Hoje, mais ou menos toda a gente ouviu falar do livro Tao Te King — Livro do Caminho e do Bom Caminho de Lao Tse. É um livro para a vida. O subtítulo na versão portuguesa dá dele a medida exacta: Livro do Caminho e do Bom Caminho. Meditá-lo a espaços ajuda a recentrar a nossa atenção e opções de vida no que é essencial e vale a pena para nos sentirmos de bem connosco e com o mundo.
Venho hoje com dois capítulos do livro na notável e belíssima versão de António Miguel de Campos a partir de fontes chinesas, onde a forma adoptada pelo tradutor ganha, por vezes, a altura da mais nobre poesia.
“Quem morre sem desaparecer vive uma longa vida.“
Cap. 33
Quem conhece os outros é inteligente. Quem se conhece a si próprio é esclarecido.
Quem vence os outros é forte. Quem se vence a si próprio é poderoso.
Quem se contenta om o que tem é rico. Quem avança com determinação tem orça de vontade.
Quem não abandona o seu lugar perdura. Quem morre sem desaparecer vive uma longa vida.
Cap.44
A reputação ou a vida, o que nos é mais querido? A vida ou o dinheiro, o que é mais importante? Ganhar ou perder, o que é mais doloroso?
A verdade é que gostar demais leva a grandes despesas. Acumular demais leva a consideráveis perdas.
Sabendo quanto nos basta, evitam-se desgraças. Sabendo parar, não se correm perigos e poderemos assim para sempre perdurar.
Edição Relógio D’Água, Lisboa 2010
Ilustra o artigo uma pintura de Jan Steen (1625-1679), celebrando um nascimento.
É uma daquelas pinturas de género em que alguns holandeses foram mestres, e onde a vida corre na aceitação da sua condição.
“Se considerarmos os grandes pais espirituais da humanidade—Buda, Confúcio, Sócrates, Cristo —, ficaremos impressionados por um curioso paradoxo: hoje, nenhum deles poderia obter sequer um modesto lugar de professor numa das nossas universidades. A razão é simples: as suas qualificações são insuficientes: não publicaram nada.”
Simone Leys na introdução à sua tradução de Analectos de Confúcio.
Abro com esta citação, talvez merecedora de reflexão, sobre o que todos os dias aceitamos não tanto como conhecimento, mas como saber.
Acompanho habitualmente a disposição psicológica com as leituras que de alguma forma me tranquilizam, e muitas vezes delas aqui dou conta. Hoje vem ao caso uma citação de Confúcio, pensador cujas máximas a espaços conforta saborear.
O Mestre disse: “Um santo é coisa que não ouso esperar encontrar. Dar-me-ia por satisfeito se pudesse encontrar um homem de bem.” O Mestre disse: “Um homem perfeito é coisa que não ouso esperar encontrar. Dar-me-ia por satisfeito se pudesse encontrar um homem de princípios. Quando o Nada passa por Alguma coisa, o Vazio passa por Plenitude e a Penúria passa por Prosperidade, é difícil ter princípios.”
Analectos, 7.26
Tradução de António Gonçalves a partir das versões francesa e inglesa de Pierre Rickmans (Simone Leys).
Abre o artigo um detalhe do fresco de Raffaello Sanzio (1483-1520), Escola de Atenas, pintado na Stanza della Segnatura dos Palácios Pontifícios do Vaticano, representando Platão e Aristóteles.
Segue-se uma vista da totalidade do fresco e alguns detalhes deste, dando-nos uma visão idealizada da transmissão do saber no convívio de sábios e estudantes.
E, contudo, é bonito O entardecer. A luz poente cai do céu vazio Sobre o tecto macio Da ramagem E fica derramada em cada folha. Imóvel, a paisagem Parece adormecida Nos olhos de quem olha. A brisa leva o tempo Sem destino. E o rumor citadino Ondula nos ouvidos Distraídos Dos que vão pelas ruas caminhando Devagar E como que sonhando, Sem sonhar…
Publicou Miguel Torga (1907-1995), já nos anos 80, uma Antologia Poética da sua poesia surgida em livro, constituindo-se como escolha pessoal da sua obra. A esse grupo acrescentou alguns poemas inéditos, um dos quais este Vesperal, transcrito acima, com que o livro se encerra.
