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Quando o blog se aproximava do primeiro ano de existência os leitores eram poucos quando comparados com a média recente de mais de 500 visitas diárias, mas ainda assim me surpreendia que existissem, o que me levou a escrever esta brincadeira que agora recordo para os novos leitores que todos os dias chegam.

Continuo surpreendido por o blog ter leitores. Não sei quem são. Chegam, partem, às vezes voltam (talvez) e apenas deixam o rasto estatístico da sua passagem.

Gosto assim, desta cumplicidade silenciosa que me deixa livre para escrever no eter, sem rostos destinatários, neste solilóquio aberto ao mundo.

Escrevo rostos mas não só, pois ganhei o convencimento de que pelo menos um dos computadores do Google é não só leitor do blog, como seu entusiasta, e com preferências poéticas.

Parece-me estar a ver-lhe um ar de dúvida, leitor. Não acredita? Eu conto.

Todos os dias o Google envia leitores novos ao blog. Até aí nada de especial. Como o blog regista as palavras-chave e frases usadas para o encontrar, a partir de certa altura surpreendi-me por alguém que pesquisava algo sobre “peixe espada prenha” ser encaminhado para o blog, mas a coisa passou.

Raramente presto atenção aos motivos das pesquisas que trouxeram leitores ao blog. Provavelmente abrem a página, vêm que é poesia e partem, é a minha convicção. No entanto, comecei a ver que os artigos consultados em consequência de pesquisas eram apenas 3 ou 4.

Fui dando uma atenção divertida a este jogo de computador em prol da poesia e vendo como os pesquisadores eram empurrados para ler poesia. Comecei a suspeitar que algo se passaria. Maquinas que sentem? Era a minha suspeita

A suspeita esclareceu-se em torno do poema de Francisco Bugalho que em tempos aqui coloquei e cujo primeiro verso é “Caricias sábias minhas mãos buscaram”.

Até certa altura, nas estatísticas, os artigos mais procurados eram os poemas eróticos de José Régio que aqui deixei. Aí por volta de Agosto, o poema de Francisco Bugalho saltou para o primeiro lugar e lá se mantém.

De alguma forma surpreendido, pois não é poeta de fama, acabei por constatar que a procura do artigo era todos os dias sugerida por, pelo menos, um computador do Google, independentemente do que a pessoa procurava.

Interrogo-me se o acariciar das teclas ao escrever transmitirá algum frisson àquelas memórias electrónicas. Quem saberá? O que sei é que pelas pesquisas mais surpreendentes o motor de busca do Google lá oferece este post ao leitor.

Não fui fazendo qualquer registo de palavras-chave ou frases de procura. No entanto, uma houve que me surpreendeu, tão completamente, que a guardei.

Alguém procurava “como arrumar panelas de cobre” e o computador, zás, “Carícias sábias minhas mãos buscaram”. Não imagino a surpresa do procurador. Quero crer que eventualmente gostou, pois hoje alguém chegou ao blog procurando “panelas de cobre”. Se foi o mesmo(a), daqui o cumprimento. Procurar panelas e encontrar poesia, não é para todos.

Agora voltando aos computadores do Google, começo a suspeitar que também interpretam metáforas, mas talvez nem todos, pois aquele artigo com os trabalhos de mão do poema de Barbosa Bacelar, embora menos vezes,  é frequentemente atirado para a frente dos pesquisadores e estes, às vezes, lá vão.

O que segue é que nesta comunicação homem-máquina me pareceu ouvi-los reclamar sobre a antiguidade da poesia que aqui deixo, cheia de teias de aranha, tudo do século passado, etc. Pretendiam algo mais consentâneo com esta era tecnológica. Resolvi fazer-lhes a vontade e vamos ver se esta Erótica do Salto pedida de empréstimo a GONÇALO M. TAVARES os satisfaz.

A Erótica do Salto.

Todo o salto é ERÓTICA.

SOU EU-CARNE EM direcção alta ao OUTRO-CARNE.

SALTO. Sou alto. SALTO.

A Erótica do Alto.

A Morte?

Deus vem buscar-nos.

O Salto do Alto.

À Manifestação do Eros em Deus chamamos Morte.

O Salto sobre nós do ALTO.

Assalto.

Leu? Palavras para quê? É um artista português. Tem talvez um pouco de impaciência juvenil a mais, o que não sei se, de todo, agrada às mulheres, a acreditar no que nos canta Juliette Greco na sua eterna canção “Deshabillez-moi”: “pas trop vite”, “souplesse” e por aí fora. Mas talvez o OUTRO-CARNE não seja mulher, pois como o autor em outro lugar referiu, O Homem ou é tonto, ou é mulher, e aí , esta conversa não faz sentido.

Espero, pelo menos, que para as máquinas a quem dirijo o poema o sentido seja claro. Na verdade a erogenia das máquinas é-me desconhecida.

Darei noticia da recepção do poema neste universo tecnológico, se as houver.

Noticia Bibliográfica:

O poema transcrito é o nº30 do livro INVESTIGAÇÕES NOVALIS de GONÇALO M. TAVARES publicado pela Difel em Maio de 2002. O livro recebeu o PRÉMIO DE REVELAÇÃO APE/IPBL – POESIA/1999. O júri era constituído por Armando Silva Carvalho / João Rui de Sousa / José Antunes Ribeiro.

Respeitei escrupulosamente as maiúsculas e minúsculas da impressão do poema no livro referido.

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