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Bulhão Pato no Monte da Caparica

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Apenas parcialmente reunida em livro, é vasta a produção poética de Bulhão Pato (1828-1912) espalhada pelas mais diversas publicações. O poeta aguarda ainda o antologiador sem preconceitos, que com gosto e munido de paciência, vasculhe a obra dispersa e dê a ler ao leitor de hoje aquele punhado de poemas que garantem ao autor um lugar na poesia portuguesa.

Da poesia que conheço de Bulhão Pato (1828-1912), e não é fácil conhece-la toda, tão dispersa ela se encontra, o melhor guarda-se no Livro do Monte publicado em 1896, e neste, os poemas arrumados em Geórgicas.

De Livro do Monte (e refere-se a Monte da Caparica onde o poeta viveu retirado os últimos anos de vida) escolho apenas dois poemas, e com eles espero abrir a curiosidade ao leitor para uma obra de qualidade desigual onde abundam as banalidades poéticas, mas onde uma mão cheia de poemas existem que apetece conhecer.

Deliberada homenagem a Virgílio, mas onde sobretudo o eco de Hesíodo e do seu Trabalhos e Dias se ouve, tanto os poemas escolhidos, como outros, são poemas sobre a terra e os homens. Sementeiras e colheitas, trabalhos e actividades de sobrevivência fazem a matéria poética das obras. Comovem e surpreendem, sobretudo quando se constata a constância do clima e prevalência das dificuldades das gentes na vida agarrada ao húmus.

Estiagem

O mar quieto. — Apenas vem
A vaga da maré cheia,
Na Costa, que fica além,
Roçar a espuma na areia.

Rufando as penas doiradas,
Vão as calhandras, palreiras,
Preando insectos, coitadas,
Por não ter um grão nas leiras!

O azul é denso; a luz viva.
O sol referve no mar,
Como na estação estiva.
Virá o tempo a mudar?

O lavrador pensativo –
Menos triste co’a esperança
Que este calor excessivo
Traga, de facto, a mudança.

Mas, quando rompeu o dia,
Era nítido o recorte
Do sol, e uma aragem fria
Vinha do lado do norte!

A lua, nas pontas curvas,
Não t em um ligeiro véu.
E nunca as estrelas turvas!
E sempre lúcido o céu!

Depois de passado Abril,
D’um ano assim não me lembro;
Nem a orvalhada subtil
Cai! — E vamos em Novembro!

Levou a ferocidade
Da canícula fatal
A minguada novidade
Da vinha e mais do olival!

É que o sol triunfador,
Em seis meses de estiagem,
Vai, como um conquistador,
Devastando na passagem.

*

O ganhão da Beira alpestre
Chegou da nativa serra,
Para o trabalho campestre.
Mas como amanhar a terra?

Não entra com ela o arado!…
Queimado o tojal nos montes!
Morto à fome e à sede o gado!
Secas ribeiras e fontes!

O sol alto a dardejar
Abrasou o prado e a selva!
E o cordeirito a balar
Sem ter um palmo de relva!

Não se ouvem cantar as noras…
Nem, no alfobre, umas verduras!…
Vêm repontando as auroras,
E cada em vêm mais puras!

*

O frio aumenta. Já silva,
Às refregas, o aquilão!
Nem no valado uma silva,
Para o cabrito saltão!

Atrás da vaca a novilha,
Já não pula na lezíra!
A mãe não sustenta a filha
Que o leite se lhe exaurira!

O boi bravo, na campina
Erguendo a fronte, pareçe
Que à Providência Divina,
Mugindo faz uma prece!

E até se dirá que tem,
Claramente, proferido
O próprio nome da mãe,
No doloroso mugido!

Sempre coisas misteriosas
Nas mais triviais verdades!…
Porque são joviais as rosas,
E tão tristes as saudades?

Canta, à tarde, um passarito —
E aquele singelo idílio,
Quem lho inspirou, do infinito,
Como um poema a Virgílio?

