• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Um dos Poemas Inconjuntos de Alberto Caeiro

21 Segunda-feira Jul 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Alberto Caeiro, Fernando Pessoa, Juan Gris

Juan Gris o livro

É uma especial leitura do Estoicismo vindo dos gregos, a filosofia de vida expendida por Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935)) no poema que mais à frente transcrevo integralmente.

 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,

Como aceito o frio exccessivo no alto do inverno —

Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,

E encontra uma alegria no facto de aceitar —

No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

 

Nas voltas da vida, umas vezes a aprendizagem pelo sofrimento faz-se de sopetão, outras espalha-se ao longo da existência, entremeando a alegria de estar vivo com a experiência da dor em redor; mas cedo ou tarde, incorporamos a evidência de que a nossa capacidade de determinar o destino é restrita às opções de vida que escolhemos fazer. E o resto, o mundo e o seu voltear, seguem na sua indiferença. E da aceitação desta evidência decorre uma alegria tranquila que ecoa neste poema de Fernando Pessoa assinado Alberto Caeiro.

 

Mas tem mais, o poema. Tem o corolário da reflexão desenvolvida, e difícil de aceitar para mentes formadas no racionalismo, que o mundo não é compreensível apenas pela inteligência (e que caminho é preciso percorrer até aceitar esta outra evidência…):

 

Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,

Mas nunca ao erro de querer compreender demais,

Mas nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,

Nunca ao defeito de exigir do mundo

Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.

 

Feito o intróito, vamos ao poema completo.

 

Quando está frio no tempo frio, para mim é como se estivesse agradável,

Porque para o meu ser adequado à existência das coisas

O natural é o agradável só por ser natural.

 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,

Como aceito o frio excessivo no alto do inverno —

Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,

E encontra uma alegria no facto de aceitar —

No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

 

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece

Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida?

O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,

Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,

Da mesma inevitável exterioridade a mim,

Que o calor da terra no alto do verão

E o frio da terra no cimo do inverno.

 

Aceito por personalidade

Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,

Mas nunca ao erro de querer compreender demais,

Mas nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,

Nunca ao defeito de exigir do mundo

Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.

[24-10-1917]

 

Transcrito de Poemas Completos de Alberto Caeiro, recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha, Editorial Presença, Lisboa 1994.

Nesta edição o poema tem o nº49 dos Poemas Inconjuntos.

 

Iconografia

No livro da vida, e nas suas múltiplas perspectivas, quadra, como alegoria, a imagem desta obra cubista de Juan Gris (1887-1927), O livro.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Saudade de um corpo — poema de António Manuel Couto Viana

24 Terça-feira Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Antonio Manuel Couto Viana, Pierre-Narcisse Guérin

GUÉRIN, Pierre-Narcisse - Aurora e Cephalus 1810 fragmento 600px

É sobre o que não aconteceu o poema de António Manuel Couto Viana (1923-2010), Saudade de um corpo:

…

Arrependido? Sim: preferia recordar

Um corpo saciado, a um corpo reprimido;

O momento fremente de o despir e enlaçar

…

 

Com o proverbial lirismo de tanta da sua poesia, avançamos na leitura do poema seguindo a delicadeza de gestos e encanto de um desejo adolescente até conhecer o desenlace-pretexto da memória que se faz poema:

 

Saudade de um corpo

 

Os nossos corpos tinham não sei que primavera,

Quando em noites de Maio, na influência da lua,

Florescia entre nós um silêncio de espera,

Se a minha mão pousava na tua.

 

Tímidos e febris, só os sentidos falavam,

Até que a tua voz, expulsando o torpor,

Receosa, talvez, de uns passos que passavam,

Se punha a divagar sobre a noite e o calor.

 

Nunca nos acalmou a frescura de um beijo;

É feliz a amizade! E o amor é tão sério

Que cada um guardou, para si, o desejo,

Temendo ver voar a asa do mistério.

 

Arrependido? Sim: preferia recordar

Um corpo saciado, a um corpo reprimido;

O momento fremente de o despir e enlaçar

E de o sentir ranger, como range um vestido.

 

É caso para parafrasear Camões:

Mais vale experimentá-lo… que transportar pela vida um desejo insaciado.

