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Gomes Leal — três poemas de História de Jesus

30 Quarta-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Gomes Leal, Paul Gauguin

gauguin cristo amareloTermino por agora a visita à poesia de assunto religioso católico com três poemas de História de Jesus, de Gomes Leal (1848-1921) nos quais se relata a crucificação e morte de Jesus.

A história da vida de Jesus é nesta obra contada com a desenvoltura versificatória apanágio do poeta, e a poesia salta, episódio a episódio, transformando-a numa narrativa de encantamento em que as matérias de fé passam a segundo plano.

Abro com o rouxinol na cruz que canta na agonia de Cristo lembrando o Amor, o Céu. quando tudo chora em seu redor. Falar da crucificação de Jesus com a magia deste O Rouxinol do Calvário é provavelmente caso único e suponho que o episódio é apócrifo em relação à narrativa bíblica.

Segue-se-lhe a descrição das trevas em que a terra mergulhou enquanto Cristo agonizava. E nele o verso transmite o terror que a fé reclama: Fenderam-se os rochedos, com ruídos. /Um singular terror gelou os ossos.

Termino com a estocada final do soldado romano no Cristo já morto. Neste poema a doçura da mensagem de Jesus é posta em contraste com o gratuito da violência dos seus carrascos:

…

caiu enfim chagado, justiceiro, / ainda, ainda perdoando ao mundo …

…

um soldado romano vendo-o exposto, / e já morto na Cruz, lívido o rosto, / com um golpe de lança o trespassou.

 

Entrego-vos aos poemas

 

O Rouxinol do Calvário

Na noite que passou

o Cristo, no Calvário,

um rouxinol cantou

sobre a Cruz, solitário.

 

Os trigueiros soldados,

e os lirios de Salém,

perguntavam pasmados :

— Que voz canta tão bem ?

 

Como sentindo os males

das suas próprias penas,

vergavam-se nos cálix,

chorando, as açucenas.

 

Choravam os caminhos,

os dados, os cilícios,

a grinalda de espinhos,

e a esponja dos suplícios.

 

Choravam os sem luz,

e os rijos peitos bravos.

Começavam na cruz

a vacilar os cravos.

 

Pelo tranquilo espaço,

paravam as estrelas,

e o vagaroso passo

as mudas sentinelas.

 

Os peitos desumanos

ressentiam mudanças.

Deixavam os romanos

escorregar as lanças.

 

Assim cantou… cantou…

lembrando o Amor, o Céu.

Quando Jesus morreu,

do lenho, enfim, voou ! …

 

 

Trevas

Rasgou se o véu do Templo de alto a baixo,

Cortou o vento o ar como um açoite.

Rugiram os leões, e o eterno facho

do dia se eclipsou. — E fez-se a Noite.

 

Fenderam-se os rochedos, com ruídos.

Um singular terror gelou os ossos

dos legionários trágicos, vencidos

da confusão, do espanto, e dos destroços.

 

O morto surge e mais o seu sudário,

trazendo o assombro do final segredo.

O povo da Judeia do santuário

foi-se esconder na treva — e teve medo.

 

As violetas murcharam sobre a haste.

E uma voz singular, lúgubre, estranha,

soluçou pela trágica montanha :

— «Meu Pai! Meu Pai ! porque me abandonaste?»

 

 

O Último Golpe de Lança

Quando ele enfim morrendo, ele, o cordeiro,

rola mansa no ar calado e imundo,

pendeu, bem como um lírio moribundo,

sobre a haste do trágico madeiro…

 

quando, lançando o espirito profundo,

ao reino belo, grande, verdadeiro.

caiu enfim chagado, justiceiro,

ainda, ainda perdoando ao mundo …

 

um soldado romano vendo-o exposto,

e já morto na Cruz, lívido o rosto,

com um golpe de lança o trespassou.

 

Saiu daquela chaga sangue e água:

— Sangue que inda quis dar a tanta mágoa.

