• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Retratos de família por Fernando Botero — o humano por detrás do grotesco

05 Quinta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Eduardo Carranza, Fernando Botero

Botero 00La cabeza hermosissima caía / del lado de los sueños;

Abro com estes versos de um soneto do colombiano Eduardo Carranza (1913-1985) uma curta digressão pela pintura de Fernando Botero (1932).

A pintura de Fernando Botero utiliza uma linguagem tipificada na representação do corpo humano que a identifica de imediato. Trata-se de uma representação grotesca do corpo que a ternura de alguns olhares consegue mitigar. A utilização de cores puras e frequentemente contrastadas, preenchendo um desenho preciso, criam uma representação que choca ao primeiro olhar, pelo menos em grande parte da sua obra.

Grotescos, aqueles seres, mais bonecos que gente, e poderiam fazer parte de uma linha de brinquedos infantis, inspiram uma enorme ternura.

Na verdade, belos ou feios, sofisticados ou ridículos na aparência e atitudes, somos todos humanos, e é na alma que nos revemos ou encontramos.

No que imaginar possam, deixo-vos a companhia desta humanidade inventada por Botero. No final o soneto de Eduardo Carranza citado em abertura.

Botero 01

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Botero 03

Botero 04

Botero 05

Botero 06

Botero 07

Botero 08

Botero 09

Soneto Insistente

 
La cabeza hermosissima caía

del lado de los sueños; el verano

era um jazmín sin bordes y en su mano

como un pañuelo azul flotaba el día

 
Y su boca de súbito caía

del lado de los besos; el verano

la tenía en la palma de la mano,

hecha de amor: Oh, qué melancolía.

 
A orillas de este amor cruzaba un río;

sobre este amor una palmera era:

agua del tiempo y cielo de poesía.

 
Y el río se llevó todo lo mío:

la mano y el verano y mi palmera

de poesía. Oh, qué melancolía.

in Azul en ti (1944)

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Ó gloria de mandar! Ó vã cobiça – a fala do Velho do Restelo em Os Lusíadas

04 Quarta-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à arte, Poesia Antiga

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Camões, Os Lusíadas, Turner

Turner slave-ship

Contrariamente à voz corrente, guardei do estudo de Os Lusíadas no Liceu, a memória de longos trechos e um gosto pelo poema, sempre renovado de cada vez que nele me perco.

Em Os Lusíadas, poema épico à maneira dos clássicos Ilíada, Odisseia e Eneida, conta Camões (1524(?)-1580) a história de Portugal até à sua época e o detalhe da aventura da descoberta do caminho por mar até à Índia.

Como dispositivo narrativo para descrever a história passada de Portugal ao rei de Calecute nos Cantos III e IV, coloca o poeta o relato na boca de Vasco da Gama, o chefe da armada que descobriu o caminho maritImo para a Índia:

Canto III

III

Prontos estavam todos escutando

O que o sublime Gama contaria,

Quando depois de um pouco estar cuidando,

Alevantado o rosto, assim dizia:

– “Mandas-me, ó Rei, que conte declarando

Da minha gente a grã genealogia;

Nao me mandas contar estranha história,

Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

 

Ao longo do Canto III assistimos ao relato dos acontecimentos respeitando à formação de Portugal e consolidação geográfica do território até final da primeira dinastia. É nesse canto que encontramos o episódio de Inês de Castro

 

Estava linda Inês …

 

No Canto IV são relatadas as peripécias das conquistas e derrotas no norte de África até à preparação e partida das naus que viriam a descobrir o caminho para a Índia através do oceano Atlântico.

Turner grand-canal

Como é sabido, as matérias primas e artigos de luxo produzidos no Oriente e sumamente apreciados pelos poderosos ocidentais, o equivalente da alta costura francesa, perfumes e champanhe, etc, de hoje, chegavam às cortes e sociedades europeias por terra, vendidas através da Republica de Veneza, à qual aportavam por demoradas e perigosas viagens através de territórios em grandes parte desérticos. A descoberta de uma via marítima para a realização deste comércio, controlada por Portugal, deu ao país a riqueza e o esplendor de que ainda não se refez no século XXI.