 

O poema foi transcrito de O Coração e a Espada, Edições Távola Redonda, 1953.

 

Na abertura vê-se com prazer a imagem de uma pintura de Pierre-Narcisse Guérin (1774-1833).

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Procura-se mulher em poema de Toni Montesinos Gilbert

21 Sábado Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Lucien Freud, Toni Montesinos Gilbert

Lucien Freud - Man with a Feather (Self-portrait) 1943 600px

Nos nossos dias, e a ter em conta os poetas, o amor é tudo menos romântico. Será um aconchego de corpos, será uma renúncia à solidão, será talvez uma exigência social, mas as paixões despidas da razão parecem definitivamente fulgores de outras eras.

 

No poema Anúncio do catalão Toni Montesinos Gilbert (1972) dá-se conta da demanda da mulher ideal para um homem dos nossos dias. O conjunto de quesitos é sedutor, mas falta na lista aquele quid que nos leva dos píncaros de felicidade ao abismo do desespero, numa oscilação que apenas o que convencionámos chamar amor, consegue.

 

O que, porventura, possa existir de irónico no poema, deixo à apreciação dos leitores.

 

Anúncio

 

Procuro mulher sincera e cautelosa,

bela, hábil na cozinha e na cama,

de boa linhagem, sabia e eficiente,

que seja cuidadosa, terna, doce,

extrovertida e de aspecto elegante.

 

Que se dispa lentamente e tenha

carta de condução, uma carreira,

olhos grandes e boca muito suave.

 

Nem muitos nem poucos anos: os necessários.

 

Deverá, ainda assim, dar-me alegria.

 

Tem de praticar desporto, e gostar

de música clássica e de leitura;

atenta e sociável com os meus amigos.

 

Não interessa a cor do cabelo,

a raça ou a cultura. Quero apenas amá-la.

Quero que, ao vê-la, a vida comece.

Procuro apenas uma mulher preparada

para viver a minha prolongada morte.

 

Tradução de Manuel de Freitas

Transcrito da revista Telhados de Vidro nº5, Novembro de 2005.

 

Abre o artigo a imagem de um auto-retrato de Lucien Freud (1922-2011) pintado em 1943.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Time Passing, Beloved — poema de Donald Davie

20 Sexta-feira Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

David Hockney, Donald Davie

David Hockney (1937) - Mr. and Mrs. Clark and Percy - 1970-71

Há uma tocante simplicidade na penetrante verdade sobre o amor e o tempo no poema Time Passing, Beloved, (O tempo passa, meu bem) de Donald Davie (1922-1955). Se o tempo tudo apaga, apaga também das memórias o que de amargo o amor viveu, mas a incerteza sobre o futuro, essa é uma indeterminação que permanece, sempre.

 

Infelizmente não conheço, do poema, tradução portuguesa. Deixo o original inglês, certamente acessível à maior parte dos leitores do blog.

 

Time Passing, Beloved

 

Time passing, and the memories of love

Coming back to me, carissima, no more mockingly

Than ever before; time passing, unslackening,

Unhastening, steadily; and no more

Bitterly, beloved, the memories of love

Coming into the shore.

 

How will it end? Time passing and our passages of love

As ever, beloved, blind

As ever before; time binding, unbinding

About us; and yet to remember

Never less chastening, nor the flame of love

Less like an ember.

 

What will become of us? Time

Passing, beloved, and we in a sealed

Assurance unassailed

By memory. How can it end,

This siege of a shore that no misgivings have steeled,

No doubts defend?

 

Transcrito de Collected Poems, Carcanet Press, 1990.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de David Hockney (1937) – Mr. and Mrs. Clark and Percy, 1970-71.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Um cego — poema de Jorge Luis Borges e desenho de Barocci

08 Domingo Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Federico Barocci, Jorge Luís Borges

Anónimo - atribuido a Federico Barocci

Já a propósito do poema Elogia da sombra falei de alguma da poesia de Jorge Luis Borges (1899-1986) sobre a cegueira. Hoje volto com o poema Um cego, o qual, na sua concisão lapidar, dá conta do sentimento de ver, de si, apenas a alma.

É este apenas ver a alma, a que quem é cego está remetido, algo de enorme dificuldade na representação gráfica.

