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Halsman / Dalí – as fotos

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No filme de Woody Allen, Meia-noite  em Paris, a certa altura ocorre uma cena em torno de Salvador Dalí e a sua obsessão por rinocerontes, decalcada desta fotografia famosa de Philippe Halsman.

A dupla Halsman/Dalí criou um conjunto vasto de fantasias fotográficas onde a realidade surge adulterada provocando a surpresa em quem vê, e gerando novos significados em gestos triviais.

Oscilando entre o ridículo e o absurdo, aqui ficam alguns dos bigodes de Dalí.

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EDWARD STEICHEN (1879-1973) – O Flatiron 1905

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Guarda a história da fotografia alguns exemplos brilhantes do inicio do século XX quando a fotografia ainda procurava a sua linguagem de afirmação como arte.

Um dos exemplos famosos é esta foto de 1905 do Flatiron, um edifício de apartamentos em New York concluído em 1902, e tornado icon da cidade.

 

A horas mortas ouço Chopin

A horas mortas ouço Chopin

Desprende-se uma suave melancolia e as notas correm no teclado da alma

Entra no ar o sabor cálido e doce da ternura

Acaricia-se o silencio no sorriso emocionado do prazer

 

 

Alto

Deixado a pensar

Permanece inebriado o canto silencioso

Do amor

 

Nota

Despido o pudor, acompanho estas minhas criações com musica de Chopin nos dedos mágicos de Alexadre Tharaud.

O cansaço de Álvaro de Campos

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20120106-185928.jpg

Estou cansado, é claro

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto-
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço –
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Não, não é cansaço…

Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…

Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta –
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como quê?…
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!…

Um poema de João de Lemos (1819-1890)

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Neste final de desenfadado lazer, lendo o que preocupava o mundo português há cento e cinquenta anos, folheei durante a tarde o Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para 1862.
Não vos maço com o que por lá vi, apenas a consciência de ter andado por um mundo perdido que não deixou saudades retive, e um poema de tocante simplicidade de João de Lemos (1819-1890), o poeta fundador, e de maior talento, do grupo de O Trovador.

A MELHOR COLHEITA

Por tarde amena de estio
Vendo do campo o lidar,
Sentindo a brisa do rio,
Ouvindo o melro cantar,
Assentei-me em verde alfombra,
Dum freixo copado à sombra,
Com um amigo a conversar.

Qual era a melhor seara,
Qual melhor colheita dá,
Qual mais barata ou mais cara
Ao lavrador ficará;
Era o assunto da conversa,
Mas de opinião diversa,
Ambos teimávamos já.

Eis que perto ali passava
Um camponês ancião,
Ao ombro a enxada levava,
Levava um cesto na mão
E no rosto lhe luzia,
Por entre doce alegria,
Doce paz no coração.

– Façamos do velho, digo,
Entre nós ambos juiz;
Que dizes tu meu amigo?
– Venha o teu velho, me diz.
Chamei-o logo, ele veio
E de nós ambos no meio
Assentar o velho fiz.

Qual era a melhor seara,
Qual melhor colheita dá,
Qual mais barata ou mais cara
Ao lavrador ficará,
Lhe disse eu que era a conversa,
Mas de opinião diversa
Que ambos teimávamos já.

– Dize, pois, honrado velho,
É trigo, é milho, é arroz?
Decide com o teu conselho,
Dá o teu voto entre nós;
Que na falta de ciência
A sabedora experiência
Falará na tua voz.

Olhou-nos então sorrindo,
E disse – se Deus o quer,
Tudo é bom à terra indo,
Quando e como o tempo der,
Quando e como nos ensina
Da própria terra a doutrina
Aos que nela sabem ler.

Mas de todas as colheitas
E, mancebos, a melhor
A das acções por nós feitas,
Sem que suba ao rosto a cor;
Porque é dessa que é medida,
No dia da despedida,
Nossa pensão ao Senhor!

Saudação da Aurora com Juan Ramón Jiménez (1881-1958)

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Abro o ano de 2012 com esta Saudação da aurora de Juan Ramón Jiménez (1881-1958) fazendo meu o seu conselho, talvez adaptado do Sânscrito como a publicação original refere.

