Os jardins na poesia de Sophia

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Gorky_Arshile-Garden_in_Sochi 1941Jardim

Alguém diz:

“Aqui antigamente houve roseiras”—

Então as horas

Afastam-se estrangeiras,

Como se o tempo fosse feito de demoras.

A invenção dos jardins enquanto espaços de natureza ordenada parece ter sido paralela ao avanço do racionalismo como forma de olhar o mundo. E desde que criados como locais de lazer, foram progressivamente tomando parte na vida quotidiana. À medida que o tempo para o ócio se estendeu a mais largas camadas de população, sucederam-se os jardins públicos como espaços integrantes do universo urbano.

Os jardins são o anti-económico. Custam dinheiro a manter e não produzem nada rentável. Para almas práticas são o puro desperdício. Tanto mais que frui-los é usar o tempo de forma improdutiva.

Acontece até que na ironia da administração publica municipal, a vereação dos jardins está associada à vereação dos cemitérios, numa eloquente enunciação do seu carácter não produtivo.

E, não obstante, contrariando o homo economicus, gostamos de jardins. Quando podemos passear num jardim, sentimo-nos bem: é uma espécie de poesia sem palavras, esse bem estar. Associamos aos jardins uma ideia de harmonia, de beleza, de natureza ordenada pelo homem com intuito de provocar prazer.

Vivo há longos anos num bairro projectado e executado nos parâmetros da Carta de Atenas, com os edifícios em grande parte rodeados por extensas zonas ajardinadas. As árvores crescem até à janela e no tempo da floração, enchem o olhar de verde salpicado de amarelo, onde o constante gorjear dos pássaros faz sentir melhor a ausência do barulho automóvel. O senão é que manter cuidados tão vastos jardins custa dinheiro e a municipalidade retrai-se, com o que raramente os jardins nos surgem apetecíveis, como na origem os arquitectos os pensaram.

Sentir poeticamente os jardins é privilegio de poucos e dar-lhe forma escrita é ainda mais raro. Folheio livros e encontro, diria que sem surpresa dada a personalidade da escritora, a presença da emoção induzida pelo jardim entre as primeiras obras de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004).

É a um passeio por esses poemas que hoje convido o leitor.

Jardim

O jardim está brilhante e florido.

Sobre as ervas, entre as folhagens,

O vento passa, sonhador e distraído,

Peregrino de mil romagens.

É Maio ácido e multicolor,

Devorado pelo próprio ardor,

Que nesta clara tarde de cristal

Avança pelos caminhos

Até os fantásticos desalinhos

Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada

Pelo jardim deliro e divago,

Ora espreitando debruçada

Os jardins do fundo do lago,

Ora perdendo o meu olhar

Na indizível verdura

Das folhas novas e tenras

Onde eu queria saciar

A minha longa sede de frescura.

O Jardim e a Noite

Atravessei o jardim solitário e sem lua,

Correndo ao vento pelos caminhos fora,

Para tentar como outrora

Unir a minha alma à tua,

Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiros cercados de buxo

Sorri à sombra tremendo de medo.

De joelhos na terra abri o repuxo,

E os meus gestos foram gestos de bruxedo.

Foram os gestos dessa encantação,

Que devia acordar do seu inquieto sono

A terra negra dos canteiros

E os meus sonhos sepultados

Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos

Calou-se a terra,

E sob o peso dos frutos ressequidos

Do presente

Calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,

Enquanto subia e caía a água do repuxo,

Murmurei as palavras em que outrora

Para mim sempre existia

O gesto dum impulso.

Palavras que eu despi da sua literatura,

Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,

De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem

A noite solitária e pura

Continuou distante e inatingível

Sem me deixar penetrar no seu segredo

E eu senti quebrar-se, cair desfeita,

A minha ânsia carregada de impossível,

Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura

E embalei o silêncio nos meus ombros.

Tudo em minha volta estava vivo

Mas nada pôde acordar dos seus escombros

O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou pesado e quente

E à sua volta todo o jardim cantou

E a água do tanque tremendo

Se maravilhou

Em círculos, longamente.

Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim da impossessão,

Transbordante de imagens mas informe,

Em ti se dissolveu o mundo enorme,

Carregado de amor e solidão.

A verdura das árvores ardia,

O vermelho das rosas transbordava,

Alucinado cada ser subia

Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação

De paraísos, deuses e de infernos,

E os instantes em ti eram eternos

De possibilidade e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou, denso

Dum gesto mais profundo em si contido,

Pois trazias em ti sempre suspenso

Outro jardim possível e perdido.

Em Todos os Jardins

Em todos os jardins hei-de florir,

Em todos beberei a lua cheia,

Quando enfim no meu fim eu possuir

Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,

A tudo quanto existe me hei-de unir,

E o meu sangue arrasta em cada veia

Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo

Todo o fogo que habita na floresta

Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,

A secreta abundância dessa festa

Que eu via prometida nas imagens.

Bonnard_Pierre-Gardens_of_Tuileries
Os poemas originalmente publicados em Poesia (1944) e Dia do Mar (1947) foram transcritos de OBRA POÈTICA, Caminho, Lisboa 2011.

Abre o artigo uma pintura de Arshile Gorky (1904-1948), Jardim em Sochi de 1941. Fecha o artigo uma pintura de Pierre Bonnard (1867-1947), Jardins das Tulherias.

