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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

Um soneto de António Dinis da Cruz e Silva a pretexto do Julgamento de Páris

11 Quarta-feira Set 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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António Dinis da Cruz e Silva, Julgamento de Páris, Lucas Cranach o Velho

Cranach_the_Elder_Lucas-Saxon_Princesses_Sibylla_Emilia_and_Sidonia 1530-35Em jeito de paródia ao artigo sobre o Julgamento de Páris, associo esta pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553) a um soneto de António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) por este enviado a três irmãs, e onde evoca o julgamento de Páris.

Absorto entre as três deusas duvidava

Páris a qual o pomo entregaria:

Sem véu as perfeições de todas via,

E quanto via mais, mais vacilava:

 

Se qualquer de per si atento olhava,

Em seu favor a lide decidia,

Mas logo resolver-se não sabia

Quando juntas depois as contemplava.

 

Enfim um não sei quê, que a Natureza

Mais liberal com Vénus repartira,

O move a dar-lhe o prémio da beleza.

 

Ah! Se igual entre vós lide se vira,

O mesmo Páris cheio de incerteza

Nunca a grande contenda decidira.

Soneto LIII do vol. I das Obras de António Dinis da Cruz e Silva.

O retrato, pintado por Lucas Cranach o Velho respeita às princesas da Saxónia: Sibyla, Emília e Sidónia, feito entre 1530-35.

Termino com três dos Julgamentos de Páris por Lucas Cranach o Velho, mestre cuja pintura me encanta.

Nelas o nosso Páris é um guerreiro armado até aos dentes e aparentemente exausto pela ciclópica tarefa deste julgamento, enquanto as deusas exibem de forma insinuante os seus argumentos.

 Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1512-14

Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1530

Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1528-II

 

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O prazer na sobriedade dos livros e poema de Xenófanes de Cólofon

28 Quarta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Paolo Veronese, Poesia Grega Antiga, Xenófanes de Cólofon

Veronese - Bodas de CanaãAbrir o pacote e receber um livro tamanho 12x19cm, espessura pouco mais que um centímetro, que cabe na mão e se segura com prazer, encadernação em pele, lisa, azul escuro, título em dourado a um terço da altura, abrir, papel creme, mate, sedoso ao toque, a mancha impressa, em caracteres legíveis sem esforço, começar a ler e, de súbito, entrar no mundo da Grécia antiga, conversar com os seus poetas sobre temperança e excesso nos prazeres, a mesquinhez e heroísmo dos homens, a vida em sociedade e a sua organização política, os caprichos dos deuses e a incerteza da vida, ser jovem e ser velho, os filhos, os trabalhos da terra, a sobrevivência, ser rico ou pobre, em suma a aprendizagem do viver, tudo isto recebi. Vinha numa edição da Editorial Gredos. São livros da sua Biblioteca Classica. Um mundo para saborear no que já conheço e para descobrir no que não sei que existe. Desses prazeres e surpresas ir-vos-ei dando conta. Por agora o prazer é meu.

De tudo o que referi nos fala, entre outros, também Xenófanes de Cólofon (séc. VI-V a. C.). Dele vos deixo um poema. Não a tradução integral em espanhol de um seu fragmento , que agora leio, mas  os versos1-18 em bela tradução portuguesa de Maria Helena da Rocha Pereira, publicado na sua antologia de Cultura Grega, Hélade.

Agora está o solo puro, e as mãos de todos nós

e os cálices. Um põe-nos as coroas entretecidas,

e outro oferece-nos numa taça a essência fragrante.

O crater está repleto de boa disposição.

Está já pronto outro vinho, que garante que jamais

abandona ao barro o cheiro a mel da sua flor.

No meio, uma árvore de incenso desprende um sacro aroma;

a água está fresca, doce e pura.

Aqui temos os fulvos pães e a mesa sumptuosa,

carregada de queijo e de pingue mel.

Ao meio, o altar está todo coberto de flores.

A música festiva domina o ambiente.

Ao deus devem os homens sensatos entoar primeiro um hino,

com ditos de bom augúrio e palavras puras.

Depois de fazer as libações e preces para procederem

com justiça — pois isso é a primeira lisa —

não é insolente beber até ao ponto de se poder voltara casa

sem ajuda de um escravo, a menos que se seja muito idoso.

(fragmento 1, ed. Diels-Kranz, versos 1-18)

Abre o artigo uma imagem da pintura de Paolo Veronese (1528-1588), As Bodas de Canaã, certa vez contemplada por horas no Louvre  onde se guarda. Acrescento agora alguns detalhes desta gigantesca obra-prima.

