A Vaidade, pintura de Hans Memling com Mallarmé e Cecília Meireles pelo caminho

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Memling - A vaidadeVá lá saber-se porque motivo esta graciosa rapariga nua a olhar-se ao espelho e pintada pelo flamengo Hans Memling (1430-1494) representa A Vaidade no dizer de especialistas.

Consultadas as autoridades que em livro escrevem e tenho em casa, pouco adianto.

A rapariga (modelo) faz de Virgem com o Menino em diversas pinturas do mestre e aqui mostra os seus argumentos.

Nada na sua atitude faz lembrar a rainha má da história a Branca de Neve: diz-me espelho meu, há alguma mais bela que eu? Pelo contrario, a menina parece até surpreendida com o que vê.

Pertence a pintura ao tríptico Da Vaidade Terrestre e da Redenção Celeste. Olhai!

Hans Memling - Tríptico Da vaidade Terrena e da redenção CelesteNão sei a quem cabe a responsabilidade do nome: se ao pintor, se a algum dos proprietários através dos séculos, ou se ao Museu de Belas Artes de Estrasburgo onde agora a pintura se guarda. Aparentemente representará a vaidade e a luxuria porque a rapariga se contempla, nua, ao espelho, sem vergonha ou restea de pudor. Ele há cada uma! Num tempo em que não havia revistas para homens, chamadas, nem net, os pretextos de que eles se serviam para olhar imagens de mulheres nuas!

A simbólica do espelho é rica em todas as culturas antigas, da Europa ao Japão, e até a ciência esclarecer a formação da imagem por reflexo, o sortilégio de se ver foi fonte de encantadoras crenças.

A poesia, que em tudo acompanha o mundo, também reflecte o que o espelho numa alma feminina escreve.

É um fragmento do poemeto Hérodiade, de Stéphane Mallarmé (1842-1898) que escolho para disso dar conta.

O miroir !

                   Eau froide par l’ennui dans ton cadre gelée

Que de fois et pendant des heures, désolée

Des songes et cherchant mes souvenirs qui sont

Comme des feuilles sous ta glace au trou profond,

Je m’apparus en toi comme une ombre lointaine,

Mais, horreur ! des soirs, dans ta sévère fontaine,

J’ai de mon rêve épars connu la nudité !

Deixo a tradução directa dos versos apesar de a perda inevitável da rima lhes retirar toda a música  original. E era Mallarmé quem defendia: “A poesia é uma música que se faz com ideias, e por isso com palavras“.

Ó espelho!

              Água fria pelo tédio na tua moldura gelada

Quantas vezes e durante horas, desolada

Dos sonhos e procurando as minhas recordações que são

Como folhas sob o teu vidro em poço profundo.

Apareci-me em ti como sombra longínqua

Mas, horror! certas noites, na tua severa fonte.

No meu sonho disperso conheci a nudez!

No detalhe do poema de Cecília Meireles (1901-1964) com que encerro esta divagação, encontramos uma mulher reflectindo sobre si e o mundo ao olhar a imagem que o espelho lhe devolve. Saberão as mulheres que me lêem quanto de verdade hoje ainda existe nesta imagem de mulher em meados do século XX.

Mulher ao espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,

pouco me importa.

Quero apenas parecer bela,

pois, seja qual for, estou morta.

 

Já fui loura, já fui morena,

já fui Margarida e Beatriz.

Já fui Maria e Madalena.

Só não pude ser como quis.

 

Que mal faz, esta cor fingida

do meu cabelo, e do meu rosto,

se tudo é tinta: o mundo, a vida,

o contentamento, o desgosto?

 

Por fora, serei como queira

a moda, que me vai matando.

Que me levem pele e caveira

ao nada, não me importa quando.

 

Mas quem viu, tão dilacerados,

olhos, braços e sonhos seus

e morreu pelos seus pecados,

falará com Deus.

 

Falará, coberta de luzes,

do alto penteado ao rubro artelho.

Porque uns expiram sobre cruzes,

outros buscando-se no espelho.

Publicado pela primeira vez em Mar Absoluto e outros poemas, em 1945.

