Do Homem e do Divino com Goethe

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Boucher - Homem sentado com braços cruzados 450pxQuando numa leitura profissional me inteirava dos desafios de engenharia vencidos na execução do novo complexo de redes e estações de metro London’s Crossrail, ainda em construção em Londres, e da dimensão multidisciplinar da obra, simultaneamente comparava estes trabalhos com a tragédia recente na Índia em consequência do desmoronamento de um viaduto também em construção num ambiente urbano.

As assimetrias no mundo são, pelo que se pode intuir, fortemente agravadas por factores exteriores à biologia, onde os valores morais por detrás da aplicação do conhecimento fazem a diferença.

Educação e crença caminham de mãos dadas na vida de cada um, mas, como escreveu Goethe (1749-1832) no poema que hoje transcrevo: … somente o homem / Pode o impossível: / Só ele distingue, / Escolhe e julga; / E pode ao instante / Dar duração.

Neste poema, o poeta dá conta do lugar relativo de homens e divindade:

E nós veneramos

Os Imortais

Como se homens fossem,

Em grande fizessem

O que em pequeno o melhor de nós

Faz ou deseja.

Acentua o poema noutro passo, a indiferença da natureza comandada pelas forças divinas, a que alguns chamam acaso:

Pois insensível

É a natureza:

O sol ‘spalha luz

Sobre maus e bons,

E ao criminoso

Brilham como ao santo

A luz e as ‘strelas.

Termina o poema, tal como abre, exortando o homem ao seu melhor, para assim ser exemplo de divindade:

Que o homem nobre

Seja caridoso e bom!

Incansável crie

O útil, o justo,

E nos seja exemplo

Dos seres pressentidos.

 

Este poema, O Divino, juntamente com o poema Prometeu, do qual transcrevo a última estrofe:

Pois aqui estou! Formo Homens

À minha imagem,

Uma estirpe que a mim se assemelhe:

Para sofrer, para chorar,

Para gozar e se alegrar,

E pra não te (*) respeitar,

Como eu!

 

(*) Zeus

 

e ainda com o poema Limites da Humanidade, formam uma espécie de trilogia sobre a relação do homem com a divindade na obra poética de Goethe.

Antes de vos entregar à leitura integral do poema O Divino, transcrevo uma estrofe de Limites da Humanidade:

 

Pois com Deuses

Não deve medir-se

Homem nenhum!

Ergue-se ele ao alto

Até tocar

Co’a cabeça os astros,

Nenhures se prendem

Os pés incertos,

E com ele brincam

Nuvens e ventos.

 

 

Sabendo, pois, como o poeta vê o Divino, segue o poema integral.

O Divino

 

Nobre seja o homem,

Caridoso e bom!

Pois isso apenas

É que o distingue

De todos os seres

Que conheçemos.

 

Glória aos incógnitos

Mais altos seres

Que pressentimos!

Que o homem se lhe iguale!

Seu exemplo nos ensine

A crer neles!

 

Pois insensível

É a natureza:

O sol ‘spalha luz

Sobre maus e bons,

E ao criminoso

Brilham como ao santo

A luz e as ‘strelas.

 

Vento e torrentes,

Trovão e saraiva

Rugem seu caminho

E agarram,

Velozes passando,

Um após outro.

 

Tal a sorte às cegas

Lança mãos à turba

E agarra os cabelos

Do menino inocente

Ou a fronte calva

Do velho culpado.

 

Por eternas leis,

Grandes e de bronze,

Temos todos nós

De fechar os círculos

Da nossa existência.

 

Mas somente o homem

Pode o impossível:

Só ele distingue,

Escolhe e julga;

E pode ao instante

Dar duração.

 

Só ele é que pode

Premiar o bom,

Castigar o mau,

Curar e salvar,

Unir com proveito

Tudo o que erra e divaga.

 

E nós veneramos

Os Imortais

Como se homens fossem,

Em grande fizessem

O que em pequeno o melhor de nós

Faz ou deseja.

