Che Guevara num poema de Hans Magnus Enzensberger

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René Burri (1933-2014) - Che Guevara 600pxÉ com indisfarçável melancolia que estes tempos políticos me levam ao perfil inortodoxo de Che Guevara, escrito em forma de balada por Hans Magnus Enzensberger (1929) nos anos 70 do séc. XX: E. G. de la S..

A luta entre o voluntarismo ideológico e a força subterrânea da economia tem trazido o desaire aos aprendizes de feiticeiros e a desgraça às populações cobaias. Tivemos a experiência recente do liberalismo criativo que transformaria a velha sociedade portuguesa numa economia de vanguarda, com os resultados observáveis à nossa volta.

Caminhamos agora para nova experiência fazendo renascer o que não há muito tempo colapsou, vendendo como coisa muito nova um bafiento baú.

O desacerto entre os homens e as ideias provavelmente sempre existiu, e quando aplicadas estas, a brutalidade do real cai em cima dos ideais rápida e sem contemplações, ou como escreve o poeta:

…Depois das primeiras vitórias, começou a ver

como coisa muito nova o Novo Homem, uma velha ideia. A economia, porém,

não dava ouvidos aos seus discursos. O “spaghetti continuava a a faltar.

A pasta dentífrica também tinha acabado — e de que é feita a pasta dentífrica?

As notas de banco que assinava não tinham valor.

O texto interrompe-se, e tranquilamente continuam a afluir as respostas.

Deixo-vos o poema na totalidade.

E. G. de la S.

 

Durante uns tempos milhares usaram o seu pequeno boné

e multidões desfilaram com retratos seus

em grande formato, gritando bem alto o seu nome.

Agora, aqueles cortejos pela City quase parecem irreais,

como o país e a classe que o viram nascer.

 

Longe dos matadouros e das barracas e dos bordéis

ia-se desfazendo a casa do pai, junto ao rio. O dinheiro fora-se,

mas a piscina ficou. Um rapazinho tímido,  

alérgico, muitas vezes quase a sufocar. Em luta com o seu corpo,

fumando charutos, fez-se homem (o que isso seja, não é história para aqui).

 

Debaixo do travesseiro: Júlio Verne. O seu primeiro ataque,

a sua primeira fuga para a realidade: “Tristes Trópicos”.

Mas os leprosos, debaixo da varanda podre no Amazonas,

não entendiam o que ele dizia, e continuavam a morrer. Só então

ele descobriu o inimigo que lhe seria fiel até ao fim,

 

e o inimigo do inimigo. Depois das primeiras vitórias, começou a ver

como coisa muito nova o Novo Homem, uma velha ideia. A economia, porém,

não dava ouvidos aos seus discursos. O spaghetti continuava a a faltar.

A pasta dentífrica também tinha acabado — e de que é feita a pasta dentífrica?

As notas de banco que assinava não tinham valor.

 

O açúcar pegava-se à camisa. Máquinas, pagas a peso de ouro,

enferrujavam nos cais. La Rampa andava cheia de boatos.

Lambidela de botas em Moscovo, novos créditos. O povo ia para a fila,

não oferecia segurança, contava anedotas esfomeadas. Por toda a parte bufos,

intrigas que nunca conseguiu entender. Um eterno estrangeiro.

 

Quis pregar moral aos Russos. O amigo dos homens

clamava pelo ódio que há-de transformar o homem

numa máquina de morte, violenta, certeira e fria. No fundo,

uma mimosa: a sua leitura preferida eram poemas (sabia Baudelaire

de cor). Fraco e delicado, os serviços secretos chamavam-lhe um figo.

 

E assim se refugiou nas armas, para ficar onde tudo era claro

e inequívoco, o inimigo inimigo e a traição traição: na selva.

Mas ele próprio parecia estar perto do fim. Rosto cheio, sem barba, as fontes grisalhas,

óculos de lentes grossas, como um caixeiro-viajante, de “canadiana“, assim

disfarçado, em Nancahuazú, saiu para a sua última missão.

 

Não falava Quechua nem Guarani. O silêncio dos índios

era absoluto, como se viéssemos de um outro mundo. Insectos

lianas, mato rasteiro. Os camponeses como pedras. Cólicas,

ataques de tosse, edemas. Doses maciças de cortisona, adrenalina.

A última injecção, já ofegante: Ave Maria puríssima!

 

E logo a lenda se espalhou como espuma. Somos já

super-homens, invencíveis. (Sempre esta fatal ironia,

de que os camaradas se não apercebem.) Um farrapo humano, um ídolo.

Nós ter-lhe-íamos dado um lugar, anunciavam os mais progressistas

de entre os seus inimigos mortais. Em vez disso, puseram em exposição o seu cadáver

 

com as mãos decepadas. Uma aventura mística, e

uma paixão que lembra irresistivelmente a imagem de Cristo:

isto escreveram os seus adeptos. Ele: Les honneurs, ça m’emmerde.

Não foi há muito tempo, e já esquecido. Só os historiadores

se instalam como as traças no pano do seu uniforme.

 

Buracos na guerra popular. De resto, na metrópole, só já

uma boutique fala dele, com o nome que lhe roubou.

Na Kensington High Street acende-se o brilho dos pauzinhos de incenso;

sentados junto da caixa registadora, os últimos hippies, entediados,

irreais, como fósseis, e abúlicos, e quase imortais.

 

O texto interrompe-se, e tranquilamente continuam a afluir as respostas.

 

Tradução de João Barrento.

in Hans Magnus Enzensberger, Mausoléu, Edições Cotovia, Lda, Lisboa, 2004.

 

A imagem de Che Guevara que abre o artigo reproduz uma famosa fotografia tirada por René Burri (1933-2014).