Mas voltando a Camões e ao seu poema, no final do canto IV encontra-se a mais intemporal e por isso mesmo eterna, formulação poética da ambivalência entre ambição humana e gosto pela aventura e risco, conhecida como a fala do Velho do Restelo. Por tal modo famosa que passou para o imaginário popular o epíteto de Velho do Restelo para todo aquele que perante desafios repletos de riscos, aconselham prudência e tento na ambição.

Antes de se ouvir o velho, é ainda Vasco da Gama quem fala, relatando como a população de Lisboa acorreu à praia do Restelo, onde hoje se encontra a famosa Torre de Belém, precisamente a assinalar esta partida, despedindo-se de quem partia.

São versos de uma pungência e actualidade tais que voltaram a ser sentidos e chorados quando do cais da Rocha em Lisboa partiam os navios carregados de soldados para combater nas guerras de África nos anos 60 do século XX.

Feita a descrição nas estrofes LXXXVIII a XCIII, segue-se a entrada na narrativa do velho do Restelo e a sua intemporal reflexão sobre a gloria de mandar, a vã cobiça, por tal forma que

 

 

Nenhum cometimento alto e nefando, / Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração! / Mísera sorte! Estranha condição!”

 

 

Canto IV
XCIV
Mas um velho de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
XCV
— “Ó gloria de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
 Cūa aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
XCVI
“Dura inquietação de alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Gloria soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
XCVII
“A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaxo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
 De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que historias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
XCVIII
“Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano,
Da quieta e da simples inocência,
Idade de ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:
XCIX
“Já que nesta gostosa vaidade
 Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
 Temeu tanto perdê-la quem a dá,
C
“Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pola de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riquezas mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?
CI
“Deixas criar às portas o inimigo
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!
Buscas o incerto e incógnito perigo,
Porque a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!
CII
“Ó! Maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Dino da eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!
CIII
“Trouxe o filho de Jápeto do céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras. Grande engano!
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos que a movera!
CIV
“Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem ora vazio
O grande arquitector co filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!”

 

 

As imagens que acompanham o artigo são de pinturas de Turner (1755-1851): Naufrágio de navio de escravos e O grande canal de Veneza.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Escultura votiva da pré-história mediterrânica

03 Terça-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

≈ 2 comentários

Etiquetas

Escultura pré-histórica

CicladesDeixa-me deslumbrado a requintada beleza de formas destas figurinhas votivas com 4000 a 5000 anos, encontradas nes ilhas gregas do Mar Egeu.

Cíclades 2700 - 2300 BC

Nestas figuras pré-históricas, provavelmente com papel de intermediação entre o humano e o sagrado, provenientes da bacia do Mediterrâneo, encontramos uma representação estilizada da mulher como poucas vezes mais a humanidade produziu no longo caminho até aos nossos dias.

Cíclades IO apuro plástico de que a humanidade dá mostras independentemente de geografias e épocas é a evidência de que não há evolução na estética, apenas as  circunstâncias geram o inefável gosto pela beleza, essa sim, sujeita nos seus padrões à volubilidade da história.

Anatólia 3 Millennium BC

Chipre 3000 - 2500 BCDeixo-vos com alguns exemplos mais.

Cíclades II 2300–2200 BC

Cíclades 2400 BC A

Cíclades 02

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Pensar no Futuro / Pensar o Futuro — O destino não é um lugar (Francisco Brines )

02 Segunda-feira Dez 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Albrecht Dürer, Francisco Brines, Ludwig Wittgenstein

Dürer - Retrato de homem com 95 anos 1521

Gosto de pensar que este velho de 95 anos desenhado por Albrecht Dürer (1471-1528) em 1521 pensa no futuro, mais que na vida vivida. Do que viveu terá aprendido o que mais tarde lapidarmente Wittgenstein escreveu:

6.373.       O mundo é independente da minha vontade.

6.374.        Ainda que tudo o que desejamos acontecesse, isto seria apenas, por assim dizer uma graça dada pelo destino, uma vez que não existe uma conexão lógica entre a vontade e o mundo que a garantisse, e a suposta conexão física também não a poderíamos por sua vez desejar.

5.1361.     Não podemos inferir os acontecimentos futuros dos acontecimentos presentes.

A crença no nexo causal é a superstição.