O desenho que abre o artigo, de autor anónimo e atribuído ao pintor italiano quinhentista Federico Barocci (1528-1602), é um dos raros exemplos de representação exemplar de cegueira humana. Mas o desenho tem mais: tem um homem de quem quase conseguimos saber tudo, apesar de a representação não mostrar a alma pelo olhar, caminho da empatia no ver. É o inacabado do cabelo e barba que permite o destaque de todo o rosto, na pungente expressão de um provável e desolado sofrimento. Pouco diferirá da ira muda, fatigada, aflita, que Borges refere no poema que a seguir se lê

 

Um cego

 

Não sei qual é a face que me fita

Quando observo a face de algum espelho;

No seu reflexo espreita-me esse velho

Com ira muda, fatigada, aflita.

Lento na sombra, com as mãos exploro

Meus invisíveis traços. O mais belo

Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo

Que é já de cinza ou é ainda de ouro.

Repito que perdi unicamente

A superfície sempre vã das coisas.

O consolo é de Milton e é valente,

Mas eu penso nas letras e nas rosas,

Penso que se pudesse ver a cara

Saberia quem sou na tarde rara.

 

Tradução de Fernando Pinto do Amaral

in Obras Completas III, 1975-1985, Editorial Teorema, 1998

 

Un Ciego

 

No sé cuál es la cara que me mira

cuando miro la cara del espejo;

no sé qué anciano acecha en su reflejo

con silenciosa y ya cansada ira.

Lento en mi sombra, con la mano exploro

mis invisibles rasgos. Un destello

me alcanza. He vislumbrado tu cabello

que es de ceniza o es aún de oro.

Repito que he perdido solamente

la vana superficie de las cosas.

El consuelo es de Milton y es valiente,

pero pienso en las letras y en las rosas.

Pienso que si pudiera ver mi cara

sabría quién soy en esta tarde rara.

 

Transcrito de Poesía completa, Debolsillo, Barcelona, 2013.

 

O desenho pertence à colecção da Galeria Albertina de Viena.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Um poema de Manuel António Pina

05 Quinta-feira Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

George Segal, Manuel António Pina

George Segal  - Alice Listening to Her Poetry

No princípio era o Verbo

(e os açucares

e os aminoácidos).

Depois foi o que se sabe.

Neste deambular a que a poesia convida, sucedo ao poema de Olavo Bilac, onde Adão convida Eva à aventura do pecado, e que não é outra senão a vida da humanidade, com um poema de Manuel António Pina (1943-2012), Neste Preciso Tempo, Neste Preciso Lugar.

 

É curta e assombrada pela dor a obra poética de Manuel António Pina. Nela a morte espreita a cada poema, de par com a reflexão sobre as palavras (inúteis) que enchem o mundo e a nostalgia do silêncio que a eternidade, no seu sono, devolve. Entretanto, e homens por cá, da vida vivida, o passado, não temos fuga, a menos que a desmemória nos atinja. Felizmente não guardamos tudo, e do que fica fala-nos o poema:

 

Por onde vens, Passado,

pelo vivido ou pelo sonhado?

Que parte de ti me pertence,

a que se lembra ou a que esquece?

 

Saberá cada um de nós com o que conta, mas para lhe aliviar o peso lá virá o momento em que …em vez de metafísica / ou de biologia… nos dê para qualquer outra coisa, não necessariamente poesia, como ao poeta, mas uma atitude igualmente salutar: …passar-lhe ao lado / deitando-lhe o enviesado / olhar da ironia.

 

Passemos ao poema sem mais, seja ironia ou cortes abusivos.

 

Neste Preciso Tempo, Neste Preciso Lugar

 

No princípio era o Verbo

(e os açucares

e os aminoácidos).

Depois foi o que se sabe.

Agora estou debruçado

da varanda de um 3º andar

e todo o Passado

vem exactamente desaguar

neste preciso tempo, neste preciso lugar,

no meu preciso modo e no meu preciso estado!

 

Todavia em vez de metafísica

ou de biologia

dá-me para a mais inespecifica

forma de melancolia:

poesia nem por isso lírica

nem por isso provavelmente poesia.

Pois que faria eu com tanto Passado

senão passar-lhe ao lado

deitando-lhe o enviesado

olhar da ironia?