Meio milhão de visitas ao blog

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Meio milhão visitas ao blogFoi hoje ultrapassado o meio milhão de visitas ao blog na contagem do wordpress.

Aventura pessoal de escrita e escolha iconográfica ao sabor das disponibilidades de tempo e disposição, é gratificante saber que tanta gente, de tantos pontos do mundo encontra no blog algo que lhe interessa ou agrada, percorrendo-o ao sabor de acasos e curiosidade.

Este bloco-notas aberto ao mundo tem sido para mim um lugar de prazer e descanso, ocupação de ócios e reflexão, afinal registo de minudências ao lado das turbações do incerto quotidiano.

Há, de alguma forma, um paradoxo nos nossos dias: por um lado a apologia da competitividade na profissão com a exigência de permanente disponibilidade para atender ao trabalho sob pena de se ficar para trás e ser olhado como incompetente ou falhado, e por outro a profusão de solicitações para o lazer vindas do que Gilles Lipovetsky chama o “capitalismo artístico”. Entre o universo omnipresente do trabalho e a vertigem do consumo “estético” corremos o risco de a certa altura parar, ver como o tempo passou, e com ele a vida.  

É um desafio de todos os dias a escolha entre o trabalho e o ócio, sabendo-se como a vivência dos afectos interfere nestas escolhas. E é aqui que as nossas opções, filosóficas, diria, ganham todo o sentido, fazendo-nos, ou não, caminhar por uma vida feliz.

Entendendo cultura como interiorização reflectida de conhecimento e saber, que lugar deixamos esta ocupar na nossa vida é a pergunta que coloco a quem me lê.

meio milhão visitas ao blog

Termino com um poema de Friedrich Nietzsche (1844-1900) mais tarde incluído em Assim Falava Zaratustra, de onde o transcrevo.

 

Pretendente à verdade? Tu? — escarneciam —

Não! Apenas um poeta!

Um animal, e astuto, rapinante, furtivo,

Que tem de mentir,

Que tem, ciente e voluntariamente, de mentir:

Cobiçando a presa,

Mascarado de várias cores,

Máscara para si próprio,

Para si próprio presa…

Isto, o pretendente à verdade?

Não! Apenas louco! Apenas poeta!

Proferindo só discursos confusos,

Gritando desordenadamente por detrás de máscaras de bobo,

Andando por cima de mentirosas pontes de palavras,

Por cima de arco-íris multicolores,

Entre falsos céus e falsas terras,

Vagueando, pairando por aí…

Apenas louco! Apenas poeta!

 

Tradução de Paulo Osório de Castro.

in Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Relogio D’Água Editores, Lisboa, 1998.

 

Prazeres — de Brecht a Lucrécio

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Guernica 600px

PRAZERES

O primeiro olhar da janela de manhã

O velho livro de novo encontrado

Rostos animados

Neve, o mudar das estações

O jornal

O cão

A dialética

Tomar duche, nadar

Velha música

Sapatos cómodos

Compreender

Música nova

Escrever, plantar

Viajar, cantar

Ser amável.

 

Nem todos partilharemos da hierarquia, nem da enunciação dos prazeres descritos neste poema de Bertolt Brecht (1898-1956), datado de 1954.

Poema da meia-idade, e para o poeta, perto do fim da vida; vida que viu as duas guerras mundiais, conheceu o sucesso entre guerras na Alemanha, experimentou exílio com a chegada do nazismo, primeiro europeu e depois nos EUA, e terminou os dias num regresso à então Alemanha comunista. Dir-se-á: de tanta experiência, que mínimos prazeres para lembrar…

Na verdade, a vida vivida, para além da intensidade das experiências profissionais e afectivas, conduz-nos a certa altura à evidência do que todos os dias é realmente importante.

A pressão do consumo, a posse material de coisas, o quadro social quotidiano com os seus valores onde a presença do dinheiro pesa, tudo faz perder de vista o que na verdade é simples: vivemos bem com muito, mas precisamos de muito pouco para viver bem.

Termino com alguns versos do epicurista Lucrécio (sec. I a. C.), extraídos desse poema maior, Da Natureza das Coisas [De rerum natura], a que outro dia voltarei.

 

Ó infelizes mentes dos homens, ó corações cegos!

Em que tenebrosa existência e em quantos perigos se passa

esta breve vida! Então não vêem que a natureza

nada reclama para si, com impetuosos gritos,

senão que a dor fique afastada do corpo e que se usufrua

de uma mente livre de cuidados e do medo, com um sentimento de prazer?

Portanto, vemos que poucas coisas são absolutamente necessárias

à natureza do corpo: todas as que eliminam a dor

e também as que possam proporcionar muitos deleites.

 

Livro II, vv 14-22

Notícia bibliográfica

Bertolt Brecht, Poemas, versão portuguesa de Paulo Quintela, Asa Editores, Porto, 2007.

Lucrécio, Da Natureza das Coisas, tradução de Luís Manuel Gaspar Cerqueira, Relogio D’Água, Lisboa, 2015.

Nota

A imagem de abertura reproduz a pintura Guernica (1937), de Picasso (1871-1973).

Tendo como pretexto directo bombardeamentos alemães à aldeia Basca de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola, a pintura é para o século XX o ícone contra a barbárie o e terror da guerra.

É preciso lembrá-lo sempre.

Árvore Cintilante e um outro poema de Paul Celan

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Azul 11Transcrevo dois poemas de Paul Celan (1920-1970) acompanhados de citações de Y. K. Centeno extraídas da sua introdução à Antologia Poética de Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde.

O amor está morto na obra de Paul Celan. Perdeu a qualidade redentora. O que dele fica são apenas fragmentos, imagens que não se ordenam numa estrutura superior unificada. Porque esse é o limite que atingem, o limiar que ultrapassam: o da unificação harmoniosa num universo e numa relação de que o amor foi brutalmente cortado.