— Água de pranto ainda que chorou.

 

Abre o artigo o Cristo amarelo pintado por Paul Gauguin (1848-1903) em 1889, pouco depois da composição desta História de Jesus (1883). Noutra oportunidade virá à conversa a forma como os escritores simbolistas franceses olharam a pintura bretã de Gauguin e a entenderam como a materialização dos seus ideais de arte. Aqui surge tão só como uma ideia de Cristo que a arte desmaterializa.

Como curiosidade e em nota de rodapé registe-se que Gomes Leal era apenas um dia mais velho que Gauguin. Um nasceu a 6 de Junho de 1848, o outro a 7 de Junho de 1848.

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Senhora das Maravilhas — soneto de Violante do Ceo

21 Segunda-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Escola de Cusco, Violante do Ceo

Perú Escola de Cusco - representação da Virgem sec XVII-XVIIIPara uma mente organizada nos pressupostos do método científico como forma de percepcionar a verdade, há um esforço prévio à fruição da poesia religiosa, sobretudo no período barroco, decorrente do argumentário organizado nesta. Aqui, a matéria de fé não oferece controvérsia e a verdade revelada é o ponto de partida inquestionado para o exercício verbal da devoção.

Entre os exemplos notáveis desta expressão poética encontro este soneto à Virgem escrito por Soror Violante do Ceo (1601-1693), dando conta de uma visão deslumbrada — Quem quiser ver de Deus as maravilhas, / Veja das maravilhas a Senhora. Seriam adequadas considerações de história religiosa a pretexto da identificação que o poema faz entre Deus e a Virgem Maria, para as quais não estou minimamente preparado. Atenho-me por isso à construção do poema para realçar quanto o vocabulário laudatório e a construção do verso criam, à medida que o poema avança, uma encantatória melodia, que em crescendo nos leva à chave do soneto num emocionante remate.

 

A Nossa Senhora das Maravilhas

Ó Tu de Maravilhas superiores

Compêndio singular, cifra divina,

Do artífice maior obra mais dina,

Belíssimo exemplar de excelsas flores!

 

Maravilha maior entre as maiores,

Glória da Magestade Única e Trina,

Norte celestial, luz matutina,

Epílogo de eternos resplendores!

 

Flor, que aos mesmos anjos maravilhas,

Aplauda-te a harmonia mais sonora

Vendo, que só a Deus teu ser humilhas.

 

E diga Céu e Terra (ó bela Aurora)

Quem quiser ver de Deus as maravilhas,

Veja das maravilhas a Senhora.

Notícia bibliográfica

O poema de Soror Violante do Ceo encontra-se na obra Parnaso lusitano de divinos e humanos versos Vol I, 1733. Modernizei a ortografia.

Iconografia

Abre o artigo uma imagem da Virgem pintada no Perú colonial no século XVII-XVIII. Conhecidas como Escola de Cusco (antiga capital do império Inca), estas pinturas coloniais de assunto religioso Católico Romano, dão conta de uma fascinante simbiose entre imaginário popular e codificação erudita da doutrina católica através de uma linguagem pictórica de surpreendente originalidade. Revelando prodigioso domínio técnico, fazem tábua rasa das aquisições de representação praticadas na pintura europeia da época e desenvolvem-se num universo estético fechado, onde os assuntos sacros são por vezes contaminados pelo quotidiano profano como neste arcanjo com arcabuz com que encerro o artigo.

Perú Escola de Cusco - representação de aracanjo com arcabuz sec XVII-XVIII

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O demiurgo como arquitecto — iluminura do séc. XIII

20 Domingo Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Iluminuras

Biblia Moralizada 1220-1230 folio 1 versoGuardam-se nos pergaminhos medievais preciosas iluminuras, verdadeiras obras-primas de impossível acesso directo e que só lentamente o progresso técnico de reprodução tem vindo a permitir conhecer.