 

Por onde vens, Passado,

pelo vivido ou pelo sonhado?

Que parte de ti me pertence,

a que se lembra ou a que esquece?

Lá em baixo, na rua, passa para sempre

gente indefinidamente presente,

entrando na minha vida

por uma porta de saída

que dá para a memória.

Também eu (isto) não tenho história

senão a de uma ausência

entre indiferença e indiferença.

 

Transcrito de Poesia Reunida, Assirio & Alvim, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de George Segal (1924-2000), Alice ouvindo a sua poesia.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Olavo Bilac – A Alvorada do Amor ou Adão e Eva

04 Quarta-feira Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Fernand Leger, Olavo Bilac

Adão e Eva 1935-39

Tenho dado conta no blog de parte da abundante iconografia sobre Adão e Eva. São em menor número as reflexões poéticas sobre o mito bíblico do pecado original. Hoje é o poeta brasileiro Olavo Bilac (1865-1918) quem, num precioso poema, A Alvorada do Amor, reflete sobre o amor e a expulsão do paraíso numa nada ortodoxa visão:

 

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,

Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!

…

Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,

Levo tudo, levando o teu corpo querido!

…

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:

– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,

…

E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,

Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,

Agora que és mulher, agora que pecaste!

…

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,

Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,

– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

 

E assim passaram os anos.

Da decisão de Adão “Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus” nasceu a prole que encheu o mundo e hoje goza Os Prazeres do Ócio nesta feliz evocação de Fernand Léger (1881-1955).

Os prazeres do ócio 1948-9

Lidos os excertos, vamos ao poema integral.

 

A Alvorada do Amor

 

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo

No dia do Pecado amortalhava o mundo.

E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo

Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,

Disse:

 

          “Chega-te a mim! entra no meu amor,

E à minha carne entrega a tua carne em flor!

Preme contra o meu peito o teu seio agitado,

E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!

Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,

Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

 

Vê! tudo nos repele! a toda a criação

Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…

A cólera de Deus torce as árvores, cresta

Como um tufão de fogo o seio da floresta,

Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;

As estrelas estão cheias de calefrios;

Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu…

 

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,

Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!

Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;

Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;

Surjam feras a uivar de todos os caminhos;

E, vendo-te a sangrar das urzes através,

Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés…

Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,

Ilumina o degredo e perfuma o deserto!

Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,

Levo tudo, levando o teu corpo querido!

 

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:

– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,

Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,

Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!

Rosas te brotarão da boca, se cantares!

Rios te correrão dos olhos, se chorares!

E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,

Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,

Agora que és mulher, agora que pecaste!

 

Ah! bendito o momento em que me revelaste

O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,

Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,

– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

 

Poema publicado pela primeira vez em 1902.

In Poesias, Editora Martins Fontes, São Paulo, 1997.

Transcrito de Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, seleção de Italo Moriconi, Editora Objectiva, Rio de Janeiro 2001.

 

Abre o artigo com a imagem de uma pintura de Fernand Léger (1881-1955), Adão e Eva (1935-39) chamada. Seguem-se Os Prazeres do ócio (1948-9) dos filhos de Adão, primeiro em fundo azul, e agora em findo vermelho.

Os prazeres do écio sobre fundo vermelho 1949

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Dois poemas de Gonçalo M Tavares

27 Terça-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Gonçalo M. Tavares, Kandinsky

Kandinsky Composição VIII

Anfigúricos são alguns dos poemas de Gonçalo M Tavares (1970), herdeiros de Anfiguri de Filinto Elíseo  tanto no ritmo com que constrói a poesia, no aparente sem sentido lógico do encadeamento vocabular, como no sarcasmo, embora muitos dos seus poemas levem a vida a sério mesmo quando lhe investigam o absurdo.

Para as considerações sobre anfiguri enquanto género literário, remeto o leitor para o artigo sobre Anfiguri de Filinto Elíseo, já publicado no blog. De Gonçalo M Tavares, escolho dois poemas:

 

primeiro o poema 36 de Livro da Dança, do qual retenho o verso:

 

todo o conceito tem buracos por onde se escapa o vinho e o INSÓLITO.