Ao leitor deixo a liberdade do confronto entre o que vê e leu, a história, a arte, e a sabedoria que a vida acaba por nos trazer.

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 1

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 2

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 3

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Tarde de amores — visão de Filinto Elysio e a tradução do original de Ovídio

16 Sexta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poesia Antiga

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Filinto Elysio, Giorgio Morandi, Ovídio

Morandi_Giorgio-Still_Life-c._1925…
O quarto decorado em tons pastel lembrava uma pintura de Morandi, transpirava uma atmosfera diáfana e convidava ao repouso. A luz coada pelas cortinas punha sobre os móveis encerados um dourado acolhedor. Ao longe, pela janela, espreitava o mar fundido num céu sublime, a brisa suave da tarde esvoaçava os cortinados e lambia os corpos em êxtase, deitados sobre o prazer.

No remanso da paixão contava-lhe histórias infantis. A magia que o êxtase criara prolongava-se agora no calor da voz e nas caricias que suavemente acompanhavam as peripécias ali inventadas…

fragmento de novela inédita.

Morandi_Giorgio-Passage 1913

Por estas tardes de brasa lembro-me frequentemente do poema 5 do Livro I da obra Amores de Ovídio (43 a.C -17/18 d.C.).

Corria uma tórrida tarde de Verão do ano passado quando deixei no blog a leitura do poema por David Mourão-Ferreira. Hoje a ele regresso com a visão de Filinto Elísio (1734-1819) e as convenções que o século XVIII permitia, mesmo quando o poema fosse publicado sob pseudónimo, como aconteceu.

Partia o dia em meio o sol calmoso;
Reclino o corpo a descansar no leito,
Mas aberta janela, e mal cerrada;
Qual usa premoiar a luz nos bosques,
Qual crepúsculo deixa, ao despedir-se,
Febo, ou foge a noite, à vista da alva,
Luz, que convém às moças vergonhosas,
E em que o tímido pejo ache escondrijo.
Eis vem Corina, em mal cingidas roupas,
(Sólta a madeixa e níveo peito oculta)
Qual Semíramis ( diz-se) ao leito fôra,
Gentil, e fôra Laís, de muitos dama.
Dispo-lhe a roupa, (que empecíamos pouco
De rara!) Ela pugnava por cobrir-se;
Mas, como que não quer vencer, pugnava.
Mal esteve ante meus olhos toda nua,
Não lhe vi um senão no corpo todo.
Quais vi, quais os palpei, ombros e braços!
Quais maminhas tão guapas de empalmá-las!
Que liso o ventre desce do alto peito!
Que cintura, e infantis, roliças coxas!
Que mais direi! mimoso é quanto hei visto,
E toda com o meu corpo a cingi nua.
Que há mais que ouvir? Cansámos, descansámos;
Corram-me a fio tais os meios-dias.

Filinto Elísio assinado com o pseudónimo Gregório da Silva Pinto.

Acrescento em fim de festa a viva tradução directa a partir do original latino, por Carlos Ascenso André.

Fazia calor e o dia já tinha cumprido metade das suas horas;
pousei em cima da cama o corpo para lhe dar descanso.
Uma parte da janela estava aberta, a outra parte fechada;
assim era a luz, como a que os bosques costuma deixar entrever,
como a penumbra do crepúsculo, à hora em que o sol se esvai,
ou quando a noite já se foi e não nasceu, ainda, o dia;
essa é a luz que deve amostrar-se a jovens recatadas;
nela, a timidez e a vergonha encontram refúgio.
Eis que surge Corina, resguardada e envolta na sua túnica,
os cabelos caídos de ambos os lados do colo resplandecente,
assim formosa entrava Semíramis no quarto,
diz-se, e Laís, amada por tantos homens.
Arranquei-lhe a túnica; e não é que me estorvassem muito a sua transparência,
mas ela porfiava por estar coberta daquela túnica;
pois que porfiava assim como quem não quer vencer,
foi vencida sem custo, com a sua própria ajuda.
Quando ela surgiu diante de meus olhos, o manto caído aos pés,
no corpo inteiro nem uma só mácula se me mostrou:
Que ombros! Que braços eu vi e toquei!
A beleza dos seios, como se pôs a jeito dos meus afagos!
Como era liso, abaixo da linha do peito, o ventre!
Que grandiosidade e perfeição nas coxas! Que frescura nas pernas!
Que mais minúcias direi? Nada vi que não mereça elogio,
e foi a nudez do seu corpo que apertei contra o meu.
O resto, quem o não sabe? Depois da fadiga, repousámos ambos.
Assim possam correr muitas vezes as minhas tardes!