Entre as imagens mais conhecidas encontra-se, talvez, a que abre o artigo: representação de Deus como criador do universo, mostrado enquanto arquitecto fixando a medida do mundo. Atendendo à legenda que encima a imagem, representa esta a passagem do Génesis 1, em que Deus criou o céu e a terra, o sol e a lua e todos os elementos.

A simbólica medieval é riquíssima e vai lentamente sendo estudada e compreendida. A utilização do círculo para representar o cosmos é antiga e nesta pintura a sua perfeição e harmonia conforma a irregularidade dos corpos materiais — terra, sol, nuvens e estrelas — e a sua mutabilidade, desenhados fazendo lembrar corpos vivos em actividade.

Na imagem, o acto de criação divina é um acto artístico, enfatizador da importância dos arquitectos e da arquitectura, numa época em que estes assumiam relevante importância na sociedade francesa enquanto criadores das catedrais góticas: construções pensadas na sua geometria espacial, para conduzir ao encontro de Deus, encaminhando o olhar, desde a entrada, para as alturas.

No propósito de transmitir mensagens complexas de doutrina, a arte gótica adoptou uma técnica de representação que embora separe o humano do divino, mantém este suficientemente próximo do mundo conhecido para permitir a sua assimilação sem ambiguidades.

Nestas preciosas obras de fruição na intimidade, até final do século XIII são sobretudo imagens de narrações bíblicas e colecções de cantos com iluminuras (saltérios) o que nestes pequenos pergaminhos até nós chegou. Mais tarde surgem as crónicas dos reinos, a de Carlos Magno no início do século XIV, os livros de horas com o seu calendário de devoções, e livros de utilidade, como o belíssimo livro da caça de Gaston Phoebus no início do século XV. O aparecimento da imprensa no final deste século XV, apesar da sua rápida divulgação num mundo em acelerada mudança, não pôs logo fim à produção destas obras-primas em pergaminho, e o século XVI ainda vê surgir algumas obras de grande beleza entre as quais a Genealogia do Infante D. Fernando de Portugal.

 

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As três Graças – escultura de Canova e um poema de Rufino

14 Segunda-feira Out 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Erótica, Poesia Antiga

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Canova, Rufino

António Canova - As três graças 1Há semanas trouxe ao blog a história do Julgamento de Páris. Hoje, a pretexto da bela escultura de António Canova (1757-1822) figurando As Três Graças, venho com um poema de Rufino.

As Três Graças (Gratiae em latim), de seus nomes Eufrosina Talia e Aglaia, são divindades da Beleza e têm como propósito espalhar a alegria na natureza e no coração de homens e deuses (ainda bem que existem, senão, que seria do mundo?).

Habitualmente representadas como três donzelas agarradas umas às outras, duas olham-se entre si e a do meio olha na direcção contrária. A fonte de todo este conhecimento que vos deixo é o precioso Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. Às graças voltarei, inevitavelmente, tantas sãos as obras de arte que inspiraram.

Por enquanto convido-vos a participar do acontecimento relatado por Rufino.

Rufino, poeta grego contemporâneo de Marcial, como hoje é geralmente aceite, viu-se a certa altura colocado em embaraço semelhante ao de Páris no julgamento da beleza feminina, e da situação deixou-nos a história que segue:

Três beldades me escolheram para julgar-lhes as nádegas,

a mim mostradas no esplendor da nudez.

As de uma, florescendo em alvura veludosa, estavam

marcadas ambas por covinhas graciosas;

a nívea carne das de outra, a de pernas abertas, tinha

rubor mais forte que a púrpura da rosa;

as da terceira, calmaria sulcada de ondas mudas,

palpitavam suaves ao seu próprio impulso.

Se o juiz das deusas, Páris, tivesse visto estas nádegas,

Não quereria saber de mais nenhuma.

