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vicio da poesia

Category Archives: Poesia Portuguesa do sec. XX

Eugénio de Andrade — Em vez da morte, que teremos no paraíso?

19 Sexta-feira Abr 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Eugénio de Andrade

É pela Semana Santa que o mundo cristão reflecte sobre a morte e ressurreição, ou seja, sobre a esperança de vida eterna.
No último verso do poema A Pergunta de Stevens, de Eugénio de Andrade (1923-2005) — Em vez da morte, que teremos no paraíso? — encontro formulada a pergunta insistente sobre o além-vida, para a qual ninguém tem a resposta. É esse desconhecido que ora nos aterra, ora nos tranquiliza, a base do sentimento religioso: a busca da explicação para o inexplicável. E são muitas as formas como com ele lidamos. É de novo Eugénio de Andrade quem nos trás uma das muitas abordagens da tentativa da sua compreensão, através de uma leitura de como sentimos a morte dos outros em nós, com o poema Pequena Elegia de Setembro. Mas ainda aqui são mais as perguntas que as respostas:

 

Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

 

 

Esta visão da morte banhada em serenidade, ou antes, melancolia, como o poeta refere num poema do mesmo nome, é uma medida da possível relação humana com ela:

 

Melancolia

O sol mal entra em casa — escrevo
sobre a fugidia
luz de areia,
luz que não encontra morada.
Tudo me dói neste dia
em que os mortos deixam à porta
dos vivos
a corrosiva melancolia.

 

 

Sem respostas, … Mas também / o poeta escreve direito por linhas / tortas: a poesia é a ficção / da verdade. … / (do poema São Coisas Assim), é com o poema Balança que termino, dando voz ao profundo significado da vida, pois ao pensar na morte, é sempre sobre a vida que pensamos:

 

Balança

No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.

 

E no equilíbrio com que pela vida nos movemos se encerra o significado do existir. Sem mais!

Poemas transcritos de Eugénio de Andrade, Poesia, Rosto Editora, lda, V.N.Gaia.

Abre o artigo a imagem de uma pintura do pintor de Siena, Giovanni di Paolo di Grazia (1398-1482), Paraíso.
A pintura é parte de um tríptico que inclui uma Criação e uma Expulsão do Paraíso, todos pertença da colecção do Metropolitan Museum de New York.

Imaginar o além-vida como este mundo de harmonia entre anjos e humanas criaturas no século XV em Siena, ocupados em amena e eterna conversação, é uma deliciosa visão.

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Salmo 139 mudado para português por Herberto Helder

15 Segunda-feira Abr 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Herberto Helder

Deus como demiurgo, a crença na Sua omnipresença e omnisciência encontram-se plasmadas no Salmo 139 que hoje transcrevo mudado para português por Herberto Helder (1930-2015).

Simultaneamente exaltante e terrífico, é um avassalador poema sobre o ínfimo da condição humana perante a grandeza do divino:

…
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.

 

É parte essencial da crença religiosa a aspiração a partilhar com o Ser Supremo a graça da divindade. E para a ela chegar percorrem-se os caminhos da fé, variados tanto quanto as crenças humanamente concebidas e espalhadas pelas geografias da terra desde que o homem nela existe e pensa. O livro dos salmos integrando o antigo testamento da Bíblia, é tão só mais uma peça desse vasto mundo onde a palavra procura o transcendente.

 

 

Salmo 139

Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces a minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.

Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.

Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.

 

Parte do poema SALTÉRIO, Salmos 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139 incluído em O Bebedor Nocturno, poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Peter Powditch (1942), Coastal II.

Visão da terra onde nascemos e morreremos, nesse lapso só nos justificamos como indivíduos se fizermos por a merecer.

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Manuel Alegre — Que somos nós senão o que fazemos?

09 Terça-feira Abr 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Manuel Alegre

No passado próximo deixei uma interrogação e convite à meditação do eu interior com uma Oração à Alma de Gregório de Naziano. Hoje venho com uma diferente interrogação por Manuel Alegre (1936): Que somos nós senão o que fazemos?
O soneto Que somos nós dá a resposta do poeta:

…
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. …

 

 

O soneto foi publicado em 1970. Não sei se hoje, passados quase cinquenta anos de vida a resposta do poeta continua a ser a dada no poema, de que o homem ou é acção, ou não é.

