Anacreôntica XXXIII em versão de António Feliciano de Castilho

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Everdingen_Caesar_van-Nymphs_Offering_the_Young_Bacchus_Wine_Fruit_and_FlowersConhecem-se como Anacreônticas um conjunto de 60 poesias em grego, escritas ao tempo do Império Romano, em época tardia, em imitação dos temas e efeitos estilísticos do poeta grego Anacreonte (séc. VI a.C.). Durante séculos estes poemas foram atribuídos a Anacreonte.

Segundo os estudiosos da obra, e a julgar pelas características estilísticas, métricas e prosódicas dos poemas, estes terão sido escritos entre os séculos II e IV d.C.

As Anacreônticas têm sido, provavelmente, o texto grego de maior êxito logo após os poemas épicos de Homero, pois as edições sucederam-se de forma continuada nas línguas europeias, desde a sua primeira publicação moderna em 1554.

Não assim em Portugal. Tenho noticia de uma versão de Francisco da Silveira Malhão (1757-1809), As Odes de Anacreonte Parafraseadas, publicada em 1804, o qual, desconhecedor do grego, escreveu agradáveis versos a partir da versão francesa que conheceria; e a tradução a partir do grego, também por via da versão francesa, de António Feliciano de Castilho (1800-75), A Lyrica de Anacreonte.

Trago ao blog noticia desta deliciosa colecção com o poema XXXIII em tradução de Castilho, onde uma discreta malícia espreita, contada num fluir de saborosa leveza.

A noite passada

à hora em que a Ursa,

mais perto discursa

da mão do Boieiro,

e o sono profundo

no grémio fagueiro

por todo esse mundo

restaura os mortais,

em meio era a noite;

o exemplo dos mais

no leito eu seguia;

sereno dormia…

À porta imprevisto

Cupido me bate!

À pressa me visto;

redobra o rebate;

acudo a correr.

“Sou eu — diz de fora —

não tens que temer;

sou um pequenino

que vaga, a tal hora,

molhado e sem tino,

perdido no escuro,

pois lua não há!”

Ouvi-lo gemendo

de mágoa me corta;

a lâmpada acendo,

franqueio-lhe a porta…

em casa me está!

Descubro (em verdade

mentido não tinha)

gentil criancinha

com arco e carcaz.

Remexo nas brasas

da minha lareira;

restauro a fogueira;

as mãos, que são gelo,

lhe aqueço nas minhas,

lhe espremo o cabelo,

lhe enxugo as azinhas;

já frio não faz.

— “Vejamos se a chuva

(dizia e sorria)

a corda do arco

me não danaria!”

Levanta-o do chão;

recurva-o, dispara

no meu coração.

A frecha que o vara

parece um tavão.

Eu, dores danadas,

e o doudo às risadas

de gosto a pular!

— “Meu caro hospedeiro,

(me diz prazenteiro)

agora é folgar.

Permite me ausente;

meu arco está são…

Quem fica doente

é teu coração!”

Termino com uma das paráfrases de Francisco da Silveira Malhão.

As moças louçãs me dizem:

—”Anacreonte estás velho,

vê as cãs, consulta as rugas,

perante um fiel espelho.”

Que vale que esteja calvo

ou tenha a fronte rugosa,

s’inda sinto as mesmas forças

duma idade vigorosa!

Por isso mesmo, que perto

vejo o prazo à minha vida,

e sempre a levei contente,

tenha o seu fim divertida.

Noticia bibliográfica

António Feliciano de Castilho traduziu as Anacreônticas como se de obras de Anacreonte se tratassem, e como durante séculos foi convicção aceite. Hoje está definitivamente estabelecido que se trata de um conjunto de poemas escritos sete ou oito séculos mais tarde, tomando o prestigio da obra do poeta como modelo.

Não existindo em português, de meu conhecimento, uma edição actual anotada, remeto o leitor curioso de considerações eruditas e da versão grega hoje aceite, para uma tradução directa grego/castelhano, com notas abundantes sobre as opções de tradução: Anacreônticas, edição de Luís Arturo Guichard, Ediciones Cátedra, Madrid, 2012. Nesta edição os poemas aqui transcrito trazem respectivamente os números XXXIII e VII. Na tradução de António Feliciano de Castilho, A Lyrica de Anacreonte, Paris, 1886, o poema é o nº3. Na versão de Francisco da Silveira Malhão, As Odes de Anacreonte de Teos parafraseadas, o poema é a Ode XI.

