De férias até Agosto deixo-vos com Herberto Helder

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De férias até Agosto, deixo-vos com uma irónica e desolada meditação, com arte poética à mistura, pela voz de Herberto Helder.

A vida vai-se irremediavelmente, e mesmo quando não o queremos aceitar, temos pena.

O ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,

espreito-o, leitor,

por cima do ombro de outros,

rítmico, manuscrito,

porque sofro do êrro,

porque me não equilibro nas linhas,

palavras sim insubstituíveis mas

tão pouco sustentáveis,

sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,

que tusa surreal!  

ou fodem murcho?

a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,

em teorias gerais da linguagem,

na vida eterna,

na gramática,

na foda estrita,

em prática técnica nenhuma,

na glória da língua,

não há apoio de inserção que me valha,

e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,

morro faz já bastante tempo,

ou não ganhei a mão esquerda certa,

ou não perdi a razão suficiente,

Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, ou loucos,

para-me de repente o pensamento,

luzia a lusa língua,

se era o mesmo o ministério voltava sempre ao comêço,

exasperado, lúcido,

o mais música de câmara possível,

o recôndito,

o côrrego,

tão virgem nele se bebia a água,

e lisa, límpida, ligada,

e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,

o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,

oh terror e deslumbre,

acqua alta!

 

 

O poema foi publicado em Ofício Cantante por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

 

 

A SUMMER ECSTASY / ÊXTASE DE VERÃO

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Recolhido ao fresco do ar condicionado neste verão que nos abrasa, leio poesia, e aguardo o que aconteceu ao poeta:

Junto a um dia de verão / Fiquei deitado a sonhar. / E de longe a luz, então, / Veio dentro de mim brilhar.

Infelizmente não me aconteceu nenhuma epifania como relata o poema:

Súbita flauta possivel / Em notas sem melodia / Brota, do fundo invisivel / De meu ser…

e continuo com a urgência do quotidiano, numa perfeita sintonia com o maravilhoso tempo que vivemos. Mas bem gostava de num sobressalto sentir como o poeta:

Sou outro ser. / Meus sentidos outros já. / A mão que oculta meu ver / Divina cegueira dá. /  Sou musica vinda dos céus, / Um tom dos dedos de Deus.

O poeta é Fernando Pessoa na pele de Alexander Search, o heterónimo pouco considerado. Ressoam no poema os primórdios do que viria a ser o panteísmo de Alberto Caeiro, aqui ainda confuso:

A poeira que ao sol baila / Pode ouvir-se sussurrar. / Tudo é expressão, tudo fala.

Deixo-vos com o poema na integra.

 

ÊXTASE DE VERÃO

 

Junto a um dia de verão

Fiquei deitado a sonhar.

E de longe a luz, então,

Veio dentro de mim brilhar.

Brilho vero e irreal

Por certo espiritual.

 

O interior então vi

Do verão, da terra, da aurora.

Os rios a correr ouvi

De Dentro. Nasci outrora

P’ra ver, em cada mistério,

Como Deus é tudo, inteiro.

 

A poeira que ao sol baila

Pode ouvir-se sussurrar.

Tudo é expressão, tudo fala.

A vista pode escutar.

Das coisas perdi visão.

Ideias, aladas são.

 

Os restos de horas passadas

Vogam em barcos à deriva

Cobertas de flores caladas,

Com meu sonho na descida

Até margens de mistério –

Este dia quente e eu.

 

E algo de um cobiçar,

Mas dum desejo diferente,

Sensação de algo faltar

Sem chegar a estar carente,

Mas que se vai dissolver

Antes que doa o prazer.

 

Um brilho de sombra tecido

Deste dia e de meu ser,

Água de fulgor trazido

Apenas para se ver,

Hiato, pausa, obscuro

Olhar a orla de tudo,

 

Súbita flauta possivel

Em notas sem melodia

Brota, do fundo invisivel

De meu ser, sua magia

E esvai-se do meu sentido

No pensamento perdido.

 

E olhai! Sou outro ser.

Meus sentidos outros já.

