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Felix Nussbaum 4 - O segredo 1939 500pxÉ provável que a coragem dos ingleses em enfrentar o risco, uma vez mais salve a Europa. Não tanto do Holocausto de que falam os poemas de hoje, mas de um colapso induzido pela embriaguez da burocracia europeia empapado no seu próprio poder.

Não sou eurocéptico. Conheci a proibição de sair de Portugal sem autorização militar especial. Experimentei a restrição de apenas poder viajar para o estrangeiro com pouquíssimo dinheiro. Vivi algum tempo, até sufocar, a “felicidade” do sistema soviético na Polónia; por isso, sinto-me o mais feliz entre os homens ao viver a condição de cidadania que Portugal na União Europeia permite. Isto não significa que aprecie a possibilidade de alguém escolher por mim a cor do papel higiénico, forçando a caricatura do caminho para onde a burocracia de Bruxelas aponta, a qual está a conduzir a um processo em vias de extinção o projecto europeu saído das cinzas da guerra contra a Alemanha Nazi.

Assistimos por estes dias ao espectáculo surpreendente de uma multidão esgotar edições do livro de Hitler. Se de alguma coisa é sintoma o sucesso editorial do livro de Hitler, para além de uma legítima curiosidade intelectual, será seguramente preocupante para todos.

Felix Nussbaum 1 - Auto-retrato no atelier 1938 500pxPor um daqueles cruzamentos de acaso, vi uma destas noites o filme The book thief, A rapariga que roubava livros. Como é sabido, no filme a ligação aos livros da menina que não sabia ler começa com um manual de coveiro recolhido por ela junto à campa do irmão, e por onde aprende as primeiras letras. Esta ligação simbólica entre a morte e o renascer pelo livro irão atravessar o filme.

A história desenvolve-se na Alemanha de Hitler, e a etapa seguinte com livros leva-nos à fogueira onde são queimados, e ardem, os livros considerados perigosos pelos sequazes de Hitler, no que foi um momento histórico marcante da Alemanha hitleriana. Abandonado o local pela multidão entre obrigada e entusiasta, a menina aproxima-se da fogueira e retira um livro ainda fumegante, que esconde. Era O Homem Invisível do escritor inglês H. G. Wells (1866-1946), o qual atravessará a história como metáfora, sendo instrumento de esperança e da liberdade de espírito que a doutrina hitleriana pretendeu matar.

Lembrá-lo uma vez e outra nos testemunhos de memória e no estudo da história é tarefa de humanidade para que o horror não se repita.

O Holocausto colocou à literatura alemã o desafio da linguagem: como expressar o horror e o seu tempo. Paulatinamente os escritores foram percorrendo o caminho expressivo que permite na distância sentir o inominável materializado. Escolho dois poemas que dessa expressão são exemplo. Primeiro um poema que Hans Magnus Enzensberger (1929) dedica a Nelly Sachs (1891-1970), Os Desaparecidos, depois, um poema desta, O Teu Corpo Em Fumo Pelo Ar, ambos em tradução de Paulo Quintela.

Felix Nussbaum 3 - Auto-retrato com passaporte judeu 1943 500pxAcompanham os poemas imagens de pinturas de Felix Nussbaum (1904-1944), pintor de génio com uma biografia exemplar: nasceu judeu e foi parar a Auschwitz em 2 de Agosto de 1944, depois de ter vivido fugitivo e escondido durante o período nazi.

Felix Nussbaum 5 - Casal de luto 1943 450pxOs Desaparecidos

 

a terra não os engoliu, foi o ar?

como a areia eles são numerosos, mas não em areia

se tornaram, sim em nada, em bandos

estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,

como os minutos, mais do que nós,

mas sem lembrança. não inventariados,

impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos

estão os seus nomes, colheres e solas.

 

não nos dão pena. ninguém se pode

lembrar deles: nasceram,

fugiram, morreram? ninguém os achou

menos. sem falha

é o mundo, mas unido

por aquilo que ele não abriga,

pelos desaparecidos. estão por toda a parte.

 

sem os ausentes nada existiria.

sem os fugitivos nada era firme.

sem os imensuráveis nada mensurável.

sem os esquecidos nada seguro.

 

os desaparecidos são justos.

assim nos desvanecemos também.

Felix Nussbaum 2 - Tocador de orgão da Barbária 1942-43 500px

O Teu Corpo Em Fumo Pelo Ar

 

E quando esta minha pele estiver desfeita

eu verei Deus sem a minha carne.

Job

 

OH AS CHAMINÉS

Sobre as moradas da morte engenhosamente inventadas

Quando o corpo de Israel desfeito em fumo partiu

Pelo ar —

Como limpa-chaminés uma estrela o recebeu

Que se fez negra

Ou era um raio de sol?

 

Oh as chaminés!

Vias da liberdade para o pó de Jeremias e de Job —

Quem vos inventou e compôs pedra sobre pedra

De fumo o caminho aos fugitivos?

 

Oh as moradas da morte,

De arranjo convidativo

Para o hospedeiro, outrora hóspede —

Ó dedos,

Pondo a soleira de entrada

Como uma faca entre vida e morte —

 

Ó vós chaminés,

Ó vós dedos,

E o corpo de Israel em fumo pelo ar!

in Poemas de Nelly Sachs, antologia, versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela, Portugália Editora, Lisboa, 1967.

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