 

Que o homem nobre

Seja caridoso e bom!

Incansável crie

O útil, o justo,

E nos seja exemplo

Dos seres pressentidos.

 

Todas as traduções transcritas são de Paulo Quintela.

in J. W. Goethe (1749-1832), Poemas, 2ª edição corrigida e ampliada, Acta Universitatis Conimbrigensis, 1958.

Abre o artigo a imagem de um desenho de François Boucher (1703-1770).

Relato sentimental da memória ou Não deites fora as cartas de amor, com Joan Margarit

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Charles Demuth-The Boat Ride from Sorrento 1919O passado aninha-se no fundo das gavetas escreve Joan Margarit (1938) num dos poemas que a seguir transcrevo. São eles contidas reflexões sobre a experiência do viver num arco entre perdas e escolhas erradas, onde, amiúde, versos lapidares dão conta de um sentir que também pode ser o nosso. Afinal o que o poeta escreve no prólogo de apresentação do livro, e cito:

O poema surge do interior do poeta, da sua própria vida, e ainda assim deve falar daqueles subtilíssimos sentimentos que não lhe pertencem a ele apenas, pois nesse caso seria um mau poema, na exacta medida que não poderia interessar a ninguém mais do que a si mesmo. Os poemas devem construir-se a partir de algo que constituindo parte da vida do poeta, pertence igualmente à dos demais.

Não é sem mistério que isto se faz sempre acompanhar de uma exactidão e de uma precisão que radicalmente separam poesia e prosa. Desta exactidão procede o poder de consolação da poesia, pois esta serve para introduzir na nossa solidão alguma mudança que proporcione uma ordem interior mais ampla contra a desordem causada pela vida.

Depois desta limpidez ao descrever uma arte poética para os nossos dias e o papel da poesia na vida de cada um, entrego-vos aos poemas.

 

Relato sentimental da memória

 

Amor e tempo é um conflito

que se resolve sempre com dor e esquecimento.

Porque compreender não quer dizer amar,

mas afastar-se mais: já o suspeitava

há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.

Aprendo tudo de novo.

Agora preciso apenas de lealdade

a alguma coisa vaga e solitária,

dura como uma rocha no meio do mar.

Às vezes a mente dos velhos

engrena com fúria a sua lógica.

Vejam-na deambular pelas suas memórias:

percorre uma costa desolada,

porque compreender não quer dizer amar,

mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.

 

Chegas tarde ao teu tempo

 

Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras

que escuto agora como uma derrota.

Mas já não sei de nenhum combate,

nem que tempo era o meu. É uma pena

não se ser ninguém, ter errado

o comboio, ter ficado sem malas,

adormecido no banco, passar ao largo,

e achar-se agora sem roupa limpa,

cansado, num hotel reles de uma só

e má estrela, que deve ser a minha.

Prescindirei de tudo menos do poeta

que fica do desastre. Fingirei ver

que no final de contas errei o século:

isto será Paris e eu Verlaine.

 

Aventura doméstica

 

Sozinho em casa procuro nos armários.

Encontro antigos mapas de estradas,

contratos que venceram, esferográficas

que não escreverão mais cartas, velhas calculadoras

sem pilhas, relógios que o tempo derrotou.

O passado aninha-se no fundo das gavetas

como um rato triste. Vazios, os vestidos pendem

como velhas personagens que nos interpretaram.

Mas de súbito encontro a tua lingerie,

da cor da noite, da areia; fina, com pequenos bordados.

Cuecas, soutiens e meias que desdobro

e que me fazem regressar ao brilhante, embora misterioso,

fundo de amor e sexo: é ele que, de facto,

dá vida às casas, como os faróis e as luzes

de barcos e cafés a um porto ignorado.

 

Não deites fora as cartas de amor

 

Elas não te abandonarão.

Passará o tempo, apagar-se-á o desejo

— essa flecha de sombra —

e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos

ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.

Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.

Decairás ainda mais

e perderás até a poesia.

O ruído frio da cidade nos vidros

acabará por ser a tua única música,

e as cartas de amor que tiveres guardado

serão a tua última literatura.

 

Poemas transcritos de Joan Margarit, Misteriosamente FELIZ, selecção, tradução (notável!) e posfácio de Miguel Filipe Mochila, edição Língua Morta, 2015.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Charles Demuth (1883-1935).

A Arte de Amar e os livros num poema de Afonso X, o Sábio

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Hercules e Djanira 500pxTrago hoje um poema profano do rei Afonso X o Sábio (1221-1284), celebrado autor das Cantigas de Santa Maria.

No poema somos ilustrados sobre os sucessos na arte de foder obtidos pelo deão de Cadiz, cargo eclesiástico, através do relato ao rei por um seu servidor.

Começa assim:

Ao deão de Cadiz eu achei / livros que lhe levavam a Benzer, / e ao que os trazia,  por eles perguntei: / – Senhor, me respondeu, / com estes livros que vós vedes, dois, / e com os outros que ele tem de seu, / fode por eles quanto foder quer.

Vemos pois, que se tratava de uma prática abençoada, a leitura de tais livros, e não o opróbrio a que mais tarde foram sujeitos, leitores e livros. Tal saber, quando adquiro, proporcionava poderes extraordinários, como para o final o poema refere: esconjurar o demónio e libertar mulheres abrasadas pelo fogo de S. Marçal.

Esta aprendizagem de manual, não é, portanto, dos nossos dias, e é de bom conselho a todos os adolescentes antes de se iniciarem nestas práticas, estudar as suas possibilidades e quadro de valores.

Aparentemente o nosso deão seria leitor compulsivo apanhado nas malhas do prazer da leitura como o poema também refere:

e ele dá-lhe tal gozo de os ler /que nunca noite nem dia outro faz;

Do relato do seu servidor saberemos que pela leitura o deão terá atingido alturas de mestre, não tanto Don Juan que parte à conquista, mas uma espécie de prato de mel onde as moscas caem, se não, leia-se:

e sabe da arte do foder tão bem / que com os seus livros d’artes, que ele tem, / fode ele as mouras, cada que lhe apraz.

Pelo que fica dito, o homem não seria guerreiro atrás de troféu de guerra, no tempo em que o vizinho reino de Granada ainda era domínio árabe, antes vencia a guerra com a sua arma biológica, e as voluptuosas odaliscas do imaginário ocidental correriam a banhar-se no prazer de tanta ciência.

Consoante os valores morais em cada época, assim as criações artísticas dando conta da sexualidade humana foram vestidas com capas alegóricas ou metafóricas que permitiam mostrá-la sem recorrer a instrumentos de linguagem visual ou escrita interditos. Os exemplos poéticos  abundam até aos nossos dias.

Quando estes critérios não foram respeitados, tais criações foram empurradas para um índex que pretendia torná-las invisíveis aos olhos comuns e arrumados com acesso restrito no que foi chamado de inferno nalgumas bibliotecas. De passagem refiro um saboroso catálogo da BNF, L’Enfer de la Bibliothèque, que dá conta das preciosidades encerradas no Inferno da Bibliothèque Nationale de France, a cujo acervo também pertence a imagem não censurada que abre o artigo.

O poema do sábio rei anda perdido pelas edições eruditas das Cantigas de Escárnio e Maldizer, colhidas nos Cancioneiros da Ajuda, da Biblioteca Nacional e da Biblioteca Vaticana.

Transcrevo uma minha modernização do poema em português actual, de onde provêm as citações, e duas leituras dos manuscritos em galaico-português.

Poema  [transcrição modernizada]

 

Ao deão de Cadiz eu achei

livros que lhe levavam a Benzer,

e ao que os trazia, por eles perguntei:

– Senhor, me respondeu,

com estes livros que vós vedes, dois,

e com os outros que ele tem de seu,

fode por eles quanto foder quer.

