar imaginar as pessoas com que me cruzo, vestidas e ocupadas nos seus afazeres profissionais. Não consigo! Os corpos semi-nus, obesos ou deselegantes, longe dos padrões publicitários como é característico da humanidade, ganham uma identidade que apaga as diferenças existentes entre o banhista do guarda-sol da coca-cola, e o outro que se protege na sombra da dispendiosa palhota da primeira fila, onde repousa na espreguiçadeira.
Mas também nesta minha praia, hoje as Ondas tombando ininterruptamente, / Puro espaço e lúcida unidade, me permitiram sentir, nadando, que Aqui o tempo apaixonadamente / Encontra a própria liberdade.

Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

As pessoas de quem falei acima são quem faz este meu país, e de quem Eugénio de Andrade (1923-2005) também fala no seu poema As amoras.

As amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Notícia bibliográfica

O poema de Sophia, publicado inicialmente em Mar Novo (1ª edição 1958), foi transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, 2ªedição, 2011.

O poema de Eugénio de Andrade, publicado inicialmente em O Outro Nome da Terra (1ªedição 1988) foi transcrito de Poesia, Rosto Editora, Vila Nova de Gaia, Abril de 2011.

Camões – Canto IX de Os Lusíadas (fragmento)

Etiquetas

,

Embora os leitores possam conhecer a aventura de Leonardo, soldado bem disposto, na Ilha dos Amores, narrada por Camões no Canto IX de Os Lusíadas, não resisto à sua transcrição.

O poeta dá conta em detalhada descrição, de como se desenvolveu o encontro entre Leonardo, soldado da armada de Vasco da Gama e a ninfa Efire quando para repouso e prémio dos valorosos marinheiros,

De longe a Ilha viram, fresca e bela, / Que Vénus pelas ondas lha levava

Ficou esta ilha conhecida por Ilha dos amores e os seus encantos descreve-os o poeta a partir da estrofe 52 do Canto IX.

Acompanhamos o detalhe da natureza na descrição do poeta, de que destaco

Os fermosos limões ali, cheirando, / Estão virgíneas tetas imitando.

Depois da descrição da ilha somos chamados a acompanhar o desembarque dos guerreiros

Nesta frescura tal desembarcavam / Já das naus os segundos Argonautas, / Onde pela floresta se deixavam / Andar as belas Deusas, como incautas.

Como eram e o que faziam as belas deusas, sabemos a seguir:

Algumas, doces cítaras tocavam,
Algumas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais que não seguiam.

Isto era estratégia de sedução, conta-nos à frente o poeta:

Assi lho aconselhara a mestra experta:
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Era o paraíso ali à vista:
Algumas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa fermosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.

Será de estupefacção, primeiro, a reacção à vista de tal espectáculo:

Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os pés, de terra cobiçosos

Começam de enxergar subitamente,
Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas,
Fazendo-se por arte mais fermosas.

Dá Veloso, espantado, um grande grito:
«Senhores, caça estranha (disse) é esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta.

E à estupefacção segue-se a luxúria:

De hüa os cabelos de ouro o vento leva,
Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas carnes, súbito mostradas.

É Leonardo o escolhido para protagonizar a narrativa das delicias ali vividas:

Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,

por tal forma saborosos que no final o poeta não resiste ao conselho:

Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

(Nota: julgue-o é aqui usado com o sentido de imagine-o)

Leia-se então integralmente o episódio com Leonardo.

75
Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme prossuposto
Ser com amores mal-afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu Fado ter mudança;

76
Quis aqui sua ventura que corria
Após Efire, exemplo de beleza
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu, pera dar-se, a Natureza.
Já cansado, correndo, lhe dizia:
«Ó fermosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma!

77
«Todas de correr cansam, Ninfa pura,
Rendendo-se à vontade do inimigo;
Tu só de mi só foges na espessura?
Quem te disse que eu era o que te sigo?
Se to tem dito já aquela ventura
Que em toda a parte sempre anda comigo,
Oh! não na creias, porque eu, quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

78
«Não canses, que me cansas; e, se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal, que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
“Tra la spica e la man qual muro he messo.”

