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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Um poema de Blas de Otero (1916-1979)

22 Segunda-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Blas de Otero



Andando com as leituras poéticas por territórios do castelhano, aproveito para trazer ao blog o poema En el principio de Blas de Otero (1916-1979), admirável síntese onde se destaca o poder da palavra para lá das vicissitudes da vida e do tempo.

En el principio

Si he perdido la vida, el tiempo, todo
Lo que tiré, como un anillo, al agua,
si he perdido la voz en la maleza,
Me queda la palabra.

Si he sufrido la sed, el hambre, todo
lo que era mío y resultó ser nada,
si he segado las sombras en silencio,
me queda la palabra.

Si abri los labios para ver el rostro
puro y terrible de mi patria,
si abri los labios hasta desgarrármelos,
me queda lá palabra.

O poema foi traduzido por José Bento na Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, que a seguir transcrevo.

No Principio

Se perdi minha vida, o tempo, tudo
O que atirei, como um anel, à agua,
Se entre o joio perdi a minha voz,
Resta-me a palavra.

Se suportei a sede, a fome, tudo
O que era meu e redundou em nada,
se ceifei as sombras em silêncio,
Resta-me a palavra.

Se abri os lábios para ver o rosto
puro e terrível de minha pátria,
se abri os lábios até os rasgar,
Resta-me a palavra.

 

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Cielito Lindo num poema de Ángel González

20 Sábado Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poetas e Poemas

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Angél Gonzalez

De vilegiatura por terras do SE algarvio, as memórias são inevitáveis, e a proximidade de Espanha traz a familiaridade de uma vida com as gentes e a cultura.

Na infância, nestas remotas terras isoladas do pais, onde a radio apenas chegava a espaços e com fraco sinal, as emissoras de Espanha eram omnipresentes e inevitavelmente cresci ouvindo as canções que ali passavam. Estou por tal forma impregnado delas que ouvi-las traz-me de volta o perfume dos tempos encantados.

Os acasos da leitura de poesia, que por estes dias é em castelhano, fizeram-me encontrar um poema de Ángel González (1925-2008), Canción, glosa y cuestiones, onde ecoa uma dessas canções, Cielito Lindo, na ironia saborosa do grande poeta.

Canción, glosa y cuestiones

Ese lugar que tienes,
cielito lindo,
entre las piernas,
ese lugar tan íntimo
y querido
És un lugar común.

Por lo citado y por lo concurrido.

Al fin, nada me importa:
me gusta en cualquier caso.

Pero hay algo que intriga.

Cómo
solar tan diminuto
puede ser compartido
por una poblatión tan numerosa?

Qué estatutos regulan el prodigio?

A canção deu a volta ao mundo na voz de Nat King Cole, mas é outra a versão familiar da minha infância, e essa, é cantada por um trio masculino, Los 3 Paraguaios.

Deixo-vos com ela:

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Fabulosos+3+Paraguayos+Lo+Mejor+de+los+Fabulosos+Tres+Paraguayos+04+Cielito+Lindo.mp3

Nota talvez necessária: Cielito lindo é uma forma de tratamento carinhosa para alguém de quem gostamos.

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As Fadas – Poema de Antero de Quental

12 Sexta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Antero Quental

Nestes tempos de Verão,  quando as férias apelam à fantasia, aqui  fica  um convite para viajar ao mundo encantado das fadas com a inspiração de Antero de Quental.

Revela-nos o poema segredos só conhecidos de poucos adultos, apenas daqueles que ainda sabem que a Cinderela casa mesmo com o Principe e acreditam que:  a fortuna da gente / Está às vezes somente / Numa palavra que diz; / Por uma palavra, engraça / Uma fada com quem passa, / E torna-o logo feliz.

Mas cuidado, pois as fadas quando se zangam:  têm vinganças terriveis! /Semeiam coisas horriveis, / Que nascem logo no chão… / Linguas de fogo que estalam! / Sapos com asas que falam! / Um anão preto! Um dragão!

 Ou deitam sortes na gente… / O nariz faz-se serpente, / A dar pulos, a crescer… / É-se morcego ou veado… / E anda-se assim encantado, / Enquanto a fada quiser!

 Eis

AS FADAS

As fadas… eu creio nelas!