 

Dois poemas, de Karamzin e Pushkin, em tradução de Vladimir Nabokov

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Korniss_Dezso-Boy_with_Bird_Szentendre 1934

Há universos poéticos em que a língua é uma barreira intransponível. E quando nos chegam ecos de que neles se guardam maravilhas, a curiosidade em os conhecer cresce de forma desmedida. Tal é o caso da poesia russa, apenas acessível em português em parcas e poucas vezes notáveis traduções directas do russo. Resta o recurso a uma língua intermédia conhecida.

Sabia da existência de uma compilação de traduções para inglês, de poesia russa, cobrindo três séculos de criação, feitas por Nabokov, acompanhadas das conferências em que o mestre as apresentara. O russo Vladimir Nabokov, é, com o polaco Joseph Conrad, dos poucos casos em que, sendo escritores notáveis, o conseguiram ser noutra língua que não a materna, tornando-se na língua de adopção, cultores e mestres.

O  livro de que falo é difícil de obter. Consegui finalmente ter nas mãos um exemplar. Ao olhar é já um belo livro, encadernado em sintético com sóbria e esclarecedora sobre-capa. Apetece ler o que tem dentro. O livro, impresso em papel espesso, mate, cor pérola claro, aparado apenas à cabeça, oferece, em bem proporcionada mancha tipográfica de caracteres facilmente legíveis, um convite à leitura. Vamos a ela, mas vai devagar. Cada frase de Nabokov desencadeia uma floresta de pensamentos: é uma leitura em permanente diálogo connosco.

Para inicio de conversa deixo apenas um curto poema de Nikolay Mihaylovich Karamzin (1766-1826) a que acrescento uma versão para português.

TWO SIMILES

Life? A Romance. By whom? Anonymous.

We spell it out; it makes us laugh and weep,

     And then puts us

           To sleep.

DOIS SÍMILES

Vida? Um Romance. Por quem? Anónimo.

Lê-mo-lo com dificuldade; faz-nos rir e chorar,

E depois põe-nos

A dormir.

Ia terminar, mas não resisto a esta preciosa reflexão sobre Deus e liberdade de Púshkin ( Aleksandr Sergeevich Púshkin (1799-1837)).

O poema, rebelde a uma versão satisfatória em português, aí fica na versão inglesa de Nabokov.

LITTLE BIRD

In a strange country I religiously observe

my own land’s ancient custom:

I set at liberty a little bird

on the bright holiday of spring.

I have become accessible to consolation:

why should I murmur against God

if even to a single creature

the gift of freedom I could grant!

Tarde de amores — visão de Filinto Elysio e a tradução do original de Ovídio

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Morandi_Giorgio-Still_Life-c._1925
O quarto decorado em tons pastel lembrava uma pintura de Morandi, transpirava uma atmosfera diáfana e convidava ao repouso. A luz coada pelas cortinas punha sobre os móveis encerados um dourado acolhedor. Ao longe, pela janela, espreitava o mar fundido num céu sublime, a brisa suave da tarde esvoaçava os cortinados e lambia os corpos em êxtase, deitados sobre o prazer.

No remanso da paixão contava-lhe histórias infantis. A magia que o êxtase criara prolongava-se agora no calor da voz e nas caricias que suavemente acompanhavam as peripécias ali inventadas

fragmento de novela inédita.

Morandi_Giorgio-Passage 1913

Por estas tardes de brasa lembro-me frequentemente do poema 5 do Livro I da obra Amores de Ovídio (43 a.C -17/18 d.C.).

Corria uma tórrida tarde de Verão do ano passado quando deixei no blog a leitura do poema por David Mourão-Ferreira. Hoje a ele regresso com a visão de Filinto Elísio (1734-1819) e as convenções que o século XVIII permitia, mesmo quando o poema fosse publicado sob pseudónimo, como aconteceu.

Partia o dia em meio o sol calmoso;
Reclino o corpo a descansar no leito,
Mas aberta janela, e mal cerrada;
Qual usa premoiar a luz nos bosques,
Qual crepúsculo deixa, ao despedir-se,
Febo, ou foge a noite, à vista da alva,
Luz, que convém às moças vergonhosas,
E em que o tímido pejo ache escondrijo.
Eis vem Corina, em mal cingidas roupas,
(Sólta a madeixa e níveo peito oculta)
Qual Semíramis ( diz-se) ao leito fôra,
Gentil, e fôra Laís, de muitos dama.
Dispo-lhe a roupa, (que empecíamos pouco
De rara!) Ela pugnava por cobrir-se;
Mas, como que não quer vencer, pugnava.
Mal esteve ante meus olhos toda nua,
Não lhe vi um senão no corpo todo.
Quais vi, quais os palpei, ombros e braços!
Quais maminhas tão guapas de empalmá-las!
Que liso o ventre desce do alto peito!
Que cintura, e infantis, roliças coxas!
Que mais direi! mimoso é quanto hei visto,
E toda com o meu corpo a cingi nua.
Que há mais que ouvir? Cansámos, descansámos;
Corram-me a fio tais os meios-dias.

