Portugal – soneto de Miguel de Unamuno e homenagem de Torga ao filósofo-poeta

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Jean Froissart - cerco lisboa em 1384Lermo-nos pelo olhar dos outros, quando inteligentes e despreconceituados, ajuda-nos a perspectivar uma história e um sentir colectivo que frequentemente parece perdido nestes conturbados tempos de crise.

É sabido o conhecimento, o carinho, e admiração de Don Miguel de Unamuno (1864-1936) por Portugal, pela cultura portuguesa, por terras e gentes de Portugal; o que a correspondência conhecida, trocada com grandes vultos da cultura portuguesa, e o livro Por Tierras de Portugal y de España evidenciam.

Transcrevo hoje o poema PORTUGAL dando na sua forma condensada em soneto, algo do que nos define enquanto povo: a geografia que nos desenhou e a história que deixou para as mulheres a guarda do que ficou, quais leoas de olhar desconfiado protegendo as crias, e a ansiedade expectante do que o futuro trará. Partem os homens na busca de melhor vida. Regressarão?

 

Não sei se será este PORTUGAL o poema a que Unamuno se refere em carta a Manuel Laranjeira datada de Salamanca, 08-10-1908, onde diz a certa altura:

“Voltei outra vez a um poema que comecei há três anos no Porto e a que chamo Portugal. Essa sua terra atrai-me e atrai-me sobretudo por causa das suas desgraças e prostração.

 

PORTUGAL

 

Do atlântico mar na praia areosa

uma matrona descalça e desgrenhada

senta-se ao pé de uma serra coroada

por triste pinheiral. Nos joelhos pousa

 

os cotovelos e nas mãos a ansiosa

face, e olhos de leoa desconfiada

crava no poente; o mar dá a toada

trágica, de altos feitos sonorosa.

 

Fala de vastas terras e de azares

enquanto ela, seus pés nessas espumas

banhando, sonha no fatal império

 

que se sumiu nos tenebrosos mares,

e olha como entre agoureiras brumas

se ergue D. Sebastião, rei do mistério.

 

Salamanca, 28 IX 1910

Tradução de José Bento in Miguel de Unamuno, Antologia Poética, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003.

 

Termino com o poema-homenagem que Miguel Torga (1907-1995) escreveu para Unamuno.

 

Unamuno

 

D. Miguel…

Fazia pombas brancas de papel

Que voavam da Ibéria ao fim do mundo…

Unamuno Terceiro!

(Foi o Cid o primeiro,

D. Quixote o segundo.)

 

Amante duma outra Dulcineia,

Ilusória, também

(Pátria, mãe,

Ideia

E namorada),

Era seu defensor quando ninguém

Lhe defendia a honra ameaçada!

 

Chamado pelo aceno da miragem,

Deixava o Escorial onde vivia,

E subia, subia,

A requestar na carne da paisagem

A alma que, zeloso, protegia.

 

Depois, correspondido,

Voltava à cela desse nosso lar

Por Filipe Segundo construído

Com granito da fé peninsular.

 

E falava com Deus em castelhano.

Contava-lhe a patética agonia

Dum espírito católico, romano,

Dentro dum corpo quente de heresia.

 

Até que a madrugada o acordava

Da noite tumular.

E lá ia de novo o cavaleiro andante

Desafiar

Cada torvo gigante

Que impedia o delírio de passar.

 

Unamuno Terceiro!

Morreu louco.

O seu amor, por ser demais, foi pouco

Para rasgar o ventre da Donzela.

D. Miguel…

Fazia pombas brancas de papel,

E guardava a mais pura na lapela.

 

Publicado em Poemas Ibéricos (1ªedição em 1965).

 

Abre o artigo uma iluminura medieval figurando o cerco castelhano a Lisboa durante a crise de 1383-1385 — “Se Lisboa se não opusera todo o reino se perdera, D. João I”.

Termino com outra iluminura, desta vez pretendendo ilustrar a batalha de Aljubarrota onde Castela foi definitivamente derrotada, e figurou como heroína a célebre Padeira de Aljubarrota.

Batalha Aljubarrota

Retratos extraordinários — Mulher pintada por António Puga

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Puga_Antonio-Old_Woman_SeatedÉ este retrato de uma mulher quase velha, pintado por António Puga (1602-1648), pintor galego natural de Orense, uma eloquente imagem da dignidade na parcimónia material da vida.