Tradução de José Paulo Paes

Acrescento uma outra tradução do mesmo poema, longe, no entanto, do belo efeito poético da anterior. Ressalvo que, se nesta segunda tradução se referem coxas em vez de nádegas, o meu desconhecimento do grego antigo não me permite saber de que parte do corpo constava o julgamento. Posso no entanto referir que José Luís Calvo Martinez, na tradução em castelhano do mesmo poema nos diz a abrir: “Del culo de tres muchachas yo fui juez. …“

Vamos então à tradução do poeta Albano Martins

Fui juiz num concurso de coxas de três mulheres. Foram elas

que me escolheram, me mostraram a nudez esplendorosa

dos seus corpos. Marcada de pregas arredondadas,

a branca doçura das coxas de uma floria.

A carne Nevada da outra, de pernas afastadas, tinha uma cor

sanguínea, mais vermelha que uma rosa purpura.

A terceira mostrava-se serena como um mar tranquilo,

com a pele delicada apenas sacudida por estremecimentos involuntários.

Se o árbitro das deusas Tivesse contemplado estas coxas,

não teria querido olhar as primeiras.

Noticia bibliográfica

Este poema consta dos epigramas amorosos incluídos no volume V da Antologia Palatina, à qual jà me referi noutros artigos, e nela possui o número 35.

Traduções de José Paulo Paes em Poesia Erótica em tradução, ed. Companhia das Letras, 1990 e de Albano Martins em do mundo grego outro sol, ed. Asa Editores II , Porto, 2002.

 

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Modigliani — os nus de 1917

20 Sexta-feira Set 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Amedeo Modigliani

1917 A sonhadoraA única exposição que Amedeo Modigliani (1884-1920) teve oportunidade de fazer em vida quase não se concretizou e foi objecto de enorme escândalo.

A galeria onde a exposição iria acontecer situava-se no centro de Paris, na vizinhança da Opera, numa rua com esquadra de policia em frente. Era Dezembro de 1917. A exposição tinha desenhos e pintura de nus femininos. Para chamar a atenção do público, a galerista colocou em destaque na montra, no dia da inauguração, uma das pinturas de nu à venda. Não tardou a juntar-se gente frente à montra e o burburinho cresceu, instalando-se grande indignação entre os transeuntes. Foi tal o alarme que o chefe da esquadra de policia vizinha mandou chamar a galerista e comunicou-lhe:

— Dei ordens para retirar aquela porcaria toda!

— Porquê? perguntou-lhe a galerista. Há quem seja mais abalizado que o senhor para opinar e não tenha a sua opinião.

Respondeu o policia apoplético e quase sufocado:

— Aque.. aque… aquelas mulheres têm pelos púbicos!

Este relato fê-lo mais tarde a galerista. Mas o que segue é que a exposição terminou quase sem ter começado.

1917 Nu reclinado com cabelo soltoNão sendo a primeira vez que eram pintadas mulheres nuas com pelos púbicos: já existia a famosa pintura “A origem do mundo” de Courbet, mas em colecção particular; era a primeira vez que se exibiam ao olhar público.

Se os leitores virem as pinturas de nu que ao longo do tempo tenho deixado no blog, e tantas outras espalhadas por colecções públicas pelo mundo, vêm quão difícil é encontrar, mesmo no século XX, nus femininos sem o púbis rapado. E tal não é por questões de conforto ou higiene, mas por devolver à pintura uma dimensão erótica que no asséptico do corpo sem pelos púbicos se esbate.

1917 Nu reclinadoVistas hoje, estas pinturas transmitem a mesma lassa desolação dos retratos pintados por Modigliani que tenho trazido ao blog, e ficam bem longe de qualquer palpitação de desejo.

Vamos pois às pinturas objecto de tamanho escândalo há quase 100 anos.