Umas são moças e belas,

Outras, velhas de pasmar…

Umas vivem nos rochedos,

Outras, pelos arvoredos,

Outras, à beira do mar…

 

Algumas em fonte fria

Escondem-se, enquanto é dia,

Saem só ao escurecer…

Outras, debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder…

 

O vestir… são tais riquezas,

Que rainhas, nem princesas

Nenhuma assim se vestiu!

Porque as riquezas das fadas

São sabidas, celebradas

Por toda a gente que as viu…

 

Quando a noite é clara e amena

E a lua vai mais serena,

Qualquer as pode espreitar,

Fazendo rodas, ocupadas

Em dobar suas meadas

De ouro e de prata, ao luar.

 

O luar é os seus amores!

Sentadinhas entre as flores

Horas se ficam sem fim,

Cantando suas cantigas,

Fiando suas estrigas,

Em roca de oiro e marfim.

 

Eu sei os nomes de algumas:

Viviana ama as espumas

Das ondas nos areais,

Vive junto ao mar, sozinha,

Mas costuma ser madrinha

Nos batizados reais.

 

Morgana é muito enganosa;

Às vezes, moça e formosa,

E outras, velha, a rir, a rir…

Ora festiva, ora grave,

E voa como uma ave,

Se a gente lhe quer bulir.

 

Que direi de Melusina?

De Titânia, a pequenina,

Que dorme sobre um jasmim?

De cem outras, cuja glória

Enche as páginas da história

Dos reinos de el-rei Merlin?

 

Umas têm mando nos ares;

Outras, na terra, nos mares;

E todas trazem na mão

Aquela vara famosa,

A vara maravilhosa,

A varinha de condão.

 

O que elas querem, num pronto,

Fez-se ali!  parece um conto…

Mesmo de fadas… eu sei!

São condões que dão à gente,

Ou dinheiro reluzente

Ou joias, que nem um rei!

 

A mais pobre criancinha

Se quis ser sua madrinha,

Uma fada… ai, que feliz!

São palácios, num momento…

Beleza, que é um portento…

Riqueza, que nem se diz…

 

Ou então, prendas, talento,

Ciência, discernimento,

Graças, chiste, discrição…

Vê-se o pobre inocentinho

Feito um sábio, um adivinho,

Que aos mais sábios vai à mão!

 

Mas, com tudo isto, as fadas

São muito desconfiadas;

Quem as vê não há-de rir.

Querem elas que as respeitem,

E não gostam que as espreitem,

Nem se lhes há-de mentir.

 

Quem as ofende… Cautela!

A mais risonha, a mais bela,

Torna-se logo tão má,

Tão cruel, tão vingativa!

É inimiga agressiva,

É serpente que ali está!

 

E têm vinganças terriveis!

Semeiam coisas horriveis,

Que nascem logo no chão…

Linguas de fogo que estalam!

Sapos com asas que falam!

Um anão preto! Um dragão!

 

Ou deitam sortes na gente…

O nariz faz-se serpente,

A dar pulos, a crescer…

É-se morcego ou veado…

E anda-se assim encantado,

Enquanto a fada quiser!

 

Por isso quem por estradas

For, de noite, e vir as fadas

Nos altos mirando o céu,

Deve com jeito falar-lhes

Muito cortez e tirar-lhes

Até ao chão o chapéu.

 

Porque a fortuna da gente

Está às vezes somente

Numa palavra que diz;

Por uma palavra, engraça

Uma fada com quem passa,

E torna-o logo feliz.

 

Quantas vezes já deitado,

Mas sem sono, inda acordado

Me ponho a considerar

Que condão eu pediria,

Se uma fada, um belo dia,

Me quisesse a mim fadar…

 

O que seria? Um tesouro?

Um reino? Um vestido de ouro?

Ou um leito de marfim?

Ou um palácio encantado,

Com seu lago prateado

E com pavões no jardim?

 

Ou podia, se eu quisesse,

Pedir também que me desse

Um condão, para falar

A lingua dos passarinhos,

Que conversam nos seus ninhos…

Ou então, saber voar!

 

Oh, se esta noite sonhando,

Alguma fada, engraçando

Comigo (podia ser!)

Me tocasse da varinha,

E  fosse minha madrinha

Mesmo a dormir, sem a ver…

 

E que amanhã acordasse

E me achasse… eu sei? Me achasse

Feito um principe, um emir!…

Até já, imaginando,

Se estão meus olhos fechando…

Deixa-me já, já dormir!

