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Lucian Freud John Minton 1952

Na vasta e irregular obra poética de António Ramos Rosa (1924-2013), o poema O Funcionário Cansado, publicado no primeiro livro do autor, ocupa um lugar singular numa obra em que o intenso do prazer repercute no maior esplendor.

Poema sobre a solidão onde a desistência de escolher fazer o que a vida nos chama se espelha, diz-nos de forma pungente da dor de perder os sonhos.

Poema atento ao homem e ao mundo, despido de redundâncias de forma, brilha na expressão com que nos dá conta de uma vida entre nada e coisa nenhuma, para parafrasear Irene Lisboa com cuja poesia o poema se aparenta. É sem dúvida um dos grandes poemas do século XX português.

O Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado de um dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música.
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

Lucian Freud Interior in Paddington 1951

São de pinturas de Lucien Freud (1922-2011) as imagens que acompanham o artigo.

 

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