5.1362.     O livre arbítrio consiste no facto de as acções futuras não poderem ser conhecidas no presente. Só poderíamos conhecê-las se a causalidade fosse uma necessidade interior, como a da inferência lógica. — A conexão entre o saber e o que se sabe é a conexão da necessidade lógica.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951) in Tratado Lógico-Filosófico com tradução de M. S. Lourenço

Aceitando que as acções futuras não podem ser conhecidas, ainda assim sobra lugar para o sonho ou desejo. E por isso, do futuro, acreditando na existência de um além vida, pensará o nosso homem, quero crer, no que deseja: e aí talvez siga a ideia de Francisco Brines  (1932) no poema Projecto de Vida Eterna.

Projecto de Vida Eterna

E depois de acabar, voltar ao mundo

após uma curta eternidade, já sereno

voltar de novo ao mundo, a este que sei,

com uma repetida juventude, e junto a mim

seu corpo como fora em sua idade de ouro

perdida, e assim admitir que a vida é infindável

como não pôde ser (agora já eterna),

porque houve um adeus, e o tempo envelhecia

não o tempo, que em si é sempre eterno,

mas o que ele tocava: o mundo,

e aquele que, por sabê-lo, mais sofria.

 

E para o que lhe falta viver tentará certamente pensar o futuro tendo em conta quanto o destino não é um lugar, verdadeiro e belo título do poema com que hoje me despeço da poesia de Francisco Brines.

 

O Destino nao é um Lugar

 

O caminho foi longo e houve névoa.

Porém, houve o espaço. Mas agora

adensou-se a névoa até ao ponto

de ser o espaço o muro que já roço.

Nele me deterei e, ao voltar

os olhos para trás, a mesma névoa

far-me-á tentar de novo o mesmo muro,

e, se eu dirigir o olhar ao céu

para ali me salvar, a negra névoa

irá cegar-me os olhos, e assim será

isso a que chamaste sono eterno.

 

Traduções dos poemas por José Bento in A Ultima Ceia, edição Assírio & Alvim, Lisboa 1997.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

O moderno Adão – pintura de Sandor Bortnyik e fragmento de Bernardo Soares

26 Terça-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Bernardo Soares, Fernando Pessoa, Sandor Bortnyik

Sandor Bortnyik  - O novo Adão 1924

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Fragmentário e inapreensível, o Livro do Desasocego é obra em que por vezes mergulho. E de lá recolhi esta reflexão do heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares, a pretexto do vestir.

As questões de aparência que há dias interroguei a propósito do retrato de Antonietta Gonzalez regressam hoje pela mão dos caprichos da moda.

Assunto tratado habitualmente como futilidade social, mereceria certamente uma atenção nas suas componentes psicológicas, na medida em que permite ou impede uma integração e reconhecimento de grupo.

No jogo entre a afirmação da individualidade e a necessidade de aceitação no grupo social com que nos identificamos se movem as escolhas do vestir de cada um de nós. E aí entra a moda do tempo em que vivemos.

Nos nossos dias é matéria de preocupação individual, negócio mundial, e idiossincrasia geográfica, a tal ponto que consoante os escalões etários se encontra um vestir em Berlim ou Nova Iorque que devolve uma imagem da cidade e é factor de integração entre quem a elas acorre vindo das diferentes partes do mundo.

Matéria vasta, e abordável de variados pontos de vista, aqui paro com a totalidade da reflexão pessoana na voz de Bernardo Soares, cujo fragmento citei a abrir.

 Trata-se do fragmento 119, transcrito da edição crítica de Livro do Desasocego preparada por Jerónimo Pizzaro, Tomo I, INCM, Lisboa 2010. Conservei a ortografia do texto.

                [1915?]

As coisas / modernas / são

(1) A evolução dos espelhos.

(2) Os guarda-fatos.

Passámos a ser creaturas vestidas, de corpo e alma.

E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passámos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passámos — homens, corpos — à categoria de animaes vestidos.

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, atravez de uma razão social, eu responderia mudamente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta.


O moderno Adão que abre o artigo foi pintado pelo húngaro Sandor Bortnyik (1893-1976), e  de quem há tempos deixei no blog a pintura de um fabuloso motociclista.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Retratos extraordinários — Antonietta Gonzalez pintada por Lavínia Fontana

24 Domingo Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

≈ 2 comentários

Etiquetas

Lavínia Fontana

Lavinia FONTANA - Retrato de Antonietta Gonzalez

Há um indizível sobre o humano que alguns retratos revelam e os torna irresistíveis ao olhar.

