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Christopher Anderson New York City 2008 500pxRefeito do choque de um acidente grave: despiste, capotamento, e carro para a sucata,  de onde saí ileso, regresso à poesia.

Da multidão de pensamentos que nos assaltam no rescaldo de experiência tão marcante, é a crença no milagre que acaba por preencher o imenso da interrogação.

Se medimos o pulso ao mundo pela nossa experiência pessoal, olhar em volta e colocar em contexto essa experiência é parte essencial de um recentrar a importância do que nos acontece no mais vasto contexto da envolvente. O poema de Guillevic (1907-1997), Lição de Coisas, que a seguir transcrevo, para isso mesmo chama a atenção.

 

Lição de Coisas

 

O sangue é um líquido complicado

Que circula. É de um vermelho

Que aliás não se vê e que muda

Como uma planura sob várias luas.

 

O sangue contém corpos numerosos

Dos quais algumas pessoas sabem a fórmula.

 

É o nosso sangue. É ele

Que anda à volta, que volta,

Que alimenta.

 

O sangue derrama-se facilmente,

Basta-lhe apenas uma abertura.

 

O sangue de um morto por acidente

Não é o mesmo, na rua,

 

Que o de um morto pela liberdade,

Derramado na mesma rua.

 

Tem cada qual um modo particular

De ser vermelho e de gritar.

Tradução de David Mourão-Ferreira

in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, Set-Dez 2003.

 

Abre o artigo uma foto de Christopher Anderson, fotógrafo da Magnum, intitulada New York City 2008.

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