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George Segal  - Alice Listening to Her Poetry

No princípio era o Verbo

(e os açucares

e os aminoácidos).

Depois foi o que se sabe.

Neste deambular a que a poesia convida, sucedo ao poema de Olavo Bilac, onde Adão convida Eva à aventura do pecado, e que não é outra senão a vida da humanidade, com um poema de Manuel António Pina (1943-2012), Neste Preciso Tempo, Neste Preciso Lugar.

 

É curta e assombrada pela dor a obra poética de Manuel António Pina. Nela a morte espreita a cada poema, de par com a reflexão sobre as palavras (inúteis) que enchem o mundo e a nostalgia do silêncio que a eternidade, no seu sono, devolve. Entretanto, e homens por cá, da vida vivida, o passado, não temos fuga, a menos que a desmemória nos atinja. Felizmente não guardamos tudo, e do que fica fala-nos o poema:

 

Por onde vens, Passado,

pelo vivido ou pelo sonhado?

Que parte de ti me pertence,

a que se lembra ou a que esquece?

 

Saberá cada um de nós com o que conta, mas para lhe aliviar o peso lá virá o momento em que …em vez de metafísica / ou de biologia… nos dê para qualquer outra coisa, não necessariamente poesia, como ao poeta, mas uma atitude igualmente salutar: …passar-lhe ao lado / deitando-lhe o enviesado / olhar da ironia.

 

Passemos ao poema sem mais, seja ironia ou cortes abusivos.

 

Neste Preciso Tempo, Neste Preciso Lugar

 

No princípio era o Verbo

(e os açucares

e os aminoácidos).

Depois foi o que se sabe.

Agora estou debruçado

da varanda de um 3º andar

e todo o Passado

vem exactamente desaguar

neste preciso tempo, neste preciso lugar,

no meu preciso modo e no meu preciso estado!

 

Todavia em vez de metafísica

ou de biologia

dá-me para a mais inespecifica

forma de melancolia:

poesia nem por isso lírica

nem por isso provavelmente poesia.

Pois que faria eu com tanto Passado

senão passar-lhe ao lado

deitando-lhe o enviesado

olhar da ironia?

 

Por onde vens, Passado,

pelo vivido ou pelo sonhado?

Que parte de ti me pertence,

a que se lembra ou a que esquece?

Lá em baixo, na rua, passa para sempre

gente indefinidamente presente,

entrando na minha vida

por uma porta de saída

que dá para a memória.

Também eu (isto) não tenho história

senão a de uma ausência

entre indiferença e indiferença.

 

Transcrito de Poesia Reunida, Assirio & Alvim, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma escultura de George Segal (1924-2000), Alice ouvindo a sua poesia.

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