Filinto Elísio assinado com o pseudónimo Gregório da Silva Pinto.

Acrescento em fim de festa a viva tradução directa a partir do original latino, por Carlos Ascenso André.

Fazia calor e o dia já tinha cumprido metade das suas horas;
pousei em cima da cama o corpo para lhe dar descanso.
Uma parte da janela estava aberta, a outra parte fechada;
assim era a luz, como a que os bosques costuma deixar entrever,
como a penumbra do crepúsculo, à hora em que o sol se esvai,
ou quando a noite já se foi e não nasceu, ainda, o dia;
essa é a luz que deve amostrar-se a jovens recatadas;
nela, a timidez e a vergonha encontram refúgio.
Eis que surge Corina, resguardada e envolta na sua túnica,
os cabelos caídos de ambos os lados do colo resplandecente,
assim formosa entrava Semíramis no quarto,
diz-se, e Laís, amada por tantos homens.
Arranquei-lhe a túnica; e não é que me estorvassem muito a sua transparência,
mas ela porfiava por estar coberta daquela túnica;
pois que porfiava assim como quem não quer vencer,
foi vencida sem custo, com a sua própria ajuda.
Quando ela surgiu diante de meus olhos, o manto caído aos pés,
no corpo inteiro nem uma só mácula se me mostrou:
Que ombros! Que braços eu vi e toquei!
A beleza dos seios, como se pôs a jeito dos meus afagos!
Como era liso, abaixo da linha do peito, o ventre!
Que grandiosidade e perfeição nas coxas! Que frescura nas pernas!
Que mais minúcias direi? Nada vi que não mereça elogio,
e foi a nudez do seu corpo que apertei contra o meu.
O resto, quem o não sabe? Depois da fadiga, repousámos ambos.
Assim possam correr muitas vezes as minhas tardes!

Temos assim que para o verso de maior escândalo no poema:

forma papillarum quam fuit apta premi!

Filinto Elysio no descaro do pseudónimo nos dá no final do século XVIII

Quais maminhas tão guapas de empalmá-las!

E o nosso jovem tradutor no século XXI lê:

A beleza dos seios, como se pôs a jeito dos meus afagos!

Venha um professor de latim dilucidar as opções de tradução, porque em poesia, Filinto Elysio continua melhor, ainda que o empalmá-las surja hoje quase calão. Mas na verdade, fuit apta premi transmite um prontas a cingir, espremer, o que nestes preparos de cama é o natural. E empalmar dá mais a medida da coisa, que afago.

Nota bibliográfica
O poema por Filinto Elysio consta do Tomo 5º das suas Obras Completas, Paris, Na oficina de A. bobée, 1818. Modernizei a ortografia.

Ovídio, Amores, tradução de Carlos Ascenso André, Livros Cotovia, Lisboa, 2006.

Nota iconográfica

A pintura de Giorgio Morandi (1890-1964), dá a cor. O que de tarde acontece fica para a imaginação de quem lê, um dos prazeres da literatura.

Noche de Ronda – o poema de Luís Alberto de Cuenca

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Lempicka_Tamara_de-Girl_with_GlovesNão temos em português uma expressão para a castelhana noche de ronda, que transmita aquele andar à deriva a ver o que dá. É de noite de engate que se trata, mas dito assim perde a elegância do castelhano. Tudo isto a propósito de um poema de Luís Alberto de Cuenca (1950), Noche de Ronda chamado e que me ocorreu depois de uma conversa recente.

Algo mais velho que eu, encontro frequentemente na poesia de Luís Alberto de Cuenca afinidades onde uma experiência de vida geracional se cruza com o gosto pela erudição do especialista na antiguidade clássica, e o todo perfumado de uma ironia irresistível e tantas vezes amarga.

