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Egon SchieleNeste melancólico inverno, depois da tempestade chove de mansinho. Apenas o som do violino permite acreditar que o sol virá na próxima semana.

Encostado a esta melancolia, ouço Bach no mágico violino de Viktoria Mullova. E ao folhear dos livros encontro:

Ah, que tristeza é saber / Que o Belo, o encantador / São só sopro, só tremor, / Que o precioso, o feitiço, / Duram apenas instantes.

As notas da música que mal nascem / Logo fogem, logo expiram, / São só brisa, torrente, perseguição,

O nosso coração entrega-se / Ao que é volátil e fluido. / Entrega-se à vida,

versos de um poema de Hermann Hesse (1877-1962), que vos deixo.

Escrito na areia [In Sand geschrieben]

Ah, que tristeza é saber
Que o Belo, o encantador
São só sopro, só tremor,
Que o precioso, o feitiço,
Duram apenas instantes.
Nuvem, flor, bola de sabão,
Foguete e riso infantil,
Mulher que se vê ao espelho,
E muitas mais outras coisas,
Que, mal reveladas, se vão,
Nao duram mais que um momento,
São só perfume, só brisa.
E o que perdura, o eterno,
Não nos é tão caro à alma:
A jóia de fogo frio
E os brilhantes lingotes;
Até as próprias estrelas, incontáveis,
Permanecem distantes, alheias,
Não são como nós, mortais.
Não chegam ao fundo da alma.
Não, o Belo mais íntimo,
E o mais precioso,
Querido, parece destinado
À perdição, sempre prestes a morrer:
As notas da música que mal nascem
Logo fogem, logo expiram,
São só brisa, torrente, perseguição,
Derrubadas pela dor,
Pois é por pouco tempo
Que se deixam apanhar, enfeitiçar;
Ainda há pouco tocadas
As notas desaparecem, esvaziam-se.

O nosso coração entrega-se
Ao que é volátil e fluido.
Entrega-se à vida,
E não ao sólido, ao concreto.
A permanência fatiga,
Rocha, estrela, pedraria,
Levam-nos constantemente a mudar,
Almas de vento, bolas de sabão,
Sem tempo, sem duração,
Qual orvalho na folha da rosa,
Qual namoro de uma ave,
Qual morte da nuvenzinha,
Brilho da neve, arco-íris,
Borboleta a esvoaçar,
Qual sonido de risada,
Que, enquanto vão passando,
Mal nos tocam, não nos prendem,
Nem magoam. Amamos
O que se nos assemelha, e compreendemos
O que o vento escreve na areia.

Segue-se  o original alemão do poema, e no final, três ligações: uma onde o poema pode ser ouvido na voz do poeta, e mais duas ligações youtube, possuindo a segunda acompanhamento musical.

In Sand geschrieben

Dass das Schöne und Berückende
Nur ein Hauch und Schauer sei,
Dass das Köstliche, Entzückende,
Holde ohne Dauer sei:
Wolke, Blume, Seifenblase,
Feuerwerk und Kinderlachen,
Frauenblick im Spiegelglase
Und viel andre wunderbare Sachen,
Dass sie, kaum entdeckt, vergehen,
Nur von Augenblickes Dauer,
Nur ein Duft und Windeswehen,
Ach, wir wissen es mit Trauer,
Und das Dauerhafte, Starre
Ist uns nicht so innig teuer:
Edelstein mit kühlem Feuer,
Glänzendschwere Goldesbarre;
Selbst die Sterne, nicht zu zählen,
Bleiben fern und fremd, sie gleichen
Uns Vergänglichen nicht, erreichen
Nicht das Innerste der Seelen.
Nein, es scheint das innigst Schöne,
Liebenswerte dem Verderben
Zugeneigt, stets nah dem Sterben,
Und das Köstlichste: die Töne
Der Musik, die im Entstehen
Schon enteilen, schon vergehen,
Sind nur Wehen, Strömen, Jagen
Und umweht von leiser Trauer,
Denn auch nicht auf Herzschlags Dauer
Lassen sie sich halten, bannen;
Ton um Ton, kaum angeschlagen,
Schwindet schon und rinnt von dannen.
So ist unser Herz dem Flüchtigen,
Ist dem Fließenden, dem Leben
Treu und brüderlich ergeben,
Nicht dem Festen, Dauertüchtigen.
Bald ermüdet uns das Bleibende,
Fels und Sternwelt und Juwelen,
Uns in ewigem Wandel treibende
Wind- und Seifenblasenseelen,
Zeitvermählte, Dauerlose,
Denen Tau am Blatt der Rose,
Denen eines Vogels Werben,
Eines Wolkenspieles Sterben,
Schneegeflimmer, Regenbogen,
Falter, schon hinweg geflogen,
Denen eines Lachens Läuten,
Das uns im Vorübergehen
Kaum gestreift, ein Fest bedeuten
Oder wehtun kann. Wir lieben,
Was uns gleich ist, und verstehen,
Was der Wind in Sand geschrieben.

O poema lido pelo poeta:

In Sand geschrieben lido por Ulrich Matthes

In Sand geschrieben lido por Annett Louisan

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