Saludo del alba

Cuida bien de este día! Este día es la vida, la esencia misma de la vida. En su leve transcurso se encierran todas las realidades y todas las variedades de tu existencia: el goce de crecer, la gloria acción y el esplendor de la hermosura.
El día de ayer no es sino un sueño y el de mañana es sólo una visión. Pero un hoy bien empleado hace de cada ayer un sueño de felicidad y de cada mañana una visión de esperanza. Cuida bien, pues, de este día!

(del Sánscrito)

Saudação da aurora

Cuida bem deste dia! Este dia é a vida, a essência mesma da vida. No seu breve transcurso encerram-se todas as realidades e todas as variedades da tua existência: o gozo de crescer, a gloria da acção e o esplendor da formosura.
O dia de ontem não é senão um sonho e o de amanhã é só uma visão. Mas um hoje bem empregado faz de cada ontem um sonho de felicidade e de cada amanhã uma visão de esperança. Cuida bem, pois, deste dia!

(do Sânscrito)

Almada Negreiros — A invenção do dia claro (fragmento)

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Desejo aos leitores do blog, para 2012, toda a felicidade com que nem se atreveram a sonhar.

Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.

Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido., e nesta convicção, resolvi fotografar gaivotas.

Deixo-vos com algumas dessas fotos e despeço-me deste 2011 com um fragmento de A INVENÇÃO DO DIA CLARO de Almada Negreiros (1893 – 1970).

A invenção do dia claro (inicio do texto)

Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.

Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.

No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

* * * * *

Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a sciencia que trata da vida; era justamente do que eu necessitava–pôr sciencia na minha vida.

Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.

Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem e semelhança de Deus. Não basta?

* * * * *

Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!

Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.

* * * * *

Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.

Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si–não saber cuidar de si é ser cão.

Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!

Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!

* * * * *

Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar e nenhuma era para copiar.

Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.

Talvez que nos outros livros… mas os titulos dos livros são como os nomes das pessoas–não quere dizer nada, é só para não se confundir…

* * * * *

Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só maneira para todas as especies de seus vassalos!

Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu seja Mestre!

Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial conselheiro»! Não achas, Mãe?

O Mestre escreveu o que sabia–por isso ele foi Mestre. As palavras tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam a ler para chegarem a Mestres–era com esta intenção que se aprendia a ler antigamente.

* * * * *

Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

* * * * *

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa–salvar a humanidade.

 

———-   fim do extracto ————

Nota

Conservei  a ortografia da edição original de 1921

Nasci duas vezes e o peso da fé: dois textos de Danilo Harms (1905-1942)

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Não tendo existido surrealismo na União Soviética, os textos de Danilo Harms (1905-1942) possuem características que para o surrealismo remetem.

O deslocamento da realidade e da lógica surgem eivados de um sarcasmo, mais que de ironia, empurrando a imaginação para o inesperado de associações que subvertem o mundo conhecido ou esperado.

Os textos, situando-se muitas vezes na fronteira da prosa com a sua descrição detalhada de um mundo imaginado, e da poesia onde a arte da síntese se move, levam-nos por caminhos de interrogação sobre o real e o absurdo, questionando a lógica associada à concatenação dos acontecimentos e factos.

Nesta pequena escolha, começo com o nascimento do poeta narrado pelo próprio.

Agora vou contar-vos como nasci, como cresci e como se revelaram em mim os primeiros indícios de génio. Nasci duas vezes. Eis como tudo aconteceu.

O meu papá estava com a minha mamã em 1902, mas os meus progenitores trouxeram-me  à luz do dia apenas em finais de 1905 porque o papá exigia que o seu filho nascesse obrigatoriamente na passagem do ano. O papá calculou que a concepção tinha de acontecer no dia 1 de Abril e, por isso, apenas nesse dia abordou a mamã no sentido de conceberem juntos uma criança.