Este Noche de Ronda dá então conta de um desses encontros de ocasião em que o desejo de sexo faz deitar para trás as veleidades intelectuais que o convivo aprecia.

Aí o têm, o poema. Primeiro em tradução minha, depois o original castelhano.

Noite de Ronda

Noutro tempo terias gasto a noite
a falar-lhe de livros e de velhos filmes.
Mas já estás velho. Agora sabes que a elas
as aborrece os tipos cheios de nomes próprios,
que o teu bacharelato as deixa indiferentes.
De modo que as deixas tomar a iniciativa,
desligas e finges que escutas as suas historias,
que invariavelmente—recordas de outras vezes—
versam sobre o amor, as viagens, a dietética,
a sua família, o verão, a boa forma física,
o outro mundo, as drogas e a arte pós-moderna.
De quando em quando concordas, procurando os seus olhos
com os teus, roçando levemente os seus músculos,
e elevas aos céus uma angustiada súplica
para que aquela farsa termine quanto antes.
Passarão, mesmo assim, umas horas
até que, ébria e afónica, se abandone nos teus braços
e obtenhas a vitória pírrica do seu corpo,
que, pese às afirmações de três ou quatro amigos,
será muito pouco. E, quando estiver adormecida,
sairás roto para a rua em busca de uma chávena
de café gigantesca, maldizendo os copos
que te arruinaram o fígado na estúpida noite
e pensando que no final, mais vale
não as papar e falar-lhes dos teus livros,
amargar-lhes a vida com Shakespeare e com Griffith.
Ou procurar uma surda para que nada falte.

Tradução do espanhol por Carlos Mendonça Lopes

 

Noche de Ronda

En otro tiempo hubieras empleado la noche
en hablarle de libros y de viejas películas.
Pero ya eres mayor. Ahora sabes que a ellas
les aburren los tipos llenos de nombres propios,
que tu bachillerato les tiene sin cuidado.
De modo que le dejas tomar la iniciativa,
desconectas y finges que escuchas sus historias,
que invariablemente —recuerdas de otras veces—
versan sobre el amor, los viajes, la dietética,
su familia, el verano, la buena forma física,
el más allá, las drogas y el arte postmoderno.
De cuando en cuando asientes, recorriendo sus ojos
con los tuyos, rozando levemente sus muslos,
y elevas a los cielos una angustiosa súplica
para que aquella farsa termine cuanto antes.
Pasarán, sin embargo, todavía unas horas
hasta que, ebria y afónica, se abandone en tus brazos
y obtengas la victoria pírrica de su cuerpo,
que, pese a los asertos de tres o cuatro amigos,
será muy poca cosa. Y, cuando esté dormida,
saldrás roto a la calle en busca de una taza
de café gigantesca, maldiciendo las copas
que arruinaron tu hígado en la estúpida noche
y pensando que, al cabo, merece más la pena
no comerse una rosca y hablarles de tus libros,
amargarles la vida con Shakespeare y con Griffith.
O buscarse una sorda para que nada falte.

Transcrito de Los mundos y los días, Poesia 1970-2005, Visor, Madrid, 2012.

 

Volto com uma máxima de La Rochefoucauld e naturezas-mortas do barroco

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Beert_Osias-Oysters_and_PastriesConservar a saúde através de uma dieta rigorosa é uma doença muito maçadora.

La Rochefoucauld

Adriaenssen_Alexander-Still-Life_with_FishNos prazeres de existir conta-se o prazer da mesa, mas vivemos um tempo em que as preocupações alimentares estão omnipresentes, empurrando as pessoas para sentimentos de culpa decorrentes do que comem, absolutamente desadequadas.

Foi pelo século XVII que a pintura, com o triunfo da Reforma nos países do norte da Europa, abandonou o monopólio dos assuntos religiosos ou mitológicos e passou a dar conta da vida quotidiana. Nesse novo universo pictórico encontramos um mundo perdido, mas o que se comia continua a ser-nos familiar.

Nesta pintura de género chamada, encontramos mercados, cozinhas inundadas de caça, frutas e legumes, encontramos mesas repletas, e também uma que outra alegoria onde uma caveira espreita, lembrando como os prazeres matam os espíritos religiosos. Esta é a minha interpretação ainda que entre os estudiosos seja aceite que numa mesa de iguarias uma caveira continua a representar a vaidade como em outros tipos de representação.