79
«Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura;
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que Emperador, que exército, se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu só farás não me fugindo?

80
«Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

81
«Nesta esperança só te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou, na virtude de teu gesto lindo,
Lhe mudarás a triste e dura estrela.
E, se se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E, se me esperas, não há mais que espere.»

82
Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

83
Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

Ilustra o artigo o painel central do tríptico de Hieronymous Bosch, O Jardim das Delícias na Terra, pintado em 1504-05.

Juan Gris — o outro cubista, com OS OBJECTOS de Zbigniew Herbert

Etiquetas

,

Apesar de ser um nome menos divulgado e a sua pintura menos conhecida, a obra de Juan Gris (1887-1927) permanece como a mais lírica de entre a pintura cubista. Integrando o grupo de Braque e Picasso em 1907, quando as primeiras manifestações cubistas surgiram, a curta vida do pintor fez com que a sua obra de maturidade se centre nesta visão da pintura, de onde a perspectiva a partir de um único ponto observador desapareceu.
Para o que me ocupa no blog, é irrelevante o efectivo papel do pintor na génese desta revolução na arte ocidental e qual a sua posição hierárquica no seio dela.
Gosto da sua pintura, do calor que a paleta transmite aos objectos das suas natureza mortas, e sobretudo da harmonia na composição/decomposição que as suas pinturas respiram.
Autor de alguns retratos abordados do ponto de vista do cubismo, neles observamos o essencial da figura humana, servindo a côr para nos transportar ao calor da personalidade retratada, qual seja o caso desta mulher com cesto que vem a seguir, ou o retrato da mulher do pintor com que o artigo abre.

Deixo-vos agora com um grupo de pinturas de objectos, a que no final OS OBJECTOS de Zbigniew Herbert (1924 – 1998) dará o complemento poético.

OS OBJECTOS

Os objectos inanimados estão sempre em ordem e nós infelizmente não temos nada a censurar-lhes. Nunca vi uma poltrona trocar de pé ou uma cama erguer-se nas pernas traseiras. E as mesas, mesmo quando estão fatigadas, não se põem de joelhos. Suspeito que os objectos se comportam assim por razões pedagógicas: para nos censurarem constantemente pela nossa instabilidade.

Tradução de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz. Publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

POESIA segundo Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Etiquetas

,

É na poesia de Sophia que encontramos, quase em permanência, o eco da grande poesia clássica grega.
Decantado o verso, sobra apenas o essencial que faz a palavra — Ποίηση — POESIA —, qual esta poética definição dela:

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

São as cores mediterrânicas da pintura tardia de Nicolas de Staël (1914-1955) que escolho para acompanhar a Poesia de Sophia.

 

 

 

 

Poemas para o Verão: poema de Wallace Stevens

Etiquetas

,

A noite de Verão é como uma perfeição de pensamento. escreveu Wallace Stevens (1879-1955) no poema que hoje arquivo.

Não sei de outra forma mais exacta para exprimir o que em noites de Verão por vezes acontece, como hoje. Corre uma brisa suave que o som do saxofone de Ben Webster embala. O ar quente envolve-se de um acre, potente e delicioso cheiro a resina de pinheiro, e num quase mágico momento o tempo pára. Não há antes nem depois, apenas a harmonia de um céu onde a lua esplende, o cheiro inebria os sentidos, e o  som do saxofone decanta a emoção. É o Verão, são as ferias de Verão!

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo, / No qual não há outro sentido, a própria verdade / / Está calma, ela própria é verão e noite, …

Leia-se o poema na totalidade:

A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.
O leitor tornava-se no livro, e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava silenciosa e o mundo estava calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
A não ser o leitor inclinado sobre a página,

A desejar inclinar-se, a desejar extremamente ser
O letrado para quem o seu livro é verdadeiro, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava silenciosa porque assim tinha de estar.