Trezentos mil eruditos,
Bem debruados de ateus,
Pondo esforços inauditos,
Não deitam abaixo Deus!

*

O lavrador crê e espera!
Hoje o sol ao mergulhar,
Levava enturvada a esfera,
E ao largo bradava o mar!

Morto o vento, de repente!
Tejo dentro, a calmaria!
Uma barra no ponente,
E, do nascente, a lestia!

Já retoiçaram na areia
Os maçaricos da praia.
Trouxe um circo a lua cheia:
Não tarda que a chuva caia!

Novembro de 1890

Inverno

Rondou o vento ao Sul, e é ríspida a lufada!
Temos, não há que ver, a invernia pegada!

Se nos fins do Verão caíram as brandiras,
Nem meia enxada d’água entrou nas terras duras.

Aqui há chão barroso, e chão tão apertado,
Que, sem água a fartar, não vai nem a machado!

Em baixo, ao rés da Costa, às folhas salgadias,
Qualquer chuva lhes basta, — e mau, se a s ventanias
Começam de puxar, que as vagas altaneiras
Alagam, no junção, vinhas e sementeiras!

Nas cepas, isso então — e mais depois das cavas —
É praga que lhes dá, o sal das ondas bravas!

Bem raro o lavrador tem dias sem cuidados;
No monte o tempo é um, outro nos descampados.
Só lhe leva a melhor, no rude labutar,
O marinheiro audaz, nas solidões do mar!

Mas no campo, contudo, há dias prazenteiros:
Agora o céu nublado, e os fortes aguaceiros,
São para o agricultor como manhã de rosas!

Venham chuvas ainda, e venham mais copiosas.
Por todo esse Alentejo, aos novos chaparrais,
Águas a desabar, são rara vez de mais!

Pode a cheia inundar os prados da lezíra;
Índa que venha a flux, por enquanto, não tira;

Com que respeite o gado, e deixe bom nateiro,
Não é nunca fatal antes de entrar Janeiro!

Cogitando em tudo isto, o lavrador, agora,
Alegre esfrega as mãos — e caia chuva, embora!

Porém o cavador, que vive só a enxada,
Como se há de amanhar, faltando-lhe a soldada?

Na casa do ganhão é que a invernia é séria!…
Uns dias sem trabalho… e basta! Entra a miséria!

Na cidade, no campo, enfim, seja onde for,
Para os pobres, a vida é quase sempre a dor!

Vamos a espairecer! Saltou o vento ao norte;
É lâmina da serra, e do mais fino corte!

Lá vem abrindo o sol! Toda a amplidão domina!
Só do vale o saúda o incenso da neblina!

Que animação no campo! A rápida caudal
Serpeia, pela encosta, em cobras de cristal!

No mimoso da várzea, e nas viçosas faldas,
Abrem floritas d’ouro, em chão que é d’esmeraldas!

Os cavalos beirões, de guizos chocalheiros,
Vêm de Sesimbra à venda; atrás os recoveiros.

Tiram o arado os bois. Nos altos e chapadas,
Desbravando o torrão, fuzilam as enxadas!

O passaredo alegre a revoar em bando;
Ao rés da choupanita as crianças brincando;
A mãe, sempre a lidar, ao sol corando as roupas,
Batidas ao sopé das desfolhadas choupas!

O carro gémeos chega dos estevais,
Carregado de tojo e ramas de pinhais.

As vacas no relvão, cabrilhas pelas fragas,
E toda azul ferrete, ao longe, a flor das vagas!

No escuro d’esta lua, a caça entra de certo.
Já saltou galinhola! O mato fica perto.

Deixai que alteie o sol, senão, com a geada,
Vão-se as ventas dos cães, e não fazemos nada!

Anos, e labutar, e lagrimas!… embora!
Auras da juventude, aspiro-vos agora!
Parece que, rompendo o sol na imensidade,
Rompe dentro de mim o sol da mocidade!