Y. K. Centeno

 

O TEU

ALÉM-ESTAR esta noite,

Com palavras te trouxe de volta, aí estás,

tudo é verdadeiro e um esperar

pelo verdadeiro.

 

O feijão trepa frente

à nossa janela: imagina

quem a nosso lado cresce e

o vê.

 

Deus, assim o lemos, é

parte de nós e um outro, disperso:

na morte

de todas as vidas ceifadas

vinga ele.

 

Para além

nos conduz o olhar,

com esta

metade

convivemos.

 

Dir-se-á que Celan guarda ainda, nalguns textos, um ou outro fiapo de cor e luz. Mas isso torna a realidade ainda mais pungente: nunca o fiapo ilumina um olhar, o seu ou o de outrem. Não é luz condutora, é antes marca de uma fractura irredutível, é memória, é saudade, é desgosto profundo pelo que se perdeu, o todo, o tudo da vida.

Y. K. Centeno

 

Árvore Cintilante

 

Uma palavra

pela qual te perdi com prazer:

a palavra

Jamais.

 

Era,

e por vezes também tu o sabias,

era

uma liberdade.

Nadávamos.

 

Ainda te lembras que eu cantava?

Com a árvore cintilante cantava, com o leme.

Nadávamos.

 

Ainda te lembras que nadavas?

Aberta estavas ante mim,

estavas ante mim, estavas

ante mim ante

minha ante-

cipada alma.

Eu nadava por nós dois. Não nadava.

Nadava a árvore cintilante.

 

Ela nadava? Havia

um charco em volta. Era o lago infinito.

Negro e infinito, assim suspenso,

assim suspenso, mundo abaixo.

 

Ainda te lembras que eu cantava?

 

Esta —

oh, esta deriva.

 

Jamais. Mundo abaixo. Eu não cantava. Aberta

estavas ante mim ante

a alma errante.

 

Poemas do livro A Rosa de Ninguém [Die Niemandsrose] (1963), À memória de Ossip Mandelstamm.

Poemas transcritos de Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa, Cem Poemas, tradução e posfácio de Gilda Lopes Encarnação, Relógio d’Água, Lisboa, 2014.

A poesia de Paul Celan é uma poesia solitária em busca de um destinatário atento. A linguagem, extremamente privada e opaca, reinventada, se quisermos, a estranheza das imagens e das associações, com especial incidência na obra tardia, não permitem uma interpretação linear ou unívoca por parte do (providencial) leitor.

Do posfácio de Gilda Lopes Encarnação.

Citações de Y. K. Centeno transcritas de Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde, Antologia Poética, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia, Lisboa, 1993.

 

Notícia bibliográfica

O leitor interessado na obra do poeta, e que não domine o alemão, encontra-a integralmente traduzida em espanhol na Editorial Trotta de Madrid, Paul Celan obras completas, em tradução de José Luis Reina Palazón (a primeira tradução integral para uma língua estrangeira da obra de Paul Celan), 7ªedição em 2013.

Em português, com tradução e posfácio de João Barrento, Livros Cotovia editou em 1998 (e reimpressão em 2008), Poemas do Espólio, antologia denominada A Morte É Uma Flor.

A antologia dos poemas traduzidos para inglês pelo poeta Michael Hamburger, Poems of Paul Celan, editada por Anvil Press Poetry é outra edição a considerar com 172 poemas traduzidos, 1995, reimpressão em 2013.

Nota

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura minha, Azul 11, óleo s/tela, de 2003/4.

A Criação da Mulher por Americo Elysio

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Boucher - Venus e Amor com pombas e maçã pastelSatisfazendo simultaneamente o meu gosto pela poesia antiga e a curiosidade sobre o que não sei que existe, mergulho algumas vezes na produção poética da segunda metade de setecentos.

Vasto universo de banalidades poéticas, como qualquer outra época, uma vez por outra surge um poema ignorado que pela originalidade na abordagem do tema, desenvoltura do ritmo, ou especial cuidado no tratamento da ideia, apetece resgatar do pó dos arquivos.

É agora a vez de um poema do brasileiro Americo Elysio (José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838)), A Criação da Mulher. Nele o poeta desenvolve o deambular solitário do primeiro Homem, e o seu desnorte nesta solidão. O deus pagão, Jove, dando conta de quanto este infeliz não desfrutava das belezas do mundo natural, vagueando, sem encontrar contentamento, convocou os outros deuses. Para resolver o problema decidiram criar a mulher dotada das belezas de Vénus. E ei-la que desce à Terra.

Ao vê-la o homem / Pasma, estremece! / Quer abraçá-la, / Corre, enlanguece!

 

“Quem és? és Deusa? / (O homem lhe grita) / Ah! se pudesses /Trazer-me dita!”

 

Ela responde: / “Sou tua esposa; / Deixa a tristeza, / Ama-me, e goza.”

 

Saboreai agora o poema:

 

A CREACÃ0 DA MULHER

 

Já tinha o Mundo

Jove formado,

E rei de tudo

O Homem criado.

 

Mas solitário

Este se achava:

Brusca tristeza

O dominava.

 

Com mão profusa

A natureza

Em vão mostrava

Tanta beleza!

 

Cantavam aves,

Bulia o vento:

Tudo infundia

Contentamento.

 

Florido o vale

Reverdecia:

De aromas mil

O ar se enchia.

 

Manhã serena

Leda brilhava:

Manto de estrelas

A noite ornava.

 

E todavia,

Qual duro tronco,

O Homem jazia

Sisudo e bronco.

 

Covas escuras,

Mata enredada,

Nelas fazia

Sua morada.