A mão que oculta meu ver

Divina cegueira dá.

Sou musica vinda dos céus,

Um tom dos dedos de Deus.

 

E como um principe coroado

Sinto orgulho e medo agora,

De céu e terra trajado.

A alma por dentro e fora,

É sol até aos confins.

Sonho mãos de serafins.

 

O poema, A SUMMER ECSTASY, foi traduzido por Luisa Freire e publicado a primeira vez pela tradutora em 1995, na edição bilingue da Poesia Inglesa de Fernando Pessoa. Traz o nº48 do livro THE MAD FIDDLER/O RABEQUISTA MÁGICO.

O livro foi editado por LIVROS HORIZONTE, LDA em 1995, e penso que a superlativa tradução dos poemas terá sido premiada por um dos prémios que de vez em quando fazem justiça ao trabalho que o merece.

Casar só uma mão ou a defesa do adultério segundo Bernardim Ribeiro

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Não sou casado, senhora,/…/ não casei o coração.

Assim começa uma cantiga de Bernardim Ribeiro (14?? – 15??) que é uma fascinante legitimação do adultério.

Casou o poeta antes de conhecer aquela que agora ama, e para justificar o desejo desta nova amada, serve-se do inesperado argumento de que afinal só casou uma mão:

Antes que vos conhecesse, / sem errar contra vós nada, / uma só mão fiz casada,

Assistimos ao longo da canção à apresentação das razões que legitimam o adultério, quais sejam:

Dizem que o bom casamento / se há de fazer de vontade.

se a outrem dei a mão, / dei a vós o coração.

Como, senhora, vos vi, / sem palavras de presente / na alma vos recebi, / onde estareis para sempre,

Por detrás destas conversas poéticas espreita sempre o que já sabemos,

O casar não fez mudança /… / nem me negou a esperança / do galardão esperado.

e tentando obtê-lo termina o poeta:

Não me engeiteis por casado, / que, se a outra dei a mão, / a vós dei o coração.

Segue-se a Cantiga na integra:

Cantiga

Não sou casado, senhora,
que ainda não dei a mão,
não casei o coração.

Antes que vos conhecesse,
sem errar contra vós nada,
uma só mão fiz casada,
sem que mais nisso metesse.
Dou-lhe que ela se perdesse!
solteiros e vossos são
os olhos e o coração.

Dizem que o bom casamento
se há de fazer de vontade.
Eu, a vós, a liberdade
vos dei, e o pensamento.
Nisto só me achei contento:
que, se a outrem dei a mão,
dei a vós o coração.

Como, senhora, vos vi,
sem palavras de presente
na alma vos recebi,
onde estareis para sempre,
não de palavra somente;
nem fiz mais que dar a mão,
guardando-vos o coração.

Casei-me com meu cuidado
e com vosso desejar.
Senhora, não sou casado,
não mo queirais acuitar!
que servir-vos e amar
me nasceu do coração
que tendes em vossa mão.

O casar não fez mudança
em meu antigo cuidado,
nem me negou a esperança
do galardão esperado.
Não me engeiteis por casado,
que, se a outra dei a mão,
a vós dei o coração.

Ó quão constante é entre os homens, independentemente das épocas, a dicotomia entre amor e casamento.

A versão transcrita do poema de Bernardim Ribeiro retirei-a da antologia Poesia de Amor organizada por José Régio e Alberto de Serpa, e publicada em 1945 pela Livraria Tavares Martins do Porto.

Sobre a biografia do poeta nada se sabe com exactidão ainda que pela net continuem a circular as fantasias que têm passado por dados biográficos do poeta.

Sonhei-a! A mulher imaginada dos Romanticos (um exemplo)

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Os transportes de paixão abundam na poesia romântica e pós-romantica até à fragorosa chegada do modernismo à poesia, no inicio do século XX.

Não constituindo o seu único assunto, nem sequer, diria, o mais importante, são quase sempre formas encapotadas de dirigir declarações de amor a alguém, pois nestas gerações, os poetas foram-no, quase sempre, apenas enquanto moços.

