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René Burri (1933-2014) - Che Guevara 600pxÉ com indisfarçável melancolia que estes tempos políticos me levam ao perfil inortodoxo de Che Guevara, escrito em forma de balada por Hans Magnus Enzensberger (1929) nos anos 70 do séc. XX: E. G. de la S..

A luta entre o voluntarismo ideológico e a força subterrânea da economia tem trazido o desaire aos aprendizes de feiticeiros e a desgraça às populações cobaias. Tivemos a experiência recente do liberalismo criativo que transformaria a velha sociedade portuguesa numa economia de vanguarda, com os resultados observáveis à nossa volta.

Caminhamos agora para nova experiência fazendo renascer o que não há muito tempo colapsou, vendendo como coisa muito nova um bafiento baú.

O desacerto entre os homens e as ideias provavelmente sempre existiu, e quando aplicadas estas, a brutalidade do real cai em cima dos ideais rápida e sem contemplações, ou como escreve o poeta:

…Depois das primeiras vitórias, começou a ver

como coisa muito nova o Novo Homem, uma velha ideia. A economia, porém,

não dava ouvidos aos seus discursos. O “spaghetti continuava a a faltar.

A pasta dentífrica também tinha acabado — e de que é feita a pasta dentífrica?

As notas de banco que assinava não tinham valor.

O texto interrompe-se, e tranquilamente continuam a afluir as respostas.

Deixo-vos o poema na totalidade.

E. G. de la S.

 

Durante uns tempos milhares usaram o seu pequeno boné

e multidões desfilaram com retratos seus

em grande formato, gritando bem alto o seu nome.

Agora, aqueles cortejos pela City quase parecem irreais,

como o país e a classe que o viram nascer.

 

Longe dos matadouros e das barracas e dos bordéis

ia-se desfazendo a casa do pai, junto ao rio. O dinheiro fora-se,

mas a piscina ficou. Um rapazinho tímido,  

alérgico, muitas vezes quase a sufocar. Em luta com o seu corpo,

fumando charutos, fez-se homem (o que isso seja, não é história para aqui).

 

Debaixo do travesseiro: Júlio Verne. O seu primeiro ataque,

a sua primeira fuga para a realidade: “Tristes Trópicos”.

Mas os leprosos, debaixo da varanda podre no Amazonas,

não entendiam o que ele dizia, e continuavam a morrer. Só então

ele descobriu o inimigo que lhe seria fiel até ao fim,

 

e o inimigo do inimigo. Depois das primeiras vitórias, começou a ver

como coisa muito nova o Novo Homem, uma velha ideia. A economia, porém,

não dava ouvidos aos seus discursos. O spaghetti continuava a a faltar.

A pasta dentífrica também tinha acabado — e de que é feita a pasta dentífrica?

As notas de banco que assinava não tinham valor.

 

O açúcar pegava-se à camisa. Máquinas, pagas a peso de ouro,

enferrujavam nos cais. La Rampa andava cheia de boatos.

Lambidela de botas em Moscovo, novos créditos. O povo ia para a fila,

não oferecia segurança, contava anedotas esfomeadas. Por toda a parte bufos,

intrigas que nunca conseguiu entender. Um eterno estrangeiro.

 

Quis pregar moral aos Russos. O amigo dos homens

clamava pelo ódio que há-de transformar o homem

numa máquina de morte, violenta, certeira e fria. No fundo,

uma mimosa: a sua leitura preferida eram poemas (sabia Baudelaire

de cor). Fraco e delicado, os serviços secretos chamavam-lhe um figo.

 

E assim se refugiou nas armas, para ficar onde tudo era claro

e inequívoco, o inimigo inimigo e a traição traição: na selva.

Mas ele próprio parecia estar perto do fim. Rosto cheio, sem barba, as fontes grisalhas,

óculos de lentes grossas, como um caixeiro-viajante, de “canadiana“, assim

disfarçado, em Nancahuazú, saiu para a sua última missão.

 

Não falava Quechua nem Guarani. O silêncio dos índios

era absoluto, como se viéssemos de um outro mundo. Insectos

lianas, mato rasteiro. Os camponeses como pedras. Cólicas,

ataques de tosse, edemas. Doses maciças de cortisona, adrenalina.

A última injecção, já ofegante: Ave Maria puríssima!

 

E logo a lenda se espalhou como espuma. Somos já

super-homens, invencíveis. (Sempre esta fatal ironia,

de que os camaradas se não apercebem.) Um farrapo humano, um ídolo.

Nós ter-lhe-íamos dado um lugar, anunciavam os mais progressistas

de entre os seus inimigos mortais. Em vez disso, puseram em exposição o seu cadáver

 

com as mãos decepadas. Uma aventura mística, e

uma paixão que lembra irresistivelmente a imagem de Cristo:

isto escreveram os seus adeptos. Ele: Les honneurs, ça m’emmerde.

Não foi há muito tempo, e já esquecido. Só os historiadores

se instalam como as traças no pano do seu uniforme.

 

Buracos na guerra popular. De resto, na metrópole, só já

uma boutique fala dele, com o nome que lhe roubou.

Na Kensington High Street acende-se o brilho dos pauzinhos de incenso;

sentados junto da caixa registadora, os últimos hippies, entediados,

irreais, como fósseis, e abúlicos, e quase imortais.

 

O texto interrompe-se, e tranquilamente continuam a afluir as respostas.

 

Tradução de João Barrento.

in Hans Magnus Enzensberger, Mausoléu, Edições Cotovia, Lda, Lisboa, 2004.

 

A imagem de Che Guevara que abre o artigo reproduz uma famosa fotografia tirada por René Burri (1933-2014).

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