Dos sessenta poemas que compõem actualmente a colecção, Castilho traduziu 53, Malhão 55.

Em ambos os poemas modernizei a ortografia e uniformizei a pontuação.

Com mulher nas 4 estacões – anúncio de jornal e três poemas de Vinicius de Moraes

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c842b.jpg (JPEG Image, 477x738 pixels)A presença de uma mulher na nossa vida adulta é para qualquer homem uma exigência e um desafio. Estou a lembrar-me da canção de Vinicius de Moraes, Mulher, sempre mulher, aqui cantada por Toquinho.

Mulher, sempre mulher

Mulher, ai, ai, mulher

Sempre mulher

Dê no que der

Você me abraça, me beija, me xinga

Me bota mandinga

Depois faz a briga

Só pra ver quebrar

Mulher, seja leal

Você bota muita banca

Infelizmente eu não sou jornal

 

Mulher, martírio meu

O nosso amor

Deu no que deu

E sendo assim, não insista

Desista, vá fazendo a pista

Chore um bocadinho

E se esqueça de mim

E se conservá-las é uma arte, a procura reveste as formas mais variadas.

Enviou-me mão amiga um anúncio de homem procurando namorada, publicado num jornal de Ceará no Brasil. O extraordinário da prosa faz com que o transcreva na forma em que me chegou.

Homem descasado de 40 anos, que só gosta de mulher, após casamento de sete anos, mal sucedido afetivamente, vem através deste anúncio, procurar mulher que só goste de homem, para compromisso duradouro, desde que esta preencha certos requisitos:

O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE tenha idade entre 28 e 40 anos, não descartando, evidentemente, aquelas de idade abaixo do limite inferior, descartando as acima do limite superior.

Devem ter um grau razoável de escolaridade, para que não digam, na frente de estranhos: ‘menas vezes’, ‘quando eu si casar’, ‘pobrema no úter’, ‘eu já si operei de apênis’, ‘é de grátis’, ‘vamo de a pé’, ‘adoro tar com você’ e outras pérolas gramaticais.

Os olhos podem ter qualquer cor, desde que sejam da mesma e olhem para uma só direção.

Os dentes, além de extremamente brancos, todos os 32, devem permanecer na boca ao deitar e nunca dormirem mergulhados num copo d’água.

 Os seios devem ser firmes, do tamanho de um mamão papaia, cujos mamilos olhem sempre para o céu, quando muito para o purgatório, nunca para o inferno. Devem ter consistência tal que não escapem pelos dedos, como massa de pão.

 Por motivos óbvios, a boca e os lábios, devem ter consistência macia, não confundir com beiço.

A barriga, se existir, muito pequena e discreta, e não um ponto de referência.

 O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE seja sexualmente normal, isto é, tenha orgasmos, se múltiplos melhor, mas mesmo que eventuais, quando acontecerem, que ela gema um pouco ou pisque os olhos, para que ele sinta-se sexualmente interessante.

 Independentemente da experiência sexual do PRETENDIDO, este exige que durante o ato sexual a PRETENDENTE não boceje, não ria, não fique vendo as horas no rádio relógio, não durma ou cochile.

O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE não tenha feito nenhuma sessão de análise, o que poderia camuflar, por algum tempo, uma eventual esquizofrenia.

A PRETENDENTE deverá ter um carro que ande, nem que seja uma Brasília, ou que tenha dinheiro para o táxi, uma vez que pela própria idade do PRETENDIDO, ele não tem mais paciência para levar namorada de madrugada para casa.

Enviar cartas com foto recente, de corpo inteiro, frente e costas, da PRETENDENTE, para a redação deste jornal, para o codinome:

‘CACHORRO MORDIDO DE COBRA TEM MEDO ATÉ DE BARBANTE’.

Há nesta prosa uma sinceridade reveladora do homem no que à mulher exige para o servir, que dificilmente alguém conseguiria inventar. Estamos, neste anúncio, num mundo de títeres. A dignidade que se exige a cada um para ser parte da humanidade anda longe daqui.