Confesso que até ter lido o ensaio hoje clássico de Norbert Schneider, Still Life, esta pintura de géneros alimentares me dizia muito pouco. Apenas o seu realismo por momentos me chamava a atenção. Colocada em contexto, percebemos como ela acompanha alterações culturais profundas, na raiz do mundo moderno. E para o curioso da história do quotidiano é um infinito manancial de informação e prazer. Entre vasilhas, utensílios, decoração de ambientes e por aí fora há um sem-fim de informação a recolher.

Feito o circunlóquio, passemos à curta escolha, para não cansar.

Beyeren_Abraham_van-Large_Still-life_with_Lobster

Royen_Willem_Frederik_van-Peaches_and_Grapes

Sanchez_Cotan_Juan-Still-Life_with_Game_Fowl

Melendez_Luis_Eugenio-Still-Life 1770

MELÉNDEZ, Luis - natureza morta com figos 1760

Dijck_Floris_Claesz_van-Laid_Table

Ledesma_Blas_de-Still_Life_with_Asparagus_Artichokes_Lemons_and_CherriesTermino com esta cenoura-fenómeno pintada em 1699 por Willem Frederik van Royen.

Royen_Willem_Frederik_van-The_Carrot 1699

Uma obra de Hiroshige, pretexto para a ironia poética de Wislawa Szymborska

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Hiroshige (1797-1858) - 100 vistas de Edo - 52 - Chuvada súbita em Atake originalAs pessoas na ponte

Estranho planeta e estranhas as pessoas que aí vivem.
Sucumbem ao tempo, mas não querem reconhecê-lo.
Têm maneiras de exprimir o seu protesto,
fazendo pinturas como, por exemplo, esta.

Nada de singular à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma das suas margens.
Vê-se uma piroga navegando penosa contra a corrente.
Vê-se a ponte sobre a água e vêem-se as pessoas na ponte.
As pessoas visivelmente apressam o passo,
porque de uma nuvem negra
desatou a chover torrencialmente.

A questão é que nada mais se passa.
A nuvem não muda de cor nem de forma.
A chuva não aumenta nem cessa.
A piroga navega sem se mexer.
As pessoas na ponte correm
no mesmíssimo lugar de ainda há pouco.

É difícil não fazer aqui um comentário:
Isto não é uma pintura inocente.
O tempo aqui foi suspenso.
Deixaram de contar com as suas leis.
Negaram-lhe a influencia que tem
no desenrolar dos acontecimentos.
Menosprezaram-no e ultrajaram-no.

Por obra de um rebelde.
Um tal Hiroshige Utagawa,
(uma criatura que, aliás, há muito
e como deve ser, morreu),
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez seja só uma travessura sem significado,
uma brincadeira à escala de umas galáxias,
em todo o caso, porém,
acrescentemos o seguinte:

Há gerações que é de bom tom
ter esta pintura em grande apreço,
deleitar-se com ela, emocionar-se.

Mas há aqueles, a quem isto não basta.
Ouvem até o murmúrio da chuva,
sentem frio das gotas na nuca e nas costas,
olham para a ponte e para as pessoas,
como se ali se vissem retratados
naquela corrida que nunca mais chega ao fim,
naquele caminho que fim não tem,
eternamente por palmilhar,
e acreditam na sua desfaçatez
que assim é na realidade.

Tradução de Teresa Fernandes Swiatkewicz, in Wislawa Szymborska, Um Passo da Arte Eterna, Esfera do Caos Editores, Lisboa 2013.

O fluir do tempo em nós e a representação visual que o cristaliza são, numa primeira leitura, a matéria da reflexão poética de Wislawa Szymborska (1923-2013) neste poema, a propósito de uma gravura famosa de Hiroshige (1797-1858).

Se na segunda estrofe a gravura de Hiroshige é descrita, e trata-se da gravura 52 — Chuvada súbita em Atake — do ciclo Cem vistas de Edo, e com isso poder-se considerar estarmos perante um poema ecfrástico, na medida em que descreve uma obra de arte, todo o resto do poema vai noutras direcções.

Como sempre na poesia desta mulher genial, na simplicidade da linguagem moram as mais profundas reflexões sobre o existir: leia-se de novo toda a última estrofe do poema.