Temos assim que para o verso de maior escândalo no poema:

forma papillarum quam fuit apta premi!

Filinto Elysio no descaro do pseudónimo nos dá no final do século XVIII

Quais maminhas tão guapas de empalmá-las!

E o nosso jovem tradutor no século XXI lê:

A beleza dos seios, como se pôs a jeito dos meus afagos!

Venha um professor de latim dilucidar as opções de tradução, porque em poesia, Filinto Elysio continua melhor, ainda que o empalmá-las surja hoje quase calão. Mas na verdade, fuit apta premi transmite um prontas a cingir, espremer, o que nestes preparos de cama é o natural. E empalmar dá mais a medida da coisa, que afago.

Nota bibliográfica
O poema por Filinto Elysio consta do Tomo 5º das suas Obras Completas, Paris, Na oficina de A. bobée, 1818. Modernizei a ortografia.

Ovídio, Amores, tradução de Carlos Ascenso André, Livros Cotovia, Lisboa, 2006.

Nota iconográfica

A pintura de Giorgio Morandi (1890-1964), dá a cor. O que de tarde acontece fica para a imaginação de quem lê, um dos prazeres da literatura.

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Goethe em Itália — um poema

12 Segunda-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Erótica, Poesia Antiga

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Goethe, Tischbein

Tischbein_Johann_Heinrich_Wilhelm-Goethe_in_the_Roman_CampagnaNa excitação de nova viagem Itália releio Goethe (1749-1832). Se a Viagem a Itália é um prazer, a poesia que ela inspirou é um apetite. É dessas suas Elegias Romanas, que passam por poesia erótica, que vos trago a VI, traduzida por Manuel Malzbender, pois Paulo Quintela, nas suas apreciadas traduções de Goethe passou-lhe por cima: traduziu a V e VII. Da sua leitura talvez se perceba porquê. Aí fica.

Feliz me sinto agora, inspirado em solo clássico.
Com voz mais alta e sedutora me falam passado e presente.
Sigo o conselho dos Antigos, folheio as suas obras
Com mão solitária, todos os dia, com renovado prazer.
Mas durante a noite prefiro ter as mãos em outros lados,
E se eu só aprender metade, terei o dobro do prazer.
E não aprendo eu quando contemplo as deliciosas formas
Do peito, quando a mão desliza pelas ancas?
Só então entendo verdadeiramente o mármore, penso e comparo,
Vejo com olhos sensitivos, sinto com mãos videntes,
E quando a amada me rouba algumas horas do dia,
Dá-me as horas da noite em compensação.
Não nos beijamos apenas, também temos conversas sérias,
E quando dorme a minha querida, ao seu lado penso em muitas coisas,
Muitas vezes também compus versos nos seus braços
E as suas costas, dedilhando contei eu
Suavemente o hexâmetro, e quando a bela dormita
O seu sopro incendeia profundamente o meu peito.
Então o amor acende a lâmpada e recorda os tempos
Em que prestou o mesmo favor ao seu Triunvirato(1)

Gosto sobretudo de quando o amor acende a lâmpada!

(1) Diz o tradutor que se trata dos três poetas romanos com vasta obra erótica: Catulo, Tíbulo e Propércio.

A eles iremos um destes dias, mas talvez apenas em espanhol se não conseguir tradução portuguesa que me satisfaça.

Na pintura de abertura Tischbein (Johann Heinrich Wilhelm Tischbein (1751-1828) ) mostra supostamente Goethe em Itália e, na pose especiosa, criou a imagem que ao poeta ficou irremediavelmente associada.

O poema foi publicado em Goethe, Erótica Romana, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa 2005.

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A formosa na orgia — poema de Al-Sarif al-Talïq / O Principe Amnistiado

08 Quinta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poesia Antiga

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Al-Andaluz, Al-Sarif al-Talïq, Jean-Marie Auradon

Jean-Marie Auradon - nu femininoAinda não é o tempo de vos ocupar com erudições a propósito da poesia do Al-Andaluz, por isso, deixo-vos apenas um poema de Al-Sarif al-Talïq / O Principe Amnistiado (961-1009).

A foto de Jean-Marie Auradon (1887-1958) que abre o artigo, mostra um dos mais belos nus de mulher que conheço em fotografia, e pareceu-me digna de transmitir visualmente a beleza cantada no poema.

