Bonacon, um fantástico guerreiro

Bonnacon-Medieval-Monster-01 500pxViajar pelo Bestiário medieval é percorrer um fascinante mundo onde a imaginação preenchia a insuficiência de conhecimento objectivo.
A par de um quotidiano materialmente difícil, floresceu em alguns conventos o cultivo da elaboração de manuscritos iluminados (texto acompanhado de imagens) recolhendo obras herdadas da antiguidade clássica e textos de doutrina que explicavam o mundo à luz do cristianismo. Obras de arte de muito difícil acesso, vamos hoje, lentamente, conhecendo alguns desses preciosos in-folios através tanto da sua reprodução em fac-símile, como em edições antológicas, por vezes de sufocante beleza.

Bonnacon-Medieval-Monster-03 500pxHoje recordo um animal imaginário, o Bonacon, fruto da fantasia do mundo antigo. Ele leva-nos a pensar como a terra pode, afinal, ser um lugar de inocência e brincadeira, e não apenas a crueldade que nos assombra amiúde, sobretudo quando hoje nos confrontamos, enquanto comunidade, com assassinos exaltados que pretendem fazer-nos viver como eles querem, ou morreremos, ainda que eles possam morrer também pelo caminho.
Era este mundo de inocência medieval também assombrado pela crença, onde o irracional domina e a muito custo a razão abre caminho, como o romance O Nome da Rosa recria.

Bonnacon-Medieval-Monster-02O Bonacon seria uma fantástica arma de guerra tornando invencível quem o possuía, se domesticável, por virtude duma peculiar química que afugenta.

Bonnacon-Medieval-Monster-04 500pxArma unicamente defensiva, à aproximação do inimigo o Bonacon expelia excrementos a uma velocidade tal que poderiam ser projectados até quase cem metros de distância, e com o poder atordoante que se imagina, neutralizar os inimigos perseguidores.
De tal espécie não se conhece filiação ou descendência. Seria talvez mamífero, quadrúpede, aparentado com um touro, com um par de cornos retorcidos. As crónicas não informam sobre a sua corpulência ou agilidade. A notícia da sua existência, referida por Plínio na História Natural (8.16),  foi-me dada por Christian Heck e Rémy Cordonnier no fascinante livro The Grand Medieval Bestiary, o qual nada refere sobre estes aspectos. Habitaria as terrae incognitae da Trácia à Ásia, surgindo representado em alguns mappae mundi medievais nas regiões do norte.
Pouco representado nos códices medievais, quando surge aparece em atitudes de defesa, projectando excrementos sobre os perseguidores os quais se protegem sob os escudos, assustando assim os intrépidos cavaleiros cujas provas de heroísmo são bastamente relatadas nas epopeias da época.
Termino com mais uma imagem do fabuloso Bonacon, sempre em acção, tal como as anteriores, extraída de códices medievais.

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O sucesso editorial do livro de Hitler, poemas de Nelly Sachs e Hans Magnus Enzensberger com passagem pelo filme The book thief

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Felix Nussbaum 4 - O segredo 1939 500pxÉ provável que a coragem dos ingleses em enfrentar o risco, uma vez mais salve a Europa. Não tanto do Holocausto de que falam os poemas de hoje, mas de um colapso induzido pela embriaguez da burocracia europeia empapado no seu próprio poder.

Não sou eurocéptico. Conheci a proibição de sair de Portugal sem autorização militar especial. Experimentei a restrição de apenas poder viajar para o estrangeiro com pouquíssimo dinheiro. Vivi algum tempo, até sufocar, a “felicidade” do sistema soviético na Polónia; por isso, sinto-me o mais feliz entre os homens ao viver a condição de cidadania que Portugal na União Europeia permite. Isto não significa que aprecie a possibilidade de alguém escolher por mim a cor do papel higiénico, forçando a caricatura do caminho para onde a burocracia de Bruxelas aponta, a qual está a conduzir a um processo em vias de extinção o projecto europeu saído das cinzas da guerra contra a Alemanha Nazi.

Assistimos por estes dias ao espectáculo surpreendente de uma multidão esgotar edições do livro de Hitler. Se de alguma coisa é sintoma o sucesso editorial do livro de Hitler, para além de uma legítima curiosidade intelectual, será seguramente preocupante para todos.

Felix Nussbaum 1 - Auto-retrato no atelier 1938 500pxPor um daqueles cruzamentos de acaso, vi uma destas noites o filme The book thief, A rapariga que roubava livros. Como é sabido, no filme a ligação aos livros da menina que não sabia ler começa com um manual de coveiro recolhido por ela junto à campa do irmão, e por onde aprende as primeiras letras. Esta ligação simbólica entre a morte e o renascer pelo livro irão atravessar o filme.

A história desenvolve-se na Alemanha de Hitler, e a etapa seguinte com livros leva-nos à fogueira onde são queimados, e ardem, os livros considerados perigosos pelos sequazes de Hitler, no que foi um momento histórico marcante da Alemanha hitleriana. Abandonado o local pela multidão entre obrigada e entusiasta, a menina aproxima-se da fogueira e retira um livro ainda fumegante, que esconde. Era O Homem Invisível do escritor inglês H. G. Wells (1866-1946), o qual atravessará a história como metáfora, sendo instrumento de esperança e da liberdade de espírito que a doutrina hitleriana pretendeu matar.

Lembrá-lo uma vez e outra nos testemunhos de memória e no estudo da história é tarefa de humanidade para que o horror não se repita.