Quando não estamos perante a louvação dos encantos de quem se ama, surgem-nos retratos da mulher idealizada por estes jovens no século XIX, que acabam por nos transmitir uma imagem de mulher sonhada, num paradigma que hoje nos é estranho.

No poema que escolhi, Sonhei-a!   temos  no inicio, como componentes do retrato: Era triste, mas serena,

 e a terminar

Era triste como eu gosto; / Era linda como aposto / Que não havia outra igual;

Sonhei-a como uma fada, / Que tem vivido encantada / Sozinha – na solidão!

Que ficaremos a saber desta mulher?

Era tão linda a donzela, / Que eu ficaria ao pé dela / A minha vida…, a sonhar!

e ainda

Rezava que quem a visse, / Pode ser que a confundisse / Com algum anjo do céu.

 

Descrita de forma impalpável, a mulher sonhada pelo poeta mostra-se um ser etéreo, em quem não são perceptíveis qualidades que não corar ao dizer Algumas falas de amor:

Já de mansinho dizia / Algumas falas de amor.

Dizia-as sempre corando, / Repetia-as soluçando /D’olhos pregados no chão;

E depois envergonhada, / De não ser mais recatada, / Corava ainda outra vez!

 

 

Transtornado por este quadro diz-nos o nosso poeta o que fez:

 Beijei-lhe a mão com respeito; / Arfava-lhe o lindo peito, / Batia-lhe o coração.

 

 

Aqui chegados, fica por perceber com quem sonhou o poeta.

Talvez a leitura integral do poema ajude, e ele aí fica.

Sonhei-a!

 

Sonhei-a! Tenho na mente

O seu retrato inocente

A falar-me ao coração.

Sonhei-a como uma fada,

Que tem vivido encantada

Sozinha na solidão.

 

Sonhei-a d’olhos pisados,

Porque os prantos magoados

Lh’os tinham pisado assim:

Era triste, mas serena,

Como a gentil açucena,

Rainha do meu jardim.

 

Sonhei-a triste: – a tristeza

Tem nos olhos da beleza

Encantos qu’eu não direi.

Sonhei-a linda – trigueira,

Como se pinta a ceifeira,

Como eu pintá-la não sei.

 

Sonhei-a no fim do dia,

Quando tudo é melodia,

Quando tudo fala em Deus.

Vi-a sozinha pensando,

Talvez com prantos regando

Alguns pobres versos meus.

 

Sonhei-a como eu pequeno,

Naquele sonhar ameno,

Sonhava tudo o que é bom.

Cuidei vê-la que me olhava,

Tão triste que não falava

Nem da voz lhe ouvia o som.

 

Sonhei-a vindo da guerra,

A falar da minha terra

Como fala o trovador;

Mas então já se sorria,

Já de mansinho dizia

Algumas falas de amor.

 

Dizia-as como quem sente,

Não altas, mas como a gente

As diz em coisas assim:

Dizia-as como as diria

Beatriz quando as sentia

Falando de Bernardim.

 

Dizia-as sempre corando,

Repetia-as soluçando

D’olhos pregados no chão;

Dizia-as como eu jurara,

Que ninguém ainda amara

No mundo com tal paixão.

 

E depois envergonhada,

De não ser mais recatada,

Corava ainda outra vez!

Corava… corava ainda

Cada vez era mais linda,

Mais linda, que Deus a fez!

 

Qu’ria falar não podia,

Que a vergonha lh’impedia

De poder usar a voz.

Era então que se lembrava

De que o mundo a censurava

De nos ver falar a sós.

 

Sonhei-a depois rezando,

Talvez em segredo orando

Pela terra em que nasceu;

Rezava que quem a visse,

Pode ser que a confundisse

Com algum anjo do céu.

 

Tinha as tranças desprendidas,

Levemente sacudidas

Por ligeira viração.

Dos labios lhe baloiçava

Uma oração que rezava

Do fundo do coração.

 

Vista assim, em tal postura,

Crescia-lhe a formusura,

Se ela pudesse crescer.

