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c842b.jpg (JPEG Image, 477x738 pixels)A presença de uma mulher na nossa vida adulta é para qualquer homem uma exigência e um desafio. Estou a lembrar-me da canção de Vinicius de Moraes, Mulher, sempre mulher, aqui cantada por Toquinho.

Mulher, sempre mulher

Mulher, ai, ai, mulher

Sempre mulher

Dê no que der

Você me abraça, me beija, me xinga

Me bota mandinga

Depois faz a briga

Só pra ver quebrar

Mulher, seja leal

Você bota muita banca

Infelizmente eu não sou jornal

 

Mulher, martírio meu

O nosso amor

Deu no que deu

E sendo assim, não insista

Desista, vá fazendo a pista

Chore um bocadinho

E se esqueça de mim

E se conservá-las é uma arte, a procura reveste as formas mais variadas.

Enviou-me mão amiga um anúncio de homem procurando namorada, publicado num jornal de Ceará no Brasil. O extraordinário da prosa faz com que o transcreva na forma em que me chegou.

Homem descasado de 40 anos, que só gosta de mulher, após casamento de sete anos, mal sucedido afetivamente, vem através deste anúncio, procurar mulher que só goste de homem, para compromisso duradouro, desde que esta preencha certos requisitos:

O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE tenha idade entre 28 e 40 anos, não descartando, evidentemente, aquelas de idade abaixo do limite inferior, descartando as acima do limite superior.

Devem ter um grau razoável de escolaridade, para que não digam, na frente de estranhos: ‘menas vezes’, ‘quando eu si casar’, ‘pobrema no úter’, ‘eu já si operei de apênis’, ‘é de grátis’, ‘vamo de a pé’, ‘adoro tar com você’ e outras pérolas gramaticais.

Os olhos podem ter qualquer cor, desde que sejam da mesma e olhem para uma só direção.

Os dentes, além de extremamente brancos, todos os 32, devem permanecer na boca ao deitar e nunca dormirem mergulhados num copo d’água.

 Os seios devem ser firmes, do tamanho de um mamão papaia, cujos mamilos olhem sempre para o céu, quando muito para o purgatório, nunca para o inferno. Devem ter consistência tal que não escapem pelos dedos, como massa de pão.

 Por motivos óbvios, a boca e os lábios, devem ter consistência macia, não confundir com beiço.

A barriga, se existir, muito pequena e discreta, e não um ponto de referência.

 O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE seja sexualmente normal, isto é, tenha orgasmos, se múltiplos melhor, mas mesmo que eventuais, quando acontecerem, que ela gema um pouco ou pisque os olhos, para que ele sinta-se sexualmente interessante.

 Independentemente da experiência sexual do PRETENDIDO, este exige que durante o ato sexual a PRETENDENTE não boceje, não ria, não fique vendo as horas no rádio relógio, não durma ou cochile.

O PRETENDIDO exige que a PRETENDENTE não tenha feito nenhuma sessão de análise, o que poderia camuflar, por algum tempo, uma eventual esquizofrenia.

A PRETENDENTE deverá ter um carro que ande, nem que seja uma Brasília, ou que tenha dinheiro para o táxi, uma vez que pela própria idade do PRETENDIDO, ele não tem mais paciência para levar namorada de madrugada para casa.

Enviar cartas com foto recente, de corpo inteiro, frente e costas, da PRETENDENTE, para a redação deste jornal, para o codinome:

‘CACHORRO MORDIDO DE COBRA TEM MEDO ATÉ DE BARBANTE’.

Há nesta prosa uma sinceridade reveladora do homem no que à mulher exige para o servir, que dificilmente alguém conseguiria inventar. Estamos, neste anúncio, num mundo de títeres. A dignidade que se exige a cada um para ser parte da humanidade anda longe daqui.

É outro o universo onde a humanidade que se respeita vive. E é do Brasil que nos vem, de novo, pela inspiração de Vinicius de Moraes a acertada forma de perguntar a uma mulher — Você quer ser minha namorada?

Oiçamo-la na voz de Maria Bethânia, numa versão que não inclui a primeira estrofe do poema.

Você quer ser minha namorada?

Meu poeta eu hoje estou contente

Todo mundo de repente ficou lindo

Ficou lindo de morrer

Eu hoje estou me rindo

Nem eu mesma sei de que

Porque eu recebi

Uma cartinhazinha de você

Se você quer ser minha namorada

Ai que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha

Exatamente essa coisinha

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer

Um juramento

De só ter um pensamento

Ser só minha até morrer

E também de não perder esse jeitinho

De falar devagarinho

Essas histórias de você

E de repente me fazer muito carinho

E chorar bem de mansinho

Sem ninguém saber porquê

E se mais do que minha namorada

Você quer ser minha amada

Minha amada, mas amada pra valer

Aquela amada pelo amor predestinada

Sem a qual a vida é nada

Sem a qual se quer morrer

Você tem que vir comigo

Em meu caminho

E talvez o meu caminho

Seja triste pra você

Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos

E os seus braços o meu ninho

No silêncio de depois

E você tem que ser a estrela derradeira

Minha amiga e companheira

No infinito de nós dois

Música de Carlos Lyra

Termino com os conselhos do sábio poeta sobre como viver um grande amor

Para Viver Um Grande Amor dito por Vinicius de Moraes

Para Viver Um Grande Amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é p’ra quem quer… — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro, e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for.

Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor direito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador.

É sempre necessário ter em vista um crédito de rosas no florista, muito mais, muito mais que na modista! — para viver um grande amor.

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, filets com fitas — comidinhas para depois do amor.

E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor.

É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer “baixo” seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor.

Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — não ser um ganhador.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a grande amada para viver um grande amor.

Transcrevi a versão lide pelo poeta nesta gravação. Existem outras versões do poema publicadas em livro.

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