Nele temos o pretexto para nos questionarmos como olhamos as obras de artes visuais no seu significado intrínseco e na sua relação connosco. Depois, o tempo, o que nos acontece, e o que do seu fluir aproveitamos. Há na vida o tempo de a viver e o seu percurso, o caminho por onde a vivemos, seguindo.

A ponte, ligação entre dois pontos, origem e destino, é um não lugar para parar ou cristalizar, e os passos de quem vive aprisionado nesta ponte simbólica, onde o tempo parou, levam-no a caminhar sem sair do mesmo sitio. A ironia nesta poesia revela-se no afirmar o contrário do que escreve.

Embora se possa fazer uma leitura política dos versos

O tempo aqui foi suspenso.
Deixaram de contar com as suas leis.
Negaram-lhe a influencia que tem
no desenrolar dos acontecimentos.
Menosprezaram-no e ultrajaram-no.

na circunstancia da sua criação ( o poema foi publicado em 1986 no livro As Pessoas na Ponte, antes, portanto da queda do Muro de Berlim), o poema no seu todo transcende-a. Ele convida-nos a reflectir em como há um eu e o cosmos que, se estiver sempre presente em nós, nos permite saber com segurança onde pertencemos e para onde vamos, sabendo sempre também, que as coisas não continuarão a ser como são (Brecht) diferentes nós, portanto, dos que

naquele caminho que fim não tem,
eternamente por palmilhar,
e acreditam na sua desfaçatez
que assim é na realidade.

Hiroshige pertence àquela pouco mais de meia-dúzia de artistas geniais que em Edo, hoje Tóquio, entre o meados do século XVIII e meados do século XIX, praticaram a gravura.

Género popular de grande consumo, a gravura sobre papel é no seu conjunto um vasto acervo de obras-primas de arte visual, desenvolvidas num quadro de codificação estrita e numa estética de profunda originalidade.

Tecnicamente cada gravura é obra de três artistas: o criador do desenho, a quem posteriormente a obra é atribuída, o gravador do desenho na madeira e o impressor encarregado de aplicar a cor sobre o papel. A sofisticação técnica do produto final no período áureo do inicio do século XIX, sobretudo no retrato, com a aplicação de mica em pó em algumas zonas da gravura e as nuances de brilho nas vestes dos personagens, acrescenta um requinte esquis a muitas destas gravuras.

Nesta gravura japonesa do período Edo, Ukiyo-e chamada, se o impacto estético é inescapável, a sua leitura emocional é bastante problemática para um ocidental. Repartindo-se por uma enorme variedade de assuntos, encontramos no entanto cinco grandes grupos de representação: retrato, cenas de quotidiano, paisagem, seres vivos (animais e plantas) e erótica, conhecida no ocidente por Shunga.

Na pintura de paisagem ou cenas de quotidiano, a que esta gravura de Hiroshige pertence, a ausência de perspectiva na composição e de escala entre os motivos, garante, para o nosso olhar, a novidade da representação. Depois chega-nos a incompreensão do representado, se forem para nós desconhecidos com algum detalhe tanto a história como a cultura japonesas.

Nota
Encontra o visitante curioso algumas gravuras japonesas da minha colecção no blog-arquivo Gravura Japonesa, cuja ligação pode ser encontrada na coluna da esquerda. Na página do bolg no Facebook pode ver-se um álbum com o conjunto das gravuras de Hokusai, outro mestre do mesmo período, 36 vistas do Monte Fuji.

Outros conjuntos temáticos destes mestres podem ser facilmente encontrados na net.

Goethe em Itália — um poema

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Tischbein_Johann_Heinrich_Wilhelm-Goethe_in_the_Roman_CampagnaNa excitação de nova viagem Itália releio Goethe (1749-1832). Se a Viagem a Itália é um prazer, a poesia que ela inspirou é um apetite. É dessas suas Elegias Romanas, que passam por poesia erótica, que vos trago a VI, traduzida por Manuel Malzbender, pois Paulo Quintela, nas suas apreciadas traduções de Goethe passou-lhe por cima: traduziu a V e VII. Da sua leitura talvez se perceba porquê. Aí fica.