A formosa na orgia

Seu talhe flexível era um ramo que balouçava sobre o montão de areia de
seus quadris, e do qual colhia meu coração frutos de fogo.

Os ruivos cabelos que cobrem suas têmporas debuxavam um lam na branca pagina da maçã do rosto, como ouro que escorre sobre prata.

Estava no apogeu da sua beleza, como o ramo se veste de folhas.

O vaso cheio de roxo néctar era, entre seus dedos brancos, como um crepúsculo que amanheceu em cima de uma aurora.

Saiu o sol do vinho, e era sua boca o poente, o oriente a mão do copeiro,
que ao despejar o vinho pronunciava formulas corteses.

E ao pôr-se no delicioso ocaso de seus lábios, deixava o crepúsculo nas maçãs de seu rosto.

A tradução é de Segismundo Spina e vem incluída em anexo no seu estudo clássico A LÍRICA TROVADORESCA publicado pela Editora da Universidade de S Paulo.

 

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Uma cantiga de amigo sobre a mulher só

08 Quinta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Cantiga de Amigo, Natália Correia

16É da idade média que nos chega este canto de solidão nocturna.

Gira o mundo, aumenta a variedade na farmácia, mas o remédio continua a ser o mesmo:

Diferente é a noite quando ele aparece / meu lume e senhor e o dia me traz; / pois apenas chega logo a luz se faz.

Vamos então à cantiga com modernização de Natália Correia.

Sem o meu amigo sinto-me sózinha
e não adormecem estes olhos meus.
Tanto quanto posso peço a luz de Deus
e Deus não permite que a luz seja minha.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Quando eu a seu lado folgava e dormia
depressa passavam as noites; agora
vai e vem a noite, a manhã demora;
demora-se a luz e não nasce o dia.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Diferente é a noite quando ele aparece
meu lume e senhor e o dia me traz;
pois apenas chega logo a luz se faz.
Vai-se agora a noite, vem de novo e cresce.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Padres-nossos já rezei mais de um cento
implorando Àquele que morreu na cruz
que cedo me mostre novamente a luz
em vez destas longas noites de Advento.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Pode dar-se o caso de a cantiga ser uma profunda modernização  de uma poesia de Pedr’ Eanes Solaz, o que não tenho a certeza, cuja  primeira quadra canta assim:

Eu velida nom dormia / lelia doura / e meu amigo venia / ed oi lelia doura

de acordo com a transcrição proposta por Rip Cohen na edição crítica de 500 Cantigas d’Amigo.

Na erudita nota do editor, lelia doura pode ser lida como líya ddáwara ‘a mim a vez (= é a minha vez) em árabe andaluz. líya, um alomorfe de li ‘a mim,’ ‘para mim’, é foneticamente /leia/, e lelia pode ser ou um erro por leiia.

Ed oi é romance ibérico arcaico < et hodie com vocalização do -t- intervocálico no interior da expressão.

Na dúvida sobre a correspondência, e porque o português arcaico é de difícil leitura, não transcrevo a totalidade da canção e aqui fica a informação onde pode ser encontrada.

500 Cantigas d’Amigo, edição critica de Rip Cohen, Colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Campo de Letras Editores, 2003, pag. 287.

 

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Desejo e despedida em dois poemas de Aleksandr Púchkin

06 Terça-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Aleksandr Púchkin, Berthe Morisot

Berthe Morisot 1879Corremos o mundo lendo poesia e por todo o lado encontramos, como factor identitário de humanidade, o canto do amor e seus desacertos. Disso mesmo acabo por ir dando conta ao longo dos tempos nas escolhas que faço para o blog. Hoje vamos até à Rússia do século XIX e ao seu poeta literariamente fundador, Aleksandr Púchkin (1799-1837).

Aleksandr Púchkin (1799-1837) num primeiro poema, quando o amor é avassalador, escreve como Queima o sangue um fogo de desejo, / De desejo a alma é ferida,

*

Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa noturna.
[1825]

Tradução directa do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra

Quando acaba, e nunca é abruptamente, como se sabe, — Algumas brasas desse amor estão ainda a arder; —, nem sempre existe a grandeza de alma de que este segundo poema, Eu amei-te…, dá mostras:

Tão terna, tão sinceramente te amei, / Que peço a Deus que outro te ame assim.

