Retrato de desconhecida por pintor não identificado

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Z 131

Desconhecidos, pintor e retratada, tudo neste retrato singular chama a atenção.

O olhar prende-se na originalidade do traje. Mas a retratada não nos deixa: fixa, e insistentemente chama por nós, espicaçando-nos a curiosidade sobre a sua pessoa. Personalidade forte pela firmeza da boca nos lábios cerrados, transmite uma impressão de ordem e rigor na simetria sem falhas de toda a sua figura, do penteado ao padrão riscado da gola da camisa. Esta elegante cuja beleza de formas o vestido não deixa adivinhar, seria uma mulher austera? Nada o permite supor. A absoluta ausência de adereços que autorizem inferir afetos, assegura-lhe o mistério que a fará viver enquanto a pintura existir.

Olhada a retratada, centremos-nos na originalidade pictórica. Com uma paleta mínima e austera de azul, amarelo e branco, e sem concessões a maneirismos, o pintor varia o fundo com aquela espécie de nuvens verdes (obtido a partir de amarelo com azul, como se sabe), e cria dinamismo na rigidez hierática da figura pela introdução de perspectiva, fazendo surgir o tronco ligeiramente rodado e oblíquo em relação ao plano da tela, continuando a cabeça a olhar-nos de frente. Acrescenta-se a esta representação um desenho no vestir de geometria contrastada, desenvolvendo-se entre o arredondado das mangas, os triângulos da gola e o rectângulo do cinto. As linhas desenhadas pelos cordões de ouro, em assimetria, acrescentam a leveza que dão humanidade à pintura, fazendo com que tudo no quadro respire simultaneamente verdade e irrealidade.

A pintura, pela moda do vestir, será provavelmente do segundo quartel do século XIX, de uma burguesa do império Austero-húngaro, ou Alemanha do Sul, cabendo na que é conhecida por pintura do período Biedermeier. A austeridade de que a obra dá mostras transforma-a numa pintura peculiar no contexto de escola.

O retrato, de colecção particular, terá sido vendido em leilão em 2009.

 

Tristeza — poema de Teixeira de Pascoaes

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Arnold Böcklin - Ulisses e CalypsoA vida raramente corre como a desejamos. Na infinita capacidade humana de adaptação ao inesperado cruzam-se os mais variados sentimentos e deles, frequentemente, a poesia dá conta. Hoje fala-nos da tristeza um poema de Teixeira de Pascoaes (1877-1952).

 

Tristeza

 

O sol do outono, as folhas a cair,

A minha voz baixinho soluçando,

Os meus olhos, em lagrimas, beijando

A mística paisagem a sorrir…

 

Assim a minha vida transitando

Vai, à tona da terra… E fico a ouvir

Silencios do outro mundo e o resurgir

De mortos que me foram sepultando…

 

E fico mudo, extático, parado

E quasi sem sentidos, mergulhado

Na minha viva e funda intimidade…

 

A mais longínqua estrela em mim actua…

Inunda-me de mágoa a luz da lua,

E sou eu mesmo o corpo da saudade.

 

 

É complexa e intelectualmente exigente a poesia de Teixeira de Pascoaes. Sob a simplicidade do verso surgem sempre ontológicas interrogações num constante diálogo entre o homem, ser de relação, e o animal sensível às mutações da natureza.

Para os mais informados permanece, talvez, como imagem de Teixeira de Pascoaes, a expressão com que Unamuno se lhe referiu — dizia adeus ao sol, falava ao vento, saudava a aurora e lia no Infinito —. Visão provavelmente certeira do homem que a sua poesia incorpora.

 

É tudo sonho e vida e comoção!

O sol é uma oração

Pelos velhos mendigos que têm frio!

E a piedade das sombras, pelo estio!

A nuvem religiosa

Mata a sede à paisagem sequiosa…

O luar perdoa à noite; e cada flor

É dádiva de amor.

