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Grace KellyAcontece às belas o mesmo que às outras — gasta-as a vida.

 

Parece já um lugar comum, mas vale sempre a pena voltar a ele: as mulheres hoje envelhecem muito mais tarde que há duas ou três décadas. Não obstante, se para as mulheres do nosso convívio esse é um dado que fruímos com o maior prazer: degustar os sinais mínimos de envelhecimento que se acrescentam subrepticiamente dia a dia, e com eles a maturidade que as faz mais suculentas; para as mulheres míticas, com uma beleza cristalizada numa certa imagem, o confronto com o seu envelhecimento, que constitui o cair de um mito, mostra-se por vezes um choque.

Para mim, como para muitos homens e mulheres no mundo, Grace Kelly incarnou um dos tipos de beleza humana oferecido como ideal. Faz parte do conceito de ideal a sua imutabilidade, mas humanos somos, e o tempo ao passar deixa marcas. Foram as marcas do tempo nesta beleza ideal o motivo desta conversa.

High Society é um remake da fabulosa comedia com Katharine Hepbrun e Cary Grant, Philadelphia Story, desta vez contada como musical. Nele, cruzam-se Bing Crosby, Frank Sinatra e Louis Armstrong com Grace Kelly, a bela, que até canta True Love (Verdadeiro amor), êxito de mais de um milhão de cópias vendidas.

Deste verdadeiro amor fala a história e encanta, apesar da pesada realização que se arrasta um pouco pasmada, talvez, pela beleza da protagonista. Para quem não viu o filme, a foto de abertura do artigo, feita para a sua promoção, pode dar uma ideia.

O que segue é que, muitos anos mais tarde, e já princesa do Mónaco, a Kelly assistiu e subiu ao palco, para apresentar Frank Sinatra num concerto no Royal Festival Hall, em Londres, em 1971. Recordou Mogambo, a avassaladora obra-prima de John Ford, e o encontro  com Frank neste High Society. Foi ao vê-la ali e recordar o filme, que o mito se desfez. A mulher que ali estava era uma sombra da beleza divina que pelo filme passeava.

À época, escrevi o que hoje vos mostro.

Curei-me.

Da deusa que à beira da piscina, túnica grega, se metamorfoseia de gelo em fogo

ficou aquela bela mulher cansada.

Não mais ilusões!

 

Vê-la,

a pele baça, a voz áspera,

percebi a diferença:

Acontece às belas o mesmo que às outras—gasta-as a vida.

 

E citando T.S. Elliot me despeço:

Burnt Norton

Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano

Não pode suportar muita realidade.

O tempo passado e o tempo futuro

O que podia ter sido e o que foi

Tendem para um só fim, que é sempre presente.

Original

Burnt Norton

Go, go, go, saíd the bird: human kind

Cannot bear very much reality.

Time past and time future

What might have and what as been

Point to one end, which is always present.

Do primeiro dos Quatro Quartetos.

Para recordar deixo-vos True Love cantado por Bing Crosby e acompanhado por Grace Kelly. É um rip a partir do disco de vinil.

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