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Memling - A vaidadeVá lá saber-se porque motivo esta graciosa rapariga nua a olhar-se ao espelho e pintada pelo flamengo Hans Memling (1430-1494) representa A Vaidade no dizer de especialistas.

Consultadas as autoridades que em livro escrevem e tenho em casa, pouco adianto.

A rapariga (modelo) faz de Virgem com o Menino em diversas pinturas do mestre e aqui mostra os seus argumentos.

Nada na sua atitude faz lembrar a rainha má da história a Branca de Neve: diz-me espelho meu, há alguma mais bela que eu? Pelo contrario, a menina parece até surpreendida com o que vê.

Pertence a pintura ao tríptico Da Vaidade Terrestre e da Redenção Celeste. Olhai!

Hans Memling - Tríptico Da vaidade Terrena e da redenção CelesteNão sei a quem cabe a responsabilidade do nome: se ao pintor, se a algum dos proprietários através dos séculos, ou se ao Museu de Belas Artes de Estrasburgo onde agora a pintura se guarda. Aparentemente representará a vaidade e a luxuria porque a rapariga se contempla, nua, ao espelho, sem vergonha ou restea de pudor. Ele há cada uma! Num tempo em que não havia revistas para homens, chamadas, nem net, os pretextos de que eles se serviam para olhar imagens de mulheres nuas!

A simbólica do espelho é rica em todas as culturas antigas, da Europa ao Japão, e até a ciência esclarecer a formação da imagem por reflexo, o sortilégio de se ver foi fonte de encantadoras crenças.

A poesia, que em tudo acompanha o mundo, também reflecte o que o espelho numa alma feminina escreve.

É um fragmento do poemeto Hérodiade, de Stéphane Mallarmé (1842-1898) que escolho para disso dar conta.

O miroir !

                   Eau froide par l’ennui dans ton cadre gelée

Que de fois et pendant des heures, désolée

Des songes et cherchant mes souvenirs qui sont

Comme des feuilles sous ta glace au trou profond,

Je m’apparus en toi comme une ombre lointaine,

Mais, horreur ! des soirs, dans ta sévère fontaine,

J’ai de mon rêve épars connu la nudité !

Deixo a tradução directa dos versos apesar de a perda inevitável da rima lhes retirar toda a música  original. E era Mallarmé quem defendia: “A poesia é uma música que se faz com ideias, e por isso com palavras“.

Ó espelho!

              Água fria pelo tédio na tua moldura gelada

Quantas vezes e durante horas, desolada

Dos sonhos e procurando as minhas recordações que são

Como folhas sob o teu vidro em poço profundo.

Apareci-me em ti como sombra longínqua

Mas, horror! certas noites, na tua severa fonte.

No meu sonho disperso conheci a nudez!

No detalhe do poema de Cecília Meireles (1901-1964) com que encerro esta divagação, encontramos uma mulher reflectindo sobre si e o mundo ao olhar a imagem que o espelho lhe devolve. Saberão as mulheres que me lêem quanto de verdade hoje ainda existe nesta imagem de mulher em meados do século XX.

Mulher ao espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,

pouco me importa.

Quero apenas parecer bela,

pois, seja qual for, estou morta.

 

Já fui loura, já fui morena,

já fui Margarida e Beatriz.

Já fui Maria e Madalena.

Só não pude ser como quis.

 

Que mal faz, esta cor fingida

do meu cabelo, e do meu rosto,

se tudo é tinta: o mundo, a vida,

o contentamento, o desgosto?

 

Por fora, serei como queira

a moda, que me vai matando.

Que me levem pele e caveira

ao nada, não me importa quando.

 

Mas quem viu, tão dilacerados,

olhos, braços e sonhos seus

e morreu pelos seus pecados,

falará com Deus.

 

Falará, coberta de luzes,

do alto penteado ao rubro artelho.

Porque uns expiram sobre cruzes,

outros buscando-se no espelho.

Publicado pela primeira vez em Mar Absoluto e outros poemas, em 1945.

 

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