Dois poemas de Henrique Risques Pereira

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Dali_Salvador-Illumined_PleasuresA curiosidade traz-me frequentemente gratas surpresas. É o caso hoje de um livro de poemas, provavelmente o único, de Henrique Risques Pereira (1930), protagonista no movimento surrealista e até agora, para mim, poeta de um só poema, que percorre as antologias do surrealismo português: Um Gato Partiu à Aventura.

Ao que leio, amigo e cúmplice de António Maria Lisboa, com a morte deste, o movimento surrealista deixou de lhe mostrar sentido. Ter-se-á ocupado com uma carreira de engenheiro.

Há sempre um comboio que parte / de algures em qualquer parte do mundo

Há sempre um cais com gente / ansiosa da viagem para parte incerta

Há sempre um futuro com destino / que a gente do cais não conhece

Dentro deste comboio louco / vou eu em viagem dentro de mim

No cais alguém fica à espera / de um comboio que já partiu

Mas o poeta sobreviveu ao engenheiro, e graças a Perfecto E. Quadrado, temos esta edição de uma poesia solar, como certeiramente a qualifica o editor, em pouco mais de uma centena de poemas. Escolho mais dois poemas por onde passam, num, o sentimento do corpo, no outro, a paisagem onde a vida cabe, e assim levar aos leitores do blog um poeta que talvez desconheçam, em poemas que me emocionaram.

Primeiro

Sinto os desertos ondulados

e a tua carne,

desejo o céu cristalino

e os teus olhos.

Admiro o crepúsculo acre

e os teus lábios

e vivo em noite na magia

do desespero de quem sabe

que o amor se conta em anos de morte

e sabe que há um sinal

que marca a ruína infalível para a qual escorregamos

a sonhar o enigma das torres que emigram

presas a fios de aço

e que partem com o pensamento

em todas as direcções.

Para sempre e sem memórias.

**

O vale abre-se à solidão e ao silêncio

e os desfiladeiros descem vertiginosamente para o invisível

e do fundo sobe a bruma leve irreal

 

A luz coloca sombras que se movem suavemente

e o pássaro negro fende o ar cristalino

e a memória das coisas esvaece com a noite

 

Calma majestosa erguida a toda a altura

a montanha projecta-se na imensidão do horizonte

 

Para trás o frenesim da vida dos homens

e o ranger de dentes dos esquecidos da sorte

e o caminhar de braços pendentes esgotados

 

Uma criança algures acaba de nascer

e a mãe protege-a de presságios que lhe gelam a alma

 

Levanta-se a luz de um novo dia

e nós

esquecidos do que sabemos

sorrimos para a vida

Noticia bibliográfica

Henrique Risques Pereira, Transparência do Tempo (poesia), edição de Perfecto E. Quadrado, Quasi Edições, 2003.

Fica V. Exa. notificado… com poemas de David Mourão-Ferreira

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Propunha-me publicar no blog o soneto de David Mourão-Ferreira, Ternura quando verifiquei que já aqui se encontrava num esquecido artigo do inicio do blog. Recordo-o agora às escassas dezenas dos primeiros leitores, e talvez aos novos leitores agrade.

Às vezes sou tentado a levar o blog para a realidade dos dias mas depressa me arrependo. No entanto, ao acontecimento de hoje não resisto.

Tinha na semana passada na caixa do correio um aviso para levantar uma carta registada das Finanças. É entidade a quem não devo nada, de quem dispenso o contacto e que me faria imensamente feliz se esquecesse a minha existência. Infelizmente não é assim e vivamos com o que temos.

O carteiro procurara-me em casa a hora em que obviamente estaria a trabalhar e em vez da carta deixou aviso: vá buscá-la a partir das 10H00 do dia tantos ao posto de Correios tal.

Passaram os dias e eu sem vontade de tomar conhecimento dos desejos das Finanças até que hoje, terminando o prazo para levantar a carta, lá fui ao tal posto de Correios.

Havia gente, muita gente. Tirei senha, o nº 117. Olhei o contador dos atendidos e iam no nº 73. Eram dois postos de atendimento e esperei. Preparara-me para alguma demora, não para isto. No Bolso levava a Lira para eventualmente entreter a espera. Afinal não. O burburinho da conversa de quem esperava e os diálogos dos guichets levaram a melhor, e embalado segui doenças, remédios, instruções de preenchimento de impressos, o custo de vida, e soube que nestes tempos de telemóvel há ainda quem vá aos Correios telefonar.

Chegou a minha vez de ser atendido e munido da intimação do carteiro e do bilhete de identidade, apresentei-me à funcionária. Olhou-me, olhou a foto do BI, achou que era a mesma pessoa e estendendo-me o aviso que lhe entregara, imperou:

– Assine aqui! Igual ao bilhete de identidade.

Obedeci.

Levantou-se, desapareceu, e passados minutos regressou. Na mão um papel branco com letras, era a notificação das Finanças. Entregou-mo, e na posse de tão indesejado documento, com mil cuidados para não rasgar, o coração acelerado, abri a coisa,

e leio:

– Fica V. Exa. Notificado(a) nos termos do art. … da liquidação do Imposto de … no total de zero euros (o destaque é meu).

