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Henri Matisse 1869-1954 La liseuse distraite 1919Nascemos para ser felizes? A resposta impulsiva é sim. Mas é a felicidade permanente possível? É difícil sequer imaginar semelhante anseio. Fica-nos, no entanto, a possibilidade da busca para o conseguir, pois felizes, e sempre, queremos todos ser.

E é o amor o caminho para essa felicidade? Aí a resposta tem tantas possibilidades quantos os humanos que já viveram e vivem, ou viverão.

A experiência do amor, pessoal e intransmissível, é aflorada pela poesia uma e outra vez, recorrentemente, e nas suas variadas facetas: do amor-paixão ao amor-renúncia, do amor ao outro ao amor aos outros, de filhos a pais e pais a filhos, e por aí fora; encontrando cada um nessas manifestações os momentos de felicidade que fazem a vida compensadora. Mas aquele que, adultos, nos faz vibrar no mais fundo de todas as fibras é o amor consumado no sexo, e desse falam os poemas de Emily Dickinson (1830-1886), que hoje escolhi, num crescendo, do desejo à consumação.

 

I

Noites Bravias — Noites Bravias!

Estivesse eu contigo

Tais Noites o nosso

Deleite seriam!

 

Fúteis — os Ventos —

A Coração em Porto —

Inútil a Bússola —

Como o Mapa inútil!

 

Remando em Éden —

Ah, o Mar!

E eu ancorar — Esta Noite —

Em Ti!

 

II

E se eu disser que não vou esperar!

Se eu rebentar Portões carnais —

E conseguir chegar — a ti!

 

Se eu me livrar de ser Mortal —

Onde doer — Dizer não mais —

E em Liberdade mergulhar!

 

Já não me podem mais — prender!

Masmorras — Armas implorar

Nada me dizem — já — a mim —

 

Tal como o riso — há — uma hora —

Os Laços — Festas — o que fora —

Ou mesmo quem ontem — morreu!

 

III

Aprendemos o Todo do Amor —

O Alfabeto — as Palavras —

Um Capítulo — depois o Livro imenso —

E — a Revelação — então fechou-se —

 

Mas uma Ignorância se fitou

No Olhar de Cada um de Nós —

Mais divina do que é a da Infância —

E cada um para o outro, uma Criança —

 

Tentando definir e explicar

O que Nenhum de nós — compreendia —

Ah, que é tão larga a Sabedoria —

E a Verdade — têm formas tão diversas!

 

in Emily Dickinson, Duzentos Poemas, tradução, belíssima, posfácio e organização de Ana Luísa Amaral, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Matisse (1869-1954), A leitora distraída, de 1919, como que embalada nas suas memórias de amor após a leitura de tão empolgante poesia.

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