O Holocausto colocou à literatura alemã o desafio da linguagem: como expressar o horror e o seu tempo. Paulatinamente os escritores foram percorrendo o caminho expressivo que permite na distância sentir o inominável materializado. Escolho dois poemas que dessa expressão são exemplo. Primeiro um poema que Hans Magnus Enzensberger (1929) dedica a Nelly Sachs (1891-1970), Os Desaparecidos, depois, um poema desta, O Teu Corpo Em Fumo Pelo Ar, ambos em tradução de Paulo Quintela.

Felix Nussbaum 3 - Auto-retrato com passaporte judeu 1943 500pxAcompanham os poemas imagens de pinturas de Felix Nussbaum (1904-1944), pintor de génio com uma biografia exemplar: nasceu judeu e foi parar a Auschwitz em 2 de Agosto de 1944, depois de ter vivido fugitivo e escondido durante o período nazi.

Felix Nussbaum 5 - Casal de luto 1943 450pxOs Desaparecidos

 

a terra não os engoliu, foi o ar?

como a areia eles são numerosos, mas não em areia

se tornaram, sim em nada, em bandos

estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,

como os minutos, mais do que nós,

mas sem lembrança. não inventariados,

impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos

estão os seus nomes, colheres e solas.

 

não nos dão pena. ninguém se pode

lembrar deles: nasceram,

fugiram, morreram? ninguém os achou

menos. sem falha

é o mundo, mas unido

por aquilo que ele não abriga,

pelos desaparecidos. estão por toda a parte.

 

sem os ausentes nada existiria.

sem os fugitivos nada era firme.

sem os imensuráveis nada mensurável.

sem os esquecidos nada seguro.

 

os desaparecidos são justos.

assim nos desvanecemos também.

Felix Nussbaum 2 - Tocador de orgão da Barbária 1942-43 500px

O Teu Corpo Em Fumo Pelo Ar

 

E quando esta minha pele estiver desfeita

eu verei Deus sem a minha carne.

Job

 

OH AS CHAMINÉS

Sobre as moradas da morte engenhosamente inventadas

Quando o corpo de Israel desfeito em fumo partiu

Pelo ar —

Como limpa-chaminés uma estrela o recebeu

Que se fez negra

Ou era um raio de sol?

 

Oh as chaminés!

Vias da liberdade para o pó de Jeremias e de Job —

Quem vos inventou e compôs pedra sobre pedra

De fumo o caminho aos fugitivos?

 

Oh as moradas da morte,

De arranjo convidativo

Para o hospedeiro, outrora hóspede —

Ó dedos,

Pondo a soleira de entrada

Como uma faca entre vida e morte —

 

Ó vós chaminés,

Ó vós dedos,

E o corpo de Israel em fumo pelo ar!

in Poemas de Nelly Sachs, antologia, versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela, Portugália Editora, Lisboa, 1967.

Do Amor em três poemas de Emily Dickinson

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Henri Matisse 1869-1954 La liseuse distraite 1919Nascemos para ser felizes? A resposta impulsiva é sim. Mas é a felicidade permanente possível? É difícil sequer imaginar semelhante anseio. Fica-nos, no entanto, a possibilidade da busca para o conseguir, pois felizes, e sempre, queremos todos ser.

E é o amor o caminho para essa felicidade? Aí a resposta tem tantas possibilidades quantos os humanos que já viveram e vivem, ou viverão.

A experiência do amor, pessoal e intransmissível, é aflorada pela poesia uma e outra vez, recorrentemente, e nas suas variadas facetas: do amor-paixão ao amor-renúncia, do amor ao outro ao amor aos outros, de filhos a pais e pais a filhos, e por aí fora; encontrando cada um nessas manifestações os momentos de felicidade que fazem a vida compensadora. Mas aquele que, adultos, nos faz vibrar no mais fundo de todas as fibras é o amor consumado no sexo, e desse falam os poemas de Emily Dickinson (1830-1886), que hoje escolhi, num crescendo, do desejo à consumação.

 

I

Noites Bravias — Noites Bravias!

Estivesse eu contigo

Tais Noites o nosso

Deleite seriam!

 

Fúteis — os Ventos —

A Coração em Porto —

Inútil a Bússola —

Como o Mapa inútil!

 

Remando em Éden —

Ah, o Mar!

E eu ancorar — Esta Noite —

Em Ti!

 

II

E se eu disser que não vou esperar!

Se eu rebentar Portões carnais —

E conseguir chegar — a ti!

 

Se eu me livrar de ser Mortal —

Onde doer — Dizer não mais —

E em Liberdade mergulhar!

 

Já não me podem mais — prender!

Masmorras — Armas implorar

Nada me dizem — já — a mim —

 

Tal como o riso — há — uma hora —

Os Laços — Festas — o que fora —

Ou mesmo quem ontem — morreu!

 

III

Aprendemos o Todo do Amor —

O Alfabeto — as Palavras —

Um Capítulo — depois o Livro imenso —

E — a Revelação — então fechou-se —

 

Mas uma Ignorância se fitou

No Olhar de Cada um de Nós —

Mais divina do que é a da Infância —

E cada um para o outro, uma Criança —

 

Tentando definir e explicar

O que Nenhum de nós — compreendia —

Ah, que é tão larga a Sabedoria —

E a Verdade — têm formas tão diversas!

 

in Emily Dickinson, Duzentos Poemas, tradução, belíssima, posfácio e organização de Ana Luísa Amaral, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Matisse (1869-1954), A leitora distraída, de 1919, como que embalada nas suas memórias de amor após a leitura de tão empolgante poesia.