Em nota final o impresso informava que o valor liquidado (zero euros) não será objecto de cobrança.

Com os melhores cumprimentos assinou o Director-Geral, e eu, enquanto Excelência fiquei notificado de que nada aconteceu.

Tanto tempo perdido por tanta gente para isto!

Concluido o episódio regresso à intemporalidade da poesia e do amor lendo aqui alguns dos poemas que levei no bolso.

MINUTO

O amor? Seria o fruto

trincado até mais não ser?

(Mas para lá do prazer

a Vida estava de luto …)


Fui plantar o coração

no infinito: uma flor…

(Mas para lá do fervor

a Vida gritou que não!)


O amor? Nem flor nem fruto.

(Tudo quanto em nós vibrara

parecia pronto a ceder …)


Foi apenas um minuto:

a fome intensa tão rara!,

de ser criança, ou morrer…


Jovem de 22 anos, David Mourão-Ferreira exprime assim a pressa de quem do amor ainda não aprendeu o prazer da demora, numa confusão adolescente de não saber o que importa.

É ainda o adolescente dos anos 40 que ecoa neste SONETO DO CATIVO onde ressoam os contrastes entre amor de ouvir dizer, preconceitos e culpas de pecado numa sociedade vigiada:


 

Se é sem dúvida Amor esta explosão

de tantas sensações contraditórias;

a sórdida mistura das memórias,

tão longe da verdade e da invenção;


o espelho deformante; a profusão

de frases insensatas, incensórias;

a cúmplice partilha nas histórias

do que os outros dirão ou não dirão;


se é sem dúvida Amor a cobardia

de buscar nos lençóis a mais sombria

razão de encantamento e de desprezo;


não há dúvida, Amor, que te não fujo

e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,

tenho vivido eternamente preso!


A idade avança, a experiência também, e é outra a realidade neste

TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol,

que é feito de ternura amarrotada,

da frescura que vem depois do Sol,

quando depois do Sol não vem mais nada…


Olho a roupa no chão: que tempestade!

Há restos de ternura pelo meio,

como vultos perdidos na cidade

onde uma tempestade sobreveio…


Começas a vestir-te, lentamente,

e é ternura também que vou vestindo,

para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo…


Mas ninguém sonha a pressa com que nós

a despedimos assim que estamos sós!


E no prazer do corpo o amor ganha a essencialidade dos elementos  Não, meu amor … Nem todo o corpo é carne: / é também água, terra, vento, fogo

Seguindo esta poesia saberemos o seu segredo mais à frente – no teu corpo existe o mundo todo!


PRESIDIO

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.

Que dizer do pescoço, às vezes mármore,

às vezes linho, lago, tronco de árvore,

nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco?…


E o ventre, inconsistente como o lodo?…

E o morno gradeamento dos teus braços?

Não. Meu amor… Nem todo o corpo é carne:

é também água, terra, vento, fogo…


É sobretudo sombra à despedida;

onda de pedra em cada reencontro;

no parque da memória o fugidio


vulto da primavera em pleno Outono…

Nem só de carne é feito este presídio,

pois no teu corpo existe o mundo todo!


Mas o perigo de olhar o mundo da cintura para baixo espreita:

CASA

Tentei fugir da mancha mais escura

que existe no teu corpo, e desisti.

Era pior que a morte o que antevi:

era a dor de ficar sem sepultura.


Bebi entre os teus flancos a loucura

de não poder viver longe de ti:

és a sombra da casa onde nasci,

és a noite que à noite me procura.


Só por dentro de ti há corredores

e em quartos interiores o cheiro a fruta

que veste de frescura a escuridão…


Só por dentro de ti rebentam flores.

Só por dentro de ti a noite escuta

o que sem voz me sai do coração.


Visitados que foram os tormentos do sexo ao concentrar aí o mundo Só por dentro …, voltemos à despreocupada alegria do poeta jovem:

ALBA

Com grinaldas de lodo sobre a testa,

presos os pés em turbilhões de limos,

– assim a madrugada nos desperta

e após a preia-mar nós emergimos.


Lambe-me o rosto a fimbria do lençol,

amarrotada, poluida espuma…

Sobre a salsugem, uma angustia mole,

que o pensamento arruma e desarruma.


por fim derruba o muro dos enganos,

e ante nós dois derrama esta pergunta:

– De que infernos vibrantes nos soltamos,

sem que o céu compareça ou nos acuda?


Findo este pequeno tour pela criação poética de David Mourão-Ferreira antes dos 35 anos e da Matura Idade, tenho uma provável surpresa para a maior parte dos leitores: os primeiros poemas publicados aos 19 anos e que o autor, já adulto e consciente, repudiou, nunca os incluindo na sua obra poética.

Estas primícias poéticas foram publicadas numa edição de autor, colectiva, feita em 1946 e de seu nome RUMOS  ANTOLOGIA DE CONTOS E POEMAS.

A edição contém obras de Ana Maria Caeiro, Carlos Garcia, David Mourão Ferreira (sem hifén) João Belchior Viegas, José-Aurélio, José Rabaça, Mário António, Orlando Pinto Baptista e Vitor Parracho.

