Etiquetas

,

Lempicka_Tamara_de-Girl_with_GlovesNão temos em português uma expressão para a castelhana noche de ronda, que transmita aquele andar à deriva a ver o que dá. É de noite de engate que se trata, mas dito assim perde a elegância do castelhano. Tudo isto a propósito de um poema de Luís Alberto de Cuenca (1950), Noche de Ronda chamado e que me ocorreu depois de uma conversa recente.

Algo mais velho que eu, encontro frequentemente na poesia de Luís Alberto de Cuenca afinidades onde uma experiência de vida geracional se cruza com o gosto pela erudição do especialista na antiguidade clássica, e o todo perfumado de uma ironia irresistível e tantas vezes amarga.

Este Noche de Ronda dá então conta de um desses encontros de ocasião em que o desejo de sexo faz deitar para trás as veleidades intelectuais que o convivo aprecia.

Aí o têm, o poema. Primeiro em tradução minha, depois o original castelhano.

Noite de Ronda

Noutro tempo terias gasto a noite
a falar-lhe de livros e de velhos filmes.
Mas já estás velho. Agora sabes que a elas
as aborrece os tipos cheios de nomes próprios,
que o teu bacharelato as deixa indiferentes.
De modo que as deixas tomar a iniciativa,
desligas e finges que escutas as suas historias,
que invariavelmente—recordas de outras vezes—
versam sobre o amor, as viagens, a dietética,
a sua família, o verão, a boa forma física,
o outro mundo, as drogas e a arte pós-moderna.
De quando em quando concordas, procurando os seus olhos
com os teus, roçando levemente os seus músculos,
e elevas aos céus uma angustiada súplica
para que aquela farsa termine quanto antes.
Passarão, mesmo assim, umas horas
até que, ébria e afónica, se abandone nos teus braços
e obtenhas a vitória pírrica do seu corpo,
que, pese às afirmações de três ou quatro amigos,
será muito pouco. E, quando estiver adormecida,
sairás roto para a rua em busca de uma chávena
de café gigantesca, maldizendo os copos
que te arruinaram o fígado na estúpida noite
e pensando que no final, mais vale
não as papar e falar-lhes dos teus livros,
amargar-lhes a vida com Shakespeare e com Griffith.
Ou procurar uma surda para que nada falte.

Noche de Ronda

En otro tiempo hubieras empleado la noche
en hablarle de libros y de viejas películas.
Pero ya eres mayor. Ahora sabes que a ellas
les aburren los tipos llenos de nombres propios,
que tu bachillerato les tiene sin cuidado.
De modo que le dejas tomar la iniciativa,
desconectas y finges que escuchas sus historias,
que invariablemente —recuerdas de otras veces—
versan sobre el amor, los viajes, la dietética,
su familia, el verano, la buena forma física,
el más allá, las drogas y el arte postmoderno.
De cuando en cuando asientes, recorriendo sus ojos
con los tuyos, rozando levemente sus muslos,
y elevas a los cielos una angustiosa súplica
para que aquella farsa termine cuanto antes.
Pasarán, sin embargo, todavía unas horas
hasta que, ebria y afónica, se abandone en tus brazos
y obtengas la victoria pírrica de su cuerpo,
que, pese a los asertos de tres o cuatro amigos,
será muy poca cosa. Y, cuando esté dormida,
saldrás roto a la calle en busca de una taza
de café gigantesca, maldiciendo las copas
que arruinaron tu hígado en la estúpida noche
y pensando que, al cabo, merece más la pena
no comerse una rosca y hablarles de tus libros,
amargarles la vida con Shakespeare y con Griffith.
O buscarse una sorda para que nada falte.

Transcrito de Los mundos y los días, Poesia 1970-2005, Visor, Madrid, 2012.

 

Anúncios