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Gorky_Arshile-Garden_in_Sochi 1941Jardim

Alguém diz:

“Aqui antigamente houve roseiras”—

Então as horas

Afastam-se estrangeiras,

Como se o tempo fosse feito de demoras.

A invenção dos jardins enquanto espaços de natureza ordenada parece ter sido paralela ao avanço do racionalismo como forma de olhar o mundo. E desde que criados como locais de lazer, foram progressivamente tomando parte na vida quotidiana. À medida que o tempo para o ócio se estendeu a mais largas camadas de população, sucederam-se os jardins públicos como espaços integrantes do universo urbano.

Os jardins são o anti-económico. Custam dinheiro a manter e não produzem nada rentável. Para almas práticas são o puro desperdício. Tanto mais que frui-los é usar o tempo de forma improdutiva.

Acontece até que na ironia da administração publica municipal, a vereação dos jardins está associada à vereação dos cemitérios, numa eloquente enunciação do seu carácter não produtivo.

E, não obstante, contrariando o homo economicus, gostamos de jardins. Quando podemos passear num jardim, sentimo-nos bem: é uma espécie de poesia sem palavras, esse bem estar. Associamos aos jardins uma ideia de harmonia, de beleza, de natureza ordenada pelo homem com intuito de provocar prazer.

Vivo há longos anos num bairro projectado e executado nos parâmetros da Carta de Atenas, com os edifícios em grande parte rodeados por extensas zonas ajardinadas. As árvores crescem até à janela e no tempo da floração, enchem o olhar de verde salpicado de amarelo, onde o constante gorjear dos pássaros faz sentir melhor a ausência do barulho automóvel. O senão é que manter cuidados tão vastos jardins custa dinheiro e a municipalidade retrai-se, com o que raramente os jardins nos surgem apetecíveis, como na origem os arquitectos os pensaram.

Sentir poeticamente os jardins é privilegio de poucos e dar-lhe forma escrita é ainda mais raro. Folheio livros e encontro, diria que sem surpresa dada a personalidade da escritora, a presença da emoção induzida pelo jardim entre as primeiras obras de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004).

É a um passeio por esses poemas que hoje convido o leitor.

Jardim

O jardim está brilhante e florido.

Sobre as ervas, entre as folhagens,

O vento passa, sonhador e distraído,

Peregrino de mil romagens.

É Maio ácido e multicolor,

Devorado pelo próprio ardor,

Que nesta clara tarde de cristal

Avança pelos caminhos

Até os fantásticos desalinhos

Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada

Pelo jardim deliro e divago,

Ora espreitando debruçada

Os jardins do fundo do lago,

Ora perdendo o meu olhar

Na indizível verdura

Das folhas novas e tenras

Onde eu queria saciar

A minha longa sede de frescura.

O Jardim e a Noite

Atravessei o jardim solitário e sem lua,

Correndo ao vento pelos caminhos fora,

Para tentar como outrora

Unir a minha alma à tua,

Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiros cercados de buxo

Sorri à sombra tremendo de medo.

De joelhos na terra abri o repuxo,

E os meus gestos foram gestos de bruxedo.

Foram os gestos dessa encantação,

Que devia acordar do seu inquieto sono

A terra negra dos canteiros

E os meus sonhos sepultados

Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos

Calou-se a terra,

E sob o peso dos frutos ressequidos

Do presente

Calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,

Enquanto subia e caía a água do repuxo,

Murmurei as palavras em que outrora

Para mim sempre existia

O gesto dum impulso.

Palavras que eu despi da sua literatura,

Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,

De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem

A noite solitária e pura

Continuou distante e inatingível

Sem me deixar penetrar no seu segredo

E eu senti quebrar-se, cair desfeita,

A minha ânsia carregada de impossível,

Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura

E embalei o silêncio nos meus ombros.

Tudo em minha volta estava vivo

Mas nada pôde acordar dos seus escombros

O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou pesado e quente

E à sua volta todo o jardim cantou

E a água do tanque tremendo

Se maravilhou

Em círculos, longamente.

Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim da impossessão,

Transbordante de imagens mas informe,

Em ti se dissolveu o mundo enorme,

Carregado de amor e solidão.

A verdura das árvores ardia,

O vermelho das rosas transbordava,

Alucinado cada ser subia

Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação

De paraísos, deuses e de infernos,

E os instantes em ti eram eternos

De possibilidade e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou, denso

Dum gesto mais profundo em si contido,

Pois trazias em ti sempre suspenso

Outro jardim possível e perdido.

Em Todos os Jardins

Em todos os jardins hei-de florir,

Em todos beberei a lua cheia,

Quando enfim no meu fim eu possuir

Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,

A tudo quanto existe me hei-de unir,

E o meu sangue arrasta em cada veia

Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo

Todo o fogo que habita na floresta

Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,

A secreta abundância dessa festa

Que eu via prometida nas imagens.

Bonnard_Pierre-Gardens_of_Tuileries
Os poemas originalmente publicados em Poesia (1944) e Dia do Mar (1947) foram transcritos de OBRA POÈTICA, Caminho, Lisboa 2011.

Abre o artigo uma pintura de Arshile Gorky (1904-1948), Jardim em Sochi de 1941. Fecha o artigo uma pintura de Pierre Bonnard (1867-1947), Jardins das Tulherias.

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