De David Mourão-Ferreira constam do livro 5 poemas,  quais sejam:

QUINTO POEMA DE HESITAÇÃO

VOZ

CÂNTICO

IMAGEM

PEDIDO

Este último diz-se que pertence ao livro no prelo “BARCO ENCALHADO” que a contra-capa de RUMOS anuncia “A sair brevemente”

O “BARCO ENCALHADO”, que eu saiba nunca viu a luz do dia e o primeiro livro a publicar pelo autor foi antes A SECRETA VIAGEM em 1950.

Temos pois que nos 4 anos que medearam, o poeta desencalhou o barco e seguiu na viagem que nos contou e da qual extraí MINUTO.

Eis então os poemas de RUMOS

QUINTO POEMA DE HESITAÇÃO

Não me digam que não,

Que pr’além desta vida

Não existe outra vida,

Onde os sonhos deixarão de ser sonhos,

Permanecendo neles, porém,

Aquele encanto e aquela graça

Que só os sonhos têm…


Não me digam que não,

Que por trás destes muros,

Serenos e caiados –

Destinos conhecidos – ,

Não existem regatos

E não existem prados

E rosas e lirios…


Não me digam que não,

Que não hei-de encontrar

Em busca de quem vou…

Não me digam que não!,

Deixem-me ir iludido,

Já que iludido estou!…


E depois, se eu voltar,

Inutil e cansado,

Digam-me então, que não,

Que errei o meu caminho…

Deixem-me então, morrer,

Vazio de sonhos e podre de cansaços…

Digam-me então que não!,

Ainda que eu vos peça de joelhos

E vos estenda os braços!…

VOZ

Apenas respondo às vozes

Que chamam dentro de mim.

Meus passos só são velozes

Pra essas vozes assim…


Não me chamem pois de fora,

Que nunca vou nem irei.

Se acaso me for embora

É respeito à minha lei.


Apenas respondo às vozes

Que chamam dentro de mim:

Só irei quando chamarem!

Só então direi que sim!


CÂNTICO

Ah! São as árvores erguidas

E os caminhos desertos,

Desertos e abertos,

Promessas de vida…,

Ah! São os lamentos de cores

E os ambientes tristes,

Lembranças de dores…;

Ah! É tudo isto,

Tudo, tudo,

Que me envolve, me inunda,

Me estende seu manto

De pureza e de encanto…

– Pureza que eu canto,

Encanto de tudo!…


IMAGEM

Rio manso como um charco,

Largo ninho de gaivotas,

Sulcado por tanto barco,

Desiludido das rotas!


Rio manso como um charco!

Tu és bem a minha imagem:

Em mim também há um barco

Já cansado de viagem…


Mas sou inferior a ti,

Que deslizas para o mar,

Enquanto que eu, ai de mim!,

Não sei onde irei parar…


PEDIDO

Antes de tu apareceres,

Eu era um barco encalhado,

Perdido num mar qualquer…

Era um relógio parado,

Que ninguém queria arranjar,

Não obstante ainda ter

Muita corda para andar…


Antes de tu apareceres,

Ai tanta cois aque eu era,

Sem nada ser, afinal…!

Era um romance imperfeito,

Que tinha o grande defeito

De ser bastante banal…


Mas agora… agora que tu vieste,

Que tu vieste e encheste

Da sombra dos teus cabelos

E dos teus gestos singelos

O marasmo dos meus dias…


Agora… agora, o que peço

É que fiques!,

Não me deixes!,

Pra que eu não tenha outra vez

As passadas horas frias

Daquelas vãs agonias

Que tu viste – e já não vês!


Lidas estas primícias dificilmente se suspeita a floração de que mais tarde o poeta seria capaz. E certamente não tinha ainda travado conhecimento com a balzaquiana do andar de cima, iniciadora nas lides do amor e fonte de inspiração segura dos primeiros poemas aceites na obra poética.


Noticia Bibliográfica:

Tal como referi no início, os poemas foram transcritos de LIRA DE BOLSO, antologia de escolha do poeta e publicada em 1969 por publicações dom quixote na colecção cadernos de poesia.

EUA anos 70 na pintura fotorealista de Richard Estes e em poemas de Jorge de Sena

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Estes_Richard-Bus_Reflections 1972Para quem ama a poesia de Jorge de Sena (1919-1978) o livro Sequências ocupa um lugar especial. Repositório de sarcasmos e ironias poéticas deixadas inéditas, e publicadas pouco depois da morte do poeta pela mulher, Mecia de Sena, nele encontramos traços da visão atenta ao que o rodeava e de como esse mundo e o que nele acontecia desencadeava a sua verve poética.

Num dos ciclos do livro, América, América, I love you, encontro o poema Marido e Mulher de 12/Ago/1969(?) que nos leva ao mundo por detrás das fachadas tão brilhantemente pintadas por Richard Estes (1932) entre finais doa anos 60 e ao longo dos anos 70 do século XX, e dentre as quais mostro a seguir um pequeno grupo.

MARIDO E MULHER

Sofriam terrivelmente. Porque

o comboio dele chegava

quando o dela partia.