1917 Nu sobre almofada azul 1917 Nu adormecido de braços abertos

1917 Nu sentado (3) 1917 Nu com colar 1917 Nu de costas 1917 Nu olhando sobre o ombro direito

1917 Nu sentado (2) 1917 Nu reclinado com almofada azul 1917 Nu reclinado com btaço sobre a cabeça

Termino com a mais coberta das mulheres pintadas neste ano, e, talvez, a mais excitante deste conjunto de pinturas.

1917 Nu sentado em divâ

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Um soneto de António Dinis da Cruz e Silva a pretexto do Julgamento de Páris

11 Quarta-feira Set 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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António Dinis da Cruz e Silva, Julgamento de Páris, Lucas Cranach o Velho

Cranach_the_Elder_Lucas-Saxon_Princesses_Sibylla_Emilia_and_Sidonia 1530-35Em jeito de paródia ao artigo sobre o Julgamento de Páris, associo esta pintura de Lucas Cranach o Velho (1472-1553) a um soneto de António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) por este enviado a três irmãs, e onde evoca o julgamento de Páris.

Absorto entre as três deusas duvidava

Páris a qual o pomo entregaria:

Sem véu as perfeições de todas via,

E quanto via mais, mais vacilava:

 

Se qualquer de per si atento olhava,

Em seu favor a lide decidia,

Mas logo resolver-se não sabia

Quando juntas depois as contemplava.

 

Enfim um não sei quê, que a Natureza

Mais liberal com Vénus repartira,

O move a dar-lhe o prémio da beleza.

 

Ah! Se igual entre vós lide se vira,

O mesmo Páris cheio de incerteza

Nunca a grande contenda decidira.

Soneto LIII do vol. I das Obras de António Dinis da Cruz e Silva.

O retrato, pintado por Lucas Cranach o Velho respeita às princesas da Saxónia: Sibyla, Emília e Sidónia, feito entre 1530-35.

Termino com três dos Julgamentos de Páris por Lucas Cranach o Velho, mestre cuja pintura me encanta.

Nelas o nosso Páris é um guerreiro armado até aos dentes e aparentemente exausto pela ciclópica tarefa deste julgamento, enquanto as deusas exibem de forma insinuante os seus argumentos.

 Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1512-14

Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1530

Lucas Cranach o Velho -O Julgamento de Páris - 1528-II

 

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O Julgamento de Páris — lenda e pintura

10 Terça-feira Set 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Anselm Feuerbach, Carel van savoyen, Cornelis Cornelisz. van Haarlem, Eduard Lebiedzki, Franz Floris, Hendrick van Balen, Henri Pierre Picou, Jean Baptiste Regnault, Joachim Wtewael, Joan de Joanes, Julgamento de Páris, Luca Giordano, Pacecco, Peter Paul Rubens

XKH146463Numa história de Agatha Christie é o desconhecimento de uma personagem sobre quem foi Páris, herói troiano, confundindo-o com a cidade de Paris, que leva à solução do mistério policial.

00 Peter Paul Rubens - O Julgamento de Páris - 1639Na verdade, suponho, poucos serão os que hoje, perante uma pintura que represente O Julgamento de Páris, saberão descodificá-la e de que trata a representação. 000 Joachim Wtewael - O Julgamento de Páris

Para começar, nesta história Páris não é réu mas sim juiz. E juiz da beleza feminina. 01 Jean Baptiste Regnault - O Julgamento de Páris - 1820

Então a história, qual é? 1 Eduard Lebiedzki - O Julgamento de Páris - 1906

Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, renegado pelo pai, de forma variada consoante as fontes, cresceu entre pastores, e adulto regressou a Tróia, sendo a sua identidade revelada. O episódio da lenda de Páris que hoje me interessa é o julgamento que terá estado na origem da guerra de Tróia.