 

Entendo que somos mais que acção. Agir é tantas vezes errar. Agir sem a vigilância da reflexão sobre o que se faz e suas consequências pode ser historicamente marcante mas quantas vezes, se não tivesse acontecido, não seria melhor.
Vejamos o que nos diz o imperador Marco Aurélio (121-180) num dos seus Pensamentos:

 

Tudo o que sou não passa disto: um pouco de carne que respira e o norte da razão que nos dirige. …
Marco Aurélio, Pensamentos, Liv. II, 2.

 

Ser homem é pensar sempre e a cada momento as consequências da sua acção. Se como escrevi no artigo antes referido, mesmo quando não escolhemos estamos a decidir não escolher, agir ou não agir que seja sempre consequência de escolher, e não irreflectido impulso, para que o rasto que deixemos na terra tenha servido de alguma forma o bem.

 

Antes de o deixar, leitor, com o poema, regresso a um dos pensamentos de Marco Aurélio:

 

Experimenta como te prova por seu turno a vida do homem de bem que aceita com gosto a parte que lhe toca no conjunto e se contenta, pelo que lhe depende, com praticar a justiça e permanecer em disposição benevolente.
Liv. IV, 25.

 

 

Poema

 

Que somos nós

Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?

Que somos nós se não permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos

para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que

o sol do que fazemos. Porque o mais
é sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.

 

in O Canto e as Armas, inédito na 2.ª edição, 1970
Transcrito de Obra Poética, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999.
Traduções de Marco Aurélio por João Maia. Pensamentos, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1995.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Fernand Léger (1881-1955), Os Construtores da colecção do Museu Fernand Léger de França.

 

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Incêndio — poema de José Saramago

07 Domingo Abr 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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José Saramago

Se algum leitor se desse ao trabalho de seguir no blog a poesia que aborda prazer e sexo, espantar-se-ia com a variedade expressiva para falar do mesmo e em todas as épocas e latitudes. Hoje mais um exemplo, não de um poeta, mas de um prosador que escreveu alguma poesia, José Saramago (1922-2010). Com o seu poema, Incêndio, dou continuidade ao que há pouco escrevi no blog: que a poesia portuguesa do século XX abunda na representação do erótico, manifestação do desejo físico e sua consumação, cobertos por linguagem velada, se não mesmo metafórica.

 

Incêndio

Convoco o cheiro, a polpa sensitiva
Dos dedos curiosos e da boca,
Convoco a cor dos olhos, e os cabelos,
E o lume que neles há, e a voz rouca.

Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.

Reúno estas memórias. No meu sangue
As infundo e converto como brasas,
E ardo, violento: assim, ao vento,
Ardem de lés a lés searas rasas.

in Provavelmente Alegria.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de René Magritte (1898-1967), La lectrice soumise, A leitora subjugada.

Fantasiemos um pouco sobre esta imagem de abertura.
Representará uma mulher ainda nova, modesta com a sua pessoa, pouco favorecida pela beleza física, a quem a vida não proporcionou os prazeres descritos no que acaba de ler.  Curiosa, segue o meu conselho, e de artigo em artigo cresce o espanto sobre os prazeres que é possível gozar e ela ignora:
— Ai os poetas romanos! E os do Al -Andaluz então… . Meu Deus! Tanta religião e aquilo…
Para cúmulo, admiradora da prosa do nosso Nobel, nem percebe bem o que ele quer dizer com aquele:

…
Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.
…

Será que se refere mesmo ao que ela está a pensar? Incrédula, quase deixa cair o livro onde foi procurar o poema para se certificar da sua existência. …

E aqui ponho fim à fantasia. Até à próxima…

 

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Ruy Belo — o poema Ácidos e Óxidos

05 Sexta-feira Abr 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Jim Dine, Ruy Belo

Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
…
Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. …

 

Depois do intervalo destes dias, regressemos à poesia densa de implicações sociais e psicológicas com o poema Ácidos e Óxidos de Ruy Belo (1933-1978):
…
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
…

 

Eis o retrato de alguém psicologicamente adaptado ao papel social que lhe foi atribuído, embora ocasionalmente espreite alguma perplexidade, que não interrogação:
…
E perguntar será para ti responder
…
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
…

 

Na desarticulação do discurso linear recolhem-se as complexidades do eu, e nesta espécie de conversa ao espelho do próprio consigo mesmo, reflecte-se a quase impotência da autonomia individual na teia social de compromissos, deveres, e expectativas dos outros, a ponto de acreditar que são afinal escolhas do próprio as que outros induzem:
…
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
…

 

O remate surge na inevitável conclusão da inutilidade de tanto compromisso, consequência da pressão exterior sobre o indivíduo:
…
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

 

 

Eis o poema na totalidade:

 

 

Ácidos e Óxidos

É uma coisa estranha este verão
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira

Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas

Ó dias encobertos de verão do meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada

Curriculum atestado testemunho opinião…
que importa, se o verão é mesmo uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, ó sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório, é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo – o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de pauis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder

Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
— que ao dominar-te deixa que domines — mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

 

in Todos os Poemas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

 

 

Abre o artigo a imagem de um objecto escultórico de Jim Dine (1935), Fato Verde.