 

E ainda vos hei-de eu mais dizer:

embora na Lei muito seja necessário ler

por quanto eu da sua fazenda sei,

com os livros que tem, não há mulher

a que não faça que semelhem grous

os corvos, e as enguias babous,

por força de foder, se ele quiser.

 

Cá não há mais, na arte do foder,

do que nos livros que com ele tem;

e ele dá-lhe tal gozo de os ler

que nunca noite nem dia outro faz;

e sabe da arte do foder tão bem

que com os seus livros d’artes, que ele tem,

fode ele as mouras, cada que lhe apraz.

 

E mais vos contarei de seu saber

que com os livros que ele tem [i] faz:

manda-os ante si todos trazer,

e pois que fode por eles assaz,

se mulher acha que o demo tem,

assim a fode per arte e per sem,

que saca dela o demo malvaz.

 

E com tudo isto, ainda mais faz

com os livros que tem, por boa fé:

se acha mulher que tenha o mal

deste fogo que de Sam Marçal é,

assim [a] vai por foder encantar

que, fodendo, lhe faz bem semelhar

que é geada ou neve e nada mais.

 

Poema  [transcrição on-line Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-)]

 

Ao daiam de Cález eu achei

livros que lhe levavam de Berger,

e o que os tragia preguntei

por eles, e respondeu-m’el: – Senher,

com estes livros que vós vedes, dous,

e con’os outros que el tem dos sous,

fod’el per eles quanto foder quer.

 

E ainda vos end’eu mais direi:

macar [e]na Lei muit’haj[a mester]

leer, por quant’eu sa fazenda sei,

con’os livros que tem, nom há molher

a que nom faça que semelhem grous

os corvos e as anguias babous,

per força de foder, se x’el quiser.

 

Ca nom há mais, na arte do foder,

do que [e]nos livros que el tem jaz;

e el há tal sabor de os leer

que nunca noite nem dia al faz;

e sabe d’arte do foder tam bem

que con’os seus livros d’artes, que el tem,

fod’el as mouras, cada que lhi praz.

 

E mais vos contarei de seu saber

que cõn’os livros que el tem [i] faz:

manda-os ante si todos trager,

e pois que fode per eles assaz,

se molher acha que o demo tem,

assi a fode per arte e per sem,

que saca dela o demo malvaz.

 

E com tod’esto, ainda faz al

con’os livros que tem, per bõa fé:

se acha molher que haja [o] mal

deste fogo que de Sam Marçal é,

assi [a] vai per foder encantar

que, fodendo, lhi faz bem semelhar

que é geada ou nev’e nom al.

 

Poema  [transcrição impressa de Lopes, Graça Videira em Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses]

 

Ao daiam de Cález eu achei

livros que lhe levavam d’aloguer,

e o que os tragia preguntei

por eles, e respondeu-m’el: – Senher,

com estes livros que vós vedes, dous,

e cõn’os outros que el tem dos sous,

fod’el per eles quanto foder quer.

 

E ainda vos end’eu mais direi:

macar no lei[to] muita[s el houver],

por quanto eu [de] sa fazenda sei,

cõn’os livros que tem, nom há molher

a que nom faça que semelhem grous

os corvos e as anguias babous,

per força de foder, se x’el quiser.

 

Ca nom há mais, na arte do foder,

do que [e]n’os livros que el tem jaz;

e el há tal sabor de os leer

que nunca noite nem dia al faz;

e sabe d’arte do foder tam bem

que cõn’os seus livros d’artes, que el tem,

fod’el as mouras, cada que lhi praz.

 

E mais vos contarei de seu saber

que cõn’os livros que el[e] tem faz:

manda-os ante si todos trager,

e pois que fode per eles assaz,

se molher acha que o demo tem,

assi a fode per arte e per sem,

que saca dela o demo malvaz.