Sentada frente a nós, num interior despido de supérfluo, a mulher medita, e não teremos dificuldade em o imaginar, na dureza da vida e no que é preciso para a levar pela frente.

Pintado no século XVII, num tempo que em Portugal se exercia o domínio espanhol, a mulher  pintada, ainda que sendo eventualmente galega,  bem podia ser portuguesa, e pensaríamos que eram apenas história as dificuldades entrevistas na pintura. Será assim?

A profissão leva-me todos os dias ao encontro dos efeitos sociais da crise económica, e a evidência de como cada um, no silêncio da sua intimidade aceita as dificuldades do dia a dia, é uma lição de quanto os governantes não merecem o povo que governam.

Ser velho hoje, em Portugal, parece ser uma maldição, gritada a cada hora que passa. Interrogo-me, quando o ouço, que país encontrou esta gente ao nascer, quem os alimentou, quem os levou à escola, quem lhes deu o que não tinham e só por nascer ganharam?

 

Solidão e velhice em dois poemas de Fernanda de Castro

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foto 272 Z BW600pxQue lhe resta, coitada, / à Senhora de idade?

Resta-lhe pouco ou nada, / porém resta-lhe tudo:

uma grande saudade, / um sofrimento mudo / que é reserva e pudor,

às vezes uma flor, / e a sua dignidade.

A biografia de Fernanda de Castro (1900-1994) pesa hoje, ainda, sobre a sua obra poética, impedindo uma análise despida das leituras políticas que a biografia implica. Terá que ser a geração agora nos 30 anos, ou mais nova, para quem as contas do Estado Novo sejam assunto arrumado em livros de biblioteca, a fazer a leitura desta poesia, no seu valor literário.

 

O melhor da sua poesia surge no relato de pequenos quadros urbanos onde uma expressão de simpatia humana comove. Essa simpatia humana já se encontrava nas quadras de sabor popular surgidas no livro Danças de Roda em 1921, e que a autora escolheu deixar de fora da compilação da sua poesia reunida em Poesia (1919-1969).

Surge nesta compilação um poema narrativo, inédito até aí, Bloco 65, o qual dá conta do ambiente urbano e de vizinhança na Lisboa moderna que à época surgia. Ao lê-lo, é para a prosa poética de Irene Lisboa que a memória vai, o que vistas as datas das obras de uma e outra, poderá significar que Fernanda de Castro foi permeável à obra da escritora perseguida pelo Estado Novo. A dimensão do poema, que se estende por 60 páginas do livro, inibe no blog a sua transcrição. Fica a nota.

É a Urgente, ultimo livro de poemas publicado em 1989 pela escritora, que vou buscar dois poemas que de uma forma pungente contam da solidão e da velhice, o que à nossa volta encontramos, se pararmos para olhar e ver. Confidenciava-me há poucos anos pessoa amiga que entre as suas relações, uma mulher lhe dizia: a viver sozinha prefiro qualquer pessoa comigo para pelo menos ouvir uma porta bater.

 

Solidão

Solidão:

ouvir passos, sabendo de antemão

que ninguém vai passar,

bater à porta.

Abrir, ansiosa, a caixa do correio,

duas vezes por dia,

sabendo muito bem

que está vazia.

Olhar o telefone horas a fio,

ano após ano,

tocar a campainha

e ouvir dizer:”Desculpe, foi engano.”

Ouvir ranger a porta do ascensor,

senti-lo estremecer,

arrancar com uma espécie de estertor,

e, enfim, parar,

mas sempre noutro andar.

Pôr na mesa um talher

para alguém que vier,

sabendo muito bem

que ninguém vem.

Pôr um vestido novo,

um anel, um colar,

sabendo que ninguém vai reparar.

Ver o cabelo embranquecer aos poucos,

a pele envelhecer, perder o viço,

e ninguém dar por isso.

Morrer. E alguém ler num jornal:

Morreu Fulana. O funeral…

 

A senhora de Idade

A Senhora de idade,

de tão bons sentimentos,

tão bonitas maneiras,

vive dos rendimentos.

Vive, não, sobrevive.

A roupa está no fio,

tem, porém, o seu brio,

não se queixa a ninguém.