 

No solio eterno

Jove sentado,

Então aos Deuses

Fala pousado:

 

“Mortal soberbo

Com o entendimento

Sondar pretende

Mistérios cento:

 

“Só, pensativo

Se desalenta;

Do mundo inteiro

Nada o contenta.

 

“Eu distraí-lo

Quero piedoso;

Beba sua alma

Nectar gostoso.”

 

Forma então Jove

Nova creatura;

De Venus bela

Fiel pintura.

 

Esbelto talhe,

Meneo brando,

Mil amorinhos

Vão rebanhando!

 

De oiro madeixas,

Ao vento soltas,

Ameigam feras,

Que andam revoltas.

 

Os Cupidinhos

Dos verdes olhos

Duros despedem

Setas a molhos.

 

Covas da face

Branca e rosada,

Vós sois das Graças

Gentil morada!

 

Vozes suaves,

Que as almas prendem ,

De fio em fio

Dos beiços pendem.

 

Ah! são seus beiços

Fontes de vida!

Em neve pura

Romã partida!

 

As alvas tetas

De marfim puro

Ah! são mais rijas

Que cristal duro!

 

Carne mimosa

Que a vista enleva,

Onde o desejo

Em vão se ceva!

 

Ao vê-la o homem

Pasma, estremece!

Quer abraçá-la,

Corre, enlanguece!

 

“Quem és? és Deusa?

(O homem lhe grita)

Ah! se pudesses

Trazer-me dita!”

 

Ela responde:

“Sou tua esposa;

Deixa a tristeza,

Ama-me, e goza.”

No contexto da produção poética da época, o poema traz algumas novidades que o tornam notável: a forma adoptada é a da redondilha menor, cultivada na idade média, fugindo assim ao cânone formal defendido pelas várias academias da época do autor; o assunto, por um lado vestindo ainda uma capa da mitologia, remete para o imaginário cristão e a criação de Adão e Eva no paraíso terreal; por outro, dá conta de uma leitura da natureza como valor em si, e não como cenário de amores, apanágio da poesia da época; finalmente, ao fechar, entrega a iniciativa amorosa à mulher, despido qualquer pudor, no que será o seu mais surpreendente e original conteúdo:

“Sou tua esposa; / Deixa a tristeza, / Ama-me, e goza.”

Todos estes aspectos fazem do poema um ponto charneira entre a poesia neo-clássica praticada na segunda metade de setecentos e a poesia romântica que o século XIX traria.

Não é aqui o lugar para desenvolver a argumentação em volta do tema. Ficam os tópicos de leitura que, espero, ajudem a destacar o relevo deste Creacão da Mulher.

Usando a forma padronizada do soneto, o poema que segue conta-nos de uma Narcina refrescando-se na fonte.

Partindo do vocabulário comum à época (o desejo espicaçado referido como setas de Cupido envenenadas: Com ponteagudas setas que ela hervara**, /Bando de Cupidinhos revoava.), seguimos o olhar do poeta à medida que percorre o corpo da mulher.  Aí o poema ganha arrojo ao dizer-nos como ela, deixando ver o peito e a coxa, abrasa o poeta ao levantar o vestido, sem que, no entanto,  à vista deixe o sexo, o que o poeta lamenta:

Parte da linda coixa, regaçado, /O cândido vestido descobria; / Mas o templo de amor ficou cerrado:

 

SONETO

Eu vi Narcina um dia que folgava

Na fresca borda de uma fonte clara:

Os peitos, em que Amor brinca e se ampara,

Com aljofaradas* gotas borrifava.

 

O colo de alabastro nu mostrava

A meu desejo ardente a incauta avara.

Com ponteagudas setas que ela hervara**,

Bando de Cupidinhos revoava.

 

Parte da linda coixa, regaçado,

O cândido vestido descobria;

Mas o templo de amor ficou cerrado.

 

Assim eu vi Narcina.—Outra não cria

O poder da Natura, já cansado;

E se a pode fazer, que a faça um dia.

 

*Aljofar — pérola  menos graúda; gotas de água aperoladas.

Aljofarar — ornar de aljofar.

** Hervar — untar com sumos de ervas venenosas.

(Dic. Morais ed 1813)

Com uma invulgar palpitação erótica é a Ode que segue, publicada pelo autor em 1825 e que o editor póstumo em 1861 entendeu suprimir.

Nela, As nítidas maminhas vacilantes / Da sobre-humana Eulina, / Se com férvidas mãos ousado toco, / Ah! que me imprimem súbito / Eléctrico tremor, que o corpo inteiro / Em convulsões me abala!

A Ode vai por aí fora dando conta da perturbação física do homem ao contacto do corpo da mulher, e, depois de um primeiro êxtase, Morro de todo, amada! / Fraqueja o corpo, balbucia a fala! / Deleites mil me acabam!, volta o entusiasmo, e aí o temos voraz outra vez:

Mas ah! que impulso novo, ó minha Eulina! / Resistir-lhe não posso….

terminando com o … morramos, que nesta poesia não é mais que o clímax do êxtase sexual simultâneo:

Deixa com beijos abrasar teu peito: / Une-te a mim…. morramos.

Este final remete-me a memória para uma Ode ao orgasmo simultâneo de José Anastácio da Cunha (1744-1787) que há anos transcrevi no blog.

Foram, um e outro, notáveis homens de ciência, e, talvez por isso, espíritos mais desempoeirados, deram mostra de uma ousada explicitação poética dos prazeres do corpo.

 

ODE

As nítidas maminhas vacilantes

Da sobre-humana Eulina,

Se com férvidas mãos ousado toco,

Ah! que me imprimem súbito

Eléctrico tremor, que o corpo inteiro

Em convulsões me abala!

[O sangue*]  ferve: em catadupas cai-me…;

Brotam-me lume as faces…

Raios vibram os olhos inquietos

Os ouvidos me zunem!

