HOCKNEY David American Collectors 1968 500pxUm dia ele foi… só uma essência / sem retorno e sem outro igual.

Momentos que se fazem eternidade, felizmente todos na vida os teremos. Cabe-nos guardá-los como tesouros para consolo, não vá a vida acontecer como Giovanni Pascoli (1855-1912) refere no poema Outrora de onde transcrevi os versos de abertura, e que mais à frente refere:

E a vida foi vã aparência / antes e após um dia tal.

 

É-se feliz sem se estar permanente feliz. A procura interior deste equilíbrio pessoal entre ser e estar é a demanda dos nossos dias. O conselho é não deixar escapar a consciência da felicidade quando existiu:

não podes, ideia, não podes / levá-lo contigo, na mão…

 

Eis o poema

 

Outrora

 

Outrora, num tempo distante,

fui eu tão feliz, não agora:

mas quanta doçura no instante

por tanta doçura de outrora!

 

Esse ano! por anos que após

fugiram e que fugirão,

não podes, ideia, não podes

levá-lo contigo, na mão…

 

Um dia ele foi… só uma essência

sem retorno e sem outro igual.

E a vida foi vã aparência

antes e após um dia tal.

 

Um instante… aí tão passageiro,

que menos passou que se diz;

mas tão belo assim, mas tão belo,

e eu nele tão feliz, tão feliz!

 

Tradução de Jorge de Sena

in Poesia do Século XX, antologia, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1994.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de David Hockney de 1968.

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