(Poema II de Nova Luz, in Vida Etérea)

 

Os belos versos sucedem-se e não conseguiria parar de citar. Mas deste mesmo ciclo, Nova Luz, o poema I abre assim:

 

Emana um fumo de alma o crepitar do lume:

O incêndio duma flor dá a cinza do perfume.

 

O corpo de uma onda é o líquido braseiro,

Que exala, no infinito, o branco nevoeiro.

 

Para quem tenha curiosidade desta poesia e se iniba perante a sua aparente estranheza neste nosso tecnológico século XXI, atrevo-me a sugerir o livro Vida Etérea, onde em belíssima exaltação da vida os poemas se sucedem. Por hoje, cito ainda desse livro, e do poema Deslumbramento os quatro versos iniciais:

 

A vida é sonho, amor, exaltação.

Flama a irromper da eterna escuridão.

É lume a flor e a sombra amanhecente

A terra é carne, a luz é sangue ardente.

 

As transcrições dos poemas foram feitas da edição dos livros Elegias e Vida Etérea, Assírio & Alvim, Lisboa, 1998.

 

 

Abre o artigo uma imagem da pintura de Arnold Böcklin (1827-1901) – Ulisses e Calypso.

 

Quando fores velha — entre W. B. Yeats e Pierre Ronsard

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Whistler - retrato da mãe do pintorMuitos amaram os momentos de teu alegre encanto, / Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor, / Mas apenas um homem amou … as mágoas do teu rosto que mudava;

É um magoado apaixonado quem assim fala, lembrando o efeito do passar do tempo no contraponto com a constância do seu amor.

São versos do poema When You Are Old de William Butler Yeats (1865-1939) em tradução do poeta José Agostinho Baptista, que a seguir transcrevo na totalidade.

 

Quando Fores Velha

 

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,

Dormitando junto à lareira, toma este livro,

Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar

Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

 

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,

Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,

Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,

E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

 

Inclinada sobre o ferro incandescente,

Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou

E em largos passos galgou as montanhas

Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

 

When You Are Old

 

When you are old and grey and full of sleep,

And nodding by the fire, take down this book,

And slowly read, and dream of the soft look

Your eyes had once, and of their shadows deep;

 

How many loved your moments of glad grace,

And loved your beauty with love false or true,

But one man loved the pilgrim soul in you,

And loved the sorrows of your changing face;

 

And bending down beside the glowing bars,

Murmur, a little sadly, how Love fled

And paced upon the mountains overhead

And hid his face amid a crowd of stars.

Este poema de Yeats reelabora o assunto de um dos sonetos a Helena escritos por Píerre Ronsard (1524-1585).

O conjunto desta pouco mais de centena de poemas de Ronsard à amada(?) Helena (Hélène de Surgères) é um universo de grande densidade erótica, afastado do mundo poético de Yeats, onde talvez o único ponto de contacto seja este mesmo escrito para a memória de uma paixão desdenhada.O assunto pedido de empréstimo por Yeats a Ronsard consta do soneto 24 a Helena:

 

 

Soneto 24 a Helena

 

Quando fordes bem velha ao serão, à candela,

sentada ao pé do lume a dobar, e fiando,

cantando versos meus, direis maravilhando:

“celebrou-me Ronsard no tempo em que fui bela.”

 

Nem criada tereis que acaso ouvindo ela

tal nova, em seus afãs  já quase dormitando,

de o meu nome soar não esperte, abençoando

vosso nome em louvor que eterno se revela.

 

Em terra eu estarei, fantasma já sem osso,

entre mirtos e sombra a repousar num fosso;

vós sereis à lareira, idosa e encolhida,

 

chorando o meu amor e o vosso vão desdém

pois, crede-me, vivei sem ver se amanhã vem:

colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.

 

Original

 

Quand vous serez bien vieille, au soir à la chandelle,

Assise auprès du feu, dévidant et filant,

Direz chantant mes vers, en vous émerveillant :

« Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.»

 

Lors vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,

Déjà sous le labeur à demi sommeillant,

Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,

Bénissant votre nom de louange immortelle.

