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Propunha-me publicar no blog o soneto de David Mourão-Ferreira, Ternura quando verifiquei que já aqui se encontrava num esquecido artigo do inicio do blog. Recordo-o agora às escassas dezenas dos primeiros leitores, e talvez aos novos leitores agrade.

Às vezes sou tentado a levar o blog para a realidade dos dias mas depressa me arrependo. No entanto, ao acontecimento de hoje não resisto.

Tinha na semana passada na caixa do correio um aviso para levantar uma carta registada das Finanças. É entidade a quem não devo nada, de quem dispenso o contacto e que me faria imensamente feliz se esquecesse a minha existência. Infelizmente não é assim e vivamos com o que temos.

O carteiro procurara-me em casa a hora em que obviamente estaria a trabalhar e em vez da carta deixou aviso: vá buscá-la a partir das 10H00 do dia tantos ao posto de Correios tal.

Passaram os dias e eu sem vontade de tomar conhecimento dos desejos das Finanças até que hoje, terminando o prazo para levantar a carta, lá fui ao tal posto de Correios.

Havia gente, muita gente. Tirei senha, o nº 117. Olhei o contador dos atendidos e iam no nº 73. Eram dois postos de atendimento e esperei. Preparara-me para alguma demora, não para isto. No Bolso levava a Lira para eventualmente entreter a espera. Afinal não. O burburinho da conversa de quem esperava e os diálogos dos guichets levaram a melhor, e embalado segui doenças, remédios, instruções de preenchimento de impressos, o custo de vida, e soube que nestes tempos de telemóvel há ainda quem vá aos Correios telefonar.

Chegou a minha vez de ser atendido e munido da intimação do carteiro e do bilhete de identidade, apresentei-me à funcionária. Olhou-me, olhou a foto do BI, achou que era a mesma pessoa e estendendo-me o aviso que lhe entregara, imperou:

– Assine aqui! Igual ao bilhete de identidade.

Obedeci.

Levantou-se, desapareceu, e passados minutos regressou. Na mão um papel branco com letras, era a notificação das Finanças. Entregou-mo, e na posse de tão indesejado documento, com mil cuidados para não rasgar, o coração acelerado, abri a coisa,

e leio:

– Fica V. Exa. Notificado(a) nos termos do art. … da liquidação do Imposto de … no total de zero euros (o destaque é meu).

Em nota final o impresso informava que o valor liquidado (zero euros) não será objecto de cobrança.

Com os melhores cumprimentos assinou o Director-Geral, e eu, enquanto Excelência fiquei notificado de que nada aconteceu.

Tanto tempo perdido por tanta gente para isto!

Concluido o episódio regresso à intemporalidade da poesia e do amor lendo aqui alguns dos poemas que levei no bolso.

MINUTO

O amor? Seria o fruto

trincado até mais não ser?

(Mas para lá do prazer

a Vida estava de luto …)


Fui plantar o coração

no infinito: uma flor…

(Mas para lá do fervor

a Vida gritou que não!)


O amor? Nem flor nem fruto.

(Tudo quanto em nós vibrara

parecia pronto a ceder …)


Foi apenas um minuto:

a fome intensa tão rara!,

de ser criança, ou morrer…


Jovem de 22 anos, David Mourão-Ferreira exprime assim a pressa de quem do amor ainda não aprendeu o prazer da demora, numa confusão adolescente de não saber o que importa.

É ainda o adolescente dos anos 40 que ecoa neste SONETO DO CATIVO onde ressoam os contrastes entre amor de ouvir dizer, preconceitos e culpas de pecado numa sociedade vigiada:


 

Se é sem dúvida Amor esta explosão

de tantas sensações contraditórias;

a sórdida mistura das memórias,

tão longe da verdade e da invenção;


o espelho deformante; a profusão

de frases insensatas, incensórias;

a cúmplice partilha nas histórias

do que os outros dirão ou não dirão;


se é sem dúvida Amor a cobardia

de buscar nos lençóis a mais sombria

razão de encantamento e de desprezo;


não há dúvida, Amor, que te não fujo

e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,

tenho vivido eternamente preso!