02 Luca Giordano 1681-83Os deuses encontravam-se reunidos para celebrar as núpcias de Tétis e Peleu. Éris (a Discórdia) lançou para o meio deles uma bola de ouro, dizendo que deveria ser entregue à mais bela das três deusas: Atena, Hera e Afrodite. No Olimpo ninguém queria a responsabilidade da escolha e Zeus ordenou a Hermes que conduzisse as três deusas junto de Páris, e este julgaria a questão.

9 Joachim Wtewael - O Julgamento de Páris (2)Na presença de Páris cada uma das deusas expôs os seus argumentos para ter direito à bola de ouro. Cada uma prometeu-lhe dons especiais se decidisse a seu favor: Hera entregava-lhe o domínio de toda a Ásia: Atena prometeu-lhe a sabedoria e a vitória em todos os combates; Afrodite limitou-se a oferecer-lhe o amor de Helena de Esparta, lendária beleza por quem Páris, escreve Ovídio, estaria apaixonado . Páris decidiu que Afrodite era a mais bela.

6 Joan de Joanes - O Julgamento de Páris - 1523-1579O episódio conta-o Ovídio numa das Cartas das Heroínas, a carta que Páris envia a Helena. Infelizmente não conheço tradução em português para vos mostrar.

4 Cornelis Cornelisz. van Haarlem -O Julgamento de Páris - 1628Esta é uma lenda para os homens que preferem o amor ao poder, ao triunfo sobre os outros, e até à sabedoria. 2 Hendrick van Balen -O Julgamento de Páris

Sobretudo nos séculos XVI e XVII, ainda que posteriormente não tenha desaparecido da pintura ocidental, o assunto foi tema de variadas pinturas, pois o pretexto era excelente para pintar nus femininos. De entre o acervo que conheço, e obtive imagens de qualidade, deixo uma escolha, e estendo-a até ao inicio do século XX. As características de escola e época estão lá, e como de costume apenas o génio de algum mestre traz o fulgor a um assunto codificado.

3 Pacecco - 1645

4 Carel van savoyen -O Julgamento de Páris

8 Henri Pierre Picou -O Julgamento de Páris - sec XIX

5 Franz Floris

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O prazer na sobriedade dos livros e poema de Xenófanes de Cólofon

28 Quarta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Paolo Veronese, Poesia Grega Antiga, Xenófanes de Cólofon

Veronese - Bodas de CanaãAbrir o pacote e receber um livro tamanho 12x19cm, espessura pouco mais que um centímetro, que cabe na mão e se segura com prazer, encadernação em pele, lisa, azul escuro, título em dourado a um terço da altura, abrir, papel creme, mate, sedoso ao toque, a mancha impressa, em caracteres legíveis sem esforço, começar a ler e, de súbito, entrar no mundo da Grécia antiga, conversar com os seus poetas sobre temperança e excesso nos prazeres, a mesquinhez e heroísmo dos homens, a vida em sociedade e a sua organização política, os caprichos dos deuses e a incerteza da vida, ser jovem e ser velho, os filhos, os trabalhos da terra, a sobrevivência, ser rico ou pobre, em suma a aprendizagem do viver, tudo isto recebi. Vinha numa edição da Editorial Gredos. São livros da sua Biblioteca Classica. Um mundo para saborear no que já conheço e para descobrir no que não sei que existe. Desses prazeres e surpresas ir-vos-ei dando conta. Por agora o prazer é meu.

De tudo o que referi nos fala, entre outros, também Xenófanes de Cólofon (séc. VI-V a. C.). Dele vos deixo um poema. Não a tradução integral em espanhol de um seu fragmento , que agora leio, mas  os versos1-18 em bela tradução portuguesa de Maria Helena da Rocha Pereira, publicado na sua antologia de Cultura Grega, Hélade.

Agora está o solo puro, e as mãos de todos nós

e os cálices. Um põe-nos as coroas entretecidas,

e outro oferece-nos numa taça a essência fragrante.

O crater está repleto de boa disposição.

Está já pronto outro vinho, que garante que jamais

abandona ao barro o cheiro a mel da sua flor.