Um pequeno desvio pela Ópera

Kees van Dongen - Modjesko opera singer 1908Quem me conhece sabe da minha paixão pelo canto, feminino em particular. Embora ouvisse ópera antes, foi numa memorável noite de 1977 no Teatro de S. Carlos em Lisboa, cantava Mara Zampieri (1951), que senti pela primeira vez na alma o arrepio de volúpia provocado pelo canto que torna os homens, quando o sentem, dependentes à vida da sua repetição.

Gosto de vozes femininas, cheias no registo médio, capazes de descer aos graves do mistério e subir aos etéreos agudos do céu. São poucas, muito poucas, as que percorrem a gama. Por isso, preencho-a com a ajuda de várias. A poligamia é o estado natural do homem.

Não farei a história das minhas paixões vocais. Poucas foram as que o uso desiludiu, e de todas guardo as mais gratas recordações. Hoje revisitei Katia:

 

Conhecia-lhe a voz gravada.

Ouvi-a no Tivoli, reaberto para a função.

Dourados esbatidos, veludos aspirados, orquestra sofrível.

Ela, bela balzaquiana, cantou e arrepiou

com a voz que algumas mulheres possuem

capaz de viciar à vida.

 

Mais tarde ouvi-a com piano.

Esplendorosa

na opulência das carnes que os vestidos mostravam,

cantou.

Segundo os peritos, com vibrato excessivo. Não sei.

Para mim tornou-se indispensável.

Felizmente há cd’s.

Raras semanas passo sem ela.

É a minha dependência.

 

 

Nota final

Escrito há vários anos, este texto que agora encontrei vasculhando ficheiros, apenas perde a actualidade na frequência com que ouço Katia Ricciarelli (1946). Infiel como qualquer homem, outros amores e paixões se sobrepuseram, juntando novas vozes ao prazer quotidiano de ouvir. A voragem do tempo não perdoa, e o canto lírico é implacável a consumir a beleza vocal. Felizmente a natureza é inesgotável e continua a dotar mulheres deste suplemento de voz.

Reduzindo ao essencial o prazer ao ouvir Katia Ricciarelli, esquecia as obras de Puccini, passava ao lado da Micaela na Carmen de Bizet (com Karajan), e escolheria de Verdi o recital editado há longos anos pela RCA (gravação de 1972, suponho), com a Orquestra Filarmónica de Roma dirigida por Gianandrea Gavazzeni (1909-1996). Nas operas completas de Verdi, preferiria I Due Foscari com José Carreras (1946) e Lamberto Gardelli (1915-1998) na orquestra, onde Piero Cappuccilli (1926-2005) no papel de Doge protagoniza o mais dilacerado dos pais; acrescentaria Il Ballo in Maschera com Placido Domingo (1941) e Claudio Abbado (1933-2014) na orquestra, e terminaria com o Falstaff dirigido por Carlos Maria Giulini (1914-2005) com um filosófico Renato Bruson (1936) no protagonista.

Para Rossini, e retrato maior da longa associação da cantora ao Festival de Pesaro dedicado ao compositor, escolheria a gravação (1983) de La Donna del Lago, partilhada com a imensa e saudosa voz de Lucia Valentini-Terrani (1946-1998), e a Orquestra de Câmara da Europa dirigida por Maurizio Pollini (1942) na sua única incursão como director de orquestra (gravação FONITCETRA/CBS). Esquecia o tardio recital Rossini com a orquestra da Ópera de Lyon (1991), e seguramente viveria com enorme prazer as peripécias de Il Viaggio a Reims levado pelo elenco de luxo da primeira gravação de Claudio Abbado e a Orquetra de Câmara da Europa (Festival de Pesaro 1984, edição DG). Em maré de religiosidade entregar-me-ia ao Stabat Mater de Rossini, gravado em estado de graça por volta de 1981/822 pelo  maestro Giulini com a Orquestra Philharmonia, coro, e o trio de cantores principais de La Donna del Lago: Ricciarelli/Valentini-Terrani/Dalmacio Gonzalez (1940).

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Kees van Dongen (1877-1968), Modjesko cantora de ópera, de 1908.

Lição de Coisas — um poema de Guillevic

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Christopher Anderson New York City 2008 500pxRefeito do choque de um acidente grave: despiste, capotamento, e carro para a sucata,  de onde saí ileso, regresso à poesia.

Da multidão de pensamentos que nos assaltam no rescaldo de experiência tão marcante, é a crença no milagre que acaba por preencher o imenso da interrogação.

Se medimos o pulso ao mundo pela nossa experiência pessoal, olhar em volta e colocar em contexto essa experiência é parte essencial de um recentrar a importância do que nos acontece no mais vasto contexto da envolvente. O poema de Guillevic (1907-1997), Lição de Coisas, que a seguir transcrevo, para isso mesmo chama a atenção.

 

Lição de Coisas

 

O sangue é um líquido complicado

Que circula. É de um vermelho

Que aliás não se vê e que muda

Como uma planura sob várias luas.

 

O sangue contém corpos numerosos

Dos quais algumas pessoas sabem a fórmula.

 

É o nosso sangue. É ele

Que anda à volta, que volta,

Que alimenta.

 

O sangue derrama-se facilmente,

Basta-lhe apenas uma abertura.

 

O sangue de um morto por acidente

Não é o mesmo, na rua,

 

Que o de um morto pela liberdade,

Derramado na mesma rua.

 

Tem cada qual um modo particular

De ser vermelho e de gritar.

Tradução de David Mourão-Ferreira

in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, Set-Dez 2003.

 

Abre o artigo uma foto de Christopher Anderson, fotógrafo da Magnum, intitulada New York City 2008.