Feliz me sinto agora, inspirado em solo clássico.
Com voz mais alta e sedutora me falam passado e presente.
Sigo o conselho dos Antigos, folheio as suas obras
Com mão solitária, todos os dia, com renovado prazer.
Mas durante a noite prefiro ter as mãos em outros lados,
E se eu só aprender metade, terei o dobro do prazer.
E não aprendo eu quando contemplo as deliciosas formas
Do peito, quando a mão desliza pelas ancas?
Só então entendo verdadeiramente o mármore, penso e comparo,
Vejo com olhos sensitivos, sinto com mãos videntes,
E quando a amada me rouba algumas horas do dia,
Dá-me as horas da noite em compensação.
Não nos beijamos apenas, também temos conversas sérias,
E quando dorme a minha querida, ao seu lado penso em muitas coisas,
Muitas vezes também compus versos nos seus braços
E as suas costas, dedilhando contei eu
Suavemente o hexâmetro, e quando a bela dormita
O seu sopro incendeia profundamente o meu peito.
Então o amor acende a lâmpada e recorda os tempos
Em que prestou o mesmo favor ao seu Triunvirato(1)

Gosto sobretudo de quando o amor acende a lâmpada!

(1) Diz o tradutor que se trata dos três poetas romanos com vasta obra erótica: Catulo, Tíbulo e Propércio.

A eles iremos um destes dias, mas talvez apenas em espanhol se não conseguir tradução portuguesa que me satisfaça.

Na pintura de abertura Tischbein (Johann Heinrich Wilhelm Tischbein (1751-1828) ) mostra supostamente Goethe em Itália e, na pose especiosa, criou a imagem que ao poeta ficou irremediavelmente associada.

O poema foi publicado em Goethe, Erótica Romana, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa 2005.

Vasos Gregos

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A Kantheros

Kantheros

Os vasos de cerâmica gregos são, na sua requintada elegância de formas e decoração, peças de enorme beleza. Depois, enquanto testemunhos materiais de uma civilização extinta, permitem na sua iconografia perceber em primeira mão um quotidiano que as fontes escritas muitas vezes apenas deixam supor.

Isto mesmo nos diz a nossa grande helenista Maria Helena da Rocha Pereira no imprescindível livro Estudos de História da Cultura Clássica, volume I, Cultura Grega, ed FCG:

O estudo dos vasos substitui para nós a pintura perdida e ensina-nos qual foi a sua evolução, mostrando-nos inclusivamente a passagem do desenho bidimensional a tridimensional; deleita-nos como verdadeira arte que é; e documenta-nos sobre os mais variados aspectos da vida e da cultura grega.

A Skyphos Skyphos

Seja-se ou não admirador da cultura da Grécia antiga nos variados vestígios que se conhecem, da estatuária à poesia, nenhum olhar fica insensível à estonteante beleza daquelas formas a que a pintura de figuras vermelhas sobre fundo preto ou vice-versa, acrescenta o impacto da sua originalidade.

 

A Ânfora (quebrada)Ânfora (quebrada)

Está fora do propósito do blog a transcrição de informação que noutros locais pode ser obtida, qual seja a descrição sobre o significado e identificação dos personagem figurantes das pinturas destes vasos e das cenas que neles se representam. São tanto peripécias da vida dos deuses como da interacção dos mortais com eles, ou ainda episódios memoráveis de história e quotidiano cujo eco por vezes se encontra nos testemunhos escritos.

A Calix krater

Poucas vezes terei olhado tão maravilhado uma sala de museu quanto a sala dos vasos gregos do museu de arte antiga em Berlim. Escolho a imagem de alguns que dão conta do que referi. Cada forma possui um nome e das que pude identificar acrescento-o com a imagem.

Ânforas

A Ânfora

A Ânfora (2)

A Ânfora (5)

Calix krater

A Calix krater (3)Jarros de vinho

A Jarro de vinho (4)

A Jarro de vinho Hydria

A Hydria Kylix

A Kylix

A Kylix (2)

A Kylix (9)

 Kyathos

A KyathosKrater de colunas

A Krater de colunas

A Krater de colunas (2)

Krater de sino

A Krater de sino

Krater de volutas

A Krater de volutas

Pelike

A Pelike

Lekythos

A Lekythos

Além dos estudos de peças pontuais neste ou naquele museu, e das referências em historias de conjunto da arte da Grécia Antiga, a monografia Greek Vases, obra colectiva sobre a colecção do museu berlinense, edição Scala Publishers, 2012, faz um informado e fascinante estudo de cerca de meia centena dos vasos desta colecção. O clássico estude de Martin Robertson, de que conheço a tradução francesa, La Peinture Grecque, edição SKIRA, 1992, é a não perder.