Vive triste, sozinha,

e pouco sai de casa

porque o barulho a arrasa.

Depois, sair com quem?

Não tem filhos, é viúva

e teme a solidão,

receia o vento, a chuva.

Apetece-lhe, às vezes,

ver os barcos no rio,

os pombos no Rossio,

mas não, custa-lhe a andar,

o calçado está caro

e cada mês que passa

o dinheiro é mais raro.

Mas de que vive então?

De alguns copos de leite,

de chá e de tisanas,

de pão e duma sopa,

a mesma, quase a mesma,

semanas e semanas.

Vai à missa, ao domingo,

e às vezes, quando há sol

ou cheira a maresia,

compra um fruto, uma flor,

para ter companhia.

Que lhe resta, coitada,

à Senhora de idade?

Resta-lhe pouco ou nada,

porém resta-lhe tudo:

uma grande saudade,

um sofrimento mudo

que é reserva e pudor,

às vezes uma flor,

e a sua dignidade.

Foi feita por mim a foto que abre o artigo.

A viagem de Brandão ao Paraíso

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Triptych of Garden of Earthly Delights (central panel) det8

São os leitores do blog pessoas de austero gosto e ocupadas em elevados pensamentos. Procurando ir ao seu encontro, o que nem sempre se proporciona, transcrevo a visita que Brandão, abade irlandês, terá feito ao paraíso terreal no século VI.

 

Eles navegaram quarenta dias no alto-mar

Sob a protecção do rei divino

Se acercaram da neblina espessa

Que envolvia aquele lugar do Paraíso.

Era a neblina tão cerrada e escura

Que engolia quem nela entrasse

Ao acercarem-se viram a nuvem partir-se ao meio

E abrir um espaço com a largura de uma rua

Durante três dias navegaram velozes

Por aquele caminho certo e seguro.

E ao longe avistaram o Paraíso.

Viram primeiro uma alta muralha

Erguida a direito até às nuvens.

Triptych of Garden of Earthly Delights (left wing) det4Introduzidos que estão os leitores no quadro temporal e geográfico da viagem, talvez se perguntem agora:

Mas afinal quem era este Brandão?

 

O Abade Brandão, homem que era

De muito siso, prudente e sagaz,

 

E que queria da vida?

 

Queria saber antes ainda da sua morte

Como é a casa onde só os bons podem entrar

E qual o lugar aos maus destinado

Triptych of Garden of Earthly Delights (central panel) det9

Pelos vistos Deus concedeu-lhe o desejo. Aí vai uma parte da história. O resto conta-a Benedeit em A viagem de São Brandão.

 

Visão do Paraíso

 

Abriu-se a porta de par em par

E eles entraram na verdadeira glória.

Seguiu adiante o formoso donzel

Que lhes foi mostrando o Paraíso.

Formosíssimos bosques rios e ribeiras

Cobrem e sulcam aquela terra.

São um jardim as pradarias

Florido tapete das mais belas flores.

Como em lugar piedoso e santo

As flores exalam suaves aromas.

Árvores frondosas flores preciosas

Variados frutos de raro perfume.

Não se vêem ortigas e cardos não há

Não crescem silvas nem matagais.

Árvores e ervas flores e plantas

Tudo desprende suave doçura.

As árvores dão frutos abrem-se as flores

Em cada dia de qualquer estação.

Os dias de verbosas todos os dias

Nas árvores medram as flores e a fruta

Nos bosques pastam veados sem conto

Saborosos peixes nadam nos rios

Nos Campos correm regatos de leite.

É uma terra abundante e farta!

Como o rocio caído do céu

O mel escorre de arbustos e juncos.

Generoso em ouro e pedras de preço

Ergue-se um monte como um tesouro.

Ali é eterno o esplendor do sol

O vento e a brisa não movem um pelo

E não há uma nuvem a pairar no ar

Roubando ao sol claridade e luz.

Quem ali morar penas não sofre

Nem há nenhum mal que lhe toque em sorte

Borrasca ou calor o gelo e o frio

A fome e a sede ou a vil miséria.

A sua riqueza será abundante

De tudo terá mais que à vontade.

Sem nada perder é certo e seguro

No dia a dia tudo há-de achar.

Brandão deleitou-se na alegria

Daquela hora que parece breve.