 

e depois, o poema Descrição de uma cidade, do livro 1. Neste poema, variada reflexão sobre a existência e o mundo, todo o problema da natação surge com enorme acutilância. E se o poema termina com os judiciosos versos:

 

… E não se ilumina a escuridão,

Ilumina-se algo que já não é escuridão; precisamente porque

A escuridão é escura, escuríssima segundo dizem.

 

atrever-me-ia a destacar da secção média do poema os versos:

 

O mundo é perfeito de todos os lados,

Menos do lado onde estamos: como um sólido geométrico

Belo que cai em cheio na cabeça desprevenida.

 

Vamos então aos poemas na totalidade.

 

36

a proporção é morta.

a geometria tem tristeza.

Os seios feridos deitam sangue em vez de leite.

a matemática é impossível

a confirmação é a insistência do impossível

a prova é morder o fantástico e dar importância aos dentes

a proporção é MORTA.

Os ossos têm Cérebro e apaixonam-se.

a geometria tem tristeza

todo o conceito tem buracos por onde se escapa o vinho e o INSÓLITO.

a proporção é MORTA

o corpo é a biografia das últimas horas da CARNE à frente da técnica

É o dia depois da geometria (a dança)

últimas horas da carne à frente da técnica.

 

 

Descrição de uma cidade

 

Não há lado esquerdo na metafísica,

O que não é uma limitação.

A produção industrial de problemas

Solta para o ar nuvens espessas

Que interferem no aeródromo.

Aviões cobertos de graffiti não conseguem levantar voo

Porque, entre os vários desenhos, os miúdos

Desenharam pedras de granito. A Ideia de granito

Pesa mais que a existência concreta de um

Balão, o mundo das ideias é estado transitório entre

O Nada e a montanha. Entretanto, a

Natação tornou-se importante para a cidade

Depois do dilúvio ocorrido há três mil anos. O governo

Oferece inscrições gratuitas e ainda casais de animais

Bruscos, mas mansos. Os homens andam felizes, e também

As mulheres, porque todos aprendem a nadar antes dos

Sessenta. Hoje, neste século, morre-se afogado mais tarde.

O mundo é perfeito de todos os lados,

Menos do lado onde estamos: como um sólido geométrico

Belo que cai em cheio na cabeça desprevenida.

O mundo é fantástico visto de cima, de helicóptero. A linguagem

Sobe e interfere em camadas específicas da atmosfera.

As palavras que usas não são inertes. O inglês, por exemplo,

É Língua que entra excessivamente nas nuvens. O inglês

Para a Astronomia é deselegante, e prejudica ligeiramente

As aves baixas.

No outro lado do mundo, entretanto, alguém, de grandes dimensões,

Enfia o aeródromo num saco de plástico. As pulsações

Da alma medem-se pelos pressentimentos, não por

Aparelhos medicinais. E não se ilumina a escuridão,

Ilumina-se algo que já não é escuridão; precisamente porque

A escuridão é escura, escuríssima segundo dizem.

 

Notícia bibliográfica

 

Livro da Dança, edição Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

1, edição Relógio d’Água, Lisboa, 2ª edição, 2011.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

A conferência dos partidos — pintura de Paul Klee, com passagem pelo Reino de Pacheco

24 Sábado Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas, Prosa

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Alexandre O'Neill, Eça de Queiroz, Jorge Luís Borges, Paul Klee, Peter Kagayi

Paul Klee - Erro em verde 1939

Contribuo para a reflexão pré-eleitoral que os portugueses hoje vivem, com a pintura alegórica de Paul Klee (1879-1940) que segue. Nela observamos de um lado o gigante liberal, à direita, enfrentando outros animais de corpulência diversa arrumados mais ou menos entre o centro e o lado esquerdo.

Paul Klee - O concerto dos partidos 1907

Os tempos correm perigosamente para o que Jorge Luis Borges (1899-1986) escreveu em 1976 no prólogo ao seu livro A Moeda de Ferro:

Sei-me de todo indigno de opinar em matéria política, mas talvez me seja perdoado acrescentar que descreio da democracia, esse curioso abuso da estatística (destaque meu).

Olhamos a campanha eleitoral na televisão, ouvimos quem se propõe governar-nos, cá ou em Estrasburgo, e ocorre-nos o fabuloso Pacheco inventado por Eça de Queiroz (1845-1900) (carta VIII de A Correspondência de Fradique Mendes).