Não podia, nem num canto

Se pode tamanho encanto

Com verdade descrever.

 

Sonhei em sonho fagueiro

Que era um amor verdadeiro

Aquele tão casto amor;

Costumado à desventura,

Só em sonhos a ventura

Visitou o trovador!

 

Falei-lhe tão meigas falas,

Que nunca as damas das salas

M’as podem ouvir assim:

Ela era linda, inocente,

Falei-lhe como quem sente,

Falei-lhe pouco de mim.

 

Beijei-lhe a mão com respeito;

Arfava-lhe o lindo peito,

Batia-lhe o coração.

Jurei-lhe… não digo a jura;

Tenho medo que a ventura

Me não deixe a discrição!

 

Sonhei-a então pensativa,

Como fica a sensitiva

Se lhe vão no pé tocar:

Era tão linda a donzela,

Que eu ficaria ao pé dela

A minha vida…, a sonhar!

 

Era triste como eu gosto;

Era linda como aposto

Que não havia outra igual;

Sendo tantas como as rosas,

As filhas belas, mimosas,

Das terras de Portugal!

 

Sonhei-a: se foi mentira

Cantei-a de mais na lira,

Morri por ela de mais.

Se o sonho foi verdadeiro,

Nem o canto é lisonjeiro,

Nem as trovas desleais.

 

Sonhei-a! Tenho na mente

O seu retrato inocente

A falar-me ao coração!

Sonhei-a como uma fada,

Que tem vivido encantada

Sozinha – na solidão!

Esta mulher sonhada, foi-o na pena de Luis Augusto Palmeirim (1825-1893).

Embora cronologica e estilisticamente poeta da segunda geração romântica, Luis Augusto Palmeirim não integrou nem o grupo de O Trovador, nem o grupo de O Bardo, ou sequer o grupo de O Novo Trovador. A poesia Sonhei-a! foi publicada em Poesias, pela primeira vez em 1851 com um retrato do poeta que reproduzo a seguir.

Uma gaivota – dizes. 3 poemas de Eugénio de Andrade

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ARIMA

Uma gaivota – dizes.

Sim, uma gaivota

passa distante e arde.

O teu rosto é azul,

e contudo está cheio

do oiro da tarde.

 

Uma gaivota.

Alma do mar e tua,

abandona-se à luz.

 

E na boca nem eu sei

se me nasce o coração

ou é a lua.

QUE VOZ LUNAR

Que voz lunar insinua

o que não pode ter voz?

 

Que rosto entorna na noite

todo o azul da manhã?

 

Que beijo de oiro procura

uns lábios de brisa e água?

 

Que branca mão devagar

quebra os ramos do silêncio?

QUE DIREMOS AINDA?

Vê como de súbito o céu se fecha

sobre dunas e barcos,

e cada um de nós se volta e fixa

os olhos um no outro,

e como deles devagar escorre

a última luz sobre as areias.

 

Que diremos ainda? Serão palavras,

isto que aflora aos lábios?

Palavras, este rumor tão leve

que ouvimos o dia desprender-se?

Palavras, ou luz ainda?

 Palavras, não. Quem as sabia?

Foi apenas lembrança doutra luz.

Nem luz seria, apenas outro olhar.

Os poemas, de Eugénio de Andrade, foram publicados no livro Mar de Setembro editado pela primeira vez em 1961.

Nota sobre as fotografias: É deliberada a desfocagem observada nas fotos – Nem luz seria, apenas outro olhar.

Luis Augusto Palmeirim — uma Arte Poética do Romantismo

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Este Portugal, mantido e conservado pelas classes omnipotentes, não é um cadáver ilustre, é apenas um moribundo, aterrado pela ideia da morte, mas sem coragem para se abraçar com a vida…

Isto escrevia Lopes de Mendonça há 160 anos, em 1851, na apresentação das Poesias de Luis Augusto Palmeirim (1825-1893), e continuava:

… três séculos de monarquia absoluta esgotaram-lhe a glória: dezassete anos de realeza representativa desbotartam-lhe a fé: estas revoluções parciais, sem elevados intuitos, nem ideias definidas, definharam-lhe a esperança, e entregaram o seu destino à mais horrivel das fatalidades – aos acasos tremendos da insurreição popular, cega nas suas cóleras, implacável nos seus desejos, atroz, quase sempre, nas explosões omnipotentes da sua vontade.