Eu amei-te…

Eu amei-te; mesmo agora devo confessar,
Algumas brasas desse amor estão ainda a arder;
Mas não deixes que isso te faça sofrer,
Não quero que nada te possa inquietar.
O meu amor por ti era um amor desesperado,
Tímido, por vezes, e ciumento por fim.
Tão terna, tão sinceramente te amei,
Que peço a Deus que outro te ame assim.

Versão portuguesa de Jorge Sousa Braga

Nota iconográfica

A imagem que abre o artigo é de uma pintura de Berthe Morisot (1841-1895), primeiro, modelo de Manet, e depois sua cunhada. Vivendo de perto o movimento impressionista em França, Berthe Morisot consegue uma individualidade na sua pintura em que a paleta e a pincelada são as marcas distintivas, tanto na delicadeza com que pratica o retrato, como na composição quando pinta a paisagem, quais estas pinturas com que encerro o artigo.

Berthe Morisot 1875

Morisot_Berthe-Girl_in_a_Boat_with_Geese

Morisot_Berthe-Woman_in_a_Garden

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O verão segundo Alceu de Lesbos

28 Domingo Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poesia Grega

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Alceu de Lesbos, Picasso

Beach at La Garoupe (first version) - 1955-16Neste verão que se esconde, e a espaço nos abrasa, regresso com a poesia da antiga Grécia, terra habituada ao sol, cujos poetas nos deixaram uma leitura do mundo, cruzada com o capricho de deuses e heróis numa explicação do incompreensível, de inexcedível beleza.

É de Alceu de Lesbos (sec VII a.C.), poeta e soldado de quem nos chegou pouca da muita poesia sua de que há noticia, esta reflexão sobre o Verão — É a hora / em que as mulheres se tornam / mais fogosas e mais fracos / os homens —, onde de alguma forma retoma a reflexão de Hesíodo (séc VIII a.C.) em Trabalhos e Dias (versos 582-596) que há anos, pelo Outono transcrevi no blog.

Humedece de vinho a garganta, que o astro
já voltou. É penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor. Entre
a folhagem, docemente
a cigarra canta… Floresce
o cardo. É a hora
em que as mulheres se tornam
mais fogosas e mais fracos
os homens, pois que Sírio
as cabeças abrasa e os joelhos.

A tradução é de Albano Martins e consta da Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

Talvez algum erudito leitor nos saiba esclarecer quanto a semelhança entre estes fragmentos de Alceu e Hesíodo reflecte os processos de transmissão da poesia antiga até nós e traduz um conceito de originalidade autoral nos antípodas do que hoje prezamos.

Iconografia

Acompanham o artigo duas visões de Picasso da praia em La Garoupe, sul de França, em 1955.

Beach at La Garoupe (second version) - 1955-15

 

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Itália seguido de Soneto, poemas de Álvares de Azevedo

18 Quinta-feira Jul 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Álvares de Azevedo, Ticiano

Titian-Danae-1544-IITerá sido certamente uma bela italiana — Pátria do meu amor! terra das glórias — quem esteve por detrás da sensual evocação — Lá na terra da vida e dos amores — que no poema Itália o jovem e malogrado poeta brasileiro Álvares de Azevedo (1831-1852) nos deixou, e onde o eterno da atracção ressuma.

Na singela forma poética do romantismo, Álvares de Azevedo deu-nos o calor da terra e a ardência da palpitação dos vinte anos, — A Itália do prazer, do amor insano, — em quadras de suave beleza melódica.

ITÁLIA

I
Lá na terra da vida e dos amores
Eu podia viver inda um momento…
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento!

Eu podia viver — e porventura
Nos luares do amor amar a vida,
Dilatar-se minh’alma como o seio
Do pálido Romeu na despedida!

Eu podia na sombra dos amores
Tremer num beijo o coração sedento…
Nos seios da donzela delirante
Eu podia viver inda um momento!

Ó anjo de meu Deus! se nos meus sonhos
Não mentia o reflexo da ventura,
E se Deus me fadou nesta existência
Um instante de enlevo e de ternura…

Lá entre os laranjais, entre os loureiros,
Lá onde a noite seu aroma espalha,
Nas longas praias onde o mar suspira
Minh’alma exalarei no céu de Itália!

Ver a Italia e morrer!… Entre meus sonhos
Eu vejo-a de volúpia adormecida…
Nas tardes vaporentas se perfuma
E dorme, à noite, na ilusão da vida!

E, se eu devo expirar nos meus amores,
Nuns olhos de mulher amor bebendo,
Seja aos pés da morena Italiana,
Ouvindo-a suspirar, inda morrendo.