No meio, uma árvore de incenso desprende um sacro aroma;

a água está fresca, doce e pura.

Aqui temos os fulvos pães e a mesa sumptuosa,

carregada de queijo e de pingue mel.

Ao meio, o altar está todo coberto de flores.

A música festiva domina o ambiente.

Ao deus devem os homens sensatos entoar primeiro um hino,

com ditos de bom augúrio e palavras puras.

Depois de fazer as libações e preces para procederem

com justiça — pois isso é a primeira lisa —

não é insolente beber até ao ponto de se poder voltara casa

sem ajuda de um escravo, a menos que se seja muito idoso.

(fragmento 1, ed. Diels-Kranz, versos 1-18)

Abre o artigo uma imagem da pintura de Paolo Veronese (1528-1588), As Bodas de Canaã, certa vez contemplada por horas no Louvre  onde se guarda. Acrescento agora alguns detalhes desta gigantesca obra-prima.

Ao leitor deixo a liberdade do confronto entre o que vê e leu, a história, a arte, e a sabedoria que a vida acaba por nos trazer.

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 1

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 2

Veronese - Bodas de Canaã detalhe 3

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Retratos femininos por Modigliani com poema de Amalia Bautista no final

23 Sexta-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Amalia Bautista, Modigliani

82Na minha paixão pela pintura de retrato ocupam um lugar especial as obras de Modigliani (1884-1920).

45Com um vocabulário mínimo no desenho, e que se repete de retrato para retrato (o alongado de cabeças e pescoço, o desenho do contorno de olhos, nariz e boca) vemos pessoas com quem poderíamos conversar, e até olhando com algum detalhe, como a vida lhes correu e que esperam dela. Isto se a imaginação para aí caminhar.

61Não sendo o caso, fica a suavidade da paleta cromática na predominância das cores de terra, a infinita tristeza e o magoado olhar que quase todas estas mulheres transportam.

29

84

221

118

124Nesta pintura da essência do rosto que dá uma vida, encontro contraponto num poema de Amalia Bautista (1962), Al Cabo, que vos deixo em tradução de Joaquim Manuel Magalhães.

Ao Fim

Ao fim são muito poucas as palavras

que nos doem a sério e muito poucas

as que conseguem alegrar a alma.

São também muito poucas as pessoas

que tocam nosso coração e menos

ainda as que o tocam muito tempo.

E ao fim são pouquíssimas as coisas

que em nossa vida a sério nos importam:

poder amar alguém, sermos amados

e não morrer depois dos nossos filhos.

O poema foi publicado pela primeira vez em 1999 no livro Cuentamelo Otra Vez, do qual há dias aqui deixei um outro com o mesmo nome do livro.

Termino com o original em castelhano.

Al Cabo

Al cabo, son muy pocas las palabras

que de verdad nos duelen, y muy pocas

las que consiguen alegrar el alma.

Y son también muy pocas las personas

que mueven nuestro corazon, y menos

aún las que lo mueven mucho tiempo.

Al cabo, son poquíssimas las cosas

que de verdad importan en la vida:

poder querer a alguien, que nos quieran

y no morri después que nuestros hijos.

224Nota bibliográfica

A tradução de Joaquim Manuel Magalhães foi publicada na antologia de poetas espanhóis contemporâneos, em edição bilingue, Trípticos Espanhóis, 3º, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 2004.

O original foi transcrito da obra poética reunida de Amalia Bautista, Tres Deseos, Renacimiento, Sevilha, 2006.

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A Vaidade, pintura de Hans Memling com Mallarmé e Cecília Meireles pelo caminho

20 Terça-feira Ago 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Cecilia Meireles, Hans Memling, Stéphane Mallarmé

Memling - A vaidadeVá lá saber-se porque motivo esta graciosa rapariga nua a olhar-se ao espelho e pintada pelo flamengo Hans Memling (1430-1494) representa A Vaidade no dizer de especialistas.