 

Je serai sous la terre, et fantôme sans os

Par les ombres myrteux je prendrai mon repos;

Vous serez au foyer une vieille accroupie,

 

Regrettant mon amour et votre fier dédain.

Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:

Cueilllez dès aujourd’hui les roses de la vie.

 

A história oficial destes talvez platónicos amores de um Ronsard com mais de cinquenta anos por uma Hélène de Surgères vinte e alguns anos mais nova, deixa muito a desejar, quando pretende que a letra dos poemas .é apenas retórica, embora, diga-se, estejam escritos como presente, dando conta de um desejo, e não como passado, qual em poemas de Amores acontece, relatando o acontecido. Vamos então ao soneto à Helena amante(?):

Beija-me, minha amante, beija-me mais, estreita-

me, bafo contra bafo, e aquece-me esta vida,

dá-me assim beijos mil e mais mil de seguida,

amor quer tudo inúmero, amor leis não aceita.

 

Beija e beija outra vez, ó boca tão perfeita,

porque te hás-de guardar, sendo em livor jazida,

pra beijar (de Plutão a dama ou a válida)

sem coração, nem já imagem que deleita?

 

De teus beiços de rosa em vida me cobrindo,

balbucia a beijar-me, a boca entreabrindo,

mil sons a entrecortar, morrendo entre meus braços.

 

Eu morrerei nos teus, e, tu ressuscitada,

eu ressuscitarei, juntemos nossos passos:

o dia mesmo curto é mais do que a noitada.

 

Original

 

Maîtresse, embrasse-moi, baise-moi, serre-moi,

Haleine contre haleine, échauffe-moi la vie,

Mille et mille baisers donne-moi je te prie,

Amour veut tout sans nombre, amour n’a point de loi.

 

Baise et rebaise-moi ; belle bouche pourquoi

Te gardes-tu là-bas, quand tu seras blêmie,

A baiser (de Pluton ou la femme ou l’amie),

N’ayant plus ni couleur, ni rien semblable à toi ?

 

En vivant presse-moi de tes lèvres de roses,

Bégaie, en me baisant, à lèvres demi-closes

Mille mots tronçonnés, mourant entre mes bras.

 

Je mourrai dans les tiens, puis, toi ressuscitée,

Je ressusciterai ; allons ainsi là-bas,

Le jour, tant soit-il court, vaut mieux que la nuitée.

Ainda uma breve nota sobre as explícitas referências clássicas no soneto 24: à ode I-XI de Horácio conhecida por Carpe diem —… vivei sem ver se amanhã vem: / colhei desde hoje mesmo as rosas desta vida.—; e ao carme  V de Catulo —… beijos mil e mais mil…—.

As versões rimadas dos sonetos de Ronsard são do poeta Vasco Graça Moura.

 

A pintura que abre o artigo, de James McNeill Whistler (1834-1903), interessa-me não tanto por figurar a mãe do pintor, mas sobretudo pela forma com faz uma certa leitura da velhice: o vasto negrume que envolve uma imobilidade talvez doente, num físico que a vida secou. É um quadro onde alguma harmonia na forma convive com uma desolada serenidade de onde a alegria partiu, e nessa medida dá uma velhice possivel.

Langston Hughes — I, too

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Romare Bearden 02Avesso que sou a efemérides com pretexto necrófilo, passo habitualmente esses eventos mediáticos em silêncio. A morte de Mandela, no que pode significar do fim de um tempo, leva-me a recordar o belo poema de Langston Hughes (1902-1967) I, Too. Romare Bearden The Block

Eu também

Eu, também, canto América.

Sou o irmão negro.

Mandam-me comer na cozinha

Quando chega alguém,

Mas rio,

E como bem,

E cresço forte.

 

Amanhã,

Estarei à mesa

Quando alguém chegar.

Ninguém se atreverá,

Então,

A dizer-me,

“Come na cozinha”.

