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Bolivia Luis Niño 1740No curto passeio pela poesia de matriz católica que por estes dias faço, escolho agora um poema de Gregório de Matos (1636-1696) cuja poesia popularizada anda mais ligada ao desbocado da sátira, tantas vezes obscena, que às matérias de confissão.

Se no soneto de Violante do Ceo de artigo anterior apenas uma visão deslumbrada corre, nas décimas de Gregório de Matos hoje transcritas há um esforço de encontrar causalidade na explicação do sobrenatural, mas de novo apenas a matéria de fé surge como argumento.

Preocupa-se o poeta em explicar a virgindade de Maria após a concepção de Jesus, e encontra apenas uma vontade primordial em Deus para fundamentar a ocorrência: Maria será mulher na terra e mãe do Filho de Deus e por isso isenta do pecado que condenou Eva.

Antes de ser fabricada / do mundo a máquina digna, / já lá na mente divina, / Senhora estáveis formada:

mas se Deus (sabemos nós) / que pode tudo, o que quer, / e vos chegou a eleger / por Mãe sua tão alta, / impureza, mancha, ou falta / nunca em vós podia haver.

foi vossa conceição / sacra, rara, limpa, e pura.

Temos pois, ao longo de quatro décimas, a explicação da concepção sem pecado e o incitamento ao louvor de Deus na glorificação da Virgem:

Louvem-vos os serafins / que nessa Glória vos vêem, / e todo o mundo também / por todos os fins dos fins:

 

DÉCIMAS

Antes de ser fabricada

do mundo a máquina digna,

já lá na mente divina,

Senhora estáveis formada:

com que sendo vós criada

então, e depois nascida

(como é cousa bem sabida)

não podíeis, (se esta sois)

na culpa que foi depois,

nascer, Virgem, compreendida

 

Entre os nascidos só vós

por privilégio na vida

fôstes, Senhora, nascida

isenta da culpa atroz:

mas se Deus (sabemos nós)

que pode tudo, o que quer,

e vos chegou a eleger

por Mãe sua tão alta,

impureza, mancha, ou falta

nunca em vós podia haver.

 

Louvem-vos os serafins

que nessa Glória vos vêem,

e todo o mundo também

por todos os fins dos fins:

Potestades, querubins,

e enfim toda a criatura,

que em louvar-vos mais se apura,

confessem, como é razão,

que foi vossa conceição

sacra, rara, limpa, e pura.

 

O Céu para coroar-vos

estrelas vos oferece,

o sol de luzes vos tece

a gala, com que trajar-vos:

a lua para calçar-vos

dedica o seu arrebol,

e consagra o seu farol,

porque veja o mundo todo,

que brilham mais deste modo

Céu, estrelas, lua, e sol.

Noticia bibliográfica

Publicado em Gregório de Matos, Se Souberas Falar Também Falaras, Antologia Poética, Organização, selecção, estudo e notas de Gilberto Mendonça Teles, INCM, Lisboa, 1989.

 

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