Compraram um manual na livraria,

mandaram vir pelo correio uma almofada especial

(cujo atraente anúncio recebiam quase todos os dias pelo correio)

leram com cuidado as instruções,

estudaram com aplicação os esquemas do livro,

e, quando se ensaiavam,

na discreta penumbra do quarto respectivo,

a sogra — que embirrava com ele —

abriu de repente a porta,

deu um grito, correu

ao telefone e chamou a polícia,

A polícia veio, levou-o. Foi julgado

e condenado a dois anos de tratamento num instituto psiquiátrico

por atentar, vicioso,

contra a virtude da esposa.

12/Ago/1969(?)

Estes_Richard-Canadian_Club 1970sEstes_Richard-Urban_Landscape_No._3 1972Estes_Richard-Cafe_Express 1975Estes_Richard-Central_Savings 1975 Agora que os leitores já têm uma ideia da paisagem urbana nos EUA na época do poema, termino com outro poema de Jorge de Sena, provavelmente composto no mesmo dia do anterior e pertencendo ao mesmo ciclo.

 

Pavloviana ou os reflexos condicionados

Parqueavam o carro à porta dela,

e durante mais de uma hora,

rolavam-se e rebolavam-se lá dentro.

 

Depois, saciados, fechavam o carro

e entravam em casa (para lavar-se e dormir).

 

(Na verdade, a casa não era dela,

mas de ambos: Moravam lá,

até eram casados).

Bechtle_Robert-58_Rambler 1967

Desta vez a pintura de moradia e carro é de 1967 e é obra de Robert Bechtle (1932)

 

Notícia bibliográfica

Os poemas foram transcritos de Jorge de Sena, SEQUÊNCIAS, Lisboa, Moraes Editores, 1ªediçao Julho de 1980.

 

De vez em quando Pessoa — hoje, uma Canção e mais alguns poemas

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Marc chagall The poetEntre a actividade e o sossego — a lida e a calma chamou-lhe o poeta — enchemos a solidão com o que conseguimos: a banalidade da vida social, as compras inúteis, as viagens em busca de coisa nenhuma, o sossego de um hobbie; e o sabor é sempre o mesmo: Sol nulo dos dias vãos, / Cheios de lida e de calma,

Por vezes há um tentar enganar a solidão na ilusão de uma alma gémea, procurando Que ao menos a mão, roçando / A mão que por ela passe, / Com externo calor brando / O frio da alma disfarce!

Acontece que a cabeça nos acompanha sempre, não há volta a dar-lhe, e a vida, muitas vezes, acaba por saber ao desencanto dorido de que fala Fernando Pessoa na sua arqui-conhecida Canção que tenho vindo a citar, um dos poucos poemas que publicou em vida, e que hoje trago ao blog:

 

CANÇÃO

Sol nulo dos dias vãos,

Cheios de lida e de calma,

Aquece ao menos as mãos

A quem não entras na alma!

 

Que ao menos a mão, roçando

A mão que por ela passe,

Com externo calor brando

O frio da alma disfarce!

 

Senhor, já que a dor é nossa

E a fraqueza que ela tem,

Dá-nos ao menos a força

De a não mostrar a ninguém!

15-01-1920

 

A perfeição formal do poema, o acerto psicológico no desenvolvimento do assunto, aliados à originalidade expressiva em versos de profundo impacto na melodia da rima, fazem deste CANÇÃO um obra-prima absoluta, e com ela regresso ao convívio do blog depois destas semanas de ausência.

Regista a edição da Poesia 1918-1930 de Fernando Pessoa, neste 15 de Janeiro de 1920, além deste Canção, a composição de mais 2 poemas, dando os três conta do mesmo estado de espírito. Cito as duas primeiras estrofes do poema MADRUGADAS onde o peso do quotidiano — O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim / Do mundo e da dor — encontra na forma de uma ode o peso da sua expressão.

 

MADRUGADAS

I

Em toda a noite o sono não veio. Agora

Raia do fundo

Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.

Que faço eu no mundo?

Nada que a noite acalme ou levante a aurora,

Cousa séria ou vã.

 

Com os olhos da febre vã da vigília

Vejo com horror

O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim

Do mundo e da dor —

Um dia igual aos outros, da eterna família

De serem assim.

Não me despeço sem acrescentar mais um registo desta desolada quietação com que a vida por vezes nos surge. Desta feita é um poema de 10-08-1929, agora em verso alexandrino:

 

AQUI NA ORLA DA PRAIA, mudo e contente do mar,

Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,

Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,

E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

 

A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio

Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;

O amor é um sono que chega para o pouco que se é;

A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

 

Por isso na orla morena da praia calada e só,

Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;

Sonho sem quasi já ser, perco sem nunca ter tido,

E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

 

Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,

Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;

Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei

Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

 

Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar

Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,

Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,

Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

10-08-1929

 

Acabemos este itinerário onde a solidão conduz a um persistente sentimento da inutilidade da vida com um soneto de 31-08-1929

 

Nas grandes horas em que a insónia avulta

Como um novo universo doloroso,

E a mente é clara como um ser que insulta

O uso confuso com que o dia é ocioso,

 

Cismo, embebido em sombras de repouso

Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,

Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo

Me foram nada, como frase estulta.

 

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo,

Meu coração, que fala estando mudo,

Repete seu monótono torpor

 

Na sombra, no delírio da clareza,

E não há Deus, nem ser, nem Natureza,

E a própria mágoa melhor fora dor.