 

Além disso,

Verão como somos belos

E terão vergonha—

 

Eu, também, sou América.

Romare Bearden - La Primavera - 1967

Original

I, Too

I, too, sing America.

 

I am the darker brother.

They send me to eat in the kitchen

When company comes,

But I laugh,

And eat well,

And grow strong.

 

Tomorrow,

I’ll be at the table

When company comes.

Nobody’ll dare

Say to me,

“Eat in the kitchen,”

Then.

 

Besides,

They’ll see how beautiful we are

And be ashamed–

 

I, too, am America.

Romare Beardwn EVENING 1985

Pode o leitor interessado ouvir aqui o poema lido pelo  poeta.

 Romare Bearden Gospel-Morning 1987

Termino com He’s got the whole world in his hands cantado por Marian Anderson (1897-1993).

Romare Bearden Fish Fry

Acompanham o artigo imagens de pinturas/colagens de Romare Bearden (1911–1988).

O leitor curioso encontra nas páginas da Wikipédia informação relevante sobre Langston Hughes, Romare Bearden e Marian Anderson.

A passagem do tempo — High Society como pretexto

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Grace KellyAcontece às belas o mesmo que às outras — gasta-as a vida.

 

Parece já um lugar comum, mas vale sempre a pena voltar a ele: as mulheres hoje envelhecem muito mais tarde que há duas ou três décadas. Não obstante, se para as mulheres do nosso convívio esse é um dado que fruímos com o maior prazer: degustar os sinais mínimos de envelhecimento que se acrescentam subrepticiamente dia a dia, e com eles a maturidade que as faz mais suculentas; para as mulheres míticas, com uma beleza cristalizada numa certa imagem, o confronto com o seu envelhecimento, que constitui o cair de um mito, mostra-se por vezes um choque.

Para mim, como para muitos homens e mulheres no mundo, Grace Kelly incarnou um dos tipos de beleza humana oferecido como ideal. Faz parte do conceito de ideal a sua imutabilidade, mas humanos somos, e o tempo ao passar deixa marcas. Foram as marcas do tempo nesta beleza ideal o motivo desta conversa.

High Society é um remake da fabulosa comedia com Katharine Hepbrun e Cary Grant, Philadelphia Story, desta vez contada como musical. Nele, cruzam-se Bing Crosby, Frank Sinatra e Louis Armstrong com Grace Kelly, a bela, que até canta True Love (Verdadeiro amor), êxito de mais de um milhão de cópias vendidas.

Deste verdadeiro amor fala a história e encanta, apesar da pesada realização que se arrasta um pouco pasmada, talvez, pela beleza da protagonista. Para quem não viu o filme, a foto de abertura do artigo, feita para a sua promoção, pode dar uma ideia.

O que segue é que, muitos anos mais tarde, e já princesa do Mónaco, a Kelly assistiu e subiu ao palco, para apresentar Frank Sinatra num concerto no Royal Festival Hall, em Londres, em 1971. Recordou Mogambo, a avassaladora obra-prima de John Ford, e o encontro  com Frank neste High Society. Foi ao vê-la ali e recordar o filme, que o mito se desfez. A mulher que ali estava era uma sombra da beleza divina que pelo filme passeava.

À época, escrevi o que hoje vos mostro.

Curei-me.

Da deusa que à beira da piscina, túnica grega, se metamorfoseia de gelo em fogo

ficou aquela bela mulher cansada.

Não mais ilusões!

 

Vê-la,

a pele baça, a voz áspera,

percebi a diferença:

Acontece às belas o mesmo que às outras—gasta-as a vida.

 

E citando T.S. Elliot me despeço:

Burnt Norton

Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano

Não pode suportar muita realidade.

O tempo passado e o tempo futuro

O que podia ter sido e o que foi

Tendem para um só fim, que é sempre presente.

Original

Burnt Norton

Go, go, go, saíd the bird: human kind

Cannot bear very much reality.

Time past and time future

What might have and what as been

Point to one end, which is always present.