 

E com tod’esto, ainda faz al

con’os livros que tem, per bõa fé:

se acha molher que haja [o] mal

deste fogo que de Sam Marçal é,

assi [a] vai per foder encantar

que, fodendo, lhi faz bem semelhar

que é geada ou nev’e nom al.

 

Notas sobre a modernização e bibliografia

 

Berger [v.2], palavra de transcrição controversa, adoptei a leitura de José Pedro Machado assumindo que se pode tratar da palavra Benger, com significado de Benzer.

[v. 3 e 4] Inverti a ordem das palavras sem alteração de significado para assegurar a rima com o verso 6.

Traduzi macar e mester [v. 9] com o significado atribuído por Carolina Michaëlis de Vasconcelos no Glossário do Cancioneiro da Ajuda publicado na Revista Lusitana XXIII [A] e reproduzido como anexo na edição fac-símile do Cancioneiro da Ajuda feita pela INCM EM 1990.

Este verso 9 de leitura muito imprecisa conduz a transcrições de significado díspar. Veja-se a transcrição de Graça Videira Lopes na edição impressa do poema, que nos acréscimos entre [] dá do verso esta leitura: marcar no lei[to] muita [s el houver]. — ainda que no leito muitas ele houver.

[A] é inequívoca ao dar para lei o sentido de religião monoteísta, daí a minha opção de modernização.

Mantive fazenda [v. 10] com o significado de situação, negócio [A].

sabor – o mesmo que gozo, prazer, [A].

Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em (indicar data da consulta)] Disponível em: <http://cantigas.fcsh.unl.pt>.

Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses, edição de Graça Videira Lopes, Editorial Estampa, Lisboa 2002.

A depressão contada num poema do século XVI

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Erich Heckel - RetratoNada quero, tudo enjeito, / o maior bem me aborrece, / o prazer me entristece — assim começa o poema do século XVI português, de autor anónimo, que a seguir transcrevo.

Lido tal qual, este poderia ser o início de conversa numa qualquer consulta a psicólogo. O desenvolvimento do poema provavelmente conduziria a diagnóstico de depressão, pois até consideração da hipótese de suicídio contém: se morro acaba o mal, / … / se vivo, o padecer / desta dor é tão mortal / que me não posso valer. Vemos assim que a depressão não será unicamente doença dos nossos dias.

Poema

 

Nada quero, tudo enjeito,

o maior bem me aborrece,

o prazer me entristece

e o viver, porque é sujeito

a quem dele assim se esquece:

se morro acaba o mal,

fim não queria ver;

se vivo, o padecer

desta dor é tão mortal

que me não posso valer.

 

Neste mal-estar repartido entre si e o desencanto do mundo, termino com um poema de Francisco Sá de Miranda (1481-1558)Cantiga XXXVI — escrito pela mesma época. No entanto, com Sá de Miranda estamos completamente afastados de sintomas de depressão, apenas um infinito desconsolo: E já vivi de esperança /E agora de choro vivo!

 

Cantiga XXXVI

 

Entre temor e desejo,

Vã esperança e vã dor,

Entre amor e desamor

Meu triste coração vejo.

 

Nestes estremos, cativo

Ando, sem fazer mudança;

E já vivi de esperança

E agora de choro vivo!

Contra mim mesmo pelejo;

vem duma dor outra dor

e dum desejo maior

nasce outro môr desejo.

 

(Modernizei a ortografia; conservei môr cujo significado é maior segundo o dicionário de Moraes)

Nota bibliográfica

O poema de autor anónimo foi transcrito da edição Obras de Bernardim Ribeiro com organização e notas de Hélder Macedo e Maurício Matos, Editorial Presença, Lisboa, 2010. O original encontra-se no Cancioneiro de Ferrara, e integra um grupo de poemas anónimos que os autores da recolha classificam de Escola Bernardiniana.