A mão que assinou o papel… — poema de Dylan Thomas

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Ernst Max - Forma Humana 1931 350pxInfelizmente a guerra não desapareceu do nosso horizonte e é até presença quotidiana um pouco por todo o mundo. Reiterar que ela é apenas resultado da vontade dos homens e não qualquer castigo divino faz parte de uma propedêutica da vida que vale a pena prosseguir.

Os anos passam e o sonho de John Lennon (1940-1980) na sua canção Imagine continua por realizar:

 

Imagine all the people / Imagina toda a gente

Living life in peace / Vivendo a vida em paz

 

You may say I’m a dreamer / Podes dizer que sou sonhador

But I’m not the only one / Mas não sou apenas eu

 

O poema de Dylan Thomas (1914-1953) que hoje transcrevo — A mão que assinou o papel… — coloca a questão suprema do poder — o poder de decidir da guerra e da paz — de forma exemplar, ao tornar explícito que esse poder é um acto humano de consequências inumanas porque devastadoras:

A poderosa mão conduz a um ombro descaído;

sofrem de caimbras as junturas dos dedos engessados.

A mão que assinou o tratado engendrou febre,

e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:

 

E com a beleza que dói e a poesia consegue, termina:

Há mãos que regem a piedade, outras o céu:

só não há que vertam lágrimas.

 

ou no original:

A hand rules pity as a hand rules heaven;

Hands have no tears to flow.

 

Eis o poema em tradução de David Mourão-Ferreira:

 

A mão que assinou o papel destruiu uma cidade;

cinco soberanos dedos tributaram a respiração,

de mortos duplicaram o mundo, a meio cortaram um país

estes cinco Reis provocaram a morte de um rei.

 

A poderosa mão conduz a um ombro descaído;

sofrem de caimbras as junturas dos dedos engessados.

Uma pena de pato pôs fim ao morticínio

que tinha posto fim às negociações.

 

A mão que assinou o tratado engendrou febre,

e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:

grande é a mão que sobre todos impera

com o gatafunho de um nome.

 

Os cinco reis contam os mortos, mas não acalmam

a crosta das f’ridas nem a fronte afagam.

Há mãos que regem a piedade, outras o céu:

só não há que vertam lágrimas.

 

in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, Set-Dez 2003.

Abrem e fecham o artigo imagens de duas pinturas de Max Ernst (1891-1976), respectivamente: Forma Humana de 1931 a abrir e Sinal para Uma Escola de Monstros de 1968 a fechar.

Ernst Max - Sinal para uma escola de monstros 1968 500px

 

Ode anacreôntica de António Diniz da Cruz e Silva

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Botticelli - Primavera pormenor 4 450px

Há uma delicadeza de flor frágil na ode anacreôntica de António Diniz da Cruz e Silva (1731-1799) que hoje transcrevo.

Envolvido no manto diáfano da paisagem primaveril encontra-se um apelo ao amor, vivido em tempo jovem, não vá a vida passar sem que esse ardor juvenil se consuma:

Que uma parte da vida

Aos brincos*, e aos amores é devida.

 

*brincos — o mesmo que brincadeiras

Botticelli - Primavera pormenor 3 500px

Corre o poema numa atmosfera de erotismo suave onde toda a natureza mergulha à chegada da primavera, fazendo uso dos amores mitológicos cujo conhecimento ajuda à sua mais profunda inteligência.

Ler este poema faz-me recordar a canção de Cole Porter, Let’s do it (Let’s Fall in Love)(1), na qual o cantor(a) dá a volta pela natureza e pelo mundo para convencer o outro(a) ao amor, enumerando quanto bichos e gentes que o fazem, o amor, evidentemente: Antes que a idade breve / Nos roube os gostos, e o prazer nos leve.

Botticelli - Primavera pormenor 1 500px

 

Ode anacreôntica VI

 

Já vem a primavera

Os prados matizando,

De verde murta e de hera

As selvas coroando;

E as aves entre as flores

Renovam docemente os seus amores.

 

Vénus em companhia

De mil ninfas formosas,

Pela selva sombria

Colhe lírios e rosas,

Com que longos cabelos

Destramente enastrando faz mais belos.

 

Os Risos, a Alegria,

Os Brincos a acompanham,

E sobre a fonte fria

Voando as asas banham;

Que logo sacudindo,

De branco orvalho a Deusa vão cobrindo.

 

Um deles ao parceiro

Dentro nas águas lança,

Que voando ligeiro

Dele a tomar vinganca,

Este de astúcia cheio,

Da branca Deusa foge ao branco seio.

 

Mil em torno adejando

Das ninfas peregrinas,

Sobre elas vão lançando

Em chuvas as boninas,

E as faces um lhe toca,

E o mais descomedido a linda boca.

 

Amor alegre voa

Em repetidos giros;

Ferido o vento soa

Dos amorosos tiros;

Ardem em vivas fráguas

O bosque, o ar, as flores, Ninfas, águas.

 

Zéfiro suspirando

A linda Clóris chama,

Que travessa ocultando

Se vai por entre a rama,

Mas ao vê-lo impaciente

Entre seus braços corre velozmente.

 

Os Faunos namorados

As Mélias vão seguindo,

Que contra seus agrados

Brandas iras fingindo,

Se metem de ardilosas

Da selva pelas matas mais frondosas.

 

A doce liberdade

Do campo afasta ufana

A triste seriedade,

Dos prazeres tirana;

Que leva em companhia

A pesada e cruel melancolia.