Do primeiro dos Quatro Quartetos.

Para recordar deixo-vos True Love cantado por Bing Crosby e acompanhado por Grace Kelly. É um rip a partir do disco de vinil.

Retratos de família por Fernando Botero — o humano por detrás do grotesco

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Botero 00La cabeza hermosissima caía / del lado de los sueños;

Abro com estes versos de um soneto do colombiano Eduardo Carranza (1913-1985) uma curta digressão pela pintura de Fernando Botero (1932).

A pintura de Fernando Botero utiliza uma linguagem tipificada na representação do corpo humano que a identifica de imediato. Trata-se de uma representação grotesca do corpo que a ternura de alguns olhares consegue mitigar. A utilização de cores puras e frequentemente contrastadas, preenchendo um desenho preciso, criam uma representação que choca ao primeiro olhar, pelo menos em grande parte da sua obra.

Grotescos, aqueles seres, mais bonecos que gente, e poderiam fazer parte de uma linha de brinquedos infantis, inspiram uma enorme ternura.

Na verdade, belos ou feios, sofisticados ou ridículos na aparência e atitudes, somos todos humanos, e é na alma que nos revemos ou encontramos.

No que imaginar possam, deixo-vos a companhia desta humanidade inventada por Botero. No final o soneto de Eduardo Carranza citado em abertura.

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Soneto Insistente

 
La cabeza hermosissima caía

del lado de los sueños; el verano

era um jazmín sin bordes y en su mano

como un pañuelo azul flotaba el día

 
Y su boca de súbito caía

del lado de los besos; el verano

la tenía en la palma de la mano,

hecha de amor: Oh, qué melancolía.

 
A orillas de este amor cruzaba un río;

sobre este amor una palmera era:

agua del tiempo y cielo de poesía.

 
Y el río se llevó todo lo mío:

la mano y el verano y mi palmera

de poesía. Oh, qué melancolía.

in Azul en ti (1944)

Ó gloria de mandar! Ó vã cobiça – a fala do Velho do Restelo em Os Lusíadas

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Turner slave-ship

Contrariamente à voz corrente, guardei do estudo de Os Lusíadas no Liceu, a memória de longos trechos e um gosto pelo poema, sempre renovado de cada vez que nele me perco.

Em Os Lusíadas, poema épico à maneira dos clássicos Ilíada, Odisseia e Eneida, conta Camões (1524(?)-1580) a história de Portugal até à sua época e o detalhe da aventura da descoberta do caminho por mar até à Índia.

Como dispositivo narrativo para descrever a história passada de Portugal ao rei de Calecute nos Cantos III e IV, coloca o poeta o relato na boca de Vasco da Gama, o chefe da armada que descobriu o caminho maritImo para a Índia:

Canto III

III

Prontos estavam todos escutando

O que o sublime Gama contaria,

Quando depois de um pouco estar cuidando,

Alevantado o rosto, assim dizia:

– “Mandas-me, ó Rei, que conte declarando

Da minha gente a grã genealogia;

Nao me mandas contar estranha história,

Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

 

Ao longo do Canto III assistimos ao relato dos acontecimentos respeitando à formação de Portugal e consolidação geográfica do território até final da primeira dinastia. É nesse canto que encontramos o episódio de Inês de Castro

 

Estava linda Inês …

 

No Canto IV são relatadas as peripécias das conquistas e derrotas no norte de África até à preparação e partida das naus que viriam a descobrir o caminho para a Índia através do oceano Atlântico.

Turner grand-canal

Como é sabido, as matérias primas e artigos de luxo produzidos no Oriente e sumamente apreciados pelos poderosos ocidentais, o equivalente da alta costura francesa, perfumes e champanhe, etc, de hoje, chegavam às cortes e sociedades europeias por terra, vendidas através da Republica de Veneza, à qual aportavam por demoradas e perigosas viagens através de territórios em grandes parte desérticos. A descoberta de uma via marítima para a realização deste comércio, controlada por Portugal, deu ao país a riqueza e o esplendor de que ainda não se refez no século XXI.