Fugir me quer o coração do peito…

Morro de todo, amada!

Fraqueja o corpo, balbucia a fala!

Deleites mil me acabam!

Mas ah! que impulso novo, ó minha Eulina!

Resistir-lhe não posso…

Deixa com beijos abrasar teu peito:

Une-te a mim… morramos.

 

* Falta a palavra na edição. [O sangue] é suposição minha (C.M.L.).

Nos poemas transcritos modernizei ligeiramente a ortografia e a pontuação para facilitar a leitura aos menos familiarizados com esta poesia antiga.

Noticia bibliográfica

Poesias Soltas de Americo Elysio (José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), Bordeos,1825.

Também existe edição póstuma de 1861 com o título Poesias de Americo Elysio, edição  no Rio de  Janeiro.

SUMMERTIME e o JAZZ

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SummertimeEscapa-se o Verão levado pelo inexorável fluir do tempo. Aos ecos dos seus esplendores junta-se a música que as noites cálidas chamam, e nos acordes do saxofone se transportam, em enlace de sonhos vividos.

Nunca é tarde para recomeçar. E levar connosco o lastro do que nos fez feliz é uma companhia duplamente apetecida, qual seja, por exemplo, uma canção-âncora de tudo isso: Summertime.

Na origem Summertime é cantada por Clara enquanto adormece o filho nos braços, no inicio da ópera de Gershwin, Porgy and Bess, concluída em 1935. Cedo esta e outras canções da ópera passaram a integrar os standards do jazz. Hoje, as interpretações devem contar-se por centenas. São muitas as interpretações da minha afeição e algumas aqui ficam.

Começo com a limpidez da voz incomparável de Ella Fitzgerald em três concertos.

Primeiro no famoso concerto de Berlim de 13-02-1960 com o quarteto de Paul Smith, em que se esqueceu da letra de Mack The Knife e improvisou em scat de forma genial, num dos maiores momentos da história da música ao vivo, mas aqui, desse concerto, vamos ouvir apenas Summertime.

Depois ouviremos duas interpretações próximas no tempo, em 1970 e 1971, como o mesmo trio: Tommy Flanagan ao piano, Frank de la Rosa no contrabaixo e Ed Thigpen na bateria, uma em Budapeste (20-05-1970) e a outra em Nice (21-06-1971). Sendo tão diferentes as interpretações, venha o diabo e escolha qual a mais bela, pois eu não consigo.

Finalmente, em estúdio com Louis Armstrong e orquestra, integrando a gravação dos estratos da ópera que ambos fizeram em conjunto.

Ella Fitzgerald – Berlim

Ella Fitzgerald – Budapeste

Ella Fitzgerald – Nice

Ella Fitzgerald com Louis Armstrong

Depois da trompete de Louis Armstrong, experimentemos as possibilidades expressivas da canção no saxofone e numa talvez menos conhecida interpretação de Art Pepper, com Russ Freeman ao piano, Ben Tucker no contabaixo e Chuck Perkins na bateria, onde o génio espreita a cada nota.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/10+Summertime+%5B%23%5D.mp3%20

Regresso ao canto para ir aos abismos com a interpretação de Sarah Vaughan captada ao vivo no Japão em 1973, usando apenas o registo grave da sua interminável voz, com Carl Schroeder no piano, John Gianelli no contrabaixo e Jimmy Cobb na bateria.

Por curiosidade ouçamos depois aquela que é a mais antiga gravação vocal desta escolha, de 1949, também na voz light, à época, da bela e jovem Sarah. Foi o tempo em que gravou com Miles Davis, mas que nesta canção não a acompanha.

Sarah Vaughan no Japão

Sarah Vaughan 1949

É a uma jam session de Dinah Washington (15-08-1954) que vou buscar a interpretação que segue, para a qual não há adjectivos, no trompete de Clifford Brown.

Clifford Brown

 E regresso ao saxofone com a interpretação de Charlie Parker com orquestra de cordas, naquela que foi a gravação (30-11-1949) que deu o ponto de partida para o que passou a ser moda: musicos de jazz gravarem com acompanhamento de cordas.

Charlie Parker

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/04+Summertime.mp3%20

Termino esta visita com a interpretação atípica de Cathy Berberian, deusa de quem já aqui falei, num cruzamento entre o standard da interpretação clássica e a improvisacão da música de vanguarda. A gravação foi efectuada nas Semanas Musicais de Ascona em 07-10-1975.

Cathy Berberian

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/33+Track+33.mp3%20

E para ficarem com uma ideia do que está escrito na partitura da ópera, vou buscar à famosa e premiada interpretação da ópera por Sir Simon Rattle, gravada quando da produção do Festival de Glyndebourne em 1988 com a orquetra Filarmónica de Londres, a canção de Clara e o respectivo texto, cantado por Harolyn Blackwell.

Summertime and the livin’ is easy

Fish are jumpin’ and the cotton is high.

Oh yo’ daddy’s rich, and yo’ ma is good lookin’,

So hush, little baby, don’ yo’ cry.

 

One of these mornin’s you’re goin’ to rise up singin’,

Then you’ll spread yo’ wings an’ you’ll take the sky.

But till that mornin’, there’s a-nuttin’ can harm you

With Daddy and Mammy standin’ by.

A predominância na escolha de gravações ao vivo prende-se com a minha preferência absoluta por estas actuações, em detrimento de gravações de estúdio, sempre para além das considerações de qualidade audiófila.

Os momentos mágicos passíveis de acontecer num concerto ao vivo raramente se reproduzem no estúdio, e o calor das interpretações, quando é possível a comparação, são disso espelho.

Nota final

Artigo publicado inicialmente no blog em Setembro de 2011 e agora ligeiramente retocado com foto reformatada.