*

Na jardia e no souto, a entrada não foi grande;
Nem um pombo trocaz a procurar a glande!

Porém não falta ensejo,— até à Conceição,
Para entrada real, é próspera a sazão!

Agora palestrar, em volta da lareira,
Ao grato crepitar dos tors da azinheira!

Aperta, lá por fora, o límpido nordeste;
Caça de arribação gosta do tempo agreste.

Com sessenta e mais quatro, e quatro bem contados,
Inda rompo com alma os matagais fechados!

Quero que encham ver amanhã, praguentos,
Como bate o montado, a minha Tullia, a ventos!

Novembro de 1895

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Rostos do século XVI por Lucas Cranach o Velho (1472-1553)

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Mestre singular, Lucas Cranach o Velho (1472-1553), transporta-nos, com a sua pintura, a um mundo social peculiar para o homem do século XXI. Nos gestos, feições e adereços dos retratados surge-nos uma humanidade que estranhamos possa ter existido. Deixo-vos com alguns desses personagens.

Depois desta colecção de beldades chega a vez dos homens. Haverá leitoras do blog capazes de se apaixonar por algum deles? Se tal acontecer, façam-mo saber, por favor!

E que me dizeis do imperador Carlos V, dono do mundo enquanto viveu?

Diz o ditado e é provavelmente verdade: cada ovelha encontra a sua parelha, e os casais que vêem a seguir só podem ter sido felizes.

Encerro esta viagem com os retratos dos Duques da Saxónia em 1514. O duque, garboso moço no seu fato listrado com boina, de fazer inveja à mais delirante moda dos nossos dias, e a duquesa uma santa senhora, certamente, a julgar pelo olhar que nos envia. O conjunto acompanhado por cães a condizer!

Sem mais comentários!

A prostituição na poesia (5) – Niquita de Flandres, meretriz egrégia: poema de António Beccadelli, o Panormita (1394-1471)

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A mais antiga profissão do mundo tem sido assunto poético, de que o século XIX deixou numerosos exemplos, muitos deles de um moralismo repelente. As referências poéticas mais antigas à prostituição feminina são raras.
Este poema de António Beccadelli (1394-1471) dito o Panormita por ter nascido em Palermo na Sicília, conta-nos, pela vós da protagonista, do orgulho de uma profissão onde os juízos morais estão ausentes: apenas a ênfase no gosto de sexo por dinheiro se nota. Leia-se então este Epitáfio de Niquita de Flandres, meretriz egrégia

Se te demoras lendo estes gravados versos,
conhecerás a croia que é sepulta aqui.
Da pátria em que nasci, por vãs promessas falsas,
raptada fui, donzela, em tenra idade, um dia.
A Flandres me gerou, andei o mundo inteiro
até estabelecer-me nesta Siena plácida.
Meu nome, e conhecido, era Niquita. Fui
a estrela do bordel, entre as demais primeira.
Fui bela e fui graciosa, e perfumada, e tinha
mais alvo do que a neve o deslumbrante corpo.
Taís nenhuma em Siena melhor que eu movia
em sábios movimentos as vibrantes ancas.
Os homens minha língua em beijos exauria
dados ainda depois de consumado o gozo.
Coberto era o meu leito de uma colcha vasta,
e a minha mão aos nervos percutia branda.
Para lavar-me tinha uma bacia sempre,
e os flancos me lambia cadelinha mansa.
Uma noite, assaltou-me um bando de rapazes,
que me teve cem vezes, sem me saciarem.
Fui doce e amena, e a muitos minha arte era grata.
Mas mais doce me foi o quanto me pagavam.

Tradução de Jorge de Sena.

Entre os grandes mestres da pintura ocidental antiga, foi o nosso já conhecido Lucas Cranach o Velho (1472-1553), quem deixou algumas pinturas figurando a prostituição. Uma abre o artigo, com outras o fecho.