Mas voltando a Camões e ao seu poema, no final do canto IV encontra-se a mais intemporal e por isso mesmo eterna, formulação poética da ambivalência entre ambição humana e gosto pela aventura e risco, conhecida como a fala do Velho do Restelo. Por tal modo famosa que passou para o imaginário popular o epíteto de Velho do Restelo para todo aquele que perante desafios repletos de riscos, aconselham prudência e tento na ambição.

Antes de se ouvir o velho, é ainda Vasco da Gama quem fala, relatando como a população de Lisboa acorreu à praia do Restelo, onde hoje se encontra a famosa Torre de Belém, precisamente a assinalar esta partida, despedindo-se de quem partia.

São versos de uma pungência e actualidade tais que voltaram a ser sentidos e chorados quando do cais da Rocha em Lisboa partiam os navios carregados de soldados para combater nas guerras de África nos anos 60 do século XX.

Feita a descrição nas estrofes LXXXVIII a XCIII, segue-se a entrada na narrativa do velho do Restelo e a sua intemporal reflexão sobre a gloria de mandar, a vã cobiça, por tal forma que

 

 

Nenhum cometimento alto e nefando, / Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração! / Mísera sorte! Estranha condição!”

 

 

Canto IV
XCIV
Mas um velho de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:
XCV
— “Ó gloria de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
 Cūa aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
XCVI
“Dura inquietação de alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Gloria soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
XCVII
“A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaxo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
 De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que historias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
XCVIII
“Mas ó tu, geração daquele insano,
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano,
Da quieta e da simples inocência,
Idade de ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:
XCIX
“Já que nesta gostosa vaidade
 Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
 Temeu tanto perdê-la quem a dá,
C
“Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pola de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riquezas mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?
CI
“Deixas criar às portas o inimigo
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!
Buscas o incerto e incógnito perigo,
Porque a fama te exalte e te lisonge,
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia!
CII
“Ó! Maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Dino da eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!
CIII
“Trouxe o filho de Jápeto do céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras. Grande engano!
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos que a movera!
CIV
“Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem ora vazio
O grande arquitector co filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando,
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração!
Mísera sorte! Estranha condição!”

 

 

As imagens que acompanham o artigo são de pinturas de Turner (1755-1851): Naufrágio de navio de escravos e O grande canal de Veneza.

Escultura votiva da pré-história mediterrânica

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CicladesDeixa-me deslumbrado a requintada beleza de formas destas figurinhas votivas com 4000 a 5000 anos, encontradas nes ilhas gregas do Mar Egeu.

Cíclades 2700 - 2300 BC

Nestas figuras pré-históricas, provavelmente com papel de intermediação entre o humano e o sagrado, provenientes da bacia do Mediterrâneo, encontramos uma representação estilizada da mulher como poucas vezes mais a humanidade produziu no longo caminho até aos nossos dias.

Cíclades IO apuro plástico de que a humanidade dá mostras independentemente de geografias e épocas é a evidência de que não há evolução na estética, apenas as  circunstâncias geram o inefável gosto pela beleza, essa sim, sujeita nos seus padrões à volubilidade da história.

Anatólia 3 Millennium BC

Chipre 3000 - 2500 BCDeixo-vos com alguns exemplos mais.

Cíclades II 2300–2200 BC

Cíclades 2400 BC A

Cíclades 02

O prazer de ler e sonetos de Diogo Bernardes

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Louis Jean Francois Lagrenee A leitora

Despida de preconceitos, a nossa bela lê. Se não lê poesia, leremos nós por ela, em sua bela companhia.

*

Onde porei meus olhos que não veja

A causa, donde nasce meu tormento?

A que parte irei co pensamento

Que para descansar parte me seja?