Tempos assim / Tiram lágrimas das flores – um poema de TU FU

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Dando conta dos desastres da guerra, o poema de hoje abarca tudo: a destruição material, a impassível constância da natureza perante os desastres dos homens, a desolação na separação dos afectos, a carestia da vida decorrente da destruição, e, finalmente, a vulnerabilidade dos mais velhos a quem a vida faz viver, mais que aos outros, estas tragédias uma e outra vez repetidas.

Há anos publicado no blog, a tragédia dos refugiados do Médio Oriente, leva-me a lembrá-lo de novo.

Do poema escolhido, OLHANDO A PRIMAVERA, do poeta chinês TU FU (712-770), começo com duas versões, uma em português e outra em castelhano. Ambas se equivalem  na  verdade poética, ainda que a versão em português da autoria de Gil de Carvalho possua dois versos dos mais sublimes que encontrei:

Tempos assim/ tiram lágrimas das flores

Não conheço forma poética mais bela de transmitir a desolação, que a encontrada pelo poeta/tradutor. A impossibilidade material do descrito, fazer chorar as flores,  cria no leitor a dimensão quase cósmica da tragédia, tanto mais quanto as flores podem ser associadas ao mais belo que a natureza pode oferecer, e são, na sua essência, a ausência da violência sobre o mundo. Falo do mundo na medida em que a referência tempos assim remete imediatamente para a história e o fluir dos acontecimentos humanos. Quando o tempo passa estamos no mundo terreno. Fora dele apenas existe a eternidade onde a ausência do fluir do tempo se define.

OLHANDO A PRIMAVERA

O país em ruínas

Rios e colinas permanecem

Cidades na Primavera

Árvores e folhas renascem.


Tempos assim

Tiram lágrimas das flores.

Separado do seu par

Treme o coração da ave.


Os fogos da guerra

Já juntaram três luas.

As novas de casa

Valem agora uma fortuna.


Uma velha cabeça grisalha,

A cada infortúnio dilacerada.

E o cabelo que rareia

Já nem o alfinete o segura.

 

VISIÓN DE PRIMAVERA

En el país derrotado, rios e colinas impassibles.

Ciudad primaveral. Árboles frondosos y hierba abundante.

Complacidas, las flores lloram conmigo;

apenadas, las aves lamentan mi despedida.


Llamas de guerra rugen ya tres meses;

mil piezas de oro cuesta una carta familiar.

Me toco la cabeza de blancos cabellos,

tan escasos que no pueden sostener el broche.

Tradução de Guillermo Danino

 

Há uma linguagem essencial nesta poesia, capaz de nos transmitir o sentido profundo do tempo e do mundo apenas com a meia dúzia de termos que o poema contém.
Esta é uma característica da poesia chinesa clássica que, depois de nos familiarizarmos com ela, parece a linguagem mesma da poesia.

A verbosidade poética acaba por soar estranha ao fim de algum tempo de convívio com estas criações.

Faça-se agora uma leitura comparada das traduções do poema: português // castelhano por forma a penetrar melhor na multiplicidade de sentidos possivel neste poema

OLHANDO A PRIMAVERA // VISIÓN DE PRIMAVERA

O país em ruinas / Rios e colinas permanecem  //  En el país derrotado, rios e colinas impassibles.
Cidades na Primavera / Árvores e folhas renascem. // Ciudad primaveral. Árboles frondosos y hierba abundante.

Tempos assim / Tiram lágrimas das flores. // Complacidas, las flores lloram conmigo;
Separado do seu par / Treme o coração da ave. // apenadas, las aves lamentan mi despedida.

Os fogos da guerra / Já juntaram três luas. // Llamas de guerra rugen ya tres meses;
As novas de casa / Valem agora uma fortuna. // mil piezas de oro cuesta una carta familiar.
Uma velha cabeça grisalha, / A cada infortúnio dilacerada. // Me toco la cabeza de blancos cabellos,
E o cabelo que rareia / Já nem o alfinete o segura. // tan escasos que no pueden sostener el broche.

Acrescento agora três versões em inglês, das quais duas de David Hinton, eminente poeta e premiado tradutor de poesia chinesa. No entanto, os dois versos que me encantam não tem na sua tradução a força nem a profundidade poética contidas na tradução portuguesa:

Blossoms scatter tears thinking of us

nem a possui a tradução de Arthur Cooper que transcrevo mais à frente e nos dá para estes versos:

Though at such times / flowers might drop tears,

embora muito provavelmente Gil de Carvalho a tenha considerado na sua versão.

 

Tradução de David Hinton, 1990:

SPRING LANDSCAPE

Rivers and mountains survive broken countries.

Spring returns. The city grows lush again.

Blossoms scatter tears thinking of us, and this

Separation in a bird’s cry startles the heart.

 

Beacon-fires have burned through three months.

By now, letters are worth ten thousand in gold.

My hair is white and thinning so from all this

Worry-how will I ever keep my hairpin in?

 

Tradução de David Hinton, 2008:
SPRING LANDSCAPE


The country in ruins, rivers and mountains

continue. The city’s grown lush with spring.


Blossoms scatter tears for us, and all these

separations in a bird’s cry startle the heart.

 


Beacon-fires three months ablaze: by now

a simple letter’s worth ten thousand in gold,


and worry’s thinned my hair into such white

confusion I can’t even keep this hairpin in.


Tradução de ARTHUR COOPER, 1973:
LOOKING AT THE SPRINGTIME

In fallen States

hills and streams are found,

Cities have Spring,

grass and leaves abound;


Though at such times

flowers might drop tears,

Parting from mates,

birds have hidden fears:


The beacon fires

have now linked three moons,

Making home news

worth ten thousand coins;


An old grey head

scratched at each mishap

Has dwindling hair,

does not fit its cap!