Ele bem queria ver e gozar

Demorar o olhar sem tempo nem pressa.

O donzel o levou por ali adentro

E muitas coisas lhe foi ensinando

E descrevendo com muitas minúcias

Prazeres e delícias que haverá de gozar.

Foi o donzel com o abade atrás

Até um monte de ciprestes coberto.

Do cume do monte ele viu maravilhas

Que estas palavras não podem contar.

Ele viu os anjos e também os ouviu

Cantar a alegria pela sua chegada.

Jamais escutara tão suave melodia

Tão branda e tão doce que fazia sofrer

E de seu natural não entendia

Não sabia gozar tão imensa glória.

Disse o donzel:  “Regressemos agora!

Mais adiante não vos posso levar

Mais vos mostrar não é permitido

Embora haja ainda muito a saber.

Triptych of Garden of Earthly Delights (central panel) det7Tal como Brandão, quando ao paraíso voltar o resto verá, assim os leitores das outras maravilhas saberão quando desta vida partirem…

 

Transcrevi da tradução de José Domingos Morais, edição Assírio & Alvim, Lisboa 2005.

Triptych of Garden of Earthly Delights (central panel) det2Acompanham o artigo imagens do tríptico de Hieronymus Bosch (1450-1516), O Jardim das Delícias.

Bosch_Hieronymus-The_Garden_of_Earthly_Delights

O sonho, pintura de Picasso, para um soneto – adivinha de Bocage

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Pablo Picasso - O sonhoEm momentos de desenfado dá-me para a brejeirice. Fujam os leitores para quem a vida só vale se for sempre a sério.

Hoje cá vem um soneto de Bocage (1765-1805) em forma de adivinha, ou uma adivinha em forma de soneto, como preferirem, e cuja solução se encontra na cabeça da mulher pintada por Picasso (1881-1973) mostrada enquanto se entrega a prazeres solitários.

 

 

Soneto XIII

 

É pau, e rei dos paus, não marmelleiro,

Bem que duas gamboas lhe lombrigo;

Dá leite, sem ser arvore de figo,

Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

 

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;

Occo, qual sabugueiro tem o umbigo;

Brando às vezes, qual vime, está comsigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

 

Á roda da raiz produz carqueja:

Todo o resto do tronco é calvo e nú;

Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

 

Para carvalho ser falta-lhe um u;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinhar metta-o no cu.

 

Nota talvez desnecessária

O verso 12 só faz sentido se tivermos presente que no século XVIII tanto o som u como o som v se escreviam de igual forma com u.

 

Transcrevi este Soneto XIII da 1ª edição das Poesias Eroticas, Burlescas e Satyricas de M. M. de Barbosa du Bocage, respeitando integralmente a sua ortografia.

Trata-se de uma edição clandestina de 1854, feita em Lisboa, e datada de Bruxellas — MDCCCLXL, a qual é dos mais estimados exemplares da minha biblioteca.

Capas com assinatura pelo Dia da Mulher

Espiga Pinto420pxEm poesia surgem no blog os mais variados registos onde a mulher participa, daí que, para não deixar em silêncio o Dia da Mulher, tenha resolvido reunir capas de livros, notáveis na sua realização, algumas por consagrados artista plásticos, de obras escritas por mulheres, ou obras em que mulheres são o assunto.

Abro com uma capa de Espiga Pinto para o livro de um esquecido escritor italiano Ercole Patti, As Mulheres (1959?).

Segue-se a capa de Júlio Pomar para a poesia neo-realista de Sidónio Muralha, Companheira dos Homens (1950).

Pomar 400pxAgora a bela capa da 1ªedição das prosas de Irene Lisboa, Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma, por Pitum Keil do Amaral (1955).

Keil 600pxPara uma antologia de contos de Dorothy Parker (1945) fez Vitor Palla esta inesquecível capa.

Palla 400pxCom o último livro de poesia publicado por Ana Hatherly, A Neo-Penélope (2007) surge na capa um deslumbrante desenho da artista.

Hatherly 600pxTermino com as páginas de guarda por Paulo Guilherme, da preciosa edição Estúdios Cor de As Mil e Uma Noites (1958) onde se conta como Sheherazade salvou a vida entretendo o rei Xariar com histórias fantásticas e maravilhosas, que esta edição ilustrada devolve no maior esplendor.

