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Dürer - Retrato de homem com 95 anos 1521

Gosto de pensar que este velho de 95 anos desenhado por Albrecht Dürer (1471-1528) em 1521 pensa no futuro, mais que na vida vivida. Do que viveu terá aprendido o que mais tarde lapidarmente Wittgenstein escreveu:

6.373.       O mundo é independente da minha vontade.

6.374.        Ainda que tudo o que desejamos acontecesse, isto seria apenas, por assim dizer uma graça dada pelo destino, uma vez que não existe uma conexão lógica entre a vontade e o mundo que a garantisse, e a suposta conexão física também não a poderíamos por sua vez desejar.

5.1361.     Não podemos inferir os acontecimentos futuros dos acontecimentos presentes.

A crença no nexo causal é a superstição.

5.1362.     O livre arbítrio consiste no facto de as acções futuras não poderem ser conhecidas no presente. Só poderíamos conhecê-las se a causalidade fosse uma necessidade interior, como a da inferência lógica. — A conexão entre o saber e o que se sabe é a conexão da necessidade lógica.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951) in Tratado Lógico-Filosófico com tradução de M. S. Lourenço

Aceitando que as acções futuras não podem ser conhecidas, ainda assim sobra lugar para o sonho ou desejo. E por isso, do futuro, acreditando na existência de um além vida, pensará o nosso homem, quero crer, no que deseja: e aí talvez siga a ideia de Francisco Brines  (1932) no poema Projecto de Vida Eterna.

Projecto de Vida Eterna

E depois de acabar, voltar ao mundo

após uma curta eternidade, já sereno

voltar de novo ao mundo, a este que sei,

com uma repetida juventude, e junto a mim

seu corpo como fora em sua idade de ouro

perdida, e assim admitir que a vida é infindável

como não pôde ser (agora já eterna),

porque houve um adeus, e o tempo envelhecia

não o tempo, que em si é sempre eterno,

mas o que ele tocava: o mundo,

e aquele que, por sabê-lo, mais sofria.

 

E para o que lhe falta viver tentará certamente pensar o futuro tendo em conta quanto o destino não é um lugar, verdadeiro e belo título do poema com que hoje me despeço da poesia de Francisco Brines.

 

O Destino nao é um Lugar

 

O caminho foi longo e houve névoa.

Porém, houve o espaço. Mas agora

adensou-se a névoa até ao ponto

de ser o espaço o muro que já roço.

Nele me deterei e, ao voltar

os olhos para trás, a mesma névoa

far-me-á tentar de novo o mesmo muro,

e, se eu dirigir o olhar ao céu

para ali me salvar, a negra névoa

irá cegar-me os olhos, e assim será

isso a que chamaste sono eterno.

 

Traduções dos poemas por José Bento in A Ultima Ceia, edição Assírio & Alvim, Lisboa 1997.

 

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