É vasta, como de vê, a possibilidade de leituras do poema ao transferi-lo para línguas ocidentais, conservando a sua significação original, e esta é uma das dificuldades maiores que a poesia chinesa clássica enfrenta no ocidente, decorrente da ausência de gramática nos poemas,  pois dependendo do génio do tradutor, poderemos estar perante uma banalidade, ou perante um fraseado ininteligível, ou menos frequentemente perante uma obra-prima numa língua ocidental.

O poema terá sido escrito por Tu Fu na primavera de 757, durante a sua segunda estadia na capital, Ch’ang-an, desta vez ocupada pelas tropas do general rebelde An Lu-shan.
Não julgo essencial o conhecimento dos detalhes da história chinesa desta época para apreender a universalidade subjacente ao poema. Quem tenha vivido tempos dramáticos longe dos seus saberá sentir a verdade emocional por detrás de tão comovente síntese poética.

Tu Fu ou Du Fu é, na opinião daqueles qualificados para o dizer, o maior poeta  lírico que sobreviveu em qualquer língua. Serão seus possíveis competidores, na opinião dos mesmos, Catulo e Beaudelaire, e também, de algum modo, Sapho, não fora da poetisa apenas nos terem chegado fragmentos.

Noticia bibliográfica:

Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, edição Assirio & Alvim, 2010
Tu Fu, Bosque de pinceles, Selección tradución y notas de Guillermo Danino, Ediciones Hiperión, 2006

Classical Chinese Poetry, An Anthology, tradução e edição de David Hinton, 2008

The Selected Poems of Tu Fu, tradução e selecção de David Hinton, 1990

Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto. Poema de Rainer Maria Rilke

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Miniatura persa 38 1600-10Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

 

Vivo num quotidiano de conforto sem luxos, entregue sempre que possível aos prazeres do espírito. Olho o que me rodeia na intimidade, e revejo os vestígios que guardam a memória do que foi uma vida.

É neste ambiente que surgem as imagens diárias da tragédia das multidões que chegam, quando chegam, às portas do paraíso que não as quer receber.

Gente que aparentemente perdeu, ou deixou para trás, tudo o que ao longo da vida gostou, possuiu, e com a roupa que traz no corpo, a sós, ou com os filhos nos braços, fugiu na barca do paraíso(?), que apenas por misericórdia não se transforma na barca do inferno ao fazer a viagem que os trará às portas deste universo sonhado, onde, com sorte, encontrarão um muro de arame farpado e uma ajuda de sobrevivência.

De que vida é preciso querer fugir para que, não importem os perigos do caminho, mesmo eventualmente a morte, a fuga seja melhor? Não sabemos! Nem as notícias nos dizem. Apenas ouvimos falar de números: tu ficas com tantos, eu não quero nenhuns, eu só aceito loiros (é uma força de expressão), e por aí fora.

Na terra de onde partiram, que se passa? Quem é responsável? Como espera o mundo que o êxodo acabe: quando não restar lá ninguém vivo?

Perguntas a que não sei responder nem aos próceres do mundo parecem preocupar. Entretanto,  os vivos que chegam, com o que trazem na cabeça e a marca indelével de uma experiência terrível, são, com as mortes, tão só a macabra estatística que todos os dias nos relatam. Até quando?

A epígrafe com que abro o artigo é o início de um poema de Rainer Maria Rilke (1875-1926) que a seguir transcrevo em tradução de Jorge de Sena.

Poema de confronto entre a vida e a poesia, deixa por resolver o que todos os dias sentimos como irresolúvel: onde cabe na vida a poesia?

“O SAGE, DICHTER…”

 

Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

E o que nome não tem, tu podes tanto

Que o possas nomear, poeta? — Canto.

De onde te vem o direito ao Vero, enquanto

Usas de máscaras, roupagens? — Canto.

E o que é violento e o que é silente encanto,

Astros e temporais, como te sabem? — Canto.

 

in Poesia do Século XX, Antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

Poema original

 

O sage, Dichter, was du tust?

— Ich rühme.

 

Aber das Tödliche und Ungetüme,

wie hältst du’s aus, wie nimmst du’s hin?

— Ich rühme.

 

Aber das Namenlose, Anonyme,

wie rufst du’s, Dichter, dennoch an?

— Ich rühme.

 

Woher dein Recht, in jeglichem Kostüme,

in jeder Maske wahr zu sein?

— Ich rühme.

 

Und daß das Stille und das Ungestüme

wie Stern und Sturm dich kennen?

— weil ich rühme.

Retratos extraordinários — uma jovem pintada por Ghirlandaio

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Domenico GHIRLANDAIO - retrato de uma jovem - colecção Gulbenkian 600pxNos nossos dias, quando as sociedades se encontram iconicamente impregnadas do erótico, retratos como este são imagens pouco prezadas.

Se se pretender ilustrar a modéstia, o recato, a perfeição de alma até, numa jovem mulher, este retrato da jovem Sassetti, ao que se supõe, pintado por Ghirlandaio (1449-1494), é uma demonstração eloquente: na limpidez do olhar, na atitude de corpo e elegante discrição no vestir.

Retrato onde não existe malícia, nem sombra de sedução, ainda que não se possa dizer que o olhar é de uma mulher ingénua, vemos apenas no conjunto a força tranquila do conhecimento de si, no rosto a firmeza de carácter, e, sobretudo, num olhar limpo, franqueza com que se deve olhar o mundo.

A pintura pertence à colecção Gulbenkian e pode ver-se no respectivo museu em Lisboa.

 

Amor de centauros num fragmento de Metamorfoses de Ovídio

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Rubens - Amor de Centauros 500pxOs seres imaginários parcialmente humanos, nas suas acções e comportamentos lendários dão em geral conta do lado bestial da humanidade. Despidos da razão e livres das convenções das sociedades humanas, permitem o retrato dos instintos à solta, sendo com isso a mitologia que os envolve exemplar.

