Etiquetas

,

Adão e Eva 1935-39

Tenho dado conta no blog de parte da abundante iconografia sobre Adão e Eva. São em menor número as reflexões poéticas sobre o mito bíblico do pecado original. Hoje é o poeta brasileiro Olavo Bilac (1865-1918) quem, num precioso poema, A Alvorada do Amor, reflete sobre o amor e a expulsão do paraíso numa nada ortodoxa visão:

 

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,

Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!

Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,

Levo tudo, levando o teu corpo querido!

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:

– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,

E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,

Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,

Agora que és mulher, agora que pecaste!

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,

Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,

– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

 

E assim passaram os anos.

Da decisão de Adão “Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus” nasceu a prole que encheu o mundo e hoje goza Os Prazeres do Ócio nesta feliz evocação de Fernand Léger (1881-1955).

Os prazeres do ócio 1948-9

Lidos os excertos, vamos ao poema integral.

 

A Alvorada do Amor

 

Um horror grande e mudo, um silêncio profundo

No dia do Pecado amortalhava o mundo.

E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo

Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,

Disse:

 

          “Chega-te a mim! entra no meu amor,

E à minha carne entrega a tua carne em flor!

Preme contra o meu peito o teu seio agitado,

E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!

Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,

Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!

 

Vê! tudo nos repele! a toda a criação

Sacode o mesmo horror e a mesma indignação…

A cólera de Deus torce as árvores, cresta

Como um tufão de fogo o seio da floresta,

Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;

As estrelas estão cheias de calefrios;

Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu…

 

Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,

Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!

Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;

Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;

Surjam feras a uivar de todos os caminhos;

E, vendo-te a sangrar das urzes através,

Se emaranhem no chão as serpes aos teus pés…

Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,

Ilumina o degredo e perfuma o deserto!

Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,

Levo tudo, levando o teu corpo querido!

 

Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:

– Tudo renascerá cantando ao teu olhar,

Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,

Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!

Rosas te brotarão da boca, se cantares!

Rios te correrão dos olhos, se chorares!

E se, em torno ao teu corpo encantador e nu,

Tudo morrer, que importa? A Natureza és tu,

Agora que és mulher, agora que pecaste!

 

Ah! bendito o momento em que me revelaste

O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!

Porque, livre de Deus, redimido e sublime,

Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,

– Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!”

 

Poema publicado pela primeira vez em 1902.

In Poesias, Editora Martins Fontes, São Paulo, 1997.

Transcrito de Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, seleção de Italo Moriconi, Editora Objectiva, Rio de Janeiro 2001.

 

Abre o artigo com a imagem de uma pintura de Fernand Léger (1881-1955), Adão e Eva (1935-39) chamada. Seguem-se Os Prazeres do ócio (1948-9) dos filhos de Adão, primeiro em fundo azul, e agora em findo vermelho.

Os prazeres do écio sobre fundo vermelho 1949

Anúncios