Termino com o que é um caso raro na pintura ocidental, a figuração provável da prostituição maculina.

As Mulheres – versão de Gabriele D’Annunzio

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Depois de tão longa ausência, regresso com As Mulheres, fonte de tanta da nossa alegria, contadas pela poesia de Gabriele D’Annunzio (1863-1938).

Serenas, alumiadas, tão frágeis, outras reacendendo-se de amor até à medula, de todas nos fala o poema, E maravilhosamente / eu as conheci.
(ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura) diz-se no poema com que esta evocação inominada termina.

As Mulheres

Houve mulheres serenas,
de olhos claros, infinitas
no seu silêncio,
como largas planícies
onde um rio ondeia;
houve mulheres alumiadas
de ouro, émulas do Estio
e do incêndio,
semelhantes a searas
luxuriantes
que a foice não tocou
nem o fogo devora,
sequer o dos astros sob um céu
inclemente;
houve mulheres tão frágeis
que uma só palavra
as tornava escravas,
como no bojo de uma taça
emborcada
se aprisiona uma abelha;
outras houve, de mãos incolores,
que todo o excesso extinguiam
sem rumor;
outras, de mãos subtis
e ágeis, cujo lento
passatempo
era o de insinuar-se entre as veias,
dividindo-as em fios de meada
e tingindo-as de azul marinho;
outras, pálidas, cansadas,
devastadas pelos beijos,
mas reacendendo-se de amor
até à medula,
com o rosto em chamas
entre os cabelos oculto,
as narinas como
asas inquietas,
os lábios como
palavras de festa,
as pálpebras como
violetas.
E houve outras ainda.
E maravilhosamente
eu as conheci.

Depois desta evocação passemos à memória de um especial encontro relatado nesta primeira elegia romana:

[Da Primeira Elegia Romana]

Quando (ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura)
meio ébrio saí de sua casa amada,

através de ruas efervescentes dos últimos labores do dia,
de rumores, carruagens, roucos gritos,

súbito senti, do fundo peito, toda a alma elevar-se,
cupidamente, e no alto vi, sobre os estreitos muros,

romper a ígnea zona por onde o crepúsculo do Outono,
céu húmido e vastas nuvens, incendiava Roma.

Nem da hora nem dos lugares me sentia consciente. Seria
um sonho falaz a possuir-me? Ou todas minhas cônscias

alegrias eram coisas a produzir em torno um insólito lume?
Não o sabia. Mas todas as coisas produziam lume.

Imóveis, ardiam as nuvens, e, qual sangue de monstros
assassinados, de seus flancos rompam rubros rios.

Abre o artigo com uma reprodução de O nascimento de Vénus de Sandro Botticelli (1445-1510), êxtase primeiro de uma remota visita em 1978 à Galeria Uffizi em Florença.

A pretexto, ou provocado por ela, escreveu Jorge de Sena os Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena publicados a fechar o livro Metamorfoses (Lisboa, 1963) e que convido o leitor a procurar.

Termino o artigo com 2 detalhes desta deslumbrante pintura:

Primeiro a personificação de Vénus (ou Afrodite para os Gregos), a deusa do amor,

depois o par  Zéfiro e Aura soprando a suave brisa que empurra para terra a deusa e a faz reinar entre os homens.

Noticia bibliográfica

Os poemas de Gabriele D’Annunzio (1863-1938) são traduções de David Mourão-Ferreira, publicados no volume III de Vozes da Poesia Europeia, Colóquio Letras nº165.

Sobre a vida e a obra de Sandro Botticelli, continua sem rival o estudo de Ronald Lightbown, publicado pela primeira vez em 1978 e sucessivamente reeditado, possuindo algumas das edições luxuoso complemento fotográfico.

Este Nascimento de Vénus possui 172,5 x 278,5 cm e terá sido pintado entre 1484-86.

