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Os transportes de paixão abundam na poesia romântica e pós-romantica até à fragorosa chegada do modernismo à poesia, no inicio do século XX.

Não constituindo o seu único assunto, nem sequer, diria, o mais importante, são quase sempre formas encapotadas de dirigir declarações de amor a alguém, pois nestas gerações, os poetas foram-no, quase sempre, apenas enquanto moços.

Quando não estamos perante a louvação dos encantos de quem se ama, surgem-nos retratos da mulher idealizada por estes jovens no século XIX, que acabam por nos transmitir uma imagem de mulher sonhada, num paradigma que hoje nos é estranho.

No poema que escolhi, Sonhei-a!   temos  no inicio, como componentes do retrato: Era triste, mas serena,

 e a terminar

Era triste como eu gosto; / Era linda como aposto / Que não havia outra igual;

Sonhei-a como uma fada, / Que tem vivido encantada / Sozinha – na solidão!

Que ficaremos a saber desta mulher?

Era tão linda a donzela, / Que eu ficaria ao pé dela / A minha vida…, a sonhar!

e ainda

Rezava que quem a visse, / Pode ser que a confundisse / Com algum anjo do céu.

 

Descrita de forma impalpável, a mulher sonhada pelo poeta mostra-se um ser etéreo, em quem não são perceptíveis qualidades que não corar ao dizer Algumas falas de amor:

Já de mansinho dizia / Algumas falas de amor.

Dizia-as sempre corando, / Repetia-as soluçando /D’olhos pregados no chão;

E depois envergonhada, / De não ser mais recatada, / Corava ainda outra vez!

 

 

Transtornado por este quadro diz-nos o nosso poeta o que fez:

 Beijei-lhe a mão com respeito; / Arfava-lhe o lindo peito, / Batia-lhe o coração.

 

 

Aqui chegados, fica por perceber com quem sonhou o poeta.

Talvez a leitura integral do poema ajude, e ele aí fica.

Sonhei-a!

 

Sonhei-a! Tenho na mente

O seu retrato inocente

A falar-me ao coração.

Sonhei-a como uma fada,

Que tem vivido encantada

Sozinha na solidão.

 

Sonhei-a d’olhos pisados,

Porque os prantos magoados

Lh’os tinham pisado assim:

Era triste, mas serena,

Como a gentil açucena,

Rainha do meu jardim.

 

Sonhei-a triste: – a tristeza

Tem nos olhos da beleza

Encantos qu’eu não direi.

Sonhei-a linda – trigueira,

Como se pinta a ceifeira,

Como eu pintá-la não sei.

 

Sonhei-a no fim do dia,

Quando tudo é melodia,

Quando tudo fala em Deus.

Vi-a sozinha pensando,

Talvez com prantos regando

Alguns pobres versos meus.

 

Sonhei-a como eu pequeno,

Naquele sonhar ameno,

Sonhava tudo o que é bom.

Cuidei vê-la que me olhava,

Tão triste que não falava

Nem da voz lhe ouvia o som.

 

Sonhei-a vindo da guerra,

A falar da minha terra

Como fala o trovador;

Mas então já se sorria,

Já de mansinho dizia

Algumas falas de amor.

 

Dizia-as como quem sente,

Não altas, mas como a gente

As diz em coisas assim:

Dizia-as como as diria

Beatriz quando as sentia

Falando de Bernardim.

 

Dizia-as sempre corando,

Repetia-as soluçando

D’olhos pregados no chão;

Dizia-as como eu jurara,

Que ninguém ainda amara

No mundo com tal paixão.

 

E depois envergonhada,

De não ser mais recatada,

Corava ainda outra vez!

Corava… corava ainda

Cada vez era mais linda,

Mais linda, que Deus a fez!

 

Qu’ria falar não podia,

Que a vergonha lh’impedia

De poder usar a voz.

Era então que se lembrava

De que o mundo a censurava

De nos ver falar a sós.

 

Sonhei-a depois rezando,

Talvez em segredo orando

Pela terra em que nasceu;

Rezava que quem a visse,

Pode ser que a confundisse

Com algum anjo do céu.

 

Tinha as tranças desprendidas,

Levemente sacudidas

Por ligeira viração.

Dos labios lhe baloiçava

Uma oração que rezava

Do fundo do coração.

 

Vista assim, em tal postura,

Crescia-lhe a formusura,

Se ela pudesse crescer.

Não podia, nem num canto

Se pode tamanho encanto

Com verdade descrever.

 

Sonhei em sonho fagueiro

Que era um amor verdadeiro

Aquele tão casto amor;

Costumado à desventura,

Só em sonhos a ventura

Visitou o trovador!

 

Falei-lhe tão meigas falas,

Que nunca as damas das salas

M’as podem ouvir assim:

Ela era linda, inocente,

Falei-lhe como quem sente,

Falei-lhe pouco de mim.

 

Beijei-lhe a mão com respeito;

Arfava-lhe o lindo peito,

Batia-lhe o coração.

Jurei-lhe… não digo a jura;

Tenho medo que a ventura

Me não deixe a discrição!

 

Sonhei-a então pensativa,

Como fica a sensitiva

Se lhe vão no pé tocar:

Era tão linda a donzela,

Que eu ficaria ao pé dela

A minha vida…, a sonhar!

 

Era triste como eu gosto;

Era linda como aposto

Que não havia outra igual;

Sendo tantas como as rosas,

As filhas belas, mimosas,

Das terras de Portugal!

 

Sonhei-a: se foi mentira

Cantei-a de mais na lira,

Morri por ela de mais.

Se o sonho foi verdadeiro,

Nem o canto é lisonjeiro,

Nem as trovas desleais.

 

Sonhei-a! Tenho na mente

O seu retrato inocente

A falar-me ao coração!

Sonhei-a como uma fada,

Que tem vivido encantada

Sozinha – na solidão!

Esta mulher sonhada, foi-o na pena de Luis Augusto Palmeirim (1825-1893).

Embora cronologica e estilisticamente poeta da segunda geração romântica, Luis Augusto Palmeirim não integrou nem o grupo de O Trovador, nem o grupo de O Bardo, ou sequer o grupo de O Novo Trovador. A poesia Sonhei-a! foi publicada em Poesias, pela primeira vez em 1851 com um retrato do poeta que reproduzo a seguir.

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