 

O campo, pois, Oh Cloe,

Solícitos busquemos

Antes que o tempo voe,

Do tempo nos gozemos

Que uma parte da vida

Aos brincos, e aos amores é devida.

 

Dos álamos frondosos

À sombra reclinados,

Façamos venturosos

Nossos doces cuidados;

Antes que a idade breve

Nos roube os gostos, e o prazer nos leve.

 

Transcrito de Obras de António Diniz da Cruz e Silva vol II, edição de Maria Luísa Malaquias Urbano, Edições Colibri, Lisboa, 2001.

As imagéns que acompanham o artigo são pormenores da pintura Primavera de Sandro Botticelli (1445-1510).

(1) Para leitores que não conheçam a canção, ouçam-na com a inexcedível beleza e gosto da interpretação de Ella Fitzgerald num dos alguns do Cole Porter Songbook.

Outrora — poema de Giovanni Pascoli

HOCKNEY David American Collectors 1968 500pxUm dia ele foi… só uma essência / sem retorno e sem outro igual.

Momentos que se fazem eternidade, felizmente todos na vida os teremos. Cabe-nos guardá-los como tesouros para consolo, não vá a vida acontecer como Giovanni Pascoli (1855-1912) refere no poema Outrora de onde transcrevi os versos de abertura, e que mais à frente refere:

E a vida foi vã aparência / antes e após um dia tal.

 

É-se feliz sem se estar permanente feliz. A procura interior deste equilíbrio pessoal entre ser e estar é a demanda dos nossos dias. O conselho é não deixar escapar a consciência da felicidade quando existiu:

não podes, ideia, não podes / levá-lo contigo, na mão…

 

Eis o poema

 

Outrora

 

Outrora, num tempo distante,

fui eu tão feliz, não agora:

mas quanta doçura no instante

por tanta doçura de outrora!

 

Esse ano! por anos que após

fugiram e que fugirão,

não podes, ideia, não podes

levá-lo contigo, na mão…

 

Um dia ele foi… só uma essência

sem retorno e sem outro igual.

E a vida foi vã aparência

antes e após um dia tal.

 

Um instante… aí tão passageiro,

que menos passou que se diz;

mas tão belo assim, mas tão belo,

e eu nele tão feliz, tão feliz!

 

Tradução de Jorge de Sena

in Poesia do Século XX, antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de David Hockney de 1968.

O Canto do Árabe — poema de António José de Sousa Almada

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Batalha 450pxQuando leio a poesia romântica de ambiente medievo, vêm-me à lembrança as histórias de cowboys que à entrada da adolescência devorava semanalmente em livrinhos pequeninos de uma colecção 6 balas dos quais perdi completamente o rasto.

Tal como naquelas histórias de cowboys, trata-se nesta poesia de narrativas de coragem salpicadas de crueldade e heroísmo a que subjaz a luta entre o bem e o mal.

O pano de fundo é a luta entre cristãos e muçulmanos de origem árabe ou mourisca, durante a reconquista cristã em Portugal e Espanha.

Formalmente são poesia rimada, em geral com a rima sonora frequentemente em “ar”, e desenvolvimento narrativo explícito e linear. Às peripécias narradas acrescenta-se por vezes um qualquer amor contrariado por questões de linhagem ou interdição religiosa, qual seja o amor entre um(a) cristã(o) e um(a) moiro(a).

A este quadro geral escapa o poema que a seguir transcrevo, O canto do árabe, escrito por António José de Sousa Almada (1824-1874). Nele o poeta não desenha um quadro de luta mas pinta o retrato de um cavaleiro árabe, mostrando um indivíduo arrogante e sanguinário, pleno de jactância e segurança de si:

Treme o Sheik da altiveza / De meus olhos,— da nobreza / Com que fulgem com viveza / Como astro lá no Céu!

 

a que acrescenta aquele toque quase infantil que muitos adultos cultivam: a terra onde nasci é o melhor lugar do mundo, de todos os pontos de vista:

Que me importa a Europa a mim? /Nâo tem coisas como cá:

O surgir do Sol aqui, /É diferente do de lá;

Se lá cresce a laranjeira / Pelas encostas do val

Aqui, viceja a palmeira / Sobre as ondas do areal:

 

Pintada a origem e a paisagem, surgem os lances da acção:

Mal aqui rompe a manhâ /Sai o árabe do Kan,

Prende à cinta o yatagan, / O trabuco e o punhal!

 

a que se segue a jactâncias que acima referi:

Venha aqui o viajante / Contar feitos lá do Cid …

Que se me ponha adiante / A disputar-me o Dgerid;

Que lhe posso aqui mostrar / Num só golpe que hei de dar

A cabeça a rebolar / Decepada nessa lide.

 

E no meio de toda a arrogância surge a nota do romantismo europeu dando conta do carácter sagrado do amor do cavaleiro à mulher escolhida, aqui entre as do harém, comparando este seu amor ao do Profeta ao Alcorão:

Faço-a rainha, e senhora / Deste ardente coração;

Amo-a tanto, quanto adora /O Profeta o Alcorâo;

 

Na mesma época outros poemas sobre nobres árabes ou mouriscos há, estou a lembrar-me de O Canto do Moiro de Francisco Palha ou Abd-El-Kader de Serpa Pimentel, mas são retratos de vingança O Canto do Moiro, e de vencido Abd-El-Kader, não dando conta da força vital que neste O Canto do Árabe transpira.

 

Eis o poema na totalidade

 

O CANTO DO ÁRABE

 

Sou das orlas do Oriente:

Desta plaga não avara

Nos feitos da forte gente,

Das tribos de força rara;

Sou Árabe e muçulmano,

Sou senhor e soberano;

Se me ofendem… sou tirano

Dos desertos té Sahara.