Quem levou o problema politico até estes fatais extremos? Quem é que podendo encaminhar a sociedade, pausada e progressivamente, a coloca no fim de tantos anos perto das calamidades duma dissolução iminente?

Não somos nós, decerto, os homens da geração nova, que protestamos todos os dias contra as torpezas e desvaríos dessa raça espoliadora e inepta, que ou no poder ou na oposição, apenas se agita no prurido de vaidades turbulentas, e de interesses perversos, que havemos de carregar com essa responsabilidade.

Todos sois cúmplices; progressistas medrosos, conservadores corruptos, absolutistas cépticos, devoristas insaciáveis.

O que fizestes durante dezassete anos?

O silêncio da ignomínia é a vossa sentença final.

Foi longa a citação mas a actualidade dos juizos justifica-a. E tudo isto escrevia o nosso penetrante e respeitado critico para a seguir referir:

E todavia, meu caro poeta, se há alguma coisa que possa sobreviver no meio desse cataclismo, que eu prevejo, e que não olho sem terror, é a arte, é a poesia, são esses cantos, que a tua musa (perdoa a trivialidade da expressão) fiou descuidosa e tranquila, ao canto da lareira, nas noites de inverno, e que o nosso povo repete desde os pântanos do Ribatejo até às formosas várzeas de Trás-os-Montes.

Enganou-se o escritor pois hoje Luis Augusto Palmeirim é apenas um nome referido en passant em histórias de literatura, e nem sequer frequente em nomes de rua, como a outros acontece.

Reivindicando-se poeta da Liberdade, Luis Augusto Palmeirim, militar formado no Colégio Militar, foi actor activo das lutas da Maria da Fonte:

Sou um poeta soldado, / Não sei à missão mentir;/ Neste canto magoado,/ Disse tudo sem fingir./ Poeta da liberdade./ Fiz dessa nova deidade/ A dama do meu pensar

Dificilmente conseguimos imaginar hoje a popularidade de que gozou à época a poesia de Palmeirim recitada e declamada em privado e em público.

 A tranquilidade da vida e o progresso material conhecidos na sociedade portuguesa com a Regeneração, acontecida pouco depois da publicação da primeira edição destas poesias, recolocaram socialmente os tipos populares nela saudados, vindo a empurrar para o esquecimento estes poemas de exaltação do heroísmo ditados pela guerra civil e suas peculiaridades.

Poesia maioritariamente escrita nas formas populares de sextilhas e décimas, em versos de cinco (redondilha menor) e sete sílabas (redondilha maior), o ritmo da métrica e a sonoridade da rima proporcionam uma leitura fluida e encantatória, onde a singeleza de ideias e assunto garantem uma aprazivel leitura.

Dir-se-á que hoje se pede mais à poesia. Talvez. Mas o prazer de leitura que esta proporciona permanece à nossa espera.

Poesia

 Vou cantar, foi minha sina

Cantando levar a dor:

Hei-de cumpri-la. É divina

A missão do trovador.

Quiz-me Deus por seu profeta,

Fadou-me, fez-me poeta,

Deu-me este mago condão;

Não hei-de mentir à lira,

Nem envolver na mentira

As vozes do coração.

 

Não hei-de; que a poesia

Dentro d’alma me nasceu,

Tão casta como a sentia

O namorado Dirceu.

Tão pura como desliza

Das palavras d’Heloísa

A descrever Abeilard;

Tão robusta, tão provada,

Como contam da espada

Do Camões – a guerrear!

 

Brotou-me puro e singelo

O meu singelo trovar,

Como nasce o lirio belo

Sem cultura à beira-mar.

Nunca teve outro cimento,

Que não fosse o sentimento

D’este mundo desleal;

Nunca teve outra alegria,

Senão em sonhar um dia

Venturas a Portugal.