 

Escolhi deliberadamente poemas onde a rima e o rigor de formas tradicionais como a quadra heptasilábica, o verso alexandrino e o soneto estão presentes, de modo a tornar evidente quanto estas não são impeditivas da expressão de profundas reflexões, e bem pelo contrário, o espartilho da forma obriga à concisão verbal e capta o leitor de forma intensa.

 A pintura de Marc Chagall que abre o artigo chama-se O Poeta.

Notícia bibliográfica

Os poemas foram transcritos de Fernando Pessoa, Poesia 1918-1930, edição de Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

Gomes Leal — três poemas de História de Jesus

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gauguin cristo amareloTermino por agora a visita à poesia de assunto religioso católico com três poemas de História de Jesus, de Gomes Leal (1848-1921) nos quais se relata a crucificação e morte de Jesus.

A história da vida de Jesus é nesta obra contada com a desenvoltura versificatória apanágio do poeta, e a poesia salta, episódio a episódio, transformando-a numa narrativa de encantamento em que as matérias de fé passam a segundo plano.

Abro com o rouxinol na cruz que canta na agonia de Cristo lembrando o Amor, o Céu. quando tudo chora em seu redor. Falar da crucificação de Jesus com a magia deste O Rouxinol do Calvário é provavelmente caso único e suponho que o episódio é apócrifo em relação à narrativa bíblica.

Segue-se-lhe a descrição das trevas em que a terra mergulhou enquanto Cristo agonizava. E nele o verso transmite o terror que a fé reclama: Fenderam-se os rochedos, com ruídos. /Um singular terror gelou os ossos.

Termino com a estocada final do soldado romano no Cristo já morto. Neste poema a doçura da mensagem de Jesus é posta em contraste com o gratuito da violência dos seus carrascos:

caiu enfim chagado, justiceiro, / ainda, ainda perdoando ao mundo …

um soldado romano vendo-o exposto, / e já morto na Cruz, lívido o rosto, / com um golpe de lança o trespassou.

 

Entrego-vos aos poemas

 

O Rouxinol do Calvário

Na noite que passou

o Cristo, no Calvário,

um rouxinol cantou

sobre a Cruz, solitário.

 

Os trigueiros soldados,

e os lirios de Salém,

perguntavam pasmados :

— Que voz canta tão bem ?

 

Como sentindo os males

das suas próprias penas,

vergavam-se nos cálix,

chorando, as açucenas.

 

Choravam os caminhos,

os dados, os cilícios,

a grinalda de espinhos,

e a esponja dos suplícios.

 

Choravam os sem luz,

e os rijos peitos bravos.

Começavam na cruz

a vacilar os cravos.

 

Pelo tranquilo espaço,

paravam as estrelas,

e o vagaroso passo

as mudas sentinelas.

 

Os peitos desumanos

ressentiam mudanças.

Deixavam os romanos

escorregar as lanças.

 

Assim cantou… cantou…

lembrando o Amor, o Céu.

Quando Jesus morreu,

do lenho, enfim, voou ! …

 

 

Trevas

Rasgou se o véu do Templo de alto a baixo,

Cortou o vento o ar como um açoite.

Rugiram os leões, e o eterno facho

do dia se eclipsou. — E fez-se a Noite.

 

Fenderam-se os rochedos, com ruídos.

Um singular terror gelou os ossos

dos legionários trágicos, vencidos

da confusão, do espanto, e dos destroços.

 

O morto surge e mais o seu sudário,

trazendo o assombro do final segredo.

O povo da Judeia do santuário

foi-se esconder na treva — e teve medo.

 

As violetas murcharam sobre a haste.

E uma voz singular, lúgubre, estranha,

soluçou pela trágica montanha :

— «Meu Pai! Meu Pai ! porque me abandonaste?»

 

 

O Último Golpe de Lança

Quando ele enfim morrendo, ele, o cordeiro,

rola mansa no ar calado e imundo,

pendeu, bem como um lírio moribundo,

sobre a haste do trágico madeiro…

 

quando, lançando o espirito profundo,

ao reino belo, grande, verdadeiro.

caiu enfim chagado, justiceiro,

ainda, ainda perdoando ao mundo …

 

um soldado romano vendo-o exposto,

e já morto na Cruz, lívido o rosto,

com um golpe de lança o trespassou.

 

Saiu daquela chaga sangue e água:

— Sangue que inda quis dar a tanta mágoa.

— Água de pranto ainda que chorou.

 

Abre o artigo o Cristo amarelo pintado por Paul Gauguin (1848-1903) em 1889, pouco depois da composição desta História de Jesus (1883). Noutra oportunidade virá à conversa a forma como os escritores simbolistas franceses olharam a pintura bretã de Gauguin e a entenderam como a materialização dos seus ideais de arte. Aqui surge tão só como uma ideia de Cristo que a arte desmaterializa.

Como curiosidade e em nota de rodapé registe-se que Gomes Leal era apenas um dia mais velho que Gauguin. Um nasceu a 6 de Junho de 1848, o outro a 7 de Junho de 1848.

Decimas à concepção de Maria por Gregório de Matos

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Bolivia Luis Niño 1740No curto passeio pela poesia de matriz católica que por estes dias faço, escolho agora um poema de Gregório de Matos (1636-1696) cuja poesia popularizada anda mais ligada ao desbocado da sátira, tantas vezes obscena, que às matérias de confissão.