É outro o universo onde a humanidade que se respeita vive. E é do Brasil que nos vem, de novo, pela inspiração de Vinicius de Moraes a acertada forma de perguntar a uma mulher — Você quer ser minha namorada?

Oiçamo-la na voz de Maria Bethânia, numa versão que não inclui a primeira estrofe do poema.

Você quer ser minha namorada?

Meu poeta eu hoje estou contente

Todo mundo de repente ficou lindo

Ficou lindo de morrer

Eu hoje estou me rindo

Nem eu mesma sei de que

Porque eu recebi

Uma cartinhazinha de você

Se você quer ser minha namorada

Ai que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer

Um juramento

De só ter um pensamento

Ser só minha até morrer

E também de não perder esse jeitinho

De falar devagarinho

Essas histórias de você

E de repente me fazer muito carinho

E chorar bem de mansinho

Sem ninguém saber porquê

E se mais do que minha namorada

Você quer ser minha amada

Minha amada, mas amada pra valer

Aquela amada pelo amor predestinada

Sem a qual a vida é nada

Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo

Em meu caminho

E talvez o meu caminho

Seja triste pra você

Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos

E os seus braços o meu ninho

No silêncio de depois

E você tem que ser a estrela derradeira

Minha amiga e companheira

No infinito de nós dois

Música de Carlos Lyra

Termino com os conselhos do sábio poeta sobre como viver um grande amor

Para Viver Um Grande Amor dito por Vinicius de Moraes

Para Viver Um Grande Amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é p’ra quem quer… — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro, e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for.

Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor direito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador.

É sempre necessário ter em vista um crédito de rosas no florista, muito mais, muito mais que na modista! — para viver um grande amor.

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, filets com fitas — comidinhas para depois do amor.

E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor.

É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor.

Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — não ser um ganhador.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a grande amada para viver um grande amor.

Transcrevi a versão lide pelo poeta nesta gravação. Existem outras versões do poema publicadas em livro.

Matsuo Bashö pelas 4 estações — 5 Haiku na Primavera

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Okada_Kenzo-Untitled 1950 Primavera*

Chuva de flores de ameixeira

Um corvo procura em vão

o seu ninho

 **

A uma papoila

deixa as asas a borboleta

Como recordação

 ***

Lua cheia:

para repousar os olhos

uma nuvem de tempos a tempos

 ****

Flores queimadas pela geada

Os grãos caídos

semeiam a tristeza

 *****

Depressa se vai a primavera

Choram os pássaros e há lágrimas

nos olhos dos peixes

 Versões de Jorge Sousa Braga.

 Transcritos de Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2003.

 Acompanha esta poesia uma imagem da pintura de Kenzo Okada (1902-1982).

 Pesquisando no blog por Haiku, encontrará o leitor curioso outros poemas e também considerações sobre a técnica do Haiku

Matsuo Bashô pelas 4 estações — 7 Haiku no Inverno

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Okada_Kenzo-Footsteps 1954 Inverno*

Primeiro aguaceiro de inverno

Meu nome será

vagabundo

 **

Intempérie—

infiltra-se o vento

até na minha alma

 ***

A água é tão fria

como pode a gaivota

adormecer?

 ****

As mãos no lume

…e na parede

a sombra do meu amigo

 *****

Vaivém de fim de ano —

ah este pescador imóvel

que sonha

 ******

Oh anda ver

Uma bola de neve

a arder

 *******

Separados pelas nuvens

dois patos selvagens

dizem-se adeus

 Versões de Jorge Sousa Braga.

 Transcritos de Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2003.

 Acompanha esta poesia uma imagem da pintura de Kenzo Okada (1902-1982).

 Pesquisando no blog por Haiku, encontrará o leitor curioso outros poemas e também considerações sobre a técnica do Haiku.

Modigliani — os nus de 1917

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1917 A sonhadoraA única exposição que Amedeo Modigliani (1884-1920) teve oportunidade de fazer em vida quase não se concretizou e foi objecto de enorme escândalo.