Consultadas as autoridades que em livro escrevem e tenho em casa, pouco adianto.

A rapariga (modelo) faz de Virgem com o Menino em diversas pinturas do mestre e aqui mostra os seus argumentos.

Nada na sua atitude faz lembrar a rainha má da história a Branca de Neve: diz-me espelho meu, há alguma mais bela que eu? Pelo contrario, a menina parece até surpreendida com o que vê.

Pertence a pintura ao tríptico Da Vaidade Terrestre e da Redenção Celeste. Olhai!

Hans Memling - Tríptico Da vaidade Terrena e da redenção CelesteNão sei a quem cabe a responsabilidade do nome: se ao pintor, se a algum dos proprietários através dos séculos, ou se ao Museu de Belas Artes de Estrasburgo onde agora a pintura se guarda. Aparentemente representará a vaidade e a luxuria porque a rapariga se contempla, nua, ao espelho, sem vergonha ou restea de pudor. Ele há cada uma! Num tempo em que não havia revistas para homens, chamadas, nem net, os pretextos de que eles se serviam para olhar imagens de mulheres nuas!

A simbólica do espelho é rica em todas as culturas antigas, da Europa ao Japão, e até a ciência esclarecer a formação da imagem por reflexo, o sortilégio de se ver foi fonte de encantadoras crenças.

A poesia, que em tudo acompanha o mundo, também reflecte o que o espelho numa alma feminina escreve.

É um fragmento do poemeto Hérodiade, de Stéphane Mallarmé (1842-1898) que escolho para disso dar conta.

…

O miroir !

                   Eau froide par l’ennui dans ton cadre gelée

Que de fois et pendant des heures, désolée

Des songes et cherchant mes souvenirs qui sont

Comme des feuilles sous ta glace au trou profond,

Je m’apparus en toi comme une ombre lointaine,

Mais, horreur ! des soirs, dans ta sévère fontaine,

J’ai de mon rêve épars connu la nudité !

…

Deixo a tradução directa dos versos apesar de a perda inevitável da rima lhes retirar toda a música  original. E era Mallarmé quem defendia: “A poesia é uma música que se faz com ideias, e por isso com palavras“.

…

Ó espelho!

              Água fria pelo tédio na tua moldura gelada

Quantas vezes e durante horas, desolada

Dos sonhos e procurando as minhas recordações que são

Como folhas sob o teu vidro em poço profundo.

Apareci-me em ti como sombra longínqua

Mas, horror! certas noites, na tua severa fonte.

No meu sonho disperso conheci a nudez!

…

No detalhe do poema de Cecília Meireles (1901-1964) com que encerro esta divagação, encontramos uma mulher reflectindo sobre si e o mundo ao olhar a imagem que o espelho lhe devolve. Saberão as mulheres que me lêem quanto de verdade hoje ainda existe nesta imagem de mulher em meados do século XX.

Mulher ao espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,

pouco me importa.

Quero apenas parecer bela,

pois, seja qual for, estou morta.

 

Já fui loura, já fui morena,

já fui Margarida e Beatriz.

Já fui Maria e Madalena.

Só não pude ser como quis.

 

Que mal faz, esta cor fingida

do meu cabelo, e do meu rosto,

se tudo é tinta: o mundo, a vida,

o contentamento, o desgosto?

 

Por fora, serei como queira

a moda, que me vai matando.

Que me levem pele e caveira

ao nada, não me importa quando.

 

Mas quem viu, tão dilacerados,

olhos, braços e sonhos seus

e morreu pelos seus pecados,

falará com Deus.

 

Falará, coberta de luzes,

do alto penteado ao rubro artelho.

Porque uns expiram sobre cruzes,

outros buscando-se no espelho.

Publicado pela primeira vez em Mar Absoluto e outros poemas, em 1945.

 

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