O poema de Francisco Sá de Miranda foi transcrito de Poesias de Francisco Sá de Miranda, edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, reprodução fac-símile do exemplar com data de 1885 da Biblioteca Nacional, INCM, Lisboa, 1989.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Erich Heckel (1883-1970).

Da Grécia Antiga, um Hino Órfico à Noite em versão de Herberto Hélder

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Paul Klee - Cacodemonic 1916 550pxApenas a Noite, material ou simbólica, nos permite o encontro connosco na verdadeira intimidade do Eu.

Da aproximação do Eu à Noite deram conta os poetas; Fernando Pessoa/Álvaro de Campos com o poema Excertos de Duas Odes: Vem, Noite antiquíssima idêntica,… deu-o de forma genial, tal como genial é a versão de Herberto Hélder para um Hino Órfico à Noite vindo da antiga Grécia: …/ ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho, /…, e que a seguir transcrevo.

Este poema, entre outras leituras, torna claro o apelo à harmonia que a noite permite: …/ escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena, / e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.

Outras menos encantadas invocações à noite haverá, mas não deixo de referir ainda, e mantendo-me na poesia em português, o genial poema de Antero de Quental, Per Amica Silentia Lunae: Eu amo a noite às horas sossegadas/…, recolhido no volume póstumo, Raios de Extinta Luz.

 

Hino Órfico à Noite

 

Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite.

Noite, fonte universal.

Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,

invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,

ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,

e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,

ó Embalador, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,

ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,

ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,

leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.

A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,

ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,

escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,

e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.

 

Versão de Herberto Hélder

Transcrito de Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Klee (1879-1940).

A Magnólia — poema de Luiza Neto Jorge

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Ab3 550pxÉ ao mistério da palavra poética que este poema, A Magnólia, de Luiza Neto Jorge (1939-1989) nos conduz: A exaltação do mínimo, /…/ um mínimo ente magnífico / desfolhando relâmpagos / sobre mim.

Para além da experiência directa da autora, pretexto para a enunciação do poema, ficam as múltiplas pistas que em sucessivas leituras se desdobram, devolvendo a cada palavra o poder de faiscar a imaginação. E temos, talvez o mais importante, o sabor dos versos que gulosamente lemos sem cuidar da sua inteligibilidade imediata: onde a palavra se elide / na matéria — na metáfora — / necessária, e leve, a cada um / onde se ecoa e resvala.

Estamos bem longe daquela espécie de contar a vidinha que em tanta poesia reluz, com maior ou menor fulgor, deixando o leitor sem espaço para fazer a sua imaginação voar.

 

A Magnólia

 

A exaltação do mínimo,

e o magnifico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu resplendor.

 

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria — na metáfora —

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.

 

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

 

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

 

Transcrito de Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

Bolor — poema de Carlos de Oliveira

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Bolor 500pxDesço das espiritualidades da Semana Santa para a precariedade dos afectos e a materialidade desfeita do amor, registada no poema Bolor de Carlos de Oliveira (1921-1981) com a mestria que apenas a grande poesia consegue.

 

Bolor

 

Os versos

que te digam

a pobreza que somos,

o bolor

nas paredes

deste quarto deserto,

o orvalho da amargura

na flor

de cada sonho

e o leito desmanchado

o peito aberto

a que chamaste

Amor

 

Poema transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

A propósito da palavra Deus — um poema de Mario Trejo

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Gustav Adolph Hennig - Rapariga a lerCom a Páscoa como pretexto, traduzo um poema do argentino Mario Trejo (1926-2012), também autor do arqui-famoso poema Pájaros Perdidos, famoso por obra da música que Astor Piazzolla (1921-1992) para ele compôs.

Ainda que a fé católica seja toda ela vivida numa prática ritual que conforta os crentes, nomear Deus fora do ritual é contudo uma parte importante da transformação do inexplicável em explicado.

