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Miniatura persa 38 1600-10Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

 

Vivo num quotidiano de conforto sem luxos, entregue sempre que possível aos prazeres do espírito. Olho o que me rodeia na intimidade, e revejo os vestígios que guardam a memória do que foi uma vida.

É neste ambiente que surgem as imagens diárias da tragédia das multidões que chegam, quando chegam, às portas do paraíso que não as quer receber.

Gente que aparentemente perdeu, ou deixou para trás, tudo o que ao longo da vida gostou, possuiu, e com a roupa que traz no corpo, a sós, ou com os filhos nos braços, fugiu na barca do paraíso(?), que apenas por misericórdia não se transforma na barca do inferno ao fazer a viagem que os trará às portas deste universo sonhado, onde, com sorte, encontrarão um muro de arame farpado e uma ajuda de sobrevivência.

De que vida é preciso querer fugir para que, não importem os perigos do caminho, mesmo eventualmente a morte, a fuga seja melhor? Não sabemos! Nem as notícias nos dizem. Apenas ouvimos falar de números: tu ficas com tantos, eu não quero nenhuns, eu só aceito loiros (é uma força de expressão), e por aí fora.

Na terra de onde partiram, que se passa? Quem é responsável? Como espera o mundo que o êxodo acabe: quando não restar lá ninguém vivo?

Perguntas a que não sei responder nem aos próceres do mundo parecem preocupar. Entretanto,  os vivos que chegam, com o que trazem na cabeça e a marca indelével de uma experiência terrível, são, com as mortes, tão só a macabra estatística que todos os dias nos relatam. Até quando?

A epígrafe com que abro o artigo é o início de um poema de Rainer Maria Rilke (1875-1926) que a seguir transcrevo em tradução de Jorge de Sena.

Poema de confronto entre a vida e a poesia, deixa por resolver o que todos os dias sentimos como irresolúvel: onde cabe na vida a poesia?

“O SAGE, DICHTER…”

 

Que fazes tu, poeta? Diz! — Eu canto.

Mas o mortal e monstruoso espanto

Como o suportas? — Canto.

E o que nome não tem, tu podes tanto

Que o possas nomear, poeta? — Canto.

De onde te vem o direito ao Vero, enquanto

Usas de máscaras, roupagens? — Canto.

E o que é violento e o que é silente encanto,

Astros e temporais, como te sabem? — Canto.

 

in Poesia do Século XX, Antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

Poema original

 

O sage, Dichter, was du tust?

— Ich rühme.

 

Aber das Tödliche und Ungetüme,

wie hältst du’s aus, wie nimmst du’s hin?

— Ich rühme.

 

Aber das Namenlose, Anonyme,

wie rufst du’s, Dichter, dennoch an?

— Ich rühme.

 

Woher dein Recht, in jeglichem Kostüme,

in jeder Maske wahr zu sein?

— Ich rühme.

 

Und daß das Stille und das Ungestüme

wie Stern und Sturm dich kennen?

— weil ich rühme.

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