 

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Metafísica — O amor segundo Adolfo Casais Monteiro

29 Sexta-feira Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Adolfo Casais Monteiro

Entendendo por erotismo poético um conceito difuso que fala do corpo e do abismo dos seus prazeres, — … / sede infinita, lava ao rubro, / em que morremos renascendo! — encontramos na poesia portuguesa do século XX uma abundante produção onde a linguagem velada, — … / fogo de desejo a tua face / trémula de querer-te a minha voz… / … — se não mesmo cifrada, é de obrigação nesta abordagem.
Um exemplo entre tantos é o poema Metafísica de Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) que hoje transcrevo e antes citei.

Belo poema com estranho entendimento do amor fisico, chamando Metafísica (*) à sua explicitação:

…
Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!
…

por ele passa o ardor sem tempo do que faz arder as gentes: aceso coração da vida!

 

Metafísica

A sós contigo, em qualquer parte
nem meu nem teu só nosso o mundo,
aceso coração da vida!
Fiando um tempo indiferente
ao que fomos e seremos
fogo de desejo a tua face
trémula de querer-te a minha voz…l

Ou febre ou calma dum presente
em que os beijos não acabam
e as carícias reverdecem
em sucessivas primaveras!
Espuma de taça sempre cheia
num extinguir-se inextinguível,
sede infinita, lava ao rubro,
em que morremos renascendo!

in Simples Canção da Terra

 

(*) Metafísica segundo o Dicionário Oxford de Filosofia: qualquer investigação que levante questões sobre a realidade que estejam por detrás ou para além das que podem ser tratadas pelos métodos da ciência.

A propósito do título do poema, tendo em conta o conceito filosófico, faz-me relevar a implicação de que viver o amor físico é uma investigação; concordo. E que estes actos levantem questões além da ciência também não discordo. Mas há uma ciência precisa na sua prática, há quem lhe chame arte, e essa é muito conveniente aos participantes, e sem ela dificilmente os resultados serão satisfatórios.
Concluo: estamos perante uma investigação que é simultaneamente física e metafísica, daí a estranheza que assinalei ao título do poema.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Tom Wesselmann (1931-2004), Nude nº1 de 1970.

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O mundo poético de Adília Lopes

27 Quarta-feira Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

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Adília Lopes

Hoje leio a poesia de Adília Lopes(1960) publicada em livro entre 1985 e 2014 e reunida pela própria no volume Dobra.

Estes poemas são um mundo feminino onde entro pé ante pé. Povoados de parentela, criadas, e amizades dúbias, são quase sempre poemas narrativos onde os homens por vezes surgem, quais fantasmas fálicos. Lendo as histórias que contam interrogo-me entre espanto e perplexidade: será assim? Aceito que seja.

Historietas contadas com desenvoltura e economia, são, na maior parte das vezes, platitudes à procura da poesia, ex:

…
então vamos comer um gelado
eu não vou eu digo
apetece-me um gelado
mas não como disse-me ela
o que é que se pode fazer
com uma rapariga destas?

 

com uma que outra piscadela de olho ao conhecimento cultural do leitor. Acontece surgir aqui e ali uma quadro sociológico ou mental dado com nervo e precisão cirúrgica, o que nos redime da leitura.

Num mundo de bonecas e bordados irrompe a certa altura o sexo, desbragado e explícito, não já as brincadeiras adolescentes, ora incestuosas ora homoeroticas que por lá andavam, mas a fome primordial de gozo, intensa e voraz. Os poemas com esta sexualidade ávida ficam hoje de fora. Outro dia a eles irei.

Quando não são narrativos, os poemas, surgem aforismos e sentenças, onde interrogações não existem. Eis uma escolha.

 

Os poemas seguem, cada um separado por um * e indicação da primeira publicação em livro.

 

*
Não busco
o tempo
perdido
porque
é o tempo
perdido
que vem
ter comigo

Reencontrado

o tempo
acaba
o tormento

Fica

espaço
para
o Verão

O mar

é verde
amplia
o meio-dia
in César a César, 1.ª edição & etc, 2003.

 

 

*
Debaixo
do vulcão
está o retrato
do artista
quando
jovem cão
in Sete Rios Entre Campos, 1.ª edição & etc, 1999.