 
Noticia Bibliográfica

O poema foi composto para uma colectânea – Tesouro poético da infância – que Antero de Quental coordenou, e foi mais tarde recolhido em Raios de Extinta Luz, livro póstumo publicado em 1892, organizado por Teófilo Braga e onde este recolheu todas as poesias de Quental que conseguiu, mesmo algumas que o poeta tinha deliberadamente destruído mas das quais tinham subsistido cópias em mãos de terceiros.

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Matsuo Bashö – Haiku 963

07 Domingo Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Basho, Haikai, Haiku

Bashö – Haiku 963 (versão em caracteres latinos)

matsu sugi o

homete ya kaze no

kaoru oto

Verão de 1691

traduzido à letra para inglês:

pine cedar [object] / praise <>wind of / smell sound

arrisco uma versão em português:

pinheiro e cedro

admirar o vento

cheirar o som

O haiku enquanto forma poética possui um vasto conjunto de técnicas de construção (alguns autores identificaram 33 no tempo de Bashö) que não vem ao caso elucidar aqui. No entanto, vale a pena referir um aspecto, que por tão básico, deve ser prévio à leitura de haikai e que é o seguinte: um haiku deve conter duas partes a que chamaremos a frase e o fragmento. Uma tradução correcta de um haiku deve fazer um corte claro entre estas duas partes através do uso aproporiado da gramática. Alguns tradutores, quando não conseguem este corte claro usam a pontuação.

Na versão que propomos o corte gramatical estabelece-se entre os substantivos pinheiro e cedro e a acção através dos verbos em admirar o vento / cheirar o som.

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Prévert, Les Feuilles Mortes e Juliette Greco

07 Domingo Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poetas e Poemas

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carlos mendonça lopes, Erwin Blumenfeld, Jacques Prévert, Juliette Greco

Alguns poemas encontram na musica a forma de chegar ao coração dos homens. Um deles, Les Feuilles Mortes de Jacques Prévert, companhia inseparável do meu cancioneiro, aqui recordo na voz de Juliette Greco, incluindo uma tradução literal que arrisco, uma vez que o desconhecimento do francês é hoje generalizado.

Les Feuilles Mortes na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/01+-+Les+feuilles+mortes.mp3

” Les Feuilles Mortes “
Jacques Prévert – 1945

Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes/Oh! queria tanto que te recordasses
Des jours heureux où nous étions amis./dos dias felizes quando éramos amigos.
En ce temps-là la vie était plus belle,/Nesse tempo a vida era mais bela,

Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui./ e o sol mais brilhante que hoje.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle./As folhas mortas agarram-se à pá.
Tu vois, je n’ai pas oublié…/Vês, não esqueci…
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,/ As folhas mortas agarram-se à pá,
Les souvenirs et les regrets aussi/as recordações e os remorsos também
Et le vent du nord les emporte/e o vento norte norte transporta-os
Dans la nuit froide de l’oubli./na noite fria do esquecimento.
Tu vois, je n’ai pas oublié/ Vês, não esqueci
La chanson que tu me chantais./a canção que tu me cantavas.

[Refrain:]
C’est une chanson qui nous ressemble./É uma canção que nos semelha.
Toi, tu m’aimais et je t’aimais/ Tu, tu me amavas e eu te amava
Et nous vivions tous deux ensemble,/e viviamos os dois juntos,
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais./ tu que me amavas, eu que te amava.
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment,/Mas a vida separa os que se amam,
Tout doucement, sans faire de bruit/docemente, sem fazer ruido
Et la mer efface sur le sable/e o mar apaga na areia
Les pas des amants désunis./os passos dos amantes desunidos.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,/ as folhas mortas agarram-se à pá,
Les souvenirs et les regrets aussi/ as recordações e os remorsos também
Mais mon amour silencieux et fidèle/mas o meu amor silencioso e fiel
Sourit toujours et remercie la vie./continua a sorrir e agradece à vida.
Je t’aimais tant, tu étais si jolie./Amava-te tanto, eras tão bonita.
Comment veux-tu que je t’oublie ?/Como queres que te esqueça?
En ce temps-là, la vie était plus belle/ Nesse tempo, a vida era mais bela
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui./e o sol mais ardente que hoje.
Tu étais ma plus douce amie/ Eras a minha mais doce amiga
Mais je n’ai que faire des regrets/mas não tenho senão que lamentar
Et la chanson que tu chantais,/e a canção que cantavas,
Toujours, toujours je l’entendrai !/sempre, sempre a ouvirei!