1001 noites 600pxNuma espécie de pos-scriptum, as capas para as traduções de Maria Helena da Rocha Pereira de duas obras imortais da antiga Grécia, Antigona de Sófocles e Medeia de Euripedes. As capas, em belo arranjo gráfico, têm motivos inspirados nas pinturas dos vasos gregos.

Antigona 480px

Medeia 600px

Café — poema de Saúl Dias

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Julio - Espera 1930Saúl Dias pseudónimo como poeta de Júlio Maria dos Reis Pereira (1903-1983), irmão de José Régio, viu a sua obra como poeta ficar escondida na sombra gigantesca do irmão, sobressaindo a sua obra plástica. Nesta  (assinada Júlio) há, sobretudo nas aguarelas e desenhos, uma magia e um quase pudor que desencadeia uma imensa ternura. Não assim nos óleos até aos trinta anos onde a crueza do mundo, na agressividade do colorido se impõe.

É na linha desta pintura onde a magia dos desenhos e aguarelas espreita, o poema Café, de 1934 suponho, que mais à frente transcrevo.

Julio - Aspiracao 1926 Por entre os vapores etílicos 

as garrafas dos álcoois e absintos,

em garbos áticos,

oferedam viáticos…

 sonha-se o amor:

julio - A menina e o poeta

 

E ela vem sempre /como naquela hora / estranha, delicada / e debruada a encanto.

Julio - Menina

Café

 

Quando,

à hora do Jazz,

a minha cabeça rola

pelo tecto pintado do café.

a parede em frente é uma visão de escola

onde um menino de bibe e gola

sonha com aquilo que não é.

 

E até os criados

têm ares purificados

como ascetas dum branco ritual.

E os mármores das mesas,

Com desenhos obscenos,

surdinam várias rezas…

 

E as garrafas dos álcoois e absintos,

em garbos áticos,

oferedam viáticos…

 

E há toalhas brancas e há velas acesas!

 

E ela vem sempre

(só a cabeça dela,

que o corpo

perdeu-o, porventura,

nalgum escuro quarto de aluguer).

Ela vem sempre,

Como naquele dia,

serena e amavia,

única e excepcional.

 

O pianista

comeu os dentes do piano

e canta, de pernas para o ar,

uma canção azul.

O violinista adormeceu de pé numa cadeira

e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

 

E ela vem sempre

como naquela hora

estranha, delicada

e debruada a encanto.

Pura como a água, suave como um manto.

 

O dia é Dia Santo…

 

Termino com uma pequena amostra da pintura de Júlio (dos Reis Pereira)  onde ora a influência de Chagall ora a influência de George Grosz se observa.

 

A qualidade e resolução das imagens é a possível entre o material que circula na net, e infelizmente é muito baixa.

 Julio - À janela 1923

 

Julio - Nocturno 1929

 

Julio - O Velho e a menina

 

 

Julio - O burguês e a menina 1931Julio - Serie poeta tinta da china 1960

Julio - Nocturno 1927Julio - Serie poeta Aguarela

 

Curta visita à poesia de Jorge Sousa Braga

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The Cure of Folly (Extraction of the Stone of Madness) 200px

Todos aqueles que nos primeiros dias de Março perscrutavam atentamente o céu ficaram desapontados. Este ano as andorinhas chegarão atrasadas, devido a uma greve dos controladores de voo.

 

Os livros vêm habitualmente ao meu encontro, e aconteceu uma destas tardes de novo. Tencionava sair mas com a invernia lá fora era tudo o que não me apetecia. Peguei ao acaso num livro da estante: era a poesia reunida de Jorge Sousa Braga (1957). Comecei a ler e por um par de horas gozei o que não esperava com a pensada saída para a rua.

 

São familiares aos leitores do blog traduções poéticas de Jorge Sousa Braga, frequentemente grandes poemas em português, mas da sua poesia original nunca aqui falei.

 

Há sobretudo três  motivos que me fazem gostar de muitos dos poemas que escreveu: a concisão do verso, a cultura que subjaz aos poemas, e o não fugir no assunto à crueza da vida. O modo corrosivo de ecos surrealizantes como nos conta a vida em alguns dos poemas acrescenta um sabor irresistível a esta poesia. Em vários poemas da reduzida escolha de hoje o absurdo reina em grande esplendor. Os poemas dispensam comentários de intermediação e aí ficam.