Se no soneto de Violante do Ceo de artigo anterior apenas uma visão deslumbrada corre, nas décimas de Gregório de Matos hoje transcritas há um esforço de encontrar causalidade na explicação do sobrenatural, mas de novo apenas a matéria de fé surge como argumento.

Preocupa-se o poeta em explicar a virgindade de Maria após a concepção de Jesus, e encontra apenas uma vontade primordial em Deus para fundamentar a ocorrência: Maria será mulher na terra e mãe do Filho de Deus e por isso isenta do pecado que condenou Eva.

Antes de ser fabricada / do mundo a máquina digna, / já lá na mente divina, / Senhora estáveis formada:

mas se Deus (sabemos nós) / que pode tudo, o que quer, / e vos chegou a eleger / por Mãe sua tão alta, / impureza, mancha, ou falta / nunca em vós podia haver.

foi vossa conceição / sacra, rara, limpa, e pura.

Temos pois, ao longo de quatro décimas, a explicação da concepção sem pecado e o incitamento ao louvor de Deus na glorificação da Virgem:

Louvem-vos os serafins / que nessa Glória vos vêem, / e todo o mundo também / por todos os fins dos fins:

 

DÉCIMAS

Antes de ser fabricada

do mundo a máquina digna,

já lá na mente divina,

Senhora estáveis formada:

com que sendo vós criada

então, e depois nascida

(como é cousa bem sabida)

não podíeis, (se esta sois)

na culpa que foi depois,

nascer, Virgem, compreendida

 

Entre os nascidos só vós

por privilégio na vida

fôstes, Senhora, nascida

isenta da culpa atroz:

mas se Deus (sabemos nós)

que pode tudo, o que quer,

e vos chegou a eleger

por Mãe sua tão alta,

impureza, mancha, ou falta

nunca em vós podia haver.

 

Louvem-vos os serafins

que nessa Glória vos vêem,

e todo o mundo também

por todos os fins dos fins:

Potestades, querubins,

e enfim toda a criatura,

que em louvar-vos mais se apura,

confessem, como é razão,

que foi vossa conceição

sacra, rara, limpa, e pura.

 

O Céu para coroar-vos

estrelas vos oferece,

o sol de luzes vos tece

a gala, com que trajar-vos:

a lua para calçar-vos

dedica o seu arrebol,

e consagra o seu farol,

porque veja o mundo todo,

que brilham mais deste modo

Céu, estrelas, lua, e sol.

Noticia bibliográfica

Publicado em Gregório de Matos, Se Souberas Falar Também Falaras, Antologia Poética, Organização, selecção, estudo e notas de Gilberto Mendonça Teles, INCM, Lisboa, 1989.

 

Jorge de Sena — ISTO seguido de Glosa à Chegada do Outono

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Degas - Diego Martelli 1879Isto que … como tempo passa e vais medindo / em rugas e lembranças e em sombrias / e plácidas visões de coisa alguma, … Isto que passa como vida …/ não queiras, não perguntes, não esperes

Abro com um poema de Jorge de Sena (1919-1978) escrito nos tempos sombrios do Portugal de finais dos anos 50, onde a recusa da aceitação da vida como ela se oferecia, corre. Haverá pontos de contacto com a realidade portuguesa de hoje? Sentem os portugueses, hoje, ISTO, assim? Aos leitores a resposta.

 ISTO

Não queiras, não perguntes, não esperes.

Isto que passa como vida e tu

medes em dias, horas e minutos,

ou como tempo passa e vais medindo

em rugas e lembranças e em sombrias

e plácidas visões de coisa alguma,

às vezes sorridentes, mas sombrias;

sim: isto, a que dás nomes, que separas

do resto em que surgiu, de que surgiu;

isto, que já não queres, não interrogas,

de que já nada esperas, mas que queres,

porque perguntas sempre, e por que esperas;

isto, que já não és tu, nem vai contigo,

nem fica quando vais; em que não pensas,

porque ao medir apenas medes e

nada mais fazes que medir — só isto,

apenas isto, isto unicamente:

não queiras, não perguntes, não esperes,

que o pouco ou muito é tudo o que te resta.

1958

Há evidentemente uma leitura atemporal do poema, convocando a reflexão sobre o passar do tempo em cada um e as escolhas por fazer, num adiar que leva para o passado os sonhos quando as rugas e lembranças se instalam no lugar da vontade do novo:

Tem tanta pressa o corpo! E já passou, / quando um de nós ou quando o amor chegou.

E com isto aporto ao poema Glosa à Chegada do Outono também de Jorge de Sena escrito pela mesma época.

 

Glosa à Chegada do Outono

O corpo não espera. Não. Por nós

ou pelo amor. Este pousar de mãos,

tão reticente e que interroga a sós

a tépida secura acetinada,

a que palpita por adivinhada

em solitários movimentos vãos;

este pousar em que não estamos nós,

mas uma sêde, uma memória, tudo

o que sabemos de tocar desnudo

o corpo que não espera; este pousar

que não conhece, nada vê, nem nada

ousa temer no seu temor agudo…

 

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,

quando um de nós ou quando o amor chegou.

1958

 

Notícia bibliográfica e iconográfica

Poemas publicados pela primeira vez em Fidelidade, 1958. Transcritos de Poesia – II, Moraes Editores, Lisboa 1978.