 

Já sei como se engana quem deseja,

Em vão amor, firme contentamento:

De que nos gostos seus, que são de vento,

Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

 

Mas inda, sobre claro desengano,

Assim me traz esta alma sojigada

Que dele está pendendo o meu desejo…

 

E vou de dia em dia, de ano em ano,

Após um não sei quê, após um nada;

Que, quanto mais me chego, menos vejo!

**

Da vossa vista a minha vida pende,

Maior bem para mim não pode ser

Que ver-vos, mas não ouso de vos ver;

Que vosso alto respeito mo defende.

 

O meu amor, que o vosso só pretende,

Receio que se venha a conhecer,

Nos olhos, que mal podem esconder

O desejo, dum peito que se rende.

 

Por vós a tal estremo d’Amor venho,

Que com força resisto a meu desejo,

Porque nada de mim vos descontente.

 

Mas neste mal, senhora, este bem tenho,

Que sempre tal, qual sois, n’alma vos pinto

Sem dar que ver, nem que falar à gente.

Sonetos LXXIII e LIX de Diogo Bernardes (1530-1605), Rimas Várias—Flores do Lima.

Pensar no Futuro / Pensar o Futuro — O destino não é um lugar (Francisco Brines )

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Dürer - Retrato de homem com 95 anos 1521

Gosto de pensar que este velho de 95 anos desenhado por Albrecht Dürer (1471-1528) em 1521 pensa no futuro, mais que na vida vivida. Do que viveu terá aprendido o que mais tarde lapidarmente Wittgenstein escreveu:

6.373.       O mundo é independente da minha vontade.

6.374.        Ainda que tudo o que desejamos acontecesse, isto seria apenas, por assim dizer uma graça dada pelo destino, uma vez que não existe uma conexão lógica entre a vontade e o mundo que a garantisse, e a suposta conexão física também não a poderíamos por sua vez desejar.

5.1361.     Não podemos inferir os acontecimentos futuros dos acontecimentos presentes.

A crença no nexo causal é a superstição.

5.1362.     O livre arbítrio consiste no facto de as acções futuras não poderem ser conhecidas no presente. Só poderíamos conhecê-las se a causalidade fosse uma necessidade interior, como a da inferência lógica. — A conexão entre o saber e o que se sabe é a conexão da necessidade lógica.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951) in Tratado Lógico-Filosófico com tradução de M. S. Lourenço

Aceitando que as acções futuras não podem ser conhecidas, ainda assim sobra lugar para o sonho ou desejo. E por isso, do futuro, acreditando na existência de um além vida, pensará o nosso homem, quero crer, no que deseja: e aí talvez siga a ideia de Francisco Brines  (1932) no poema Projecto de Vida Eterna.

Projecto de Vida Eterna

E depois de acabar, voltar ao mundo

após uma curta eternidade, já sereno

voltar de novo ao mundo, a este que sei,

com uma repetida juventude, e junto a mim

seu corpo como fora em sua idade de ouro

perdida, e assim admitir que a vida é infindável

como não pôde ser (agora já eterna),

porque houve um adeus, e o tempo envelhecia

não o tempo, que em si é sempre eterno,

mas o que ele tocava: o mundo,

e aquele que, por sabê-lo, mais sofria.

 

E para o que lhe falta viver tentará certamente pensar o futuro tendo em conta quanto o destino não é um lugar, verdadeiro e belo título do poema com que hoje me despeço da poesia de Francisco Brines.

 

O Destino nao é um Lugar

 

O caminho foi longo e houve névoa.

Porém, houve o espaço. Mas agora

adensou-se a névoa até ao ponto

de ser o espaço o muro que já roço.

Nele me deterei e, ao voltar

os olhos para trás, a mesma névoa

far-me-á tentar de novo o mesmo muro,

e, se eu dirigir o olhar ao céu

para ali me salvar, a negra névoa

irá cegar-me os olhos, e assim será

isso a que chamaste sono eterno.

 

Traduções dos poemas por José Bento in A Ultima Ceia, edição Assírio & Alvim, Lisboa 1997.