 

Dois poemas de Jaime Gil de Biedma

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Gosto da poesia de Jaime Gil de Biedma (1929-1990), naquele casamento entre a preocupação social e a reflexão intimista, onde o erotismo tantas vezes transborda.
Já aqui deixei do poeta, o ano passado, Pandémica e Celeste. Era Verão, as memórias assaltavam-me, e a poesia surgiu como lenitivo. Hoje não é exactamente o caso, ainda que seja Verão.
Com a economia a dominar-nos a atenção, pensei trazer-vos do poeta Apologia e Petição, poema sobre fatalidade e mau governo, dando conta das tragédias de países e povos. Serve o poema para Espanha, hoje, mas também para nós, basta ler onde está Espanha, Portugal. Mas resolvi de outro modo. No mesmo livro, Moralidades, onde este Apologia e Petição se encontra, existem entre outros, dois poemas onde o efémero do amor e a sua nostalgia se dão a ler. E foram esses que acabei por decidir transcrever.

São poemas em que a passagem do tempo sobre o amor se reflecte. Primeiro na constância, em Manhã de ontem, de hoje:

Eu penso
em como passou o tempo,
e recordo-te assim.

depois, na nostalgia do quase amor se um encontro fugaz, em Paris, postal do céu:

Era nos bons tempos da minha juventude,

e da formosa história
de quase amor.

Afinal, amor que deixou marcas:

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,

É provável que aquela canção / desses dias fosse Les feuilles mortes, noutro poema do livro explicitamente evocada: Elegia e recordação da canção francesa, e de que aqui no blog existe a versão de Juliette Greco . De Brassens, cujas canções são referidas em Paris, postal do céu, poderá o leitor encontrar uma canção – Le Blason – aqui no blog. Mas é tempo de passar aos poemas na integra.

Manhã de ontem, de hoje

É a chuva sobre o mar.
E à janela aberta,
contemplando-a descansas
a fronte na vidraça.

Imagens de uns segundos,
quieto no contraluz,
claro, teu corpo fulge,
inda pla noite nu.

E voltas-te para mim,
a sorrir-me. Eu penso
em como passou o tempo,
e recordo-te assim.

Paris, postal do céu

Agora, vou contar-vos
como também estive em Paris, e fui ditoso.

Era nos bons tempos da minha juventude,
nos anos de abundância
do coração, quando deixar para trás os pais e a pátria
é sentir-se mais livre para sempre, e fui
no Verão, naquele Verão
da greve e das primeiras canções de Brassens,
e da formosa história
de quase amor.

Ainda vive na minha memória aquela noite,
recém-chegado. Contemplo ainda,
sob a Pont Saint Michel, pela mão, em silêncio,
a grande lua de Agosto suspensa entre as torres
de Notre Dame, e azul
de um impossível o rio tantas vezes sonhado
It’s too romantic, como tu me disseste
ao afastar os lábios.

Em que sítio perdido
do teu país, em que recanto da América do Norte
e no quarto de quem, às horas mais soturnas,
quando sonhes morrer não importa em que braços,
e chegará, tal como
agora a mim me chega, esse calor de gentes
e a luz daquele céu tão rumoroso
tranquilo, sobre o Sena?

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,
a confundir os dias e suas noites,
os momentos felizes,
as censuras

e aquela viagem — a caminho da cama —
num vagão do Metro Étoile-Nation.

O livro Moralidades foi publicado no México em 1966, só tendo surgido em Espanha, ao que julgo, 1985 por dificuldades com a censura franquista.
As traduções são de José Bento e podem encontrar-se em Antologia Poética, 2ª edição revista e aumentada publicada por Edições Cotovia, Lisboa em 2003

Louvada seja – a Grécia de Odysséas Elytis

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Dizia há tempo alguém na televisão que desde a antiguidade clássica muita gente dormiu sobre a Grécia, e geneticamente os gregos hoje são diferentes dos gregos da antiguidade. Certamente. Mas há uma impregnação na pele em quem nasceu nos lugares repletos de historia que não se explica. Sinto-o quando na minha Tavira natal me perco nas ruelas medievais do morro de Santa Maria, ocupado em continuidade desde os Fenícios do tempo da Grécia arcaica, seguidamente por romanos, depois árabes vindos do Magrebe, judeus, e finalmente os cristãos medievais. Desta amálgama descende toda a população que por lá tem vivido.