Poema todo ele de melancolia, em que o outono dos amores e da vida se cruza com as folhas caídas, e o vento norte nos transporta pela noite fria do esquecimento, ouvir este Les Feuilles Mortes na voz de Juliette Greco é uma emoção repetidamente saboreada. Tanta vida naquela voz.

Voz que noutra canção nos guia nos segredos dos preliminares do amor, ao cantar Desabillez-moi.

Desabillez-moi na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/10+-+Deshabillez-moi.mp3

Sendo uma canção que toda a vida a artista cantou, quando jovem há uma veemência que bem passados os oitenta (nasceu em 1927), tem o sabor dos vinhos amadurecidos com o tempo.

No final de 2009, quando se apresentou no CCB, arriscou cantar esta canção. Antes teve o cuidado de alertar a audiência para a consciência que tinha da estranheza de interpretar semelhante canção nesta idade da vida.

Foi um dos momentos mais comoventes do concerto, sentir aquela audiência quase toda formada por gente a quem há muito a juventude escapou, vibrar num frémito de recordação de prazeres talvez perdidos, ou apenas sonhados.

É a voz o veículo destas emoções, e quando não envelhece, a experiência torna-a na evidência do sublime.

Na memória desse concerto escrevi este  relato

Deshabillez-moi

C’est la belle Juliette qui chante.

Ouvimos, olhamos, e não nos libertamos mais.

Canta-nos na cabeça no mais inesperado dos momentos.

Os olhos, do tamanho do mundo, revelam os mistérios do amor.

O gesto,

o braço levantado,

a figura de negro até aos pés

transporta mais erotismo que uma striper em palco.

A voz, talvez rouca,

desencadeia tempestades

onde a razão se perde

E vamos ao fundo do abismo para a não perder.

Depois canta “j’arrive”

e é a morte que nos visita

Na dor da despedida e da perda.

O teatro da voz é mais verdadeiro que a vida.

Façamos agora uma pequena volta por quase 50 anos de interpretações felizmente conservadas,  pour notre bonheur, com um pequeno grupo de canções com Paris em fundo e um perfume de acordeon, num balanço reminiscente de bal musette, que estiveram na origem do mito da boémia parisiense de final dos anos 50 e anos 60.

Paris-Canaille na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/08+-+Paris+Canaille.mp3

Sous le ciel de Paris na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/03+-+Sous+le+ciel+de+Paris.mp3

Il n’y a plus d’après na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/03+-+Il+n%27y+a+plus+d%27apres.mp3

Accordeon na voz de Juliette Greco

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/09+-+Accordeon.mp3

 

Tenha valido a pena o passeio, espero.

Nota: A fotogravura de Juliette Greco que ilustra o artigo é de Erwin Blumenfeld, 1951.

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Nascemos para o sono – Poema do Ciclo Nauatle mudado para português por Herberto Helder

05 Sexta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Herberto Helder, Nahuatl, Nauatle

NASCEMOS PARA O SONO

Nascemos para o sono,

nascemos para o sonho.

Não foi para viver que viemos sobre a terra.

Breve apenas seremos erva que reverdece:

verdes os corações e as pétalas estendidas.

Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.

 

Poema mexicano do ciclo Nauatle mudado para português por Herberto Helder, transcrito do livro O BEBEDOR NOCTURNO e publicado por Assírio & Alvim em 2010.

O náhuatl, em português nauatle, é uma lingua pré-colombiana ainda hoje falada em algumas partes do México.

A poesia em náhuatl tem características cosmogónicas, explicando a origem do universo e fixando o lugar e papel do homem nele.

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A assim chamada vida – poema de Czeslaw Milosz

02 Terça-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Czeslaw Milosz

 

A assim chamada vida

A assim chamada vida, quer dizer

tudo o que é assunto de telenovela

não lhe parecia digno de relatar.

Mesmo que quisesse falar, não o sabia.

Admiravam-no as histórias intrincadas de homens e mulheres

que se iam arrastando até à deslembrança coruscante.