A primeira vez que o papá abordou a mamã foi no dia1 de Abril de 1903. Havia muito que a mamã esperava este momento e ficou muito contente. O papá, porém, estava numa disposição jocosa e não se conteve que não dissesse à mamã:”Ah, ah, primeiro de Abril!”
A mamã ficou terrivelmente ofendida e, nesse dia, não permitiu que o papá a conhecesse. Foi obrigado a esperar pelo ano seguinte.

Em1904, no dia 1 de Abril, o papá voltou a abordar a mamã com a mesma proposta. A mamã, porém, não se esquecera do caso do ano anterior e disse que não estava interessada em ficar numa situação estúpida e não acedeu, de novo, às pretensões do papá. Por mais que o papá se enfurecesse, nada feito.

Somente um ano depois o meu papá conseguiu exortar a minha mamã a conceber-me.
Por conseguinte, a minha concepção deu-se a 1 de Abril de 1905.

Apesar disso, todos os cálculos do papá saíram furados porque nasci prematuro, quatro meses antes do prazo.

O papá encrespou-se de tal maneira que a parteira que assistia ao parto se atrapalhou e se pôs a enfiar-me de volta para donde tinha saído.

Um conhecido nosso que estava presente, estudante da Academia Médica Militar, declarou que não seria possível enfiar-me de volta. No entanto, apesar das palavras do estudante, acabaram por me enfiar e, como de resto viria a verificar-se mais tarde, enfiar enfiaram, mas à toa, no sítio errado.

Nisto, armou-se uma balbúrdia terrível. A parturiente grita: “Dêem-me o meu filho!” Respondem-lhe: “O seu filho está dentro de si!” ” Como? – grita a parturiente. – Como é que o meu filho pode estar dentro de mim se acabei de o parir?!” “Mas – dizem à parturiente -, se calhar está enganada, não?” “Como?! – grita a parturiente. – Como é que posso enganar-me? Ainda agora vi a criança com os meus próprios olhos, aqui em cima do lençol!” “É verdade – dizem à parturiente -, mas talvez ele tenha rastejado para algum lado.” Em resumo, nem sequer sabiam o que dizer à parturiente.

Ora a parturiente grita e exige ali o seu filho.

Foram obrigados a chamar um médico experiente. O médico experiente examinou a parturiente e, abrindo os braços de espanto, encontrou no entanto uma solução e deu à parturiente uma boa dose de magnésia. A parturiente defecou e, deste modo, saí à luz pela segunda vez.

Nisto o papá voltou e enfureceu-se, dizendo que era impossível considerar nascimento uma coisa destas, que eu ainda não era um ser humano mas um semi-embrião e que era necessário voltar a enfiar-me para qualquer lado ou, então, colocar-me na incubadora.

E colocaram-me na incubadora.

Não nos esclarecendo sobre quando saiu da incubadora, nunca saberemos se no próximo domingo haverá ou não que assinalar um aniversário do escritor. Continuemos mais um pouco na sua companhia, e depois de termos travado conhecimento com o poeta à nascença, leia-se um curto texto, talvez metafísico, sobre o peso da fé, nesta quadra em que ela nos acompanha.

Um homem deitou-se crente e acordou descrente.

Felizmente, havia no quarto deste homem uma balança decimal médica, e ele tinha o habito de se pesar todos os dias, de manhã e à noite. Assim, pesara-se na véspera, ao deitar, e a balança marcava 4 puds e 21 libras. Na manhã seguinte, ao acordar descrente, o homem voltou a pesar-se e a balança marcava 4 puds e 13 libras. “Daqui a conclusão: a minha fé pesava aproximadamente 8 libras”, disse o homem.

Depois desta pequena amostra poderá o leitor descobrir mais onde estes textos se encontram.

Os textos transcritos pertencem a A VELHA E OUTRAS HISTÓRIAS de Danilo Harms, publicado por Assírio & Alvim em tradução de Filipe Guerra e Nina Guerra, em 2007.

Esta edição contém uma esclarecedora Introdução de Filipe Guerra sobre a vida e a obra do autor.

Quixote: Cervantes, Portinari, Drummond

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Pelos caminhos volto / à procura de Sancho / para de novo Sancho / saber-me e conferir-me / com dobrado prazer.