A atmosfera do lugar, quando transmite um sentimento de pertença, constitui uma raiz sob a pele onde cada um se agarra. Não tenho dúvidas que o mesmo acontece com gregos hoje, nascidos na Grécia, em que essa ligação se fará sentir.

Agora que o mundo da economia se encontra suspenso das escolhas políticas dos gregos, trago ao blog um fragmento poético de Odysséas Elytis (1911-1995), poeta nacional grego do século XX, retirado do poema Áxion Estí (Louvada Seja).
Poema de recriação de uma tradição ancestral, recusa o metro convencional e desenvolve-se como uma escrita moderna falando do mundo que é o seu e de todos nós. O poema valeu ao autor a gloria nacional e o Prémio Nobel.
Escolho um fragmento entre tantos desejado, onde um eco especial de Trabalhos e Dias de Hesíodo se ouve, e com ele talvez convença algum leitor a procurar o poema na sua totalidade.

Mas antes de ouvir vento ou música
ao pôr-me a caminho para o ar livre

(eu subia uma areia vermelha sem fim
com o calcanhar apagando a História)

lutava com os lençóis Aquilo que procurava era
inocente e trémulo como a vinha
e fundo e sem marcas como a outra face do céu

Uma pouca de alma dentro da argila

Então falou e fez-se o mar
E eu vi e maravilhei-me

E nele semeou pequenos mundos à minha imagem e semelhança

Cavalos de pedra de crina erecta
e sossegadas ânforas
e colunas de golfinhos oblíquas

Íos Sikinos Séfiros Mílos

“Cada palavra com sua andorinha
para te trazer a Primavera no Verão” disse
E muitas oliveiras

pra que peneirem com as mãos a luz
e esta leve se derrame sobre o teu sono

e muitas as cigarras

para que não as sintas
tal como não sentes o pulso no teu punho

mas pouca água

para que a tenhas por divina e entendas o que significa a sua fala

e a árvore só consigo

sem rebanho
para que a faças amiga
e conheças o seu verdadeiro nome

rala sob os teus pés a terra

para que não tenhas onde alargar raízes
e não pares de buscar um pouco de fundo

e vasto por cima o céu

para que por ti sózinho leias a infinidade

ESTE
o mundo, o pequeno, o grande!

Noticia bibliográfica

O poema LOUVADA SEJA (ÁXION ESTÍ) foi publicado em tradução e posfácio de Manuel Resende, por Assírio & Alvim em 2004, de onde retirei o fragmento transcrito.

Nota final

Enquanto escrevia este texto ouvia em fundo o Concerto de Atenas de Charles Lloyd e Maria Farantouri, gravado ao vivo em Junho de 2010 e editado em cd por ECM.
Leitor curioso que tenha possibilidade, não deixe de ouvir deste concerto, no cd1, o Hino à Santíssima Trindade, peça do século III, bizantina e de ancestrais raízes helénicas, cantada na voz misteriosa de Maria Farantouri, a que o saxofone de Charles Lloyd acrescenta uma atmosfera de sonho e encanto. Ainda que todo o concerto seja uma pérola única e valha cada minuto da sua audição, esta peça é especial.

 

O poeta salvo pelo amor – 6 sonetos de Bocage

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De Bocage, contemporâneo de Goethe de quem deixei antes o livro do amor, chegam hoje alguns sonetos escritos na graça peculiar da poesia arcádica, dando conta dos transtornos da paixão.
Sonetos onde a música do verso e a exemplaridade da construção estrófica se sobrepõem à estranheza para os nosso ouvidos do século XXI, desta particular forma de dizer.