Há na poesia de Torga uma verdade de sentimento ancorada em valores de ombridade, fidelidade à terra, e respeito pelos homens, que encanta e seduz mais e mais a cada leitura. Reflectindo sobre o seu estar no mundo, é com pudor que o poeta deixa transparecer as suas emoções, e é sobretudo nos poemas do final da vida que mais confidente se mostra, ainda que por detrás do verso velado que é a sua forma de se exprimir.
Termino com este MAGNIFICAT de 28 de Novembro de 1981 publicado no volume XIII do Diário.
MAGNIFICAT
Aí, a vida! Quanto mais me magoa, mais a canto. Mais exalto este espanto De viver. Este absurdo humano, Quotidiano, Dum poeta cansado De sofrer, E a fazer versos como um namorado, Sem namorada que lhos queira ler.
Cego de luz, e sempre a olhar o sol Num aturdido Deslumbramento. Cada breve momento Recebido Como um dom concedido Que se não merece. Aí, a vida! Como dói ser vivida, E como a própria dor a quer e agradece.
A foto que abre o artigo é de Dorothea Lange (1895-1965), feita nos EUA, no âmbito do programa FSA nos anos 30 do século XX, e o negativo é propriedade da Biblioteca do Congresso dos EUA.
Sobre a foto de Toni Schneiders (1920-2006) com que abre o artigo, duas notas apenas. Por um lado, relevar o impacto da geometria captada na paisagem, gerando ao olhar de quem vê a emoção do abstracto, onde a linha da estrada define, no seu equilíbrio, a organização espacial no rectângulo da fotografia, deixando para segundo plano o detalhe da realidade fotografada; por outro, olhar a bifurcação, oferecendo uma escolha entre caminhos sem horizonte visível, qual metáfora para o que a vida nos desafia hoje: que caminho seguir quando o horizonte nos surge cortado de qualquer esperança?
É a pretexto desta foto de Toni Schneiders (1920-2006), fotógrafo alemão, que escolhi o poema de Robert Frost (1874-1963) – A estrada que não foi seguida.
O poema fala das escolhas no caminho da vida
Duas estradas separavam-se num bosque amarelo, Que pena não poder seguir por ambas Numa só viagem: …
e de como a escolha, ainda que pareça provisória se torna definitiva:
Oh, reservei a primeira para outro dia! Mas sabia como caminhos sucedem a caminhos E duvidava se alguma vez lá voltaria.
Com efeito, sabe-se tarde, não voltamos para trás. O caminho escolhido a cada decisão é o que nos leva a todas as outras. Percorrer dois caminhos em simultâneo é às vezes uma tentação com resultados que terminam quase sempre em escolhas devastadoras.
E como o poeta, escolhemos um caminho,
Eu segui pela menos viajada / E isso fez a diferença toda
e na hora do balanço fica apenas a dúvida: terá sido o melhor? Interrogação que carregamos connosco.
E basta de conversa, aí fica o poema, traduzido, e o original em inglês.
A estrada que não foi seguida
Duas estradas separavam-se num bosque amarelo, Que pena não poder seguir por ambas Numa só viagem: muito tempo fiquei Mirando uma até onde enxergava, Quando se perdia entre os arbustos;
Depois tomei a outra, igualmente bela E que teria talvez maior apelo, Pois era relvada e fora de uso; Embora na verdade, o trânsito As tivesse gasto quase o mesmo,
E nessa manhã nas duas houvesse Folhas que os passos não enegreceram. Oh, reservei a primeira para outro dia! Mas sabia como caminhos sucedem a caminhos E duvidava se alguma vez lá voltaria.
É com um suspiro que agora conto isto, Tanto, tanto tempo já passado: Duas estradas separavam-se num bosque e eu — Eu segui pela menos viajada E isso fez a diferença toda
Tradução do poeta José Alberto Oliveira, in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.
The Road Not Taken
Two roads diverged Ina yellow wood, And sorry I could not travel both And be one traveler, long I stood And looked down one as far as I could To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair, And having perhaps the better claim, Because it was grassy and wanted wear; Though as for that the passing there Had wom them really about the same,
And both that morning equally lay In leaves no step had trodden black. Oh, I kept the first for another day! Yet knowing how way leads on to way, I doubted if I should ever combo back.