A galeria onde a exposição iria acontecer situava-se no centro de Paris, na vizinhança da Opera, numa rua com esquadra de policia em frente. Era Dezembro de 1917. A exposição tinha desenhos e pintura de nus femininos. Para chamar a atenção do público, a galerista colocou em destaque na montra, no dia da inauguração, uma das pinturas de nu à venda. Não tardou a juntar-se gente frente à montra e o burburinho cresceu, instalando-se grande indignação entre os transeuntes. Foi tal o alarme que o chefe da esquadra de policia vizinha mandou chamar a galerista e comunicou-lhe:

— Dei ordens para retirar aquela porcaria toda!

— Porquê? perguntou-lhe a galerista. Há quem seja mais abalizado que o senhor para opinar e não tenha a sua opinião.

Respondeu o policia apoplético e quase sufocado:

— Aque.. aque… aquelas mulheres têm pelos púbicos!

Este relato fê-lo mais tarde a galerista. Mas o que segue é que a exposição terminou quase sem ter começado.

1917 Nu reclinado com cabelo soltoNão sendo a primeira vez que eram pintadas mulheres nuas com pelos púbicos: já existia a famosa pintura “A origem do mundo” de Courbet, mas em colecção particular; era a primeira vez que se exibiam ao olhar público.

Se os leitores virem as pinturas de nu que ao longo do tempo tenho deixado no blog, e tantas outras espalhadas por colecções públicas pelo mundo, vêm quão difícil é encontrar, mesmo no século XX, nus femininos sem o púbis rapado. E tal não é por questões de conforto ou higiene, mas por devolver à pintura uma dimensão erótica que no asséptico do corpo sem pelos púbicos se esbate.

1917 Nu reclinadoVistas hoje, estas pinturas transmitem a mesma lassa desolação dos retratos pintados por Modigliani que tenho trazido ao blog, e ficam bem longe de qualquer palpitação de desejo.

Vamos pois às pinturas objecto de tamanho escândalo há quase 100 anos.

1917 Nu sobre almofada azul 1917 Nu adormecido de braços abertos

1917 Nu sentado (3) 1917 Nu com colar 1917 Nu de costas 1917 Nu olhando sobre o ombro direito

1917 Nu sentado (2) 1917 Nu reclinado com almofada azul 1917 Nu reclinado com btaço sobre a cabeça

Termino com a mais coberta das mulheres pintadas neste ano, e, talvez, a mais excitante deste conjunto de pinturas.

1917 Nu sentado em divâ

Alexandre O’Neill — Há palavras que nos beijam, e outros poemas onde o amor também está

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Snyders_Frans-Fruit_and_Vegetable_Stall_detailCom uma ternura escondida frequentemente sobre a brutalidade do verso, fala-nos Alexandre O’Neill (1924-86) de variadas formas que o amor reveste e de como a sua ausência dói.

Começo com o poema Há palavras que nos beijam onde lemos Palavras que nos transportam / Aonde a noite é mais forte, / Ao silêncio dos amantes / Abraçados contra a morte.

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

 

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto;

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

 

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas inesperadas

Como a poesia ou o amor.

 

(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído

No papel abandonado)

 

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.

Mudamos agora de registo e acompanhamos as dificuldades de jovens pais em viver a sua sexualidade com meninos em torno. Munch - four-girls-in-arsgardstrand-1903Canção de embrulhar

boa noite meninos não

não levantar da cama

não ir pé ante pé ver os pais ao

quarto diz que eles são quatro foles

agarrados uns aos outros ar

quejando diz que é o amor

ou quejando diz que é

o pai com uma coisinha assim

a meter um recado na caixinha que a mãe

tem diz que não que não é a da

costura que é aquela onde se

guardam os meninos antes de se poder

comprar o berço e eles poderem

nascer para o amor dos seus pais

No que segue, escreve Alexandre O’Neill sobre o homem solitário e a sua busca de consolo no sexo. Se os poemas envolvendo prostitutas são matéria poética vasta nos mais variados registos, referir em poesia o recurso a uma boneca insuflável para coito do coitado, coutada do solitário, não conheço outro.

Botero_Fernando-Seated_Woman_I 1997Soprónia Insuflávia

Soprónia Insuflávia, ó minha noiva cauchutada,

minha câmara-de-ar nupcial,

coito do coitado, coutada do solitário

cervo que nos galhos trazia à dependura

o retrato da que diziam verdadeira…

Verdadeira és tu, Soprónia! Machucada,

logo repões a glória da tua carne

na opulência das tuas formas,

as mesmas que, pelo catálogo, escolhi.