A idade avança, a experiência também, e é outra a realidade neste

TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol,

que é feito de ternura amarrotada,

da frescura que vem depois do Sol,

quando depois do Sol não vem mais nada…


Olho a roupa no chão: que tempestade!

Há restos de ternura pelo meio,

como vultos perdidos na cidade

onde uma tempestade sobreveio…


Começas a vestir-te, lentamente,

e é ternura também que vou vestindo,

para enfrentar lá fora aquela gente

que da nossa ternura anda sorrindo…


Mas ninguém sonha a pressa com que nós

a despedimos assim que estamos sós!


E no prazer do corpo o amor ganha a essencialidade dos elementos  Não, meu amor … Nem todo o corpo é carne: / é também água, terra, vento, fogo

Seguindo esta poesia saberemos o seu segredo mais à frente – no teu corpo existe o mundo todo!


PRESIDIO

Nem todo o corpo é carne… Não, nem todo.

Que dizer do pescoço, às vezes mármore,

às vezes linho, lago, tronco de árvore,

nuvem ou ave, ao tacto sempre pouco?…


E o ventre, inconsistente como o lodo?…

E o morno gradeamento dos teus braços?

Não. Meu amor… Nem todo o corpo é carne:

é também água, terra, vento, fogo…


É sobretudo sombra à despedida;

onda de pedra em cada reencontro;

no parque da memória o fugidio


vulto da primavera em pleno Outono…

Nem só de carne é feito este presídio,

pois no teu corpo existe o mundo todo!


Mas o perigo de olhar o mundo da cintura para baixo espreita:

CASA

Tentei fugir da mancha mais escura

que existe no teu corpo, e desisti.

Era pior que a morte o que antevi:

era a dor de ficar sem sepultura.


Bebi entre os teus flancos a loucura

de não poder viver longe de ti:

és a sombra da casa onde nasci,

és a noite que à noite me procura.


Só por dentro de ti há corredores

e em quartos interiores o cheiro a fruta

que veste de frescura a escuridão…


Só por dentro de ti rebentam flores.

Só por dentro de ti a noite escuta

o que sem voz me sai do coração.


Visitados que foram os tormentos do sexo ao concentrar aí o mundo Só por dentro …, voltemos à despreocupada alegria do poeta jovem:

ALBA

Com grinaldas de lodo sobre a testa,

presos os pés em turbilhões de limos,

– assim a madrugada nos desperta

e após a preia-mar nós emergimos.


Lambe-me o rosto a fimbria do lençol,

amarrotada, poluida espuma…

Sobre a salsugem, uma angustia mole,

que o pensamento arruma e desarruma.


por fim derruba o muro dos enganos,

e ante nós dois derrama esta pergunta:

– De que infernos vibrantes nos soltamos,

sem que o céu compareça ou nos acuda?


Findo este pequeno tour pela criação poética de David Mourão-Ferreira antes dos 35 anos e da Matura Idade, tenho uma provável surpresa para a maior parte dos leitores: os primeiros poemas publicados aos 19 anos e que o autor, já adulto e consciente, repudiou, nunca os incluindo na sua obra poética.

Estas primícias poéticas foram publicadas numa edição de autor, colectiva, feita em 1946 e de seu nome RUMOS  ANTOLOGIA DE CONTOS E POEMAS.

A edição contém obras de Ana Maria Caeiro, Carlos Garcia, David Mourão Ferreira (sem hifén) João Belchior Viegas, José-Aurélio, José Rabaça, Mário António, Orlando Pinto Baptista e Vitor Parracho.