O personagem é uma caricatura da inanidade parlamentar e pública que, infelizmente, e ainda hoje, vai ao encontro de exemplares vivos.

 

Vale a pena a transcrição da primeira intervenção parlamentar de Pacheco:

…

De pé, com o dedo espetado (jeito que foi sempre muito seu), Pacheco afirmou num tom que traía a segurança do pensar e do saber íntimo: “Que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a autoridade!” Era pouco, decerto:— mas a Câmara compreendeu bem que, sob aquele curto resumo, havia um mundo, todo um formidável mundo, de ideias sólidas. Não volveu a falar durante meses — mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisível e inacessível se conservava lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu ser. O único recurso que restou então aos devotos desse imenso talento (que já os tinha, incontáveis) foi contemplar a testa de Pacheco — como se olha para o céu pela certeza que Deus está por trás, dispondo. A testa de Pacheco oferecia uma superfície escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes, junto dele, conselheiros e directores-gerais balbuciavam maravilhados: “Nem é necessário mais! Basta ver aquela testa!”

…

Ficaria por aquí, não fora Pacheco, o da testa, ter inspirado um mais pungente que sarcástico poema a Alexandre O’Neill (1924-1986): No Reino do Pacheco:

 

Às duas por três nascemos,

às duas por três morremos,

E a vida? Não a vivemos.

…

Na verdade, vivemos a vida, não o nosso sonho dela.

Sou pai de um desses jovens qualificados que procuram no mundo a vida que cá não há, e quando surge a chamada de decidir do futuro(?) dentro das regras, interrogo-me sobre o como destes últimos quarenta anos nos trouxe até aqui, sem esquecer o país em que nasci e cresci. Não foi feito o melhor. Mas foi feito o possível? E agora, será diferente?

Pensava no que nos angustía, na vida que temos e não queremos e dei de olhos num poema de um jovem do Uganda, Peter Kagayi (1986).

 

Em 2065

Nada irá mudar assim tanto, excepto o facto de ter mais de 70 anos

As estradas serão iguais

Os políticos serão iguais

Kampala será igual

Em 2065 nada irá mudar assim tanto, excepto o facto de ter mais de 70 anos

 

E irei a Mulago para tratar o meu reumatismo e os médicos dirão que não há cura

E o homem do taxi-bicicleta irá recomendar-me um curandeiro da zona Oeste do Nilo

E irei para a escola do meu neto assim como o meu avô fez

E irei ser mandado embora por excesso de idade

 

O presidente vai ser o mesmo que temos hoje, e desde uma cadeira de rodas irá proferir o seu Discurso Nacional

Só que o filho dele, feito entretanto Marechal, irá lê-lo no lugar dele

E falará no seu lugar

E mandará no seu lugar

Em 2065 nada irá mudar assim tanto, excepto o facto de ter mais de 70 anos.

 

E Makerere estará mexida por motins e o General-Major “Não-sei-quantos”

Ordenará abrir fogo contra os estudantes que reivindicam feijões fritos

Pois isso será um perigo para a segurança nacional

E U.R.A. irá taxar o ar que respiramos, as vezes que os casais se beijam,

Os nossos excrementos, as palavras que proferimos e a maneira como morremos

E determinará quem vai para o céu e quem vai para o inferno e irá taxar os seus corpos de modo diferente

 

Em 2065 nada irá mudar assim tanto, excepto o facto de ter mais de 70 anos.

 

E os professores estarão a pedir nas ruas para alimentarem as suas famílias

As suas esposas irão dormir com turistas para conseguirem levar uma vida decente

As leis serão a mesma sombra que os colonialistas deixaram atrás

Com sistemas demasiado arcaicos e demasiado alheados para proporcionarem alguma coisa de essencial

E os estudantes ficarão reduzidos a couves e batatas assim como se encontram hoje em dia

E a proporção entre os desempregados e os aspirantes a trabalho será de nove a um assim como é hoje

E assim a vida irá avançar

E assim nada mudará

…

 

E nós seremos as pessoas desse futuro

Construídas num presente que não promete assim tanto

Excepto envelhecer

Estaremos aí com a esperança de morrer em breve.

