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Rubens - Amor de Centauros 500pxOs seres imaginários parcialmente humanos, nas suas acções e comportamentos lendários dão em geral conta do lado bestial da humanidade. Despidos da razão e livres das convenções das sociedades humanas, permitem o retrato dos instintos à solta, sendo com isso a mitologia que os envolve exemplar.

Hoje são os centauros que vêm à conversa através de dois fragmentos de Metamorfoses de Ovídio na que é conhecida como a batalha com os Lápitas, povo da Tessália na Grécia.

Os centauros são seres monstruosos, meio homem, meio cavalo. Têm busto de homem e às vezes, também as pernas, mas a parte posterior do corpo, a partir do busto, é de cavalo e, pelo menos na época classica, têm quatro patas de cavalo e dois braços de homem. Vivem nas montanhas e nas florestas, alimentam-se de carne crua e têm costumes extremamente brutais.

in Pierre Grimal, Dicionário da Mitologia, Difel, Lisboa, 1992.

 

Transcrevo parte do relato da batalha entre centauros e humanos onde à justiça do pretexto se sucedem as atrocidade da luta.

 

Metamorfoses, Livro XII, 210-225

 

‘O filho do audaciosa Ixíon desposara Hipodamia, e convidara

os ferozes filhos da Nuvem [os centauros] a participar no banquete, em mesas

dispostas em filas dentro de uma gruta coberta por árvores.

Estavam presentes os chefes da Hemónia, eu próprio lá estive;

e o palácio em festa ressoava com a algazarra confusa da turba.

Eis que cantam Himeneu, o átrio enche-se do fumo das tochas,

avança a noiva rodeada de uma caterva de matronas e moças,

ela de deslumbrante beleza. Afortunado chamámos a Pirítoo

por ter tal esposa. Por pouco não nos enganámos no augúrio.

O caso é que, ó Êurito, ó mais feroz dos ferozes Centauros,

o teu coração se inflama, tanto pelo vinho, como pela visão

da jovem, e reina em ti a embriaguez duplicada pelo desejo.

De imediato, reviradas as mesas e destroçado o banquete,

a recente esposa é levada à força, arrastada pelos cabelos.

Êurito rapta Hipodamia, cada um dos outros a que lhe apraz

ou a que podia: era a imagem de uma cidade conquistada!

 

O relato prossegue com a ferocidade da batalha e a bestialidade dos comportamentos até que mais à frente encontramos um casal de centauros capaz dos sentimentos do amor e sacrifício.

Descrição onde a harmonia que a beleza convoca se reparte pelos detalhes da sedução amorosa. Acontece a este amor, pelo decurso da batalha, um pungente desenlace:

 

Metamorfoses, Livro XII, 393-428.

‘Nem a tua formosura, Cílaro, te salvaguardou do combate

(se na verdade, admitimos que tal natureza tem formosura).

A barba despontava e era da cor do ouro, e da cor do ouro

os seus cabelos caíam dos ombros até meio das omoplatas;

no rosto, um vigor encantador; a nuca, os ombros, as mãos,

o peito e tudo aquilo que nele humano era, assemelhava-se

às estátuas aplaudidas de um escultor. A sua parte equina era

irrepreensível, não inferior à humana: dá-lhe pescoço e cabeça,

e seria digno de Castor. Tão apropriado à sela é o seu dorso,

tão robusto e musculoso é o peito. É todo negro, mais negro

que negro pez, mas alva é a cauda, e de cor alva as patas.

Muitas da sua raça suspiraram por ele, mas só Hilómene

o arrebatou: fémea mais deslumbrante entre aqueles seres

meio-amimais jamais habitou nas profundezas das florestas.

Foi a única que conquistou Cílaro, com carícias, com amor

e declarações de amor. E procura também arranjar-se, tanto

quanto o corpo o permite: ora alisa os cabelos com o pente,

ora se atavia com grinaldas de rosmaninho, ora de violetas

e de rosas, outras vezes trazendo brancos lírios;

duas vezes ao dia lava o rosto no ribeiro que desliza do cimo

da floresta de Págasas, duas vezes mergulha o corpo no rio.

E, pendentes do ombro ou do flanco esquerdo, não usa peles,

senão as que lhe assentam bem, e de animais seleccionados.

O amor neles era igual. Deambulavam pelas serranias juntos,

juntos entravam nas grutas. Também então entraram juntos

no palácio do Lapita, e juntos enfrentaram a feroz batalha.

 

‘Quem lançou não se sabe, mas eis que um dardo é disparado

da esquerda e crava-se em ti, Cílaro, pouco abaixo onde o peito

sucede ao pescoço. Ao extraírem o dardo, o coração, atingido

por pequena ferida, vai-se esfriando junto com o corpo todo.

De imediato, Hilómene toma nos braços o corpo moribundo,

e, pressionando com a mão, tenta acalmar a ferida, e encosta

os lábios aos lábios dele, e procura travar a alma que foge.

Mas quando o vê morto, com palavras que o clamor impediu

de chegar aos meus ouvidos, deixou-se cair sobre o dardo

que nele estava cravado, e morreu abraçada ao marido.

 

Transcrito de Ovídio, Metamorfoses, tradução de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, Lisboa, 2007.

 

Nota iconográfica

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Rubens (1577-1640).

Se a pintura mitológica de Rubens ressuma erotismo, foi através deste  pequeno quadro da colecção Gulbenkian que passei a olhá-la integrando esta dimensão. Enquanto as telas gigantescas nos esmagam com a sua grandiloquência, nesta pintura, que pelas dimensões permite uma simultânea apreensão de conjunto e a observação do pormenor, o nervoso da pincelada dá conta de forma genial, da excitação que move os centauros na sua corrida, que, supomos, é para a materialização do prazer. A força animal que envolve o prazer erótico humano salta nesta alegoria, onde os centauros macho e fémea incorporam a violência do desejo que urge satisfazer.

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