Leonardo da Vinci - Mona Lisa100px

Resolvido o enigma do sorriso da Gioconda: um dos meninos do Botticelli surpreendeu-a, de noite, com um dedo acariciando o baixo ventre.

Um levantino apaixonou-se pelo crepúsculo e estabeleceu aí residência permanente. Vive agora num avião que se desloca em sentido inverso ao da rotação da terra.

As autoridades marítimas investigam o misterioso desaparecimento da linha do horizonte ao longo de toda a costa atlântica.

Alguns enxames de abelhas invadiram o Museu do Louvre e exploraram cuidadosamente todas as naturezas-mortas com flores, não tendo deixado um único grão de pólen.

 

Les Demoiselles d'Avignon - 1907-19 150px

As demoiselles de Avignon foram surpreendidas numa rusga da polícia, nas imediações do museu.

 

Um homem disfarçado de arco-íris assaltou em pleno dia uma agência bancária mesmo no centro da cidade; alvejado a tiro na perseguição que depois lhe foi movida pela polícia, desfez-se numa bátega de chuva.

 

Um homem que se propusera pintar o Monte Branco de azul e que para o efeito comprara várias latas de tinta e um pincel desapareceu no meio de um violento nevão.

 

Passara quarenta anos de binóculos assestados, a seguir as migrações das aves e a tomar estranhos apontamentos num caderno. A última vez que foi visto voava a meia altura em direcção ao sul.

 

Deixara de acreditar nas ciências tradicionais, desde que se sentara em frente de uma montanha e gritava morango e a montanha lhe devolverá cinquenta alperces, e ele gritara vermelho e a montanha lhe devolvera rosa rosa rosa, um rosa cada vez mais ténue.

 

Goya - Os fusilamentos 175px

Cansados de estarem sempre na mesma posição, os fuzilados de Goya resolveram inverter os papéis e são agora eles que seguram os fusos.

Gauguin_Paul-The_Spirit_of_the_Dead_Keep_Watch 200px

Uma das vahinêes do Gauguin estava perdendo a cor de pêra-abacate. O conservador do museu decidiu proporcionar-lhe umas curtas férias de restabelecimento no Taiti.

in A greve dos controladores de voo

 

Escrito na margem de um rio

Nunca ouvi dizer

que alguém tivesse morrido

afogado em esperma

 

Streape-tease

 

Quanto mais me dispo

menos nu

me sinto

in Plano para salvar Veneza

 

De novo o silêncio

O silêncio é como se fosse água. Daquela água pura da montanha que se bebe directamente pelo coração.

 

O guarda-rios

É tão difícil guardar um rio

quando ele corre

dentro de nós

 

Cataratas

Nenhum rio consegue voar durante muito tempo. Uns segundos no máximo e ei-los que se despenham de muitos metros de altura. Ainda mal refeitos da queda, começam logo a correr a uma velocidade vertiginosa. E de novo se despenham. E só desistem quando se lhes depara o mar pela frente.

 

A última pincelada

Viveu em tempos um pintor que nunca conseguia acabar de pintar uma ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça. Quando se preparava para dar a ultima pincelada, ela levantava voo.

 

E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la com o pincel no céu azul…

 

Foz

Com água no bico

aves marinhas combatem

o incêndio do crepúsculo

 

Sete da manhã

o sol acorda

com olheiras enormes

 

Celas

Lua cheia:

com esta moeda de oiro

posso comprar um sorriso

in Os pés luminosos

 

Canção

Este esperma é puro

como a água de um iceberg

 

Colhido por masturbacao

centrifugado capacitado…

 

Bebe deste esperma simples

ou com gelo e limão

 

Só assim conseguirás

a redenção.

 

Tatuagem

Tinha uma rosa negra tatuada

num dos grandes lábios. E o

 

Púbis religiosamente depilado

como se de ervas daninhas se tratasse

in A ferida aberta

 

A erva da fortuna

A erva da fortuna cresce como por encanto nas orelhas dos políticos, o primeiro-ministro proclama a amnistia para os cucos dos relógios, o degelo nas relações internacionais restabelece o nível das águas nas albufeiras, o ministro da energia esfrega as mãos de contente. Embora o boletim meteorológico seja controlado pelo governo, nuvens cor de chumbo toldam frequentemente o horizonte, os pescadores de águas turvas procuram o alto mar, uma chuva de impostos cai de imprevisto, ah a chuva na primavera, escrevem os poetas.