Porque fui eu que, à velha maneira, te escolhi

e a teus pais te paguei para poder trazer-te

a este quarto onde, dando novos sentidos à estafada canção,

o amor é uma coisa maravilhosa!

Que obediência devemos a práticas que não sejam as mais antigas?

Nós não fazemos amor, como diz a de hoje tão dessorada gente;

nós, está bem de ver, FORNICAMOS!

Não precisamos de Kahn, Egas Moniz ou Freud,

sequer de Reich, pensador orgasmático,

nem dessa trupe que dá pelo nome de As Femininistas

e que ao homem, quando quer, fecha obscenamente as pernas,

como santola que, já no prato, se recusasse.

Tão-pouco necessitamos de dar as nossas mãos

e fazer rodas infantis em casa de senhores idosos

para que a língua-de-sogra neles se desenrole

e eles digam:”- Te adoro!”

Somos absolutamente pela moral.

… … … … … … … … … … … … … … … … … … …

Ao Algarve, Soprónia, que o tempo tástupendo!

Desinflada, meto-te na mala.

Em Albufeira, recobro a forma do meu amor

e, naquele mar que nasceu para estar deitado,

deitamo-nos perdidamente a amar!

Termino com esta pungente Meditação na Pastelaria onde se fala de solidão e memória do que foi, talvez, amor – Chorar encostada a uma saudade / Bem maior do que eu, – e onde os sentimentos se abrigam na companhia de um cão de estimação. Henri de Toulouse-Lautrec - a condessa tomando o pequeno-almoçoMeditação na Pastelaria

Por favor, Madame, tire as patas,

Por favor, as patas do seu cão

De cima da mesa, que a gerência

Agradece.

 

Nunca se sabe quando começa a insolência!

Que tempo este, meu Deus, uma senhora

Está sempre em perigo e o perigo

Em cada rua, em cada olhar,

Em cada sorriso ou gesto

De boa-educação!

 

A inspecção irónica das pernas,

Eis o que os homens sabem oferecer-nos,

Inspecção demorada e ascendente,

Acompanhada de assobios

E de sorrisos que se abrem e se fecham

Procurando uma fresta, uma fraqueza

Qualquer da nossa parte…

 

Mas uma senhora é uma senhora.

Só vê a malícia quem a tem.

Uma senhora passa

E ladrar é o seu dever — se tanto for preciso!

 *

O pó de arroz:

Horrível!

O bâton:

Igual!

 

O amor de Raul é já uma saudade,

Foi sempre uma saudade…

(O escritório

Toma-lhe todo o tempo?

Desconfio que não…)

 

Filhos tivemos um:

Desapareceu…

E já nem sei chorar!

 

Chorar…

Como eu queria poder chorar!

 

Chorar encostada a uma saudade

Bem maior do que eu,

Que não fosse esta tristeza

Absurda de cada dia:

Unha

Quebrada de melancolia…

 

Perdi tudo, quase tudo…

 

Hoje,

Resta-me a devoção

E este pequeno inteligente cão.

 

Por favor, Madame, tire as patas,

Por favor, as patas do seu cão

De cima da mesa, que a gerência

Agradece.

Os poemas foram transcritos de Alexandre O’Neill, Poesias Completas 1951/1986, 3ª edição revista e aumentada, INCM, Edição do Dia de Portugal, 10 de Junho de 1990.

Pais e filhos e o mito de Ícaro – fragmento de Metamorfoses de Ovídio

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Rubens - A queda de Ícaro 1636É conhecida a história do menino que depois do almoço queria ir para a piscina. Dizia-lhe a mãe:

– Não podes, ainda não fizeste a digestão. E o menino senta-se, olhos marejados, dificilmente contendo o choro.

Passado algum tempo, vira-se para mãe com olhar interrogativo, e de novo a resposta:

— Sem fazer a digestão não podes ir ao banho.

O menino enche o peito de coragem e entre lagrimas, balbucia:

— Mas, mãe, eu não sei como se faz a digestão!

Os desafios da educação no propósito de fazer crescer os filhos são enormes e por vezes inesperados. Mas o cuidado com eles e o desejo de que a vida lhes corra bem é de sempre.