 

 

*
O passado
é barro
como o futuro

O presente

é água
como a morte

 

 

*
O passado
é plasticina
como o futuro

O futuro

é carnificina
in Le Vitrail La Nuit * A Árvore Cortada, 1.ª edição & etc, 2006.

 

 

*
1
Tudo muda
Deus não muda

2

As mudas
saltam
as coxas
coaxam

3

Não é tarde
é só
de tarde

 

 

*
Está
certo
o que está
perto

Não quero

ser monge
longe
mas hoje
in Os Namorados Pobres, 1.ª edição Assírio & Alvim, 2009.

 

 

Depois destes aforismos, sentenças, e piscadelas de olho, entremos no mundo feminino:

 

 

*
Eu realmente falo muito
em raparigas
ora as raparigas
haverá excepções
foram sempre muito minhas amigas
da onça
um dia convidei uma
para morrer comigo
hei-de tentar entrar na morte
a dançar disse-lhe eu
ela disse-me o que tu dizes
não se escreve
pois não não lhe disse eu
e o que eu escrevo não se diz
então vamos comer um gelado
eu não vou eu digo
apetece-me um gelado
mas não como disse-me ela
o que é que se pode fazer
com uma rapariga destas?
in Um Jogo bastante perigoso, 1.ª edição: da Autora, 1985.

 

 

*
A Salada com molho cor-de-rosa

1
Conheci a Magda na praia
na praia é uma metáfora obscena
que como as outras metáforas obscenas
pode ser usada quer como eufemismo
quer como insulto
conheço por experiência própria
os dois usos da expressão
na praia

2

Eu gosto de me fazer passar
por uma rapariga ordinária
a Magda era mesmo ordinária
a princípio era isto o que mais
me atraía nela depois foi isto
o que sobretudo me desgostou dela

3

As minhas relações com a Magda
de deliciosas passaram a promíscuas
aconteceu-me
o que me tinha acontecido
quando comi salada com molho cor-de-rosa
ao princípio
a salada era deliciosa por causa do molho
depois comecei a perceber
que era mil vezes melhor
estar a comer os vegetais
sem molho do que com molho
o molho impedia-me de comer os vegetais
com gosto
desgostava-me da vida

4

Vivia com a Magda
num quarto de duas camas
quando eu chegava ao quarto
a Magda estava deitada na minha cama
numa posição de Maja desnuda
mas vestida
o que ainda era pior
outras vezes encontrava-a
sentada na minha cadeira
a folhear os meus livros
e a chupar os dedos

5

A Magda era uma intrusa
depois de ter sido um ser envoûtant
quer como intrusa
quer como ser envoûtant
ela era para mim
uma fonte de perturbação

6

Eu não era casta
não porque me entregasse
com a Magda
(que era aliás uma praticante profissional do safismo)
a um prazer que alguns dizem vicioso
(só lhe toquei uma vez
sem querer
e pedi-lhe automaticamente desculpa)
mas porque com a Magda
não tinha prazer nenhum

7

(Acho que o prazer é casto
o que não é casto
é o simulacro do prazer
ou a renúnica ao prazer
tanto o simulacro
como a renúncia)

8

Um dia voltei ao quarto
e a Magda tinha desaparecido
sem deixar marcas
custou-me não encontrar
o chiqueiro próprio da Magda
os meus cigarros fumados
o meu cinzeiro cheio de beatas
sujas de bâton
(que me faziam lembrar
dentes cuspidos após uma briga)
o Las Moradas
antes do Calculus I
na minha estante
quando eu me habituei
a pôr esses livros por ordem inversa

9

O que me custou
foi tudo ter acabado
como tinha começado
como se nada se tivesse passado
durante
ora o que se passou durante
ainda hoje me incomoda
e portanto deve ter acontecido
in Um Jogo bastante perigoso, 1.ª edição: da Autora, 1985.

 

 

*
Aproveitaram a esperada
ausência das tias
para a sete chaves
se fecharem no quarto
mais húmido da casa
aí a sete chaves
elas fizeram-se comer uma à outra
bombons
in A Pão e Água de Colónia, 1.ª edição: Frenesi, 1987.