Assim termina o Solilóquio da Renúncia , uma das 21 glosas poéticas de Carlos Drummond de Andrade a um conjunto de 21 desenhos de Cândido Portinari sobre cenas do Dom Quixote de Cervantes.

Foram leitores do Brasil os últimos a visitar o blog ontem. Do Brasil foram hoje os primeiros leitores a chegar. E lembrando o Brasil me chegou como prenda de Natal este belo livro. Mais que falar dele, o melhor é mostrá-lo. Eis o conjunto dos desenhos, em reproduções de fraca qualidade, infelizmente, e algumas das glosas poéticas de Carlos Drummond de Andrade.

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Na ambivalência que me habita, umas vezes Sancho, outras Quixote, vejamos se Volto pelos caminhos / à procura de mim / que de mim se perdera / …

 

 Sagração

Rocinante

pasta a erva do sossego.

 

A Mancha inteira é calma.

A chama oculta arde

nesta fremente Espanha interior.

 

De giolhos e olhos visionários

me sagro cavaleiro

andante, amante

de amor cortês a minha dama,

cristal de perfeição entre perfeitas.

 

 

Daqui por diante

é girar, girovagar, a combater

o erro, o falso, o mal de mil semblantes

e recolher, no peito em sangue,

a palma esquiva e rara

que há-de cingir-me a fronte

por mão de Amor-amante.

 

A fama, no capim

que Rocinante pasta,

se guarda para mim, em tudo a sinto,

sede que bebo, vento que me arrasta.

 

 

 

Exdruxularias de Amor Penitente 

Neste só, nestas brenhas

Aonde não chega a música

da voz de Dulcinéia

que por mim não suspira

e mal sabe que existo,

vou fazendo penitência

                               de amor.

Vou carpir minhas penas,

vou comover as rochas

com lavá-las de lágrimas,

vou rompê-las a grito,

ensandecer as águias,

cativar hipogrifos

e acarinhar serpentes,

                               vou

arrancar minhas vestes

de ferro e de grandeza

Esacar os calções

e de gâmbias de fora,

documentos do sexo

cinicamente à mostra,

para que aves e plantas

desfrutem o espectáculo,

farei micagens mil,

plantarei bananeiras

e darei cambalhotas,

saltos mortais vitais

de amor

                de amor

                               de amor.

 

Disquisição na Insónia

Que é loucura ser cavaleiro andante

                ou segui-lo, como escudeiro?

De nós dois, quem o louco verdadeiro?

                O que, mesmo vendado,

                vê o real e segue o sonho

de um doido pelas bruxas embruxado?

Eis-me, talvez, o único maluco,

e me sabendo tal, sem grão de siso,

sou – que doideira – um louco de juizo.

 

 

Solilóquio da Renúncia

Volto pelos caminhos

à procura de mim

que de mim se perdera

ao me sentir governo.

Governar, que besteira,

afrouxelado cárcere

de insónias e cuidados.

Que vale policiar

o interesse dos homens,

puni-los ou premiá-los,

se do poder, escravo

se tornou Sancho, o livre

lavrador de outros tempos,

que em seu boi, seu rafeiro,

suas roças meninas

e tudo que cabia

num alqueire de terra

fundara seu império

                e nele

governava a si mesmo?

Pelos caminhos volto

à procura de Sancho

para de novo Sancho

saber-me e conferir-me

com dobrado prazer.

 

 

Noticia bibliográfica.

O conjunto de desenhos de Cândido Portinari, a lápis de cor sobre papel, foi feito na sequência do conselho médico ao pintor, de abandonar as tintas por correr risco de intoxicação fatal.

As glosas poéticas de Carlos Drummond de Andrade foram publicadas no livro com o título D. Quixote: Cervantes, Portinari, Drummond, em  1º edição no Brasil, em 1972, pela editora Diagraphis, numa edição de 200 exemplares, assinada, e hoje raridade bibliográfica.

As transcrições dos poemas e a reprodução dos desenhos foram feitas a partir da 1ªedição portuguesa, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2005.