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16É da idade média que nos chega este canto de solidão nocturna.

Gira o mundo, aumenta a variedade na farmácia, mas o remédio continua a ser o mesmo:

Diferente é a noite quando ele aparece / meu lume e senhor e o dia me traz; / pois apenas chega logo a luz se faz.

Vamos então à cantiga com modernização de Natália Correia.

Sem o meu amigo sinto-me sózinha
e não adormecem estes olhos meus.
Tanto quanto posso peço a luz de Deus
e Deus não permite que a luz seja minha.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Quando eu a seu lado folgava e dormia
depressa passavam as noites; agora
vai e vem a noite, a manhã demora;
demora-se a luz e não nasce o dia.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Diferente é a noite quando ele aparece
meu lume e senhor e o dia me traz;
pois apenas chega logo a luz se faz.
Vai-se agora a noite, vem de novo e cresce.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Padres-nossos já rezei mais de um cento
implorando Àquele que morreu na cruz
que cedo me mostre novamente a luz
em vez destas longas noites de Advento.
Mas se eu ficasse com o meu amigo
a luz agora estaria comigo.

Pode dar-se o caso de a cantiga ser uma profunda modernização  de uma poesia de Pedr’ Eanes Solaz, o que não tenho a certeza, cuja  primeira quadra canta assim:

Eu velida nom dormia / lelia doura / e meu amigo venia / ed oi lelia doura

de acordo com a transcrição proposta por Rip Cohen na edição crítica de 500 Cantigas d’Amigo.

Na erudita nota do editor, lelia doura pode ser lida como líya ddáwaraa mim a vez (= é a minha vez) em árabe andaluz. líya, um alomorfe de lia mim,’ ‘para mim’, é foneticamente /leia/, e lelia pode ser ou um erro por leiia.

Ed oi é romance ibérico arcaico < et hodie com vocalização do -t- intervocálico no interior da expressão.

Na dúvida sobre a correspondência, e porque o português arcaico é de difícil leitura, não transcrevo a totalidade da canção e aqui fica a informação onde pode ser encontrada.

500 Cantigas d’Amigo, edição critica de Rip Cohen, Colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, Campo de Letras Editores, 2003, pag. 287.

 

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