É de Degas (1834-1917) a pintura que acompanha o artigo.

Senhora das Maravilhas — soneto de Violante do Ceo

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Perú Escola de Cusco - representação da Virgem sec XVII-XVIIIPara uma mente organizada nos pressupostos do método científico como forma de percepcionar a verdade, há um esforço prévio à fruição da poesia religiosa, sobretudo no período barroco, decorrente do argumentário organizado nesta. Aqui, a matéria de fé não oferece controvérsia e a verdade revelada é o ponto de partida inquestionado para o exercício verbal da devoção.

Entre os exemplos notáveis desta expressão poética encontro este soneto à Virgem escrito por Soror Violante do Ceo (1601-1693), dando conta de uma visão deslumbrada — Quem quiser ver de Deus as maravilhas, / Veja das maravilhas a Senhora. Seriam adequadas considerações de história religiosa a pretexto da identificação que o poema faz entre Deus e a Virgem Maria, para as quais não estou minimamente preparado. Atenho-me por isso à construção do poema para realçar quanto o vocabulário laudatório e a construção do verso criam, à medida que o poema avança, uma encantatória melodia, que em crescendo nos leva à chave do soneto num emocionante remate.

 

A Nossa Senhora das Maravilhas

Ó Tu de Maravilhas superiores

Compêndio singular, cifra divina,

Do artífice maior obra mais dina,

Belíssimo exemplar de excelsas flores!

 

Maravilha maior entre as maiores,

Glória da Magestade Única e Trina,

Norte celestial, luz matutina,

Epílogo de eternos resplendores!

 

Flor, que aos mesmos anjos maravilhas,

Aplauda-te a harmonia mais sonora

Vendo, que só a Deus teu ser humilhas.

 

E diga Céu e Terra (ó bela Aurora)

Quem quiser ver de Deus as maravilhas,

Veja das maravilhas a Senhora.

Notícia bibliográfica

O poema de Soror Violante do Ceo encontra-se na obra Parnaso lusitano de divinos e humanos versos Vol I, 1733. Modernizei a ortografia.

Iconografia

Abre o artigo uma imagem da Virgem pintada no Perú colonial no século XVII-XVIII. Conhecidas como Escola de Cusco (antiga capital do império Inca), estas pinturas coloniais de assunto religioso Católico Romano, dão conta de uma fascinante simbiose entre imaginário popular e codificação erudita da doutrina católica através de uma linguagem pictórica de surpreendente originalidade. Revelando prodigioso domínio técnico, fazem tábua rasa das aquisições de representação praticadas na pintura europeia da época e desenvolvem-se num universo estético fechado, onde os assuntos sacros são por vezes contaminados pelo quotidiano profano como neste arcanjo com arcabuz com que encerro o artigo.

Perú Escola de Cusco - representação de aracanjo com arcabuz sec XVII-XVIII

O demiurgo como arquitecto — iluminura do séc. XIII

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Biblia Moralizada 1220-1230 folio 1 versoGuardam-se nos pergaminhos medievais preciosas iluminuras, verdadeiras obras-primas de impossível acesso directo e que só lentamente o progresso técnico de reprodução tem vindo a permitir conhecer.

Entre as imagens mais conhecidas encontra-se, talvez, a que abre o artigo: representação de Deus como criador do universo, mostrado enquanto arquitecto fixando a medida do mundo. Atendendo à legenda que encima a imagem, representa esta a passagem do Génesis 1, em que Deus criou o céu e a terra, o sol e a lua e todos os elementos.

A simbólica medieval é riquíssima e vai lentamente sendo estudada e compreendida. A utilização do círculo para representar o cosmos é antiga e nesta pintura a sua perfeição e harmonia conforma a irregularidade dos corpos materiais — terra, sol, nuvens e estrelas — e a sua mutabilidade, desenhados fazendo lembrar corpos vivos em actividade.

Na imagem, o acto de criação divina é um acto artístico, enfatizador da importância dos arquitectos e da arquitectura, numa época em que estes assumiam relevante importância na sociedade francesa enquanto criadores das catedrais góticas: construções pensadas na sua geometria espacial, para conduzir ao encontro de Deus, encaminhando o olhar, desde a entrada, para as alturas.

No propósito de transmitir mensagens complexas de doutrina, a arte gótica adoptou uma técnica de representação que embora separe o humano do divino, mantém este suficientemente próximo do mundo conhecido para permitir a sua assimilação sem ambiguidades.

Nestas preciosas obras de fruição na intimidade, até final do século XIII são sobretudo imagens de narrações bíblicas e colecções de cantos com iluminuras (saltérios) o que nestes pequenos pergaminhos até nós chegou. Mais tarde surgem as crónicas dos reinos, a de Carlos Magno no início do século XIV, os livros de horas com o seu calendário de devoções, e livros de utilidade, como o belíssimo livro da caça de Gaston Phoebus no início do século XV. O aparecimento da imprensa no final deste século XV, apesar da sua rápida divulgação num mundo em acelerada mudança, não pôs logo fim à produção destas obras-primas em pergaminho, e o século XVI ainda vê surgir algumas obras de grande beleza entre as quais a Genealogia do Infante D. Fernando de Portugal.