Chega-nos da Grécia arcaica o mito sobre esta complexidade de crescer, entre a prudência que a idade aconselha e o gosto pelo novo que a descoberta do mundo e o caminhar pelo seu próprio pé desafia.

A partir de certa idade na vida é deixá-los ir, e confiar que o que connosco aprenderam lhes evite a sorte de Ícaro relatada no mito de que hoje aqui falo.

É ao poeta latino Ovídio (43 a.C.—17 d.C.) e ao seu poema Metamorfoses que vou buscar um dos relatos que nos chegaram sobre esta aventura de viver, dando conta de como a juventude nos leva por vezes a imprudências de consequências irreversíveis. Voar sim, buscar o mundo também, mas saber que o que brilha também pode queimar e que as asas com que vamos correr o mundo podem ser frágeis como cera e numa volta do caminho derreter, fazendo-nos precipitar para uma qualquer espécie de morte, ainda que figurada, é conhecimento que vale a pena meditar.

Vejamos então a história contada por Ovídio com uma arte difícil de suplantar na forma como nos vai desenhando personagens, enquadramento local, e desenvolvimento temporal, até à precipitação dos acontecimentos para que fomos subtilmente preparados.

Estamos no Livro VIII de Metamorfoses.

Depois de descrever como Dédalo, pai de Ícaro, construíra para o rei Minos de Creta o labirinto onde aprisionar o Minotauro, passa a contar a história que nos interessa:

Entretanto, Dédalo odiava Creta, odiava o longo exílio,

morto de saudades da terra natal. O mar aprisionava-o.

“Embora ele barre o meu caminho com as terras e o mar”,

disse, “ao menos, o céu está sempre aberto. Iremos por aí!

Minos pode ser dono de tudo, mas não é dono dos ares.”

Assim dizendo, aplica o seu talento a artes desconhecidas

e revoluciona a natureza. De facto, dispõe penas em filas,

[começando pelas mais curtas, a curta seguindo a longa]

a ponto de se julgar crescerem num declive: assim cresce

gradualmente a flauta campestre com as suas canas desiguais.

Depois, prende-as a meio com um fio e a base com cera,

e, tendo-as assim prendido, dobra-as em suave curvatura

para imitar as aves verídicas. Com ele está o menino,

Ícaro. Sem saber que mexia em algo para si tão perigoso,

ora, de cara risonha, tentava apanhar as penas que a brisa

vagabunda movia, ora amolecia com o polegar a loira cera;

e com esta brincadeira atrapalhava o espantoso trabalho

do pai. Quando deu o toque final ao que tinha planeado,

o artífice aventurou-se a equilibrar o próprio corpo

no par de asas, e ficou suspenso no ar, assim agitado.

 

Equipando também o filho, disse: “Voa a meia altura, Ícaro,

recomendo-te, para que, se fores demasiado baixo, o mar

não pese nas penas, e, demasiado alto, não as queime o fogo.

Voa entre um e outro; não te ponhas, advirto, a contemplar

Bootes ou a Hélice ou a espada desembainhada de Orion.

Vem atrás de mim: eu guiar-te-ei.”. Ao mesmo tempo que dá

tais instruções de voo, ajeita-lhe as inéditas asas nos ombros.

No meio do labor e advertências, molham-se de lagrimas

as envelhecidas faces, tremem as mãos de pai. Beija o filho,

beijos que jamais repetiria; e, elevando-se graças às asas,

levanta voo à frente. Tal como a ave ao guiar as frágeis crias

para fora do alto ninho pelo ar, ele receia pelo companheiro;

exorta-o a que o siga, e ensina-lhe as ruinosas artes

[e, batendo as asas, vai olhando para trás para as do filho].

Viu-os com espanto alguém que pescava com a trémula cana,

ou algum pastor arrimado ao cajado ou lavrador à rabiça

do arado, julgando que eram deuses aqueles que tinham

o poder de viajar pelos céus.

E já à já esquerda ficava

a Samos de Juno (para trás haviam deixado Delos e Paros),

e, à sua direita, Lebinto, tal como Calimne, rica em mel,

quando o rapaz começa a achar gozo no audacioso voo

e se afasta do guia. Arrastado pelo seu fascínio pelo céu,

rumou para as alturas. Ora, a vizinhança do sol voraz

amolece as odoríferas ceras que colavam as penas:

a cera derrete-se. Bem lá agita o rapaz os braços nus,

mas, sem asas para bater, não logra apanhar ar algum.