 

Cantei em trovas sentidas,

Como cantou Bernardim,

Todas as juras mentidas

Que me fizeram a mim!

Fui poeta dos amores;

Como os demais trovadores

Uns lindos olhos cantei;

Como a Tasso desprezado,

Ainda não sei, coitado!

Como à vida me voltei!

 

Mas voltei; tinha saudades

Da minha terra infeliz,

Esqueceram-me as maldades

D’esta nova Beatriz.

Tinha prisões mais doiradas:

Eram as crenças herdadas

Da minha terra natal;

Eram os contos viçosos,

Noutros tempos mais ditosos,

Contados de Portugal.

 

Era tudo o que no peito

Sente quem tem coração;

Era temporal desfeito

De saudades e de paixão;

Ao amor faziam guerra,

As lembranças desta terra

Em que vi, gozei a luz;

Em que, pela vez primeira,

Tive crença verdadeira

Na santa lei de Jesus.

 

Nascera-me dentro d’alma

Um mais forte e puro amor.

Que a todos levava a palma,

Que tinha maior valor.

Eram cantos decorados,

Dos altos feitos marcados

Com o cunho português;

Eram as quinas erguidas,

Nas arestas denegridas

De Ceilão, Ormuz e Fez!

 

De novo voltei à vida,

Saudei o luso pendão,

Numa lágrima nascida

Do fundo do coração!

Chorei o tempo perdido

Nesse amor estremecido,

Que me fora tão cruel;

Chorei antigos delitos,

Como outrora esses proscritos

Sobre a terra d’Israel!

 

Chorei o ter-me esquecido

De tudo o que Deus mandou

Que fosse no mundo tido

Como Ele o ensinou!

Chorei sobre a liberdade,

Que nos braços da beldade

Por pouco que não morreu;

Chorei tudo, chorei tanto,

Que pude com o meu pranto

Lavar o delito meu.

 

Desde então a minha terra

Foi só tudo para mim;

As crenças que o peito encerra,

Depôr-lhas aos pés eu vim.

Nunca mais a minha lira

Se adornou de vã mentira

Dum falso mentido amor;

Ergui-me de pé – altivo,

Depuz ferros de cativo

Por honra do trovador.

 

Sou um poeta soldado,

Não sei à missão mentir;

Neste canto magoado,

Disse tudo sem fingir.

Poeta da liberdade.

Fiz dessa nova deidade

A dama do meu pensar:

Prostrei-me aos pés da donzela,

Hei-de com ela, e por ela,

A minha terra cantar.

 

Hei-de, sim, que as rudes falas

De soldado as puz aqui;

Mentiras que são das salas,

Nunca eu as traduzi.

Não as sei – nem que soubera,

Nestes versos as pusera,

Que todos verdades são;

Nem tem lugar a mentira,

Traduzindo aqui na lira

As vozes do coração!

Para a biografia do poeta remeto o leitor para o competente e informado artigo PALMEIRIM, LUÍS AUGUSTO (XAVIER) de F. Freitas Morna publicado no DICIONÁRIO DO ROMANTISMO LITERÁRIO PORTUGUÊS  editado pela Caminho em 1997.

Três canções de Elvis Presley

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Tal como a roda, depois de inventada não mais desaparece, assim algumas canções: uma vez concebidas passam a fazer parte do mundo, do nosso mundo quando as conhecemos. Nestas visitas ao baú aparecem uma vez por outra. Não será o caso destas interpretações de Elvis Presley, mas ouvi-las traz um frémito de adolescência a qualquer idade, sobretudo este Are you lonesome tonight (1960).

Funcionando como a outra parte de um díptico,  It’s now or never (1960)  versão de O sole mio, transporta não já a pergunta, mas insta, com a urgência de ou tudo ou nada: be mine to night … my love won’t wait.

Mais que canções foram convites explícitos ao amor, e a partir de 1960, levaram adolescentes ao rubro. São canções que moldaram socialmente o mundo, numa extensão inapreciável hoje, por quem apanhou o comboio da vida depois do make love not war, ou noutra versão, como encontrei escrito na contra-capa de um disco em vinyl de meados dos anos 60: no money, no war … paz, amor e liberdade.