De suspirar em vão já fatigado, o poeta sonha que a morte o visita. Mas não será aí o fim do poeta.

Ao ver a morte erguer Curva foice no punho descarnado, enquanto lhe dizia:

Eu venho terminar tua agonia: / Morre, não penes mais, ó desgraçado.

surge o deus Amor, e imperioso ordena à Morte:

Emprega noutro objecto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vitima só de meus furores.

Para aqui chegarmos, vamos primeiro acompanhar o poeta na descoberta do amor,

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

e no desejo da sua consumação:

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

(e já noutro dia, com o poema de Parny, vimos o que nesta poesia do século XVIII significa Destas copadas árvores o abrigo.)

Enquanto espera, consome-se nas ânsias loucas da paixão:

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.

Leremos do sofrimento sem esperança a que o amor conduz, fazendo o sofredor apenas desejar a morte:

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

para que no final, salvo dela pelo deus Amor, possamos participar da ansiedade com que aguarda a consumação sexual da sua paixão.

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz: longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei-de, enfim, possuir; porém segredo.

Durante a espera pede segredo aos ventos, Zéfiros, para que não levem a Júpiter o eco dos frouxos ais, brandos queixumes ouvidos durante o sexo, pois Júpiter, com a sua reputação de come tudo, irá querer reservar para si o banquete do amor de Nise:

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Nao leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o Pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

Nos sonetos temos Marília, Nise, Jónia, nomes convencionais para uma mesma ou varias paixões. É irrelevante. São poesias desligadas de destinatário, onde apenas a forma de dar corpo ao sentimento conta. E esse, no século XVIII como agora, é o mesmo. Tal como é a mesma, a forma de o viver. Apenas como o exprimimos mudou.

Vamos então aos poemas que já é tempo.

I

Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu Fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!

Ó ledos olhos, cuja luz parece
Ténue raio do Sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vénus? É mentira:
Sois de Marília, sois dos meus Amores.

II

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores,
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares o subtil Nordeste,
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!

III

Enquanto o Sábio arreiga o pensamento
Nos fenómenos teus, ó Natureza,
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil geométrico instrumento;

Enquanto alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar, e o movimento;

Enquanto o Sábio, enfim, mas sabiamente
Se remonta nas asas do sentido
À corte do Senhor omnipotente;

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.

IV

Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a Noite escura e feia:
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

V

De suspirar em vão já fatigado,
Dando tréguas a meus males, eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido e mirrado.

Curva foice no punho descarnado
Sustentava a cruel e me dizia:
“Eu venho terminar tua agonia:
Morre, não penes mais, ó desgraçado.”

Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,
Que armado de cruentos passadores
Aparece, e lhe diz com voz irada:

“Emprega noutro objecto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vitima só de meus furores.”

VI

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz: longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei-de, enfim, possuir; porém segredo.

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Nao leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o Pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

Urban Views – fotografias

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Tão longo silêncio no blog deveu-se à preparação do livro de fotografias URBAN VIEWS que acabei de publicar em versão iBook para iPad e iPhone e em impressão a pedido em grande formato de 30×30 cm através do site bulrb.com.

Deixo o link para os leitores que tiverem curiosidade de o folhear.

LINK para URBAN VIEWS

Por algum tempo o livro ficará disponível para visualização integral no site do editor.