 

A propósito da palavra Deus

 

Dizer

Nomear

Pedir

Temer

Olhar

Tocar

Negar

Gritar

 

Creio em todo este caos

Creio em toda esta loucura

Crimes e torturas

Que um dia terminarão

 

Creio em tanta injustiça

E na lei da selva

Viver é uma guerra

Que um dia terminará

 

Creio apesar de tudo

Que no meio do incêndio

Quando tudo está ardendo

Algo há

 

Beleza dos loucos

Crepúsculos em chamas

Infância destroçada

Algo há

 

Labirintos raivosos

Espelhos sem saída

Amor cego

Algo há

 

Roleta de esperanças

Recordações como setas

Domingo interminável

Algo há

 

Beijar a primeira vez

Lutar contra o esquecimento

Inúteis reencontros

Algo há

 

Balas pela boca

O sol negro de pena

Escolher o esquecimento

Algo há

 

Loucura do planeta

Razão do universo

Que ignora o bem e o mal

 

Tambores na noite

Repetem a palavra

Obsessiva como o mar

 

Saber que não há resposta

E dizer apesar de tudo

Algo há Algo há

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gustav Adolph Hennig (1797-1869).

Poesia Popular de Portugal

Gauguin - Cristo Amarelo 1889 600pxNas sociedades ocidentais, para os não-judeus, os valores cristãos cresceram connosco, e nessa medida, dialogamos nas nossa recusas e certezas com o cristianismo. Não pensamos fora dele.

E se a cultura de erudição trabalha os conceitos com refinada exigência, a cultura popular encontra uma linguagem que permite transmitir com a maior simplicidade os valores da fé. São exemplo as variadas orações populares de invocação aos diversos santos do catolicismo, a Deus, à Virgem, a Jesus, qual seja a transcrita a seguir:

 

Oração Popular a Jesus

 

Senhor, fazei

Da minha boca porta,

Da minha garganta escada,

Da minha alma, assento,

Do meu coração, morada!

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Gauguin (1848-1903), O Cristo Amarelo pintado em 1889, na qual a dimensão da religiosidade popular se espraia: por um lado na alacridade da paleta e rugosidade do desenho, por outro na composição, com a contemplação da imagem de Cristo crucificado por três camponesas em oração.

Esta mesma pintura leva-me irresistivelmente a uma outra poesia popular de Portugal onde a consciência profunda da fusão entre Deus e a terra-mãe se espelha, tal qual como nesta pintura o amarelo, qual sol que ilumina e alimenta o mundo, é o mesmo que mostra o corpo de Jesus crucificado e a terra que se avista na paisagem.

 

 

Poema

 

Eu na terra fui nascido,

E eu na terra fui criado,

A terra me há-de comer

Depois de ser sepultado.

 

1

A terra é a minha mãe,

Não no posso duvidar

E para esta me criar

Tudo da terra me vem.

Eu à terra quero bem,

A terra bem me tem querido,

Eu na terra tenho vivido

E na terra é que hei-de ter fim,

Sei que a terra que é assim,

Eu na terra fui nascido.

 

2

Eu na terra é que semeio

De todo o meu alimento,

Da terra tiro o sustento

E na terra é que passeio;

Da própria terra me veio

Água para ser baptizado,

A mesma água me tem dado

Tudo quanto é preciso,

Tenho pena se a terra piso

E eu na terra fui criado.

 

3

Deus à terra me mandou

Com o uso da razão,

A terra me deu o pão

E o pão é que me criou.

Ao dispôr da terra estou,

Visto na terra viver;

A terra me há-de valer

Enquanto nela for vivendo

E depois, quando morrendo,

A terra me há-de comer.

 

4

O corpo da criatura

É só terra e nada mais,

Os nossos restos mortais

Estão sujeitos à sepultura.

Isto é a verdade pura,

Tudo na terra é criado,

Depois torna ao mesmo estado

Visto na terra viver,

E a terra me há-de comer

Depois de ser sepultado.

 

 

Poemas transcritos de Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro, Assírio e Alvim, Lisboa 2001.