Ele próprio só sabia cerrar os dentes, aguentar e

esperar que a velhice inviabilizasse os dramas,

que a novela de amores, ódios, tentações e traições

rebentasse como uma bola de sabão.

Czeslaw Milosz (1911-2004)

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, publicada em Alguns gostam de poesia, Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, 2004.

SO-CALLED LIFE

So-called life: everything that provides material for a soap opera,

he didn’t think was worth relating,

or maybe he wanted to tell it and couldn’t.

He was surprised by the tangled tales of men and women,

stretching out to a flickering oblivion.

He himself only knew how to clench his teeth and bear it,

to wait, until old age took from the dramas their meaning,

and the soap opera of loves, hatreds, temptations

and betrayals, dropped off to sleep.

O poema pertence ao ultimo livro do poeta, THIS (2000) e foi recolhido em New and Collected Poems (1931-2001) em edição da PENGUIN, na serie Modern Classics, em 2001.

 

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A vida é bela, quem precisa de Proust

31 Domingo Jul 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Luis Alberto Cuenca, Luis Filipe Parrado, Roger Wolfe

Para estes tempos de Verão, quando o remanso à beira-mar traz em balburdia as recordações, nada como este poema de Roger Wolfe (1962) para situar no lugar certo o que é na verdade importante.


ES TARDE YA EN LA NOCHE

 Es tarde ya en la noche

y la playa está desierta.

Rompe el mar

sobre las rocas.

Un aire cálido,

espeso de salitre

y de recuerdos,

me baña la cabeza.

Cierro los ojos.

Inhalo.

Me dejo llevar.

Y luego pienso,

como casi siempre

que me pasan estas cosas,

en Proust.

Pero no he leído

a Proust.

Qué importa.

La vida es bella.

Quién necesita

a Proust.

Talvez seja desnecessário acrescentar que o Proust do poema é Marcel Proust, o autor da saga em 7 volumes “Em Busca do Tempo Perdido“

Arrisco agora uma tradução para o leitor a quem o castelhano seja completamente estranho:

É já tarde na noite

e a praia está deserta.

Rebenta o mar

sobre os rochedos.

Um ar cálido,

espesso de salitre

e de lembranças,

banha-me a cabeça.

Fecho os olhos.

Inalo.

Deixo-me levar.

E logo penso,

como quase sempre

que me ocorrem estas coisas,

em Proust.

Mas não li Proust.

Que importa.

A vida é bela.

Quem precisa

de Proust.

E acrescento outra tradução, desta vez de Luis Filipe Parrado publicada no nº5 da Revista Criatura em Outubro de 2010, com pequenas nuances quando a tradução literal não é possivel

Já é tarde na noite

e a praia está deserta.

Quebra-se o mar

Contra as rochas.

Um ar cálido,

espesso de salitre

e de recordações,

banha-me a cabeça.

Fecho os olhos.

Inalo.

Deixo-me levar.

E penso logo,

como quase sempre

quando me acontecem estas coisas,

em Proust.

Mas eu nunca li

Proust.

Que importa.

A vida é bela.

Quem precisa

de Proust.

Roger Wolfe (1962) nascido em Inglaterra, vive em Espanha desde os 4 anos. Com varios livros de poesia publicados, direi dela, com Luis Alberto de Cuenca, que “ à força de verdade humana, de coragem expressiva e de rigor estrutural ficou a viver para sempre na nossa memória”.

O poema foi publicado no livro MENSAJES EN BOTELLAS ROTAS em 1996 pela Editora RENACIMIENTO de Sevilha, a qual também publicou do poeta, em 2007, a preciosa antologia DÍAS SIN PAN.

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De férias até Agosto deixo-vos com Herberto Helder

16 Sábado Jul 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Herberto Helder

De férias até Agosto, deixo-vos com uma irónica e desolada meditação, com arte poética à mistura, pela voz de Herberto Helder.

A vida vai-se irremediavelmente, e mesmo quando não o queremos aceitar, temos pena.

O ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,

espreito-o, leitor,

por cima do ombro de outros,

rítmico, manuscrito,

porque sofro do êrro,

porque me não equilibro nas linhas,

palavras sim insubstituíveis mas

tão pouco sustentáveis,

sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,

que tusa surreal!  

ou fodem murcho?

a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,

em teorias gerais da linguagem,

na vida eterna,

na gramática,

na foda estrita,

em prática técnica nenhuma,

na glória da língua,

não há apoio de inserção que me valha,

e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,

morro faz já bastante tempo,

ou não ganhei a mão esquerda certa,

ou não perdi a razão suficiente,

Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, ou loucos,

para-me de repente o pensamento,

luzia a lusa língua,

se era o mesmo o ministério voltava sempre ao comêço,

exasperado, lúcido,

o mais música de câmara possível,

o recôndito,

o côrrego,

tão virgem nele se bebia a água,

e lisa, límpida, ligada,

e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,

o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,

oh terror e deslumbre,

acqua alta!

 

 

O poema foi publicado em Ofício Cantante por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

 

 

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A SUMMER ECSTASY / ÊXTASE DE VERÃO

02 Sábado Jul 2011

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Alexander Search, Fernando Pessoa

Recolhido ao fresco do ar condicionado neste verão que nos abrasa, leio poesia, e aguardo o que aconteceu ao poeta:

Junto a um dia de verão / Fiquei deitado a sonhar. / E de longe a luz, então, / Veio dentro de mim brilhar.

Infelizmente não me aconteceu nenhuma epifania como relata o poema:

Súbita flauta possivel / Em notas sem melodia / Brota, do fundo invisivel / De meu ser…

e continuo com a urgência do quotidiano, numa perfeita sintonia com o maravilhoso tempo que vivemos. Mas bem gostava de num sobressalto sentir como o poeta:

Sou outro ser. / Meus sentidos outros já. / A mão que oculta meu ver / Divina cegueira dá. /  Sou musica vinda dos céus, / Um tom dos dedos de Deus.

O poeta é Fernando Pessoa na pele de Alexander Search, o heterónimo pouco considerado. Ressoam no poema os primórdios do que viria a ser o panteísmo de Alberto Caeiro, aqui ainda confuso:

A poeira que ao sol baila / Pode ouvir-se sussurrar. / Tudo é expressão, tudo fala.

Deixo-vos com o poema na integra.

 

ÊXTASE DE VERÃO

 

Junto a um dia de verão

Fiquei deitado a sonhar.

E de longe a luz, então,

Veio dentro de mim brilhar.

Brilho vero e irreal

Por certo espiritual.

 

O interior então vi

Do verão, da terra, da aurora.

Os rios a correr ouvi

De Dentro. Nasci outrora

P’ra ver, em cada mistério,

Como Deus é tudo, inteiro.

 

A poeira que ao sol baila

Pode ouvir-se sussurrar.

Tudo é expressão, tudo fala.

A vista pode escutar.

Das coisas perdi visão.

Ideias, aladas são.

 

Os restos de horas passadas

Vogam em barcos à deriva

Cobertas de flores caladas,

Com meu sonho na descida

Até margens de mistério –

Este dia quente e eu.

 

E algo de um cobiçar,

Mas dum desejo diferente,

Sensação de algo faltar

Sem chegar a estar carente,

Mas que se vai dissolver

Antes que doa o prazer.

 

Um brilho de sombra tecido

Deste dia e de meu ser,

Água de fulgor trazido

Apenas para se ver,

Hiato, pausa, obscuro

Olhar a orla de tudo,

 

Súbita flauta possivel

Em notas sem melodia

Brota, do fundo invisivel

De meu ser, sua magia

E esvai-se do meu sentido

No pensamento perdido.

 

E olhai! Sou outro ser.

Meus sentidos outros já.

A mão que oculta meu ver

Divina cegueira dá.

Sou musica vinda dos céus,

Um tom dos dedos de Deus.

 

E como um principe coroado

Sinto orgulho e medo agora,

De céu e terra trajado.

A alma por dentro e fora,

É sol até aos confins.

Sonho mãos de serafins.

 

O poema, A SUMMER ECSTASY, foi traduzido por Luisa Freire e publicado a primeira vez pela tradutora em 1995, na edição bilingue da Poesia Inglesa de Fernando Pessoa. Traz o nº48 do livro THE MAD FIDDLER/O RABEQUISTA MÁGICO.

O livro foi editado por LIVROS HORIZONTE, LDA em 1995, e penso que a superlativa tradução dos poemas terá sido premiada por um dos prémios que de vez em quando fazem justiça ao trabalho que o merece.

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