I shall be telling this with a sigh Somewhere ages and ages hence: Two roads diverged in a wood, and I— I took the one less traveled by, And that has made all the difference.
Neste melancólico inverno, depois da tempestade chove de mansinho. Apenas o som do violino permite acreditar que o sol virá na próxima semana.
Encostado a esta melancolia, ouço Bach no mágico violino de Viktoria Mullova. E ao folhear dos livros encontro:
Ah, que tristeza é saber / Que o Belo, o encantador / São só sopro, só tremor, / Que o precioso, o feitiço, / Duram apenas instantes. … As notas da música que mal nascem / Logo fogem, logo expiram, / São só brisa, torrente, perseguição, … O nosso coração entrega-se / Ao que é volátil e fluido. / Entrega-se à vida, …
versos de um poema de Hermann Hesse (1877-1962), que vos deixo.
Escrito na areia [In Sand geschrieben]
Ah, que tristeza é saber Que o Belo, o encantador São só sopro, só tremor, Que o precioso, o feitiço, Duram apenas instantes. Nuvem, flor, bola de sabão, Foguete e riso infantil, Mulher que se vê ao espelho, E muitas mais outras coisas, Que, mal reveladas, se vão, Nao duram mais que um momento, São só perfume, só brisa. E o que perdura, o eterno, Não nos é tão caro à alma: A jóia de fogo frio E os brilhantes lingotes; Até as próprias estrelas, incontáveis, Permanecem distantes, alheias, Não são como nós, mortais. Não chegam ao fundo da alma. Não, o Belo mais íntimo, E o mais precioso, Querido, parece destinado À perdição, sempre prestes a morrer: As notas da música que mal nascem Logo fogem, logo expiram, São só brisa, torrente, perseguição, Derrubadas pela dor, Pois é por pouco tempo Que se deixam apanhar, enfeitiçar; Ainda há pouco tocadas As notas desaparecem, esvaziam-se.
O nosso coração entrega-se Ao que é volátil e fluido. Entrega-se à vida, E não ao sólido, ao concreto. A permanência fatiga, Rocha, estrela, pedraria, Levam-nos constantemente a mudar, Almas de vento, bolas de sabão, Sem tempo, sem duração, Qual orvalho na folha da rosa, Qual namoro de uma ave, Qual morte da nuvenzinha, Brilho da neve, arco-íris, Borboleta a esvoaçar, Qual sonido de risada, Que, enquanto vão passando, Mal nos tocam, não nos prendem, Nem magoam. Amamos O que se nos assemelha, e compreendemos O que o vento escreve na areia.
Segue-se o original alemão do poema, e no final, três ligações: uma onde o poema pode ser ouvido na voz do poeta, e mais duas ligações youtube, possuindo a segunda acompanhamento musical.
In Sand geschrieben
Dass das Schöne und Berückende Nur ein Hauch und Schauer sei, Dass das Köstliche, Entzückende, Holde ohne Dauer sei: Wolke, Blume, Seifenblase, Feuerwerk und Kinderlachen, Frauenblick im Spiegelglase Und viel andre wunderbare Sachen, Dass sie, kaum entdeckt, vergehen, Nur von Augenblickes Dauer, Nur ein Duft und Windeswehen, Ach, wir wissen es mit Trauer, Und das Dauerhafte, Starre Ist uns nicht so innig teuer: Edelstein mit kühlem Feuer, Glänzendschwere Goldesbarre; Selbst die Sterne, nicht zu zählen, Bleiben fern und fremd, sie gleichen Uns Vergänglichen nicht, erreichen Nicht das Innerste der Seelen. Nein, es scheint das innigst Schöne, Liebenswerte dem Verderben Zugeneigt, stets nah dem Sterben, Und das Köstlichste: die Töne Der Musik, die im Entstehen Schon enteilen, schon vergehen, Sind nur Wehen, Strömen, Jagen Und umweht von leiser Trauer, Denn auch nicht auf Herzschlags Dauer Lassen sie sich halten, bannen; Ton um Ton, kaum angeschlagen, Schwindet schon und rinnt von dannen. So ist unser Herz dem Flüchtigen, Ist dem Fließenden, dem Leben Treu und brüderlich ergeben, Nicht dem Festen, Dauertüchtigen. Bald ermüdet uns das Bleibende, Fels und Sternwelt und Juwelen, Uns in ewigem Wandel treibende Wind- und Seifenblasenseelen, Zeitvermählte, Dauerlose, Denen Tau am Blatt der Rose, Denen eines Vogels Werben, Eines Wolkenspieles Sterben, Schneegeflimmer, Regenbogen, Falter, schon hinweg geflogen, Denen eines Lachens Läuten, Das uns im Vorübergehen Kaum gestreift, ein Fest bedeuten Oder wehtun kann. Wir lieben, Was uns gleich ist, und verstehen, Was der Wind in Sand geschrieben.