 

 

*
A Desobediência Castigada

Não foi culpa minha
se caí na selha e se meu irmão
correu para dentro a chamar
o criado que a mana estava
a molhar os vestidos quando eu
estava mas era a afogar-me
não foi culpa minha
se desobedeci a minha mãe
por sem sua licença passar a ferro
o vestido azul da boneca e assim
fazer no pulso com o ferro em brasa
uma queimadura rubra e sépia
como uma pétala de rosa macerada
que escondi com um lenço que anda
a menina a esconder com o seu lenço
nada minha mãe nada é uma arranhadela
que o gato arranhou por o não querer largar eu
não foi culpa minha
se a criada esqueceu a porta das traseiras
aberta e eu tropecei no degrau
e caí no lajedo e parti a cabeça
para ainda hoje trazer na testa
uma cicatriz que disfarço
com uma madeixa de cabelo
não foi culpa minha
se porém sempre por desobediência
minha mãe me privou da sobremesa
in O Decote da Dama de Espadas (romances), 1.ª edição: Gota de Água / Imprensa Nacional, 1988.

 

 

*
Lucinda e Madame Palmira

Onde estará
mas onde estará
o chapéu da boneca Lucinda?
aquele chapéu com uma peninha branca
e laços de veludo preto
que madame Palmira
costurou por graça
para a sobrinha da sua cliente dilecta?
madame Palmira começou por ser
ajudante de alfaiate
mas deixou de o ser quando
um cliente
durante uma prova de fraque
fez uma coisa que ela interpretou
como um atentado ao pudor
tornou-se modista de senhoras
mas de uma vez espetou
inadvertidamente
um alfinete num sovaco
(o que causou uma infecção
que embora sem gravidade
lhe fez perder a clientela)
foi assim que madame Palmira
se decidiu pelos chapéus
prova-os em manequins italianos
de celulóide
madame Palmira tem um espírito
minucioso
gosta de miniaturas
mas também com a boneca Lucinda
parece não ter sorte
pois o chapéu
sim esse chapéu de peninha branca
e laços de veludo preto
pelos vistos
desapareceu
in O Decote da Dama de Espadas (romances), 1.ª edição: Gota de Água / Imprensa Nacional, 1988.

 

 

*
A Ladainha minha

Há cem anos
que bordamos
os nossos enxovais
para nenhuma boda
nos nossos quartos
fechados à chave
os nossos noivos
enviuvaram
e andam pelo terreiro
vestidos de preto
com um fumo no braço
e cravo branco murcho
na lapela
as nossa mães
deixaram-nos
a bordar
em silêncio
os nossos enxovais
de brancos que foram sendo
fizeram-se amarelos
como crisântemos
eu e minhas irmãs
choramos a nossa sorte
copiosamente a fio
dia após dia
o pavio das nossas velas
esfuma-se
as nossas lágrimas
grossas como punhos
formam uma ribeira
que corre para o nosso mar
e o nosso mar?
in Os Cinco Livros de Versos Salvaram o Tio, 1.ª edição: da Autora, 1991.

 

 

Vai longo o artigo, e mais escolher dificilmente traria outra perspectiva a este corpus poético, além da temática de sexualidade activa e explícita que deliberadamente hoje deixei de fora.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura, óleo sobre tela, de James Rosenquist (1933-2017) Cão descendo as escadas de 1979, pertença de colecção privada.

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O Labirintodonte e para que serve a Poesia

21 Quinta-feira Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Portuguesa do sec. XX

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Alberto Pimenta, Fausto Guedes Teixeira, José Gomes Ferreira, Karel Appel, Ovídio

Bebo, logo existo, foi o título escolhido por um filósofo que leio com agrado, Roger Scruton, para desenvolver uma reflexão sobre pensar o vinho. Matéria de prazer, pensar e existir, afinal aquilo que faz o homem e nem sempre fácil de praticar. Que o diga o meu interlocutor imaginário:
— Isto de existir tem que se lhe diga. Estudar, o emprego, a família, a saúde: adoro queijo, será que tenho colesterol alto? Engordei, não me serve a roupa, conseguirei ir pelo menos três vezes ao ginásio esta semana? Uff! E ainda vêm com poesia… Amor!, coisas do género:

 

Amar ou odiar: ou tudo ou nada! / O meio termo é que não pode ser
A alma tem d’estar sobressaltada / P’ra o nosso barro se sentir viver.
… (*)

 

Bah!… Esta gente terá noção do que é viver todos os dias? Ainda se falassem de sexo. De sexo uma pessoa gosta.
— Pois é, digo eu, a vida não é fácil!…
— E então a poesia para que serve?
— Distrai-nos, quem sabe? Às vezes ajuda a viver melhor, a sua companhia. Mas isto é opinião suspeita.
Deixo-lhe, céptico(a) leitor(a), uma pequena amostra:

 

Viver sempre também cansa.
…
Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
…
E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
… (**)

 

Que tal a sugestