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Anoitecera há pouco.

Por quilómetros estendia-se o areal deserto.

No horizonte do mar surgiam ao longe as silhuetas dos apanhadores de conquilha.

Do azul rosado do poente ergue-se majestosa a lua, cheia, neste Agosto de prazer.

Corre sobre o mar uma ligeira brisa temperando o ar quente que se mantém acima dos 30ºC.
Lambendo a areia da baixa-mar vêm as ondas mansas marulhar junto ao corpo que deitado se enleva nesta doçura de paraíso. E o banho, inevitável, surge. Qual Adão antes do pecado original, mergulho e aí vou, em movimentos que parecem surgir naturalmente, no indescritível prazer do fluir da água até ao mais recôndito da alma.

É de um outro paraíso que nos fala o poema de Zbigniew Herbert (1924 – 1998) que hoje transcrevo. Eivado dos pressupostos cristãos e longe do panteísmo por onde acima andei, afirma ele, como verdade revelada, que “na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado“. Todos aceitamos que sim. Por isso mesmo se chama paraíso!
De qualquer forma, é comovente a visão que nos descreve dos proletários celestes: envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos.
Ao genial poeta polaco regressarei com mais detalhe.

Notícias do Paraíso

No paraíso a semana de trabalho é de trinta horas
os salários são elevados e os preços descem regularmente
o trabalho manual não é cansativo (devido à reduzida gravidade)
derrubar árvores não é mais pesado do que dactilografar
o sistema social é estável e as leis são sábias
na verdade no paraíso vive-se melhor do que em qualquer outro lado

A principio era para ter sido diferente
círculos luminosos coros e graus de abstracção
mas não foram capazes de separar completamente
o espirito da carne de tal modo que quem chega
traz sempre uma gota de gordura uma fibra de músculo
foi necessário enfrentar as consequências
misturar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina o ultimo desvio
só o apostolo João o entreviu: ressuscitaremos na carne

São poucos os que acreditam em Deus
isso é só para aqueles cem por cento pneuma
os outros ouvem os comunicados sobre milagres e dilúvios
um dia Deus revelar-se-á a todos
quando irá isso acontecer ninguém sabe

Como agora todos os sábados ao meio-dia
as sirenes tocam docemente
e das fábricas saem os proletários celestes
envergonhados debaixo ds braços carregam as suas asas como violinos

Tradução de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz.

Publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

 

 

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