Lá na terra da vida e dos amores
Eu podia viver inda um momento,
Adormecer ao sol da primavera
Sobre o colo das virgens de Sorrento!

II

A Itália! sempre a Itália delirante!
E os ardentes saraus e as noites belas!
A Itália do prazer, do amor insano,
Do sonho fervoroso das donzelas!

E a gôndola sombria resvalando,
Cheia de amor, de cânticos e flores…
E a vaga que suspira à meia-noite
Embalando o mistério dos amores!

Ama-te o sol, ó terra da harmonia,
Do levante na brisa te perfumas,
Nas praias de ventura e primavera
Vai o mar estender seu véu d’escumas!

Vai a lua sedenta e vagabunda
O teu berço banhar na luz saudosa,
As tuas noites estrelar de sonhos
E beijar-te na fronte vaporosa!

Pátria do meu amor! terra das glórias
Que o génio consagrou, que sonha o povo…
Agora que murcharam teus loureiros
Fora doce em teu seio amar de novo…

Amar tuas montanhas e as torrentes
E esse mar onde bóia alcion dormindo,
Onde as ilhas se azulam no ocidente,
Como nuvens, à tarde, se esvaindo…

Aonde, à noite, o pescador moreno
Pela baía no batel se escoa…
E murmurando, nas canções de Armida,
Treme aos fogos errantes da canoa…

Onde amou Rafael, onde sonhava
No seio ardente da mulher divina,
E talvez desmaiou no teu perfume
E suspirou com ele a Fornarina…

E juntos, ao lar, num beijo errante
Desfolhavam os sonhos da ventura
E bebiam na lua e no silêncio
Os eflúvios da tua formusura!

Ó anjo de meu Deus, se nos meus sonhos
A promessa do amor me não mentia,
Concede um pouco ao infeliz poeta
Uma hora da ilusão que o embebia!

Concede ao sonhador, que tão-somente
Entre delírios palpitou d’enleio,
Numa hora de paixão e de harmonia
Dessa Itália do amor morrer no seio!

Oh! a terra da vida e dos amores
Eu podia sonhar inda um momento,
Na seios da donzela delirante
Apertar o meu peito macilento!

Maio, 1851. – S. Paulo

A obra de Álvares de Azevedo (1831-1852) não faz parte do conhecimento generalizados dos que em Portugal gostam de poesia. Para abrir o apetite ao conhecimento da sua obra, onde o realismo poético de Cesário Verde por vezes se antecipa, termino com um soneto em que um delicado erotismo espreita — Era mais bela! o seio palpitando… / Negros olhos, as pálpebras abrindo… /Formas nuas no leito resvalando…

Soneto

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada…
— Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos, as pálpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

Não terias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando,
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!

Acompanha o artigo uma das belas Danae pintadas por Ticiano (1488/90-1576), esta de 1544. A modelo faz jus ao delírio poético que acabámos de ler.

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O Amor segundo Ibn Badrûn

24 Segunda-feira Jun 2013

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Al-Andaluz, Enrico Baj, Ibn Badrûn

Enrico BajÉ pouca em Portugal a curiosidade sobre a poesia do Al-Andaluz, ou seja a poesia de origem árabe ( e também judaica) que floresceu na península ibérica antes da reconquista cristã.

Para hoje, e rompendo o prolongado silêncio, venho com a visão do amor de um poeta do Al-Andaluz natural de Silves, ‘Abd al-Mâlik Ibn ‘Abd Allâh Ibn Badrûn al-Hadramî, que terá vivido até ao inicio do século XIII (era vivo em 1211) e foi autor de uma muito célebre obra — Cálice das flores e concha das pérolas.

Percorremos épocas diversas e culturas variadas, e o entendimento do amor permanece uma constante, ainda que a sua vivência surja no tempo, e na geografia, matizada pelas condicionantes culturais de cada sociedade. No essencial é sempre o mesmo: enquanto dura dá prazer, quando termina faz sofrer, e sem ele não se pode viver. É o que nos diz também Ibn Badrûn neste seu poema.

O AMOR

o amor é feito de prazer:
então vive de beijos e abraços.
depois chega a hora de sofrer:
palavras amargas seguem nossos passos
e nos apartamos, como quem vai morrer.
mas ah!, se no amor não mais acreditasse
melhor fora que minha vida se acabasse!

O poema foi transcrito da antologia de poesia luso-árabe, O meu coração é árabe, organizada por Adalberto Alves e publicada por Assírio & Alvim em 3ª edição revista e aumentada, Lisboa, 1999.

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