Para completar a curta viagem acrescento Love me tender (1956), o que permitirá ver o caminho percorrido em tão pouco tempo na explicitação do desejo, no texto destas canções para teenagers. Em Love me tender o desejo reveste formulações de juras de amor eterno, e quatro anos depois passamos a uma explicita conversa de travesseiro.

 

As letras das canções estão disponíveis em muitos sites na net pelo que me dispenso de as acrescentar aqui.

Matisse e a alegria de viver

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Le bonheur de vivre, quadro a que Matisse chamou “a minha Arcádia”, foi pintado em 1905 e representou uma viragem na pintura do mestre.

Nesse verão de 1905, em Collioure, estancia de veraneio nos Pirinéus orientais, Matisse então com 36 anos, teve a oportunidade de se interrogar sobre o sentido e propósito do que pintava, e com este Bonheur de vivre respondeu à sua própria interrogação e desejo, consubstanciado na experssão “como fazer as minhas cores cantar”.

Em Le bonheur de vivre, aqui reproduzido, onde pares nus se espraiam numa paisagem de uma alacridade estonteante, a dança de roda pintada na zona central ecoa uma antiga dança dos pescadores de Collioure, e foi retomada como assunto único no famoso quadro do Hermitage, Dance (II), de 1909/10.

O colorido de Le bonheur de vivre, de alguma forma reminiscência do mercado local de frutas e legumes, traduz o que mais tarde na pintura do século XX veio a chamar-se a luz e cor do sul.

Le bonher de vivre, incompreendido pelos seus amigos mais próximos, incluindo Signac, com quem chegou à rotura, foi a única pintura submetida por Matisse ao Salon des Independents em Março de 1906. E o escândalo não podia ter sido maior: “Matisse teve o maior sucesso da sua carreira em termos de hilariedade esse ano, penso” escreveu mais tarde Berthe Weill no seu Pan! Dans l’oeil! de 1933.

Para terdes uma ideia do que era o Salon, acrescento a pintura de Henri Rousseau que o documenta.

A memória do escândalo não desapareceu, e cinquenta anos depois, em 1957,  Janet Flanner no livro Man and Monuments, descrevia como os parisienses que ainda recordavam o acontecimento referiam que desde a porta de entrada do Salon se ouvia uma barulheira e quem chegava era guiado por ela até encontrar uma multidão galhofeira apertada frente à apaixonada visão de felicidade do pintor. Parece que entre a multidão havia de tudo menos apoio, desde gargalhadas à algazarra de escárnio e conversas zangadas.

Foi tal o escândalo que engraçados afixaram cartazes no café Lapin Agile em Montmartre, vizinho do novo atelier do pintor, com os dizeres ”Pintores mantenham-se afastados de Matisse”, e também, “Matisse causa mais dano num ano que uma epidemia”, ou ainda “Matisse põe-vos loucos”.

A imprensa popular saboreou o acontecimento, e entre os experts da época os comentários eram variações sobre a opinião de que Matisse tinha sobreposto teorias ao seu indubitável talento, e isto porque, com esta pintura dissera adeus ao que por algum tempo se chamou neo-impressionismo. Os detalhes desta violenta guerra estética são saborosos de seguir, incluindo o papel de André Gide na arruaça.

Uma das consequências do escandalo foi que a segunda exposição individual de Matisse, inaugurada em Paris na véspera da abertura do Salon, se saldou por um fiasco.

Por outro lado tanto o entusiasmo de Leo Stein (irmão de Gertrude Stein) com este Le bonheur de vivre e com a pintura de Matisse a partir daí, bem como a história do encontro que este Le bonher de vivre desencadeou entre Matisse e o magnate russo Shchukin, terá que ficar para outra visita ao pintor, sendo que, para quem não saiba, Shchukin foi o coleccionador que reuniu os Monet, Renoir, Van Gogh, Cezanne, Gaugin, Matisse,…, que hoje pertencem à colecção do Hermitage.