Este retrato da jovem Antonietta Gonzalez pintado por Lavínia Fontana (1552-1614) revela-nos a firmeza e diria até, orgulho, no olhar de uma rapariga por detrás de uma aparência se não repelente, pelo menos incómoda. E no entanto se fosse um homem barbado, aquilo que é o inusitado do retrato passaria a ser aceitável e até, diria, quase banal. E é aí que esta pintura nos interroga: na maneira como reagimos ao diferente, ao “outro”. Até onde, nas nossas vidas conseguimos conviver naturalmente com quem se apresenta fora da norma? E faz sentido essa resistência? É baseada em valores? Porque nos incomoda o diferente? Perguntas para que procuro frequentemente resposta. Elas, as perguntas, aí ficam, leitor.

Antonietta Gonzalez, filha de uma família atingida pela doença hypertrichosis lanuginosa, viveu e foi aceite na corte de Henrique II de França, e aí foi considerada, embora, parece, o aspecto dos rostos fosse motivo de curiosidade e espanto entre os estrangeiros que visitavam a corte francesa à época. Hoje, as técnicas de depilação permitiriam certamente tornear esta peculiaridade física, e a jovem Antonietta poderia deixar ver o seu penetrante olhar sem o filtro da horrenda barba que a acompanhava

A

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

O Balouço de Fragonard lido por Jorge de Sena

22 Sexta-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Fragonard, Jorge de Sena

Fragonard - O Balouço II 1767

Como balouça, como adeja, como

é galanteio o gesto com que, obsceno,

o amante se deleita olhando apenas!

…
Com estes três versos capta Jorge de Sena (1918-1978) o sentimento que primeiro invade quem olha esta pintura de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). Exemplo de excelência sobre a capacidade de a pintura no estático da sua natureza transmitir o movimento, ela dá-nos mais: dá a a ver a vida sem preocupação, levada no vai-vem da sedução, envolvida por uma atmosfera de harmonia. É um exemplo raro de uma pintura feliz, e com ela vos desejo bom fim-de-semana.

Como balouça pelos ares no espaço

entre arvoredo que tremula e saias

que lânguidas esvoaçam indiscretas!

Que pernas se entrevêem, e que mais

não vê o que indiscreto se reclina

no gozo de escondido se mostrar!

Que olhar e que sapato pelos ares,

na luz difusa como névoa ardente

do palpitar de entranhas na folhagem!

Como um jardim se emprenha de volúpia,

torcendo-se nos ramos e nos gestos,

nos dedos que se afilam, e nas sombras!

Que roupas se demoram e constrangem

o sexo e os seios que avolumam presos,

e adivinhados na malícia tensa!

Que estátuas e que muros se balouçam

nessa vertigem de que as cordas são

tão córnea a graça de um feliz marido!

Como balouça, como adeja, como

é galanteio o gesto com que, obsceno,

o amante se deleita olhando apenas!

Como ele a despe e como ela resiste

no olhar que pousa enviesado e arguto

sabendo quantas rendas a rasgar!

Como do mundo nada importa mais!

Assis, 8 Abril 61

Publicado pela primeira vez em Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena, 1963, e transcrito de Poesia II, Moraes Editores, Lisboa, Maio de 1978.

A pintura que abre o artigo é conhecida como O Balouço II. Para quem não conheça O Balouço I, com ela fecho o artigo.

Fragonard - O Balouço I

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

O funcionário cansado — poema de António Ramos Rosa

20 Quarta-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

António Ramos Rosa, Lucien Freud

Lucian Freud John Minton 1952

Na vasta e irregular obra poética de António Ramos Rosa (1924-2013), o poema O Funcionário Cansado, publicado no primeiro livro do autor, ocupa um lugar singular numa obra em que o intenso do prazer repercute no maior esplendor.

Poema sobre a solidão onde a desistência de escolher fazer o que a vida nos chama se espelha, diz-nos de forma pungente da dor de perder os sonhos.

Poema atento ao homem e ao mundo, despido de redundâncias de forma, brilha na expressão com que nos dá conta de uma vida entre nada e coisa nenhuma, para parafrasear Irene Lisboa com cuja poesia o poema se aparenta. É sem dúvida um dos grandes poemas do século XX português.

O Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado de um dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música.
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

Lucian Freud Interior in Paddington 1951

São de pinturas de Lucien Freud (1922-2011) as imagens que acompanham o artigo.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Os jardins na poesia de Sophia

18 Segunda-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

Etiquetas

Arshile Gorky, Pierre Bonnard, Sophia de Mello Breyner Andresen

Gorky_Arshile-Garden_in_Sochi 1941Jardim

Alguém diz:

“Aqui antigamente houve roseiras”—

Então as horas

Afastam-se estrangeiras,

Como se o tempo fosse feito de demoras.

A invenção dos jardins enquanto espaços de natureza ordenada parece ter sido paralela ao avanço do racionalismo como forma de olhar o mundo. E desde que criados como locais de lazer, foram progressivamente tomando parte na vida quotidiana. À medida que o tempo para o ócio se estendeu a mais largas camadas de população, sucederam-se os jardins públicos como espaços integrantes do universo urbano.

Os jardins são o anti-económico. Custam dinheiro a manter e não produzem nada rentável. Para almas práticas são o puro desperdício. Tanto mais que frui-los é usar o tempo de forma improdutiva.

Acontece até que na ironia da administração publica municipal, a vereação dos jardins está associada à vereação dos cemitérios, numa eloquente enunciação do seu carácter não produtivo.

E, não obstante, contrariando o homo economicus, gostamos de jardins. Quando podemos passear num jardim, sentimo-nos bem: é uma espécie de poesia sem palavras, esse bem estar. Associamos aos jardins uma ideia de harmonia, de beleza, de natureza ordenada pelo homem com intuito de provocar prazer.

Vivo há longos anos num bairro projectado e executado nos parâmetros da Carta de Atenas, com os edifícios em grande parte rodeados por extensas zonas ajardinadas. As árvores crescem até à janela e no tempo da floração, enchem o olhar de verde salpicado de amarelo, onde o constante gorjear dos pássaros faz sentir melhor a ausência do barulho automóvel. O senão é que manter cuidados tão vastos jardins custa dinheiro e a municipalidade retrai-se, com o que raramente os jardins nos surgem apetecíveis, como na origem os arquitectos os pensaram.

Sentir poeticamente os jardins é privilegio de poucos e dar-lhe forma escrita é ainda mais raro. Folheio livros e encontro, diria que sem surpresa dada a personalidade da escritora, a presença da emoção induzida pelo jardim entre as primeiras obras de Sophia de Mello Breyner Andresen (1914-2004).

É a um passeio por esses poemas que hoje convido o leitor.

Jardim

O jardim está brilhante e florido.

Sobre as ervas, entre as folhagens,

O vento passa, sonhador e distraído,

Peregrino de mil romagens.

É Maio ácido e multicolor,

Devorado pelo próprio ardor,

Que nesta clara tarde de cristal

Avança pelos caminhos

Até os fantásticos desalinhos

Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada

Pelo jardim deliro e divago,

Ora espreitando debruçada

Os jardins do fundo do lago,

Ora perdendo o meu olhar

Na indizível verdura

Das folhas novas e tenras

Onde eu queria saciar

A minha longa sede de frescura.

O Jardim e a Noite

Atravessei o jardim solitário e sem lua,

Correndo ao vento pelos caminhos fora,

Para tentar como outrora

Unir a minha alma à tua,

Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiros cercados de buxo

Sorri à sombra tremendo de medo.

De joelhos na terra abri o repuxo,

E os meus gestos foram gestos de bruxedo.

Foram os gestos dessa encantação,

Que devia acordar do seu inquieto sono

A terra negra dos canteiros

E os meus sonhos sepultados

Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos

Calou-se a terra,

E sob o peso dos frutos ressequidos

Do presente

Calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,

Enquanto subia e caía a água do repuxo,

Murmurei as palavras em que outrora

Para mim sempre existia

O gesto dum impulso.

Palavras que eu despi da sua literatura,

Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,

De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem

A noite solitária e pura

Continuou distante e inatingível

Sem me deixar penetrar no seu segredo

E eu senti quebrar-se, cair desfeita,

A minha ânsia carregada de impossível,

Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura

E embalei o silêncio nos meus ombros.

Tudo em minha volta estava vivo

Mas nada pôde acordar dos seus escombros

O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou pesado e quente

E à sua volta todo o jardim cantou

E a água do tanque tremendo

Se maravilhou

Em círculos, longamente.

Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim da impossessão,

Transbordante de imagens mas informe,

Em ti se dissolveu o mundo enorme,

Carregado de amor e solidão.

