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Não sou casado, senhora,/…/ não casei o coração.
Assim começa uma cantiga de Bernardim Ribeiro (14?? – 15??) que é uma fascinante legitimação do adultério.
Casou o poeta antes de conhecer aquela que agora ama, e para justificar o desejo desta nova amada, serve-se do inesperado argumento de que afinal só casou uma mão:
Antes que vos conhecesse, / sem errar contra vós nada, / uma só mão fiz casada,
Assistimos ao longo da canção à apresentação das razões que legitimam o adultério, quais sejam:
Dizem que o bom casamento / se há de fazer de vontade.
…
se a outrem dei a mão, / dei a vós o coração.
…
Como, senhora, vos vi, / sem palavras de presente / na alma vos recebi, / onde estareis para sempre,
Por detrás destas conversas poéticas espreita sempre o que já sabemos,
O casar não fez mudança /… / nem me negou a esperança / do galardão esperado.
e tentando obtê-lo termina o poeta:
Não me engeiteis por casado, / que, se a outra dei a mão, / a vós dei o coração.
Segue-se a Cantiga na integra:
Cantiga
Não sou casado, senhora,
que ainda não dei a mão,
não casei o coração.
Antes que vos conhecesse,
sem errar contra vós nada,
uma só mão fiz casada,
sem que mais nisso metesse.
Dou-lhe que ela se perdesse!
solteiros e vossos são
os olhos e o coração.
Dizem que o bom casamento
se há de fazer de vontade.
Eu, a vós, a liberdade
vos dei, e o pensamento.
Nisto só me achei contento:
que, se a outrem dei a mão,
dei a vós o coração.
Como, senhora, vos vi,
sem palavras de presente
na alma vos recebi,
onde estareis para sempre,
não de palavra somente;
nem fiz mais que dar a mão,
guardando-vos o coração.
Casei-me com meu cuidado
e com vosso desejar.
Senhora, não sou casado,
não mo queirais acuitar!
que servir-vos e amar
me nasceu do coração
que tendes em vossa mão.
O casar não fez mudança
em meu antigo cuidado,
nem me negou a esperança
do galardão esperado.
Não me engeiteis por casado,
que, se a outra dei a mão,
a vós dei o coração.
Ó quão constante é entre os homens, independentemente das épocas, a dicotomia entre amor e casamento.
A versão transcrita do poema de Bernardim Ribeiro retirei-a da antologia Poesia de Amor organizada por José Régio e Alberto de Serpa, e publicada em 1945 pela Livraria Tavares Martins do Porto.
Sobre a biografia do poeta nada se sabe com exactidão ainda que pela net continuem a circular as fantasias que têm passado por dados biográficos do poeta.