Conversa a pretexto de La Rochefoucauld

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Alfred Eisenstaedt - world fair 1939 New YorkSirvo-me de uma máxima de François de La Rochefoucauld (1613-1680), agradável ao engenheiro civil que em mim habita, para mostrar algumas fotos de arquitectura notáveis pelo motivo e pela qualidade técnica de enquadramento e iluminação de que dão mostra.

Deixou-nos o duque francês entre as suas máximas, a afirmação de que Podemos comparar o carácter dos homens com a maior parte dos edifícios: têm diversos ângulos, alguns agradáveis outros nem por isso., o que é uma observação interessante e um alerta para os juízos que na nossa vida de relação fazemos sobre os outros.

Edward WestonHoje a profissão levou-me a encontrar um senhor de 90 anos que mantinha um espirito vivíssimo apesar das maleitas físicas. A certa altura a conversa desandou e pergunta-me:

– E o senhor já experimentou o 69?

A relação era profissional e respondi-lhe apenas:

– Esse é um prazer dos deuses a que poucos mortais se atrevem.

A conversa ainda decorreu mais um pouco em ambiente desanuviado, mas o que segue é que a vontade do sexo, quando desponta é para a vida. O desejo apenas se adapta às possibilidades do corpo. E quando estamos perante alguém de provecta idade e cabeça sã, não vale a pena supor que regrediu até à mais tenra infância, pois a vida vivida está lá, ainda que, como diz o nosso filósofo de hoje:

Chegamos inexperientes a cada nova idade da vida. Por consequência, a experiência trai-nos, apesar do número de anos vividos.

Ou seja, o desafio é sempre aprender, o que me aconteceu nesta visita profissional.

Terminemos então esta conversa com a Máxima 69 de La Rochefoucauld tão a propósito para aquilo que nos ocupa:

É difícil explicar o amor. Na alma, ele exprime-se pela paixão de domínio, no espírito, é a compreensão e no corpo, não passa de um desejo escondido e delicado de se possuir o que se ama, depois de se proceder a um jogo misterioso.

Nota bibliográfica

As Máximas de La Rochefoucauld foram transcritas de Máximas e Reflexões Morais, tradução de Raúl Mesquita, Edições Sílabo, Lisboa, 2008.

Passemos finalmente ao que falta de fotos. Os nomes dos fotógrafos podem ser encontrados passado o cursor sobre a imagem.

Marcel Breuer - Church of St Francis de Sales

Paul Strand

A formosa na orgia — poema de Al-Sarif al-Talïq / O Principe Amnistiado

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Jean-Marie Auradon - nu femininoAinda não é o tempo de vos ocupar com erudições a propósito da poesia do Al-Andaluz, por isso, deixo-vos apenas um poema de Al-Sarif al-Talïq / O Principe Amnistiado (961-1009).

A foto de Jean-Marie Auradon (1887-1958) que abre o artigo, mostra um dos mais belos nus de mulher que conheço em fotografia, e pareceu-me digna de transmitir visualmente a beleza cantada no poema.

A formosa na orgia

Seu talhe flexível era um ramo que balouçava sobre o montão de areia de
seus quadris, e do qual colhia meu coração frutos de fogo.

Os ruivos cabelos que cobrem suas têmporas debuxavam um lam na branca pagina da maçã do rosto, como ouro que escorre sobre prata.

Estava no apogeu da sua beleza, como o ramo se veste de folhas.

O vaso cheio de roxo néctar era, entre seus dedos brancos, como um crepúsculo que amanheceu em cima de uma aurora.

Saiu o sol do vinho, e era sua boca o poente, o oriente a mão do copeiro,
que ao despejar o vinho pronunciava formulas corteses.

E ao pôr-se no delicioso ocaso de seus lábios, deixava o crepúsculo nas maçãs de seu rosto.

A tradução é de Segismundo Spina e vem incluída em anexo no seu estudo clássico A LÍRICA TROVADORESCA publicado pela Editora da Universidade de S Paulo.