Hoje são os centauros que vêm à conversa através de dois fragmentos de Metamorfoses de Ovídio na que é conhecida como a batalha com os Lápitas, povo da Tessália na Grécia.

Os centauros são seres monstruosos, meio homem, meio cavalo. Têm busto de homem e às vezes, também as pernas, mas a parte posterior do corpo, a partir do busto, é de cavalo e, pelo menos na época classica, têm quatro patas de cavalo e dois braços de homem. Vivem nas montanhas e nas florestas, alimentam-se de carne crua e têm costumes extremamente brutais.

in Pierre Grimal, Dicionário da Mitologia, Difel, Lisboa, 1992.

 

Transcrevo parte do relato da batalha entre centauros e humanos onde à justiça do pretexto se sucedem as atrocidade da luta.

 

Metamorfoses, Livro XII, 210-225

 

‘O filho do audaciosa Ixíon desposara Hipodamia, e convidara

os ferozes filhos da Nuvem [os centauros] a participar no banquete, em mesas

dispostas em filas dentro de uma gruta coberta por árvores.

Estavam presentes os chefes da Hemónia, eu próprio lá estive;

e o palácio em festa ressoava com a algazarra confusa da turba.

Eis que cantam Himeneu, o átrio enche-se do fumo das tochas,

avança a noiva rodeada de uma caterva de matronas e moças,

ela de deslumbrante beleza. Afortunado chamámos a Pirítoo

por ter tal esposa. Por pouco não nos enganámos no augúrio.

O caso é que, ó Êurito, ó mais feroz dos ferozes Centauros,

o teu coração se inflama, tanto pelo vinho, como pela visão

da jovem, e reina em ti a embriaguez duplicada pelo desejo.

De imediato, reviradas as mesas e destroçado o banquete,

a recente esposa é levada à força, arrastada pelos cabelos.

Êurito rapta Hipodamia, cada um dos outros a que lhe apraz

ou a que podia: era a imagem de uma cidade conquistada!

 

O relato prossegue com a ferocidade da batalha e a bestialidade dos comportamentos até que mais à frente encontramos um casal de centauros capaz dos sentimentos do amor e sacrifício.

Descrição onde a harmonia que a beleza convoca se reparte pelos detalhes da sedução amorosa. Acontece a este amor, pelo decurso da batalha, um pungente desenlace:

 

Metamorfoses, Livro XII, 393-428.

‘Nem a tua formosura, Cílaro, te salvaguardou do combate

(se na verdade, admitimos que tal natureza tem formosura).

A barba despontava e era da cor do ouro, e da cor do ouro

os seus cabelos caíam dos ombros até meio das omoplatas;

no rosto, um vigor encantador; a nuca, os ombros, as mãos,

o peito e tudo aquilo que nele humano era, assemelhava-se

às estátuas aplaudidas de um escultor. A sua parte equina era

irrepreensível, não inferior à humana: dá-lhe pescoço e cabeça,

e seria digno de Castor. Tão apropriado à sela é o seu dorso,

tão robusto e musculoso é o peito. É todo negro, mais negro

que negro pez, mas alva é a cauda, e de cor alva as patas.

Muitas da sua raça suspiraram por ele, mas só Hilómene

o arrebatou: fémea mais deslumbrante entre aqueles seres

meio-amimais jamais habitou nas profundezas das florestas.

Foi a única que conquistou Cílaro, com carícias, com amor

e declarações de amor. E procura também arranjar-se, tanto

quanto o corpo o permite: ora alisa os cabelos com o pente,

ora se atavia com grinaldas de rosmaninho, ora de violetas

e de rosas, outras vezes trazendo brancos lírios;

duas vezes ao dia lava o rosto no ribeiro que desliza do cimo

da floresta de Págasas, duas vezes mergulha o corpo no rio.

E, pendentes do ombro ou do flanco esquerdo, não usa peles,

senão as que lhe assentam bem, e de animais seleccionados.

O amor neles era igual. Deambulavam pelas serranias juntos,

juntos entravam nas grutas. Também então entraram juntos

no palácio do Lapita, e juntos enfrentaram a feroz batalha.

 

‘Quem lançou não se sabe, mas eis que um dardo é disparado

da esquerda e crava-se em ti, Cílaro, pouco abaixo onde o peito

sucede ao pescoço. Ao extraírem o dardo, o coração, atingido

por pequena ferida, vai-se esfriando junto com o corpo todo.

De imediato, Hilómene toma nos braços o corpo moribundo,

e, pressionando com a mão, tenta acalmar a ferida, e encosta

os lábios aos lábios dele, e procura travar a alma que foge.

Mas quando o vê morto, com palavras que o clamor impediu

de chegar aos meus ouvidos, deixou-se cair sobre o dardo

que nele estava cravado, e morreu abraçada ao marido.

 

Transcrito de Ovídio, Metamorfoses, tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, Lisboa, 2007.

 

Nota iconográfica

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Rubens (1577-1640).

Se a pintura mitológica de Rubens ressuma erotismo, foi através deste  pequeno quadro da colecção Gulbenkian que passei a olhá-la integrando esta dimensão. Enquanto as telas gigantescas nos esmagam com a sua grandiloquência, nesta pintura, que pelas dimensões permite uma simultânea apreensão de conjunto e a observação do pormenor, o nervoso da pincelada dá conta de forma genial, da excitação que move os centauros na sua corrida, que, supomos, é para a materialização do prazer. A força animal que envolve o prazer erótico humano salta nesta alegoria, onde os centauros macho e fémea incorporam a violência do desejo que urge satisfazer.