Os pormenores sobre o escândalo na sequência da apresentação de Le bonheur de vivre no Salon des Independents, recolhi-os no livro de Hilary SpurlingThe unknown Matisse publicado pela Penguin Books em 1998.

Excepcionalmente, fazendo click sobre Le bonheur de vivre, obtém-se uma imagem substancialmente ampliada

Ficha técnica das pinturas

Matisse – Le bonheur de vivre: Óleo sobre tela com 175 x 241 cm

Matisse – Dance (II): Óleo sobre tela com 260 x 391 cm

Henri Rousseau – A liberdade convida os artistas a tomar parte no 22º Salon des Independents: Óleo sobre tela com 175 x 118cm

Deus e a segunda geração romantica: uma abordagem

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IGNOTO DEO

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva

De minha alma a ti se eleva.

És: o que és não sei. Deriva

Meu ser do teu: luz … e trevas,

Em que – indistintas! – se envolve

Este espírito agitado,

De ti vem, a ti devolve,

O Nada, a que foi roubado

Pelo sopro criador

Tudo o mais, o há-de tragar.

Só vive de eterno ardor

O que está sempre a aspirar

Ao infinito donde veio.

Beleza és tu, luz és tu,

Verdade és tu só. Não creio

Senão em ti; o olho nu

Do homem não vê na terra

Mais que a duvida, a incerteza,

A forma que engana e erra.

Essência!  A real beleza,

O puro amor – o prazer

Que não fatiga e não gasta…

Só por ti os pode ver

O que inspirado se afasta,

Ignoto Deus, das ronceiras,

Vulgares turbas: despidos

Das coisas vãs e grosseiras

Sua alma, razão, sentidos,

               A ti se dão, em ti vida,

E por ti vida têm, eu, consagrado

A teu altar, me prostro e a combatida

Existência aqui ponho, aqui votado

Fica este livro – confissão sincera

Da alma que a ti voou e em ti só spera.

O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.

Isto escrevia Almeida Garrett na apresentação de Folhas Caídas, o seu último livro de poesia a que já nos referimos quando começámos este blog de percurso imprevisível.

Regresso a ele para, com o poema de abertura do livro a um deus desconhecido, discretear sobre a presença de Deus na poesia romantica da segunda geração, escrita em português.

Sendo os poetas da geração romantica formados na matriz católica, o Deus invocado na sua poesia é sempre o Deus dos cristãos.

Para além das manifestações de fé poetisadas em torno do acredito porque acredito, surgem aqui e além outras formas de refletir poeticamente sobre Deus, de que a obra-prima absoluta será este IGNOTO DEO.

Mas enquadrado neste poetar com Deus em fundo, surge uma vasta produção que se estende até final do século, comentando os vicios e desmandos, e também algumas santas vidas, de um clero rural ou urbano presente na sociedade portuguesa durante séculos.

O interesse, hoje, desta produção poética é histórico, sendo que uma vez por outra a qualidade da factura e da inspiração fazem esses poemas merecedores de lembrança.

É já passado o romantismo, na sua definição histórico-literária, que encontramos a realização maior neste tema com A Velhice do Padre Eterno de Guerra Junqueiro, onde se inclui o poemeto O Melro, que já aqui referi como um hino por excelência à liberdade.

Nestes primordios dos anos 50 de oitocentos, quando Garrett publicou o seu IGNOTO DEO, é a poesia de Camilo Castelo Branco, reunida em Inspirações de onde destaco A Harpa do Céptico e e nos ciclos de poemas O JUIZO FINAL E O SONHO DO INFERNO,  ou ainda em HOSSANA! PARÁFRASE DOS SETE SALMOS PENITENCIAIS, que documenta as variadas perspectivas do sentir da segunda geração romantica sobre a religião e as suas praticas envolvendo a intermediação eclesiástica, e dando conta das interrogações juvenis sobre a crença. Camilo à época era um moço com menos de 30 anos.

Não fica o assunto esgotado e outras produções poética visitaremos.