 

Destas terras sou eu rei,

Quanto abrange a vista,— é meu:

Quem promulga aqui a lei,

Aba ko de Alá — sou eu.

Treme o Sheik da altiveza

De meus olhos,— da nobreza

Com que fulgem com viveza

Como astro lá no Céu!

 

Nos divãs do meu harém

Tenho formosas sem fim;

Reclinadas com desdém,

A suspirarem por mim.

De seus carinhos sobejos

Adormeço nos desejos,

Embalado pelos beijos

De seus labios de carmim.

 

E qual Iouca mariposa

Que namora toda a flor:

Mas reserva a mais formosa

Pra beijar com mais ardor;

Beijo o seio que palpita,

Amo a alma que se agita,

Mas escolho a favorita

Pra lhe dar o meu amor.

 

Faço-a rainha, e senhora

Deste ardente coração;

Amo-a tanto, quanto adora

O Profeta o Alcorâo;

E baixo a fronte orgulhosa

Sob os seus lábios de rosa,

Quando os descerra, vaidosa

Como a rosa do Japão!

 

Que me importa a Europa a mim?

Nâo tem coisas como cá:

O surgir do Sol aqui,

É diferente do de lá;

Lá, não estruge o vulcão,

Nem há uivos de leão,

Nem o árabe, no châo

Prosta a fronte por Alá!

 

Se lá cresce a laranjeira

Pelas encostas do val

Aqui, viceja a palmeira

Sobre as ondas do areal:

Mal aqui rompe a manhâ

Sai o árabe do Kan,

Prende à cinta o yatagan,

O trabuco e o punhal!

 

E se nos ares se ateia

Ignea chama;—e rouco som

Sai fervente com a areia

Nas golfadas do Simuon;

Roja o corpo, e vaga incerto

Sobre as ondas do deserto,

A correr em leito aberto

Como as águas do Cedron!

 

Mas se das garras do perigo

Eu me escapo com valor;

E a vista do inimigo

Vem trazer-me outro maior;

Então parto a toda a brida,

Como um raio na corrida,

Embebendo em cada ferida

O meu sedento furor.

 

Venha aqui o viajante

Contar feitos lá do Cid …

Que se me ponha adiante

A disputar-me o Dgerid;

Que lhe posso aqui mostrar

Num só golpe que hei de dar

A cabeça a rebolar

Decepada nessa lide.

 

Traz em braza a fronte ardente

Quando nasce aqui o sol;

Ferve o sangue do oriente

No matutino arrebol;

Ergue a fronte soberana

A Naka que já se ufana

De mirar a caravana

Serpeando arida mole.

 

Roi de inveja aos potentados

Meu rico manto de Emir;

E meus cofres entulhados

Do oiro puro de Ofir,

Escarneço dos pelouros,

Se manto quis e tesouros

Fui ganha-los entre louros,

C’os golpes que eu sei brandir.

 

Sou senhor e soberano

Dos desertos, té Sahara

Sou árabe e muçulmano

Das tribos de força rara:

Sou das orlas do oriente

Sou Emir da forte gente

Sou da raça mais valente

Desta plaga não avara.

 

Nota bio-bibilografica

 

Informa a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que António José de Sousa Almada (1824-1874) nasceu na Ilha da Madeira e foi poeta. Mais informa que as suas obras foram apreciadas na época e andam dispersas pelas publicações do tempo. Teve vida aventurosa ao fazer-se homem de negócios. Acrescenta que na política seguiu o Marechal Saldanha, o qual depois do 19 de Maio o fez governador de Castelo Branco.

Enquanto poeta, e já transcrevi no blog o seu poema Os Beijos, à desenvoltura da versificação alia-se a originalidade do ponto de vista com que trata os assuntos caros à poesia do romantismo.

Este poema, O Canto do Árabe, foi transcrito de Lísia Poética vol lll, Colecção de Poesias Modernas de Autores Portugueses publicada por José Ferreira Monteiro, Rio de Janeiro, 1848.

A imagem de abertura reproduz uma das pinturas feitas por volta de 1576 para uma edição de Shahnameh, Livro dos Reis, escrito por Ferdowsi (c. 940-1020), no qual se relatam os feitos de reis do Irão até à invasão árabe. As miniaturas dessa edição são atribuídas a Sâdeqi-Beg, Mihrab e Siyâvosh o Georgiano.

Shahnamed é um poema épico com cerca de 50.000 dísticos e conta-se entre os mais belos poemas épicos que a humanidade herdou, ao lado da Odisseia, Ilíada, Eneida, Lusíadas e pouco mais.

Viagens no séc.XIX — Até Madrid com Júlio César Machado

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Goya 1779 450pxFizeram e farão parte das memórias de várias gerações com algumas posses que foram jovens até aos anos 50 do século XX, as viagens entre Lisboa e Madrid no comboio Lusitânia. Lugar de encontros e namoricos, a tal ponto que uma canção espanhola de sucesso à época dá disso conta: El chachachá del tren  cantado pelas Hermanas Fleta (pode ouvir-se no youtube).

A viagem até Madrid que Júlio César Machado (1835-1890) nos conta é quase cem anos anterior. Ainda o comboio chegava tão só a Badajoz, o resto do percurso era feito em carruagem.

Levados pelo saboroso da prosa entrego-vos à descoberta de um Portugal e Espanha antigos, e às peripécias da viagem.