De David Mourão-Ferreira constam do livro 5 poemas,  quais sejam:

QUINTO POEMA DE HESITAÇÃO

VOZ

CÂNTICO

IMAGEM

PEDIDO

Este último diz-se que pertence ao livro no prelo “BARCO ENCALHADO” que a contra-capa de RUMOS anuncia “A sair brevemente”

O “BARCO ENCALHADO”, que eu saiba nunca viu a luz do dia e o primeiro livro a publicar pelo autor foi antes A SECRETA VIAGEM em 1950.

Temos pois que nos 4 anos que medearam, o poeta desencalhou o barco e seguiu na viagem que nos contou e da qual extraí MINUTO.

Eis então os poemas de RUMOS

QUINTO POEMA DE HESITAÇÃO

Não me digam que não,

Que pr’além desta vida

Não existe outra vida,

Onde os sonhos deixarão de ser sonhos,

Permanecendo neles, porém,

Aquele encanto e aquela graça

Que só os sonhos têm…


Não me digam que não,

Que por trás destes muros,

Serenos e caiados –

Destinos conhecidos – ,

Não existem regatos

E não existem prados

E rosas e lirios…


Não me digam que não,

Que não hei-de encontrar

Em busca de quem vou…

Não me digam que não!,

Deixem-me ir iludido,

Já que iludido estou!…


E depois, se eu voltar,

Inutil e cansado,

Digam-me então, que não,

Que errei o meu caminho…

Deixem-me então, morrer,

Vazio de sonhos e podre de cansaços…

Digam-me então que não!,

Ainda que eu vos peça de joelhos

E vos estenda os braços!…

VOZ

Apenas respondo às vozes

Que chamam dentro de mim.

Meus passos só são velozes

Pra essas vozes assim…


Não me chamem pois de fora,

Que nunca vou nem irei.

Se acaso me for embora

É respeito à minha lei.


Apenas respondo às vozes

Que chamam dentro de mim:

Só irei quando chamarem!

Só então direi que sim!


CÂNTICO

Ah! São as árvores erguidas

E os caminhos desertos,

Desertos e abertos,

Promessas de vida…,

Ah! São os lamentos de cores

E os ambientes tristes,

Lembranças de dores…;

Ah! É tudo isto,

Tudo, tudo,

Que me envolve, me inunda,

Me estende seu manto

De pureza e de encanto…

– Pureza que eu canto,

Encanto de tudo!…


IMAGEM

Rio manso como um charco,

Largo ninho de gaivotas,

Sulcado por tanto barco,

Desiludido das rotas!


Rio manso como um charco!

Tu és bem a minha imagem:

Em mim também há um barco

Já cansado de viagem…


Mas sou inferior a ti,

Que deslizas para o mar,

Enquanto que eu, ai de mim!,

Não sei onde irei parar…


PEDIDO

Antes de tu apareceres,

Eu era um barco encalhado,

Perdido num mar qualquer…

Era um relógio parado,

Que ninguém queria arranjar,

Não obstante ainda ter

Muita corda para andar…


Antes de tu apareceres,

Ai tanta cois aque eu era,

Sem nada ser, afinal…!

Era um romance imperfeito,

Que tinha o grande defeito

De ser bastante banal…


Mas agora… agora que tu vieste,

Que tu vieste e encheste

Da sombra dos teus cabelos

E dos teus gestos singelos

O marasmo dos meus dias…


Agora… agora, o que peço

É que fiques!,

Não me deixes!,

Pra que eu não tenha outra vez

As passadas horas frias

Daquelas vãs agonias

Que tu viste – e já não vês!


Lidas estas primícias dificilmente se suspeita a floração de que mais tarde o poeta seria capaz. E certamente não tinha ainda travado conhecimento com a balzaquiana do andar de cima, iniciadora nas lides do amor e fonte de inspiração segura dos primeiros poemas aceites na obra poética.


Noticia Bibliográfica:

Tal como referi no início, os poemas foram transcritos de LIRA DE BOLSO, antologia de escolha do poeta e publicada em 1969 por publicações dom quixote na colecção cadernos de poesia.

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