A verdura das árvores ardia,

O vermelho das rosas transbordava,

Alucinado cada ser subia

Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação

De paraísos, deuses e de infernos,

E os instantes em ti eram eternos

De possibilidade e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou, denso

Dum gesto mais profundo em si contido,

Pois trazias em ti sempre suspenso

Outro jardim possível e perdido.

Em Todos os Jardins

Em todos os jardins hei-de florir,

Em todos beberei a lua cheia,

Quando enfim no meu fim eu possuir

Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,

A tudo quanto existe me hei-de unir,

E o meu sangue arrasta em cada veia

Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo

Todo o fogo que habita na floresta

Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,

A secreta abundância dessa festa

Que eu via prometida nas imagens.

Bonnard_Pierre-Gardens_of_Tuileries
Os poemas originalmente publicados em Poesia (1944) e Dia do Mar (1947) foram transcritos de OBRA POÈTICA, Caminho, Lisboa 2011.

Abre o artigo uma pintura de Arshile Gorky (1904-1948), Jardim em Sochi de 1941. Fecha o artigo uma pintura de Pierre Bonnard (1867-1947), Jardins das Tulherias.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

EUA anos 70 na pintura fotorealista de Richard Estes e em poemas de Jorge de Sena

13 Quarta-feira Nov 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ 3 comentários

Etiquetas

Jorge de Sena, Richard Estes, Robert Bechtle

Estes_Richard-Bus_Reflections 1972Para quem ama a poesia de Jorge de Sena (1919-1978) o livro Sequências ocupa um lugar especial. Repositório de sarcasmos e ironias poéticas deixadas inéditas, e publicadas pouco depois da morte do poeta pela mulher, Mecia de Sena, nele encontramos traços da visão atenta ao que o rodeava e de como esse mundo e o que nele acontecia desencadeava a sua verve poética.

Num dos ciclos do livro, América, América, I love you, encontro o poema Marido e Mulher de 12/Ago/1969(?) que nos leva ao mundo por detrás das fachadas tão brilhantemente pintadas por Richard Estes (1932) entre finais doa anos 60 e ao longo dos anos 70 do século XX, e dentre as quais mostro a seguir um pequeno grupo.

MARIDO E MULHER

Sofriam terrivelmente. Porque

o comboio dele chegava

quando o dela partia.

Compraram um manual na livraria,

mandaram vir pelo correio uma almofada especial

(cujo atraente anúncio recebiam quase todos os dias pelo correio)

leram com cuidado as instruções,

estudaram com aplicação os esquemas do livro,

e, quando se ensaiavam,

na discreta penumbra do quarto respectivo,

a sogra — que embirrava com ele —

abriu de repente a porta,

deu um grito, correu

ao telefone e chamou a polícia,

A polícia veio, levou-o. Foi julgado

e condenado a dois anos de tratamento num instituto psiquiátrico

por atentar, vicioso,

contra a virtude da esposa.

12/Ago/1969(?)

Estes_Richard-Canadian_Club 1970sEstes_Richard-Urban_Landscape_No._3 1972Estes_Richard-Cafe_Express 1975Estes_Richard-Central_Savings 1975 Agora que os leitores já têm uma ideia da paisagem urbana nos EUA na época do poema, termino com outro poema de Jorge de Sena, provavelmente composto no mesmo dia do anterior e pertencendo ao mesmo ciclo.

 

Pavloviana ou os reflexos condicionados

Parqueavam o carro à porta dela,

e durante mais de uma hora,

rolavam-se e rebolavam-se lá dentro.

 

Depois, saciados, fechavam o carro

e entravam em casa (para lavar-se e dormir).

 

(Na verdade, a casa não era dela,

mas de ambos: Moravam lá,

até eram casados).

Bechtle_Robert-58_Rambler 1967

Desta vez a pintura de moradia e carro é de 1967 e é obra de Robert Bechtle (1932)

 

Notícia bibliográfica

Os poemas foram transcritos de Jorge de Sena, SEQUÊNCIAS, Lisboa, Moraes Editores, 1ªediçao Julho de 1980.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Pocket
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...
← Older posts
Newer posts →

Visitas ao Blog

  • 2.356.783 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 894 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • De Camões, 2 sonetos de amor
  • Al andar se hace el camino - Alguns poemas de Antonio Machado
  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Site no WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 894 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d