 

Depois da transcrição parcial deste terrível poema, deixo-vos com o Reino do Pacheco em véspera de ganhar novo fôlego democrático. Amanhã regresso ao mundo harmonioso do amor feliz.

 

No Reino do Pacheco

 

Às duas por três nascemos,

às duas por três morremos,

E a vida? Não a vivemos.

 

Querer viver (deixai-me rir!)

seria muito exigir…

Vida mental? Com certeza!

Vida por detrás da testa

será tudo o que nos resta?

Uma ideia é uma ideia

— e até parece nossa! —

mas quem viu uma andorinha

a puxar uma carroça?

 

Se à ideia não se der

o braço que ela pedir,

a ideia, por melhor

que ela seja ou queira ser,

não será mais que bolor,

pão abstracto ou mulher

sem amor!

 

Às duas por três nascemos,

às duas por três morremos.

E a vida? Não a vivemos.

 

Neste reino de Pacheco

— do que era todo testa,

do que já nada dizia,

e só sorria, sorria,

do que nunca disse nada

a não ser prá galeria,

que também não o ouvia,

do que, por detrás da testa,

tinha a testa luzidia,

neste Reino de Pacheco,

ó meus senhores que nos resta

senão ir aos maus costumes,

às redundâncias, bem-pensâncias,

com alfinetes e lumes,

fazer rebentar a besta,

pô-la de pernas pró ar?

 

Por isso, aqui, acolá

tudo pode acontecer,

que as ideias saem fora

da testa de cada qual

para que a vida não seja

só mentira, só mental…

 

Publicado pela primeira vez em Poemas com Endereço,1962. Transcrito de Poesias Completas 1951/1986, INCM, 3ªedição revista e aumentada, Braga, 10 de Junho, Dia de Portugal, 1980.

 

O poema de Peter Kagayi foi transcrito de Próximo Futuro, nº14, Outubro 2013, publicação em formato de jornal editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

Termino com o que poderá ser uma imagem da angústia portuguesa ao votar, pintura também de Paul Klee.

Paul Klee - Ensimesmamento 1919

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Se… por Alexandre O’Neill

22 Quinta-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Alexandre O'Neill, Salvador Dalí

cubist-figure

Talvez alguns leitores estejam lembrados do poema Se, tradução do poema de Rudyard Kipling (1865-1936), If, e foi um must estampado num cartaz que encheu paredes de quartos juvenis por finais dos anos 60 do século XX. É uma paródia a esse poema que Alexandre O’Neill (1924-1986) faz neste seu poema, Se…, que a seguir transcrevo.

 

 

SE…

 

Se é possível conservar a juventude

Respirando abraçado a um marco de correio;

Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu

Deixando-a em estado grave;

Se ao descer do avião a Duquesa do Quente

Pôs marfim a sorrir;

Se Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;

Se na América um jovem de cem anos

Veio de longe ver o Presidente

A cavalo na mãe;

Se um bode recebe o próprio peso em aspirina

E a oferece aos hospitais do seu país;

Se o engenheiro sempre não era engenheiro

E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;

Se reentrante, protuberante, perturbante,

Lola domina ainda os portugueses;

Se o Jorge (o “ponto” do Jorge!) tentou beber naquela noite

O presunto de Chaves por uma palhinha

E o Eduardo não lhe ficou atrás

Ao sair com a lagosta pela trela;

Se “ninguém me ama porque tenho nau hálito

E reviro os olhos como uma parva”;

Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa

Cantar com o Alberto…

 

…acaso o nosso destino,tac!, vai mudar?

 

 

Publicado pela primeira vez em No Reino da Dinamarca, 1958. Transcrito de Poesias Completas 1951/1986, INCM, 3ªedição revista e aumentada, Braga, 10 de Junho, Dia de Portugal, 1980.

 

A imagem de abertura respeita a uma pintura de Salvador Dalí (1904-1989).

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...
← Older posts
Newer posts →

Visitas ao Blog

  • 2.367.909 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 898 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • Eugénio de Andrade — Green god
  • Jogos infantis de Bruegel pelo Natal
  • Beijos mil - o poema V de Catulo

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Site no WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 898 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d