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Charles Demuth-The Boat Ride from Sorrento 1919O passado aninha-se no fundo das gavetas escreve Joan Margarit (1938) num dos poemas que a seguir transcrevo. São eles contidas reflexões sobre a experiência do viver num arco entre perdas e escolhas erradas, onde, amiúde, versos lapidares dão conta de um sentir que também pode ser o nosso. Afinal o que o poeta escreve no prólogo de apresentação do livro, e cito:

O poema surge do interior do poeta, da sua própria vida, e ainda assim deve falar daqueles subtilíssimos sentimentos que não lhe pertencem a ele apenas, pois nesse caso seria um mau poema, na exacta medida que não poderia interessar a ninguém mais do que a si mesmo. Os poemas devem construir-se a partir de algo que constituindo parte da vida do poeta, pertence igualmente à dos demais.

Não é sem mistério que isto se faz sempre acompanhar de uma exactidão e de uma precisão que radicalmente separam poesia e prosa. Desta exactidão procede o poder de consolação da poesia, pois esta serve para introduzir na nossa solidão alguma mudança que proporcione uma ordem interior mais ampla contra a desordem causada pela vida.

Depois desta limpidez ao descrever uma arte poética para os nossos dias e o papel da poesia na vida de cada um, entrego-vos aos poemas.

 

Relato sentimental da memória

 

Amor e tempo é um conflito

que se resolve sempre com dor e esquecimento.

Porque compreender não quer dizer amar,

mas afastar-se mais: já o suspeitava

há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.

Aprendo tudo de novo.

Agora preciso apenas de lealdade

a alguma coisa vaga e solitária,

dura como uma rocha no meio do mar.

Às vezes a mente dos velhos

engrena com fúria a sua lógica.

Vejam-na deambular pelas suas memórias:

percorre uma costa desolada,

porque compreender não quer dizer amar,

mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.

 

Chegas tarde ao teu tempo

 

Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras

que escuto agora como uma derrota.

Mas já não sei de nenhum combate,

nem que tempo era o meu. É uma pena

não se ser ninguém, ter errado

o comboio, ter ficado sem malas,

adormecido no banco, passar ao largo,

e achar-se agora sem roupa limpa,

cansado, num hotel reles de uma só

e má estrela, que deve ser a minha.

Prescindirei de tudo menos do poeta

que fica do desastre. Fingirei ver

que no final de contas errei o século:

isto será Paris e eu Verlaine.

 

Aventura doméstica

 

Sozinho em casa procuro nos armários.

Encontro antigos mapas de estradas,

contratos que venceram, esferográficas

que não escreverão mais cartas, velhas calculadoras

sem pilhas, relógios que o tempo derrotou.

O passado aninha-se no fundo das gavetas

como um rato triste. Vazios, os vestidos pendem

como velhas personagens que nos interpretaram.

Mas de súbito encontro a tua lingerie,

da cor da noite, da areia; fina, com pequenos bordados.

Cuecas, soutiens e meias que desdobro

e que me fazem regressar ao brilhante, embora misterioso,

fundo de amor e sexo: é ele que, de facto,

dá vida às casas, como os faróis e as luzes

de barcos e cafés a um porto ignorado.

 

Não deites fora as cartas de amor

 

Elas não te abandonarão.

Passará o tempo, apagar-se-á o desejo

— essa flecha de sombra —

e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos

ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.

Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.

Decairás ainda mais

e perderás até a poesia.

O ruído frio da cidade nos vidros

acabará por ser a tua única música,

e as cartas de amor que tiveres guardado

serão a tua última literatura.

 

Poemas transcritos de Joan Margarit, Misteriosamente FELIZ, selecção, tradução (notável!) e posfácio de Miguel Filipe Mochila, edição Língua Morta, 2015.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Charles Demuth (1883-1935).

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