 

Parto no comboio de Badajoz às oito e meia da noite de 26 de Março. Tenho por companheiro o meu amigo o conde d’Óbidos. A nossa entrada na carruagem produz longo murmúrio entre os membros de uma família dos Olivais, de quem temos o prazer de ser companheiros até à segunda estação; dá motivo a isto a nossa toilette um tanto complicada; o conde num copioso traje do touriste, capote à espanhola, bolsa a tiracolo, saco numa das mãos, bengala rija na outra, e uma almofada de vento debaixo de cada braço; eu, quasi em estilo de peregrino, chapéu desabado, jaqueta felpuda, uma almofada de vento pendurada a um saco-mala, um saco-mala pendurado a um chapéu de sol, um chapéu de sol pendurado a mim; — sensação no público. Os guardas contemplam-nos como a dois homens que partem para a Terra Santa.

Conversámos até às onze horas: nenhum de nós quer dormir; à meia-noite já dormimos ambos. Badajoz surpreende-nos pela madrugada; é logo bastante bom um dos habitantes desta capital de província para passar em costume espanhol àquela hora, e dar-me uma forte dose de cor local! A cidade cercada de muralhas, estende-se por uma colina coroada com as ruinas de um castelo velho. Cai uma chuvinha que lisonjeia a providência do meu chapéu de chuva, entramos num carro que nos obriga a bailar sentados o bolero, saltando de barranco para barranco, num caminho atroz que conduz da estação à cidade durante meia hora. Hospeda-nos a fonda das Tres Naciones, coio ignóbil, sem luz, sem roupa, sem criados, e onde se vive mais caro que em Londres ou em S. Petersburgo.

Miguel Beriol, o antigo e inteligente chefe do movimento na estação de Santa Apolónia tinha-me dado o Itinerario da Hespanha e Portugal, uma carta de recomendação, e um charuto bom; fumo o charuto, guardo a carta, e olho para o livro… fechado: é que tem oitocentas e oito paginas! e a mim assustam-me os livros volumosos; não me atrevo a principia-los com medo de não os poder acabar. Estou em preferir uma estrofe de Horácio à Ilíada ou a Odisseia, e qualquer breve linha do Tácito ao mais belo período de Cícero. Dava-me por feliz se pudesse encerrar a historia numa página, meter a filosofia numa frase, e apertar toda a poesia humana nalguns versos. Agora por exemplo que é Abril, não respiramos nós toda a Primavera numa só flor? Se pudesse ser assim com os livros, por alguma arte mágica!

Fumei o charuto durante estas considerações — e passo a entregar a carta de recomendação, que é para mr. De Varenne, chefe da estação de Badajoz. Ao subir a escada, encontro uma gentil espanhola de dezasseis anos, que a desce cantando, pulando, e rindo; cumprimenta-me com um ar cintilante de alegria, e precipita-se no jardim, chilreando sozinha como um bando de aves. Que saltinhar gracioso! À proporção que se afasta do solo, rouba o que quer que seja aos céus, aonde parecia querer chegar; desabrocha-lhe nos lábios uma trova andaluza, como flores proféticas de Espanha: paro um instante a escutá-la; larga a voz numa maviosa canção de amores, em que a ideia desprende as asas e a alma se eleva em toda a luz como o passarinho que no voo deixa brilhar as cores!

Subo. De Varenne está num gabinete ao lado da sala onde espero algum tempo. Algumas vozes de mulheres, brincando, cercam, interrompem e sufocam a dele; aí me aparece de novo a desconhecida do jardim, e vai misturar-se ao coro. Que casa é esta? Instantes depois, em conversação, fico sabendo que De Varenne é casado, que a visão que me surpreendeu à entrada é uma vizinha, e que as outras vozes são as de suas três irmãs, todas bonitas, todas de feição ardente e peninsular como ela, cabelos negros, olhos de longas pestanas que lhes resguardam a luz para nos não cegar, figura esbelta, sorriso límpido, voz melodiosa e sedutora. De Varenne é casado com uma compatriota nossa, linda filha de Coimbra que o destino enviou a Badajoz para glória da formosura portuguesa. A ruidosa galhofa das vizinhas, em visita ali, visita íntima, visita de toda a hora, explicou-se-me pois: eram espanholas em vida familiar — o que significa que eram o que pode haver de maior viveza, jovialidade e travessura sob o tecto de uma casa. Que graça, que animação, que ardor galante! No teatro, essa noite, — porque em Badajoz há teatro, por sinal que o chão é de ladrilho! — estiveram essas meninas explicando-me quem eram as pessoas que eu via nos diferentes camarotes.

— E aquele? perguntei, indicando um deles. — Um proprietário.

— Riquíssimo?

— Não!

— Pobríssimo?

— Tão pouco. Regularíssimo!

A vida em Badajoz é de uma insipidez honesta: de manhã trata-se dos negócios; à tarde vai-se para o campo de São João, praça onde está a catedral, o teatro, a melhor farmácia, o melhor botequim, — que botequim, Deus meu! — e, ao centro muitos embuçados como nos melodramas, desde o elegante com a sua capa de bandas de veludo carmesim, até ao maltrapilho que se embrulha com o maior garbo nos farrapos de um capote paradoxal; e à noite, as donzelas vão falar com os seus namorados da janela baixa de grades, enquanto os serenos entoam o seu pregão de hora em hora: Ave Maria puríssima, son las diez, y está sereno, ou Ave Maria puríssima, son las onze y lhove!