 

As andorinhas podem passar livremente a fronteira. Os policias oferecem grinaldas aos condutores de veículos mal estacionados. O cio invade a assembleia. Os deputados bombardeiam-se com pólen. Um nostálgico do outono argumenta: a primavera de Praga também foi de lagartas nas estradas.

in De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu

 

Os poemas foram originalmente publicados nos livros mencionados e transcritos de O Poeta Nu [poesia reunida], Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

 

As imagens respeitam às pinturas assunto dos poemas excepto para Gauguin em que nenhuma das pinturas do Taiti é explicitamente referida e é escolha minha.

O poeta é profissionalmente médico obstetra e não neuro-cirurgião. A escolha de A extração da pedra da loucura, pintura de Hieronymous Bosch (1450-1516) para abrir o artigo decorre apenas das pistas que a sua poesia me enviou para ler o mundo.

 

Tu que pareces um perfume desenhado de mulher — José Gomes Ferreira

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A dança 1988 acrilico sobre papel

XXXVI

 

Vive em cada minuto

a tua eternidade

— sem luto

nem saudade.

 

Vive-a pleno e forte

num frenesim

de arremesso.

 

Para que a tua morte

seja sempre um fim

e nunca um começo.

 

Poema XXXVI de Sonâmbulo (1941-42-43).

 

 

Carnaval, tempo de música, de dança, de divertimento, quando os interditos ficam fora do agir, traz consigo o sabor da vida fácil e :

 

Tu que rodopias, leve,

no desdobrar de seda

que paira neste vento de música

que só as pétalas entendem…

 

levas-me ao regaço da memória quando o gozo era simples e sem sobressaltos de tristeza,

 

Tu que…

            (Ah! tu que me pesas nos braços

como se trouxesses um esqueleto de lágrimas

e uma bola de metal no coração

ferrugenta do meu remorso.)

 

Agora que esquartejei o poema de José Gomes Ferreira (1900-1985), convido-vos à sua leitura integral, sem os meandros que à memória me trouxe.

 

VIII

 

Toda a gente me inveja

porque ando contigo nos braços…

 

Tu que pareces um perfume desenhado de mulher

vestida de pólen

e dois olhos que são dois instrumentos modernos

a auxiliarem a melodia do jazz…

 

Tu que rodopias, leve,

no desdobrar de seda

que paira neste vento de música

que só as pétalas entendem…

 

Tu que…

            (Ah! tu que me pesas nos braços

como se trouxesses um esqueleto de lágrimas

e uma bola de metal no coração

ferrugenta do meu remorso.)

 

Poema VIII de Cabaré (1933),

 

Poemas transcritos de Poeta Militante, 1º volume, Moraes Editores, Lisboa, 1977.

A imagem de abertura traz uma pintura de Paula RegoA dança.

Miradoiro — poema de António Manuel Couto Viana

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Miradouro

Hoje, que a luz banha Lisboa e o cheiro da Primavera começa a soprar, da janela onde vejo o rio, ocorre-me este poema de António Manuel Couto Viana (1923-2010), Miradoiro, pérola no descrever do sentimento que a paisagem inspira.

A foto, fi-la, anos vai, ao olhar Lisboa a partir de Alcochete, na margem sul do rio Tejo.

 

Miradoiro

 

Frágeis, acenam alvos lenços d’asas

As gaivotas que a brisa, mansa, embala.

O rio azula, emoldurado em casas

— Que lindo quadro para pôr na sala!

 

No lírico perfil fogem veleiros,

Onde embarquei uns restos de ansiedade;

E, no cais, os guindastes e os cargueiros

São prática e viril realidade.

 

É mentira, talvez,

Assinar com meu nome esta poesia:

O Tejo foi quem na fez…

Cheira a limos, a sal, a maresia!

 

Poema publicado no livro No Sossego da Hora, 1949, Prémio Antero de Quental.

Transcrito de Líricas Portuguesas, 3ªSérie, Volume II, selecção e apresentação de Jorge de Sena, Edições 70, Lisboa 1983.