O humano olhar de Henri Cartier-Bresson

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Olhar cada fotografia de Henri Cartier-Bresson (1908-2004) devolve-me de forma quase pungente, a irremediável passagem do tempo. Vi-as jovem adulto na excitação surpresa da descoberta de uma linguagem fotográfica desconhecida. Vejo-as de novo e meço a distância a que aqueles mundos fotografados estão do hoje; ou não!
No cerca de meio século que durou o seu fotografar, a partir do inicio dos anos 30 do século XX, pelo mundo houve guerras, houve paz, houve miséria e abundância, e existiram sobretudo sonhos, hoje desfeitos e entalados numa espécie de eterno retorno do animal que há em nós.
São frágeis as aquisições culturais, ainda que o homem só o seja no quadro de uma cultura que lhe dê o sentido do viver com os outros. E é esta aproximação ao sentido de viver com os outros que encontro nas fotografias de Henri Cartier-Bresson.
Nunca é o anedótico que fala. Sendo todas e cada uma das suas fotos conhecidas, instantâneos peculiares onde a surpresa ao olhar se conserva, mesmo depois de observadas dezenas de vezes, é nesse tempo suspenso cada vez mais longe de nós que a reflexão se detém. Outros terão falado da composição plástica de cada imagem, do equilíbrio dos volumes no rectângulo fotografado, na forma como o jogo de sombras no quadro urbano contribui para a atmosfera da cena, e tudo isso é verdade, e uma lição permanentemente disponível para quem fotografa. Mas o que faz delas as obras-primas para lá da técnica, é o olhar sobre o humano. A gente que nelas nos surge, dos duques de Windsor ao deserdado do mundo, fazendo de todos semelhantes entre si, na exposição de um olhar, de uma atitude, de um estar que é afinal uma forma de ser. E ao vê-las instala-se em nós a sensação de que passámos a conhecer aquelas pessoas. São sempre pessoas, nunca são gente.
Deixo-vos com uma curta escolha.

Do banho como fonte de pecado: Leandro de Sevilha (537-600)

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Escreveu o Bispo Leandro de Sevilha (537-600) o livro “A instrução das virgens” para oferecer a sua irmã Florentina quando esta entrou como monja para um convento.

Vasto acervo de ensinamentos a transmitir por um homem conhecedor do mundo a uma jovem mulher prestes a ser entregue à contemplação do Todo-poderoso, nele respigo um aspecto que hoje talvez passe desapercebido, mas foi matéria de controvérsia por séculos: o banho ou antes, o prazer do próprio corpo decorrente da caricia do banho. São estas, considerações sobre o banho privado, e para sentirem como o bispo tinha provavelmente razão, o artigo vai ilustrado com 2 pinturas da Escola de Fontainebleau de entre o final do século XV e principio do século XVI, quando estas coisas já podiam se pintadas para gáudio e contemplação real.

Vamos então às considerações bispais:

Não te hás-de banhar por gosto ou para dar formosura ao corpo, senão apenas como remédio para a saúde. Quer dizer, usarás o banho quando a doença o exija, não quando o prazer o apeteça. Se o tomas quando não seja preciso, pecarás, pois está escrito: Não ponhais a vossa solicitude na concupiscência da carne.

A solicitude carnal que provém da concupiscência conceptua-se como vicio; não, por outro lado, os cuidados necessários para restabelecer a saúde. Por tal motivo, que não te arraste a banhar-te com frequência o prazer corporal, senão somente as exigências da enfermidade, e estarás livre de culpa se unicamente actuares por imperativo da necessidade.

(solicitude é aqui empregue no sentido de “afã ou diligencia em tratar ou conseguir algum fim”, de acordo com o Dicionário De Morais)

Sabeis agora, vós, leitor, que não te arraste a banhar-te com frequência o prazer corporal, e provavelmente é o que acontece com alguns nossos contemporâneos a ajuizar pela atmosfera em hora de ponta no metro ou em certas carreiras de autocarros.

No entanto, os conselhos do bispo não devem ter tido generalizada aplicação, ainda que o espectro do pecado lá estivesse, e o prazer do banho terá continuado a desfrutar-se, falam-nos dele as pinturas aqui mostradas.

Para final de conversa deixo o leitor com a contemplação do visível prazer do banho captado por Cartier-Bresson algures nos anos 30 ou 40.