Etiquetas

, ,

Korniss_Dezso-Boy_with_Bird_Szentendre 1934

Há universos poéticos em que a língua é uma barreira intransponível. E quando nos chegam ecos de que neles se guardam maravilhas, a curiosidade em os conhecer cresce de forma desmedida. Tal é o caso da poesia russa, apenas acessível em português em parcas e poucas vezes notáveis traduções directas do russo. Resta o recurso a uma língua intermédia conhecida.

Sabia da existência de uma compilação de traduções para inglês, de poesia russa, cobrindo três séculos de criação, feitas por Nabokov, acompanhadas das conferências em que o mestre as apresentara. O russo Vladimir Nabokov, é, com o polaco Joseph Conrad, dos poucos casos em que, sendo escritores notáveis, o conseguiram ser noutra língua que não a materna, tornando-se na língua de adopção, cultores e mestres.

O  livro de que falo é difícil de obter. Consegui finalmente ter nas mãos um exemplar. Ao olhar é já um belo livro, encadernado em sintético com sóbria e esclarecedora sobre-capa. Apetece ler o que tem dentro. O livro, impresso em papel espesso, mate, cor pérola claro, aparado apenas à cabeça, oferece, em bem proporcionada mancha tipográfica de caracteres facilmente legíveis, um convite à leitura. Vamos a ela, mas vai devagar. Cada frase de Nabokov desencadeia uma floresta de pensamentos: é uma leitura em permanente diálogo connosco.

Para inicio de conversa deixo apenas um curto poema de Nikolay Mihaylovich Karamzin (1766-1826) a que acrescento uma versão para português.

TWO SIMILES

Life? A Romance. By whom? Anonymous.

We spell it out; it makes us laugh and weep,

     And then puts us

           To sleep.

DOIS SÍMILES

Vida? Um Romance. Por quem? Anónimo.

Lê-mo-lo com dificuldade; faz-nos rir e chorar,

E depois põe-nos

A dormir.

Ia terminar, mas não resisto a esta preciosa reflexão sobre Deus e liberdade de Púshkin ( Aleksandr Sergeevich Púshkin (1799-1837)).

O poema, rebelde a uma versão satisfatória em português, aí fica na versão inglesa de Nabokov.

LITTLE BIRD

In a strange country I religiously observe

my own land’s ancient custom:

I set at liberty a little bird

on the bright holiday of spring.

I have become accessible to consolation:

why should I murmur against God

if even to a single creature

the gift of freedom I could grant!

Anúncios