O silêncio fazia parte do sentido, parte do espirito:
Era a perfeição no seu acesso à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo,
No qual não há outro sentido, a própria verdade

Está calma, ela própria é verão e noite, ela própria
É o leitor em tardia vigília, inclinado, lendo.

In Transport to Summer (1947), tradução de David Mourão-Ferreira.

Não sei de melhor companhia pictórica para este poema que alguma pintura de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) com que acompanhei o artigo e de quem escolho uma das suas bibliotecas para fecho.

Notícias do Paraíso, também por Zbigniew Herbert (1924 – 1998)

Etiquetas

,

Anoitecera há pouco.

Por quilómetros estendia-se o areal deserto.

No horizonte do mar surgiam ao longe as silhuetas dos apanhadores de conquilha.

Do azul rosado do poente ergue-se majestosa a lua, cheia, neste Agosto de prazer.

Corre sobre o mar uma ligeira brisa temperando o ar quente que se mantém acima dos 30ºC.
Lambendo a areia da baixa-mar vêm as ondas mansas marulhar junto ao corpo que deitado se enleva nesta doçura de paraíso. E o banho, inevitável, surge. Qual Adão antes do pecado original, mergulho e aí vou, em movimentos que parecem surgir naturalmente, no indescritível prazer do fluir da água até ao mais recôndito da alma.

É de um outro paraíso que nos fala o poema de Zbigniew Herbert (1924 – 1998) que hoje transcrevo. Eivado dos pressupostos cristãos e longe do panteísmo por onde acima andei, afirma ele, como verdade revelada, que “na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado“. Todos aceitamos que sim. Por isso mesmo se chama paraíso!
De qualquer forma, é comovente a visão que nos descreve dos proletários celestes: envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos.
Ao genial poeta polaco regressarei com mais detalhe.

Notícias do Paraíso

No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas
os salários são elevados e os preços descem regularmente
o trabalho manual não é cansativo (devido à reduzida gravidade)
derrubar árvores não é mais pesado do que dactilografar
o sistema social é estável e as leis são sábias
na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado

A principio era para ter sido diferente
círculos luminosos coros e graus de abstracção
mas não foram capazes de separar completamente
o espirito da carne de tal modo que quem chega
traz sempre uma gota de gordura uma fibra de músculo
foi necessário enfrentar as consequências
misturar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina o ultimo desvio
só o apostolo João o entreviu: ressuscitaremos na carne

São poucos os que acreditam em Deus
isso é só para aqueles cem por cento pneuma
os outros ouvem os comunicados sobre milagres e dilúvios
um dia Deus revelar-se-á a todos
quando irá isso acontecer ninguém sabe

Como agora todos os sábados ao meio-dia
as sirenes tocam docemente
e das fábricas saem os proletários celestes
envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos

Tradução de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz.

Publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

 

 

Verão com pintura: Pietr Mondrian (1872-1944)

Etiquetas

Neste enlevo de nada fazer, caminho, nado e a espaços leio. Guardo algum tempo para o blog e apeteceu-me pintura, mostrar no blog mais pintura, não em conexão com poesia, mas parte do museu imaginário que me acompanha.

Na pintura de Pietr Mondrian (1872-1944) anterior à primeira guerra mundial surge numa primeira etapa a deliberada abstractização do real, a que se segue um desligar de quaisquer referências identificáveis, recorrendo à representação repetitiva de formas elementares e a uma paleta quase sempre mono ou bi-cromática a que apenas a variação de tonalidade se acrescenta.
As pinturas deste período conservam ao primeiro olhar uma frescura e modernidade que as faz parecer dos nossos dias.
Pinturas de harmonia, levando a imaginação e percorrê-las no labirinto da sua composição, deixo-vos com uma pequena escolha.

Termino com uma pintura de 1908 que permite ver a evolução pictórica do mestre até às pinturas dos anos 1911-14 mostradas antes.