Depois de esperarmos dois dias que houvesse lugares na mala-posta, partimos para Madrid. O conde d’Óbidos, que em todo o tempo de Badajoz esteve dirigindo apóstrofes ao destino, encontra-me cheio de cabelos brancos, ao passo que eu o observo transparente: atribuímos estes fenómenos aos dois dias que passámos na funda das Tres Naciones! A mala-posta consta de uma serie de caixas, uma para guardar o correio, outra para guardar as bagagens, e outra para guardar os passageiros, — tudo velho, tudo a desabar, tudo seguro por cordas, puxado por sete mulas que voam por campos e vales com uma orquestra de pragas, gritos e chicotadas do cocheiro! Já vai fugindo o sol, as casas ficam lá ao longe, alargam-se os horizontes, tudo é charneca e montanhas. Vamos em Espanha. Ó longas contemplações, ó sonhos poéticos, ó saudosa lembrança dos contos e lendas deste país encantado, tenho-vos eu bem presente e não irei perder-vos pelo caminho?

A estrada vai trepando sempre, e gira, e volta, e sobe, e redemoinha em inumeráveis séries de vales, montes, colinas silenciosas e desertas. A fresca madrugada desprende depois o seu acento de tímida luz por aqueles campos sem habitantes, sem casas, sem árvores. À esquerda, estende-se a majestosa serra de Guadarrama em ondulações rápidas e imprevistas que nos mergulham o espírito nas mesmas meditações austeras que o mar suscita porque flutua a mesma ideia do infinito naquelas curvas magníficas que parecem a superfície inquieta das vagas cortadas ao longe pelo vento; e a impressão é mais irresistível ainda, porque, na calma ou na tormenta, tem vozes o mar que não se calam e ondas que não descansam, e a serra está sempre muda, sem movimento e sem vida, confundindo nas nuvens a sua coroa de neve!

Principia para nós outro extenso dia e outra longa noite de mala-posta, alimentando-nos apenas de chocolate que tomamos a ferver, com uma pressa ímpia, nas localidades em que há muda. Em Tragillo há um teatro e um casino em frente mesmo da venta; este esmero de civilização leva-me a pedir manteiga à locandeira; traz-me manteiga de porco e diz-me:

Si usted la quiere, és de cierdo: no hay de otra!

Fulminado pela descoberta de que em Espanha não há manteiga, continuo recorrendo ao pão seco para acompanhar o chocolate de cada dia. Do Carrascal até Almaraz, quatorze léguas, temos o luxo de possuir um postilhão, de chapéu na orelha, jaqueta arruinada, grandes botas fanfarrans, esporas compridas, olhos de uma mobilidade extrema, voz vibrante, cabelos à mercê do vento. Já dançam os guizos, e, ao ruído desse acompanhamento caprichoso, a imaginação do viajante vai também trotando, retendo-se às vezes com o andar indeciso da pesada mala-posta, de outras deixando-se ir ao acaso das suaves e cambiantes ondulações do horizonte. O postilhão é um aragonez, que anda há vinte e seis anos neste serviço improbo de cavalgar todos os dias quatorze horas, a cair neve no inverno, e no verão sob um sol que abrasa, — para ganhar duas pesetas, dezasseis vintens!

Jantamos em Talaverra de la Reina. Tremo que me dêem sopas de chocolate, e interrogo timidamente o cocheiro sobre o género de refeição que nos espera nessa cidade tão ansiosamente desejada pelo meu estômago inquieto: — «Una comida formal!» responde esse excelente espanhol, a quem eu houvera querido presentear com um par de castanholas pela sua resposta consoladora. A comida formal em Espanha consta de uma sopa bastante nutriente, um prato de grãos cozidos com chouriço, toucinho e carne de vaca, coelho guisado, e quase sempre um assado de carneiro; o vinho é excelente, e tive repetidas ocasiões de fazer saúdes à minha pátria com um Valdepenas digno do brinde.

Partimos de novo. É ao cair da tarde. Há apenas uma claridade indecisa e descontente. Avistam-se ainda nas pastagens alguns bois pequenos, de um amarelo vivíssimo, que contemplam com uma espécie de ironia a capoeira em que vamos, e seguem brandamente o seu caminho, por uns campos pardacentos onde obstinados arqueólogos iriam debalde esgravatar a relva sem poderem encontrar os restos dos famigerados castelos da Espanha; alguns nos aparecem ainda, a grandes distâncias, visivelmente enfastiados de estarem para ali no esquecimento, ocupados apenas em sustentarem conforme podem as tradições do país.

Ainda uma longa noite de mala-posta, acompanhados unicamente por montes que se confundem com a serra em transições tão insensíveis como as da serra a confundir-se no céu, e sem encontrarmos senão algum raro viandante, de carabina ao ombro, lenço atado na cabeça, chapéu de abas largas, manta traçada, e polainas altas, e, de légua em légua, os soldados que patrulham de vigia à estrada.

Vai amanhecendo. Os cavalos fatigados encontram enfim alamedas magníficas. Por entre árvores de todos os lados, avista-se ao longe a casaria. Passa-me no espírito um turbilhão de ideias que se combatem, umas a falarem-me de feudalismo, de inquisição, de fanatismo, outras de castanholas, de pandeiros, de cachuchas, de serenatas, de costumes poéticos e pitorescos. Já se erguem no horizonte as grandes torres escuras. É Madrid! Ah! É Madrid enfim!…

Goya - O Guarda-sol 1776-78 500px

 

Nota bibliográfica

 

Este texto foi publicado numa crónica da Revista Contemporanea de Portugal e Brasil e posteriormente reescrito no livro Em Hespanha, Cenas de Viagem, 1865.

 

As imagens mostram pinturas de Goya (1746-1828).