E a boca que gritava o nome do pai é acolhida pelas águas

azul-esverdeadas, que dele obtiveram o seu nome.

O pobre pai (que já nem pai era), “Ícaro!”, chamava,

“Ícaro!”, berrava. “Onde estás? Onde hei-de procurar-te?

“Ícaro!”, gritava. Então avistou penas a boiar nas ondas.

Tradução de Paulo Farmhouse Alberto

Ovídio, Metamorfoses, edição Livros Cotovia, Lisboa 2007.

Oxalá o extracto tenha despertado em algum leitor o gosto e desejo de ler tão bela obra.

Existe em português uma outra tradução moderna de Metamorfoses, esta bilingue latim/português, em dois volumes, da autoria de Domingos Lucas, edição Nova Vega, Lisboa 2006.

Vale ainda a pena a leitura dos fragmentos da obra traduzidos por Bocage.

Matsuo Bashô pelas 4 estações — 4 Haiku no Outono

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Okada_Kenzo-Ascent 1961 Outono

*

Outono:

velhos parecem até

os pássaros e as chuvas

 **

Crepúsculo:

as ervas parecem seguir

os rebanhos que recolhem

 ***

Admirável aquele

cuja vida é um contínuo

relâmpago

 ****

Na escuridão do mar

brancos

gritos de gaivotas

 Versões de Jorge Sousa Braga.

Transcritos de Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2003.

 Acompanha esta poesia uma imagem da pintura de Kenzo Okada (1902-1982).

 Pesquisando no blog por Haiku, encontrará o leitor curioso outros poemas e também considerações sobre a técnica do Haiku.

 

Matsuo Bashö pelas 4 estações — 5 Haiku no Verão

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Okada_Kenzo-Number_2 1954 Verão

*

Preso na cascata

um instante:

o verão

**

Frescura:

os pés no muro

ao dormir a sesta

***

Silêncio:

as cigarras escutam

o canto das rochas

****

Chuva de verão:

até ou grous se queixam

de terem as pernas curtas

*****

No pôr do sol

entre as papoilas brancas

as faces curtidas dos pescadores

Versões de Jorge Sousa Braga.

Transcritos de Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2003.

Acompanha esta poesia uma imagem da pintura de Kenzo Okada (1902-1982).

Pesquisando no blog por Haiku, encontrará o leitor curioso outros poemas e também considerações sobre a técnica do Haiku.

Um soneto de António Dinis da Cruz e Silva a pretexto do Julgamento de Páris

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Cranach_the_Elder_Lucas-Saxon_Princesses_Sibylla_Emilia_and_Sidonia 1530-35Em jeito de paródia ao artigo sobre o Julgamento de Páris, associo esta pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553) a um soneto de António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) por este enviado a três irmãs, e onde evoca o julgamento de Páris.

Absorto entre as três deusas duvidava

Páris a qual o pomo entregaria:

Sem véu as perfeições de todas via,

E quanto via mais, mais vacilava:

 

Se qualquer de per si atento olhava,

Em seu favor a lide decidia,

Mas logo resolver-se não sabia

Quando juntas depois as contemplava.

 

Enfim um não sei quê, que a Natureza

Mais liberal com Vénus repartira,

O move a dar-lhe o prémio da beleza.

 

Ah! Se igual entre vós lide se vira,

O mesmo Páris cheio de incerteza

Nunca a grande contenda decidira.

Soneto LIII do vol. I das Obras de António Dinis da Cruz e Silva.

O retrato, pintado por Lucas Cranach o Velho respeita às princesas da Saxónia: Sibyla, Emília e Sidónia, feito entre 1530-35.

Termino com três dos Julgamentos de Páris por Lucas Cranach o Velho, mestre cuja pintura me encanta.

Nelas o nosso Páris é um guerreiro armado até aos dentes e aparentemente exausto pela ciclópica tarefa deste julgamento, enquanto as deusas exibem de forma insinuante os seus argumentos.

 Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1512-14

Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1530

Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1528-II