Para quem o deseja e quem o ama um corpo é sempre belo no seu esplendor e tudo nele é belo porque é sagrado e, mesmo na mais plena posse, inviolável.
Um corpo que se ama é uma nascente viva que de cada poro irrompe irreprimivel e toda a sua violência é a energia ardente que gerou o universo e a fantasia dos deuses.
Tudo num corpo que se ama é adorável na integridade viva de um mistério na evidência assombrosa da beleza que se nos oferece inteiramente nua.
Não há visão mais lucida do que a do desejo e só para ela a nudez é sagrada como uma torrente vertiginosa ou uma oferenda solar. Esse olhar vê-o inteiro na perfeição terrestre.
Publicado em A ROSA INTACTA, Edição Labirinto, 2007
SÓBRIO O TEU CORPO
Sóbrio o teu corpo me pede penetração: nomes puros: os de boca, braços, mãos sobre a terra e sobre os muros.
Sóbrio o teu corpo me pede nomes justos, nomes duros: os de terra, fogo e punhos, claros, acres, escuros.
Faz parte da glória dos anos clássicos do cinema de Hollywood o acervo de fotografia a preto e branco, onde a mitificação das actrizes e actores da época se concretizou, e comummente referido como fotografia de glamour. Chegada a cor à fotografia, o esplendor de cores puras na vivacidade e brilho do papel deu lugar a outro tipo de mitificação, não já no etéreo e difuso de sombras e clarões, mas na precisão das formas a que o jogo do colorido acrescentava impacto.
Reúno um pequeno grupo de fotos da época, anos 50/60 com algumas, porventura, menos conhecidas fotos.
Judy Garland
Ava Gardner
Bette Davis
Audrey Hepburn
Kim Novak
Termino com o espectáculo da herança biológica em mãe e filha:Ingrid Bergman e Isabella Rossellini
Ingrid Bergman
Isabella Rossellini
E como já estamos na Europa, onde Deus criou a mulher, acrescento em post scriptum Brigitte Bardot,
O poeta é um fingidor, escreveu Pessoa num poema hoje lendário, e, com efeito, os poetas não são de fiar no que propagam, se não vejamos o exemplo de hoje, com Manuel Bandeira (1886-1968), em torno da alma.
No poema ARTE DE AMAR diz-nos o poeta:
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
enquanto noutro lugar escreve, no poema UNIDADE,
Minh’alma estava naquele instante Fora de mim longe muito longe
Chegaste E desde logo foi Verão
São dois poemas sobre o amor e o sexo, ou dizendo melhor, sobre o sexo e talvez sobre o amor. Em ambos é do físico que se trata, defendendo-se em ARTE DE AMAR o embaraço que é meter a alma nestas matérias, e por outro lado, em UNIDADE, aceitando que a volúpia cresce por contacto mas é a entrega da alma que permite o auge No momento fugaz da unidade.
Desfrutemos agora dos poemas depois deste desnecessário intróito.
ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Na outra alma. Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
UNIDADE
Minh’alma estava naquele instante Fora de mim longe muito longe
Chegaste E desde logo foi Verão O Verão com as suas palmas os seus mormaços os seus ventos de sôfrega mocidade Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície O instinto de penetração já despertado Era como uma seta de fogo
Foi então que minh’alma veio vindo Veio vindo de muito longe Veio vindo Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo No momento fugaz da unidade.
1948
Muito antes escrevera o poeta, pondo os versos na voz de uma mulher, Vulgívaga que começa:
Não posso crer que se conceba Do amor senão o gozo físico! O meu amante morreu bêbado E meu marido morreu tísico!
… onde do sexo que degrada se fala.
Mas a obra do poeta é um mosaico, e falando da vontade de morrer que a plenitude do gozo traz consigo, encontramos este
FELICIDADE
A doce tarde morre. E tão mansa Ela esmorece, Tão lentamente no céu de prece, Que assim parece, toda repouso, Como um suspiro de extinto gozo De uma profunda, longa esperança Que, enfim cumprida, morre, descansa…
E enquanto a mansa tarde agoniza, Por entre a névoa fria do mar Toda a minh’alma foge da brisa: Tenho vontade de me matar!
Oh, ter vontade de se matar… Bem sei, é cousa que não se diz. Que mais a vida me pode dar? Sou tão feliz!
– Vem, noite mansa…
Nestas fantasias de poeta sobre o amor termino com
MULHERES
Como as mulheres são lindas! Inútil pensar que é do vestido… E depois não há só as bonitas: Há as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto: Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia! O meu amor porém não tem bondade alguma. É fraco! fraco! Meu Deus, eu amo como as criancinhas…
És linda como uma história da carochinha… E eu preciso de ti como precisava da mamã e do papá (No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau.)
Arte de Amar e Unidade constam do livro Belo Belo Vulgívaga pode ler-se no livro Carnaval Mulheres foi publicado no livro Libertinagem Felicidade encontra-se no livro O Ritmo Dissoluto
Neste cruzar de poesia e quotidiano com que me entretenho e ocupo o blog, percorro por vezes caminhos inesperados, como ir ao encontro deste poema de Mário Dionísio (1916-1993), poeta e critico outrora famoso e hoje empurrado para um inglório esquecimento.
46 Neste café quase deserto não espero hoje ninguém senão a cor difusa duma ausência que não magoa e sabe bem
Uma palavra ou outra incompleta se recorta na memória um minuto preguiçosa só mal desperta quando a porta se abre e fecha e entra alguém que vai sentar-se longe ou aqui perto
O sol de inverno sinto-o nos dedos como discreta ajuda carinhosa a esta construída sonolência tão espontânea sei lá em tanta gente
Que longe tudo o que procuro!
Ser como os outros todos um instante que seja é tão tranquilo e diferente!
sem planos sem segredos sem história sem passado sem futuro
O poema pertence ao livro Memória dum pintor desconhecido, de 1965, onde os ecos do pintor, que Mário Dionísio também foi, se encontram.
Cruzando ainda um desolado quotidiano, surge-nos no mesmo livro Que bela manhã de névoa, reflexão em paisagem de gélida beleza, na busca dos outros em si: Sozinho vou falando por ruas que não há e nos meus dedos / só de névoa outros sinto aflitos sussurrando / não pode ser não pode ser
48 Que bela manhã de névoa para ser infeliz em companhia
Está frio está bom quase ninguém nas ruas E se alguém passa perto vai tão longe e sem ruído que se pensa em algodão ou asas
Que cidade é esta?
A mágoa que me resta como sempre levo-a escondida bem no fundo da algibeira mas vejo-a solta em flocos sobre as casas e suspensa pairar no céu que mal se vê e enredar-se em quase roxas chaminés e nas arvores nuas
Um só toque de verde e vermelho de Veneza deve dar em muito branco de prata esta frieza de tempo cego e húmida surpresa onde algures arde uma fogueira que enxuto faz por dentro o que por fora é água só e arrepio de gélida beleza
Que vasto o mundo e estranho e que minuto! E que ilusão saber alguma coisa ou não saber!
Sozinho vou falando por ruas que não há e nos meus dedos só de névoa outros sinto aflitos sussurrando não pode ser não pode ser
Houve um tempo em que a vida o permitia, e até convidava, a ocupar longas horas em familia fazendo puzzles. Fiz dezenas. Grandes, pequenos, fáceis e difíceis. Alguns eram reproduções de belas pinturas de paisagem onde perscrutávamos os detalhes que permitiam fechar o puzzle. Entre outras, aprendi a conhecer e a amar as pinturas holandesas, sobretudo com paisagens geladas, onde o branco tornava o puzzle especialmente difícil de decifrar. É na lembrança desses tempos que trago ao blog algumas dessas belas pinturas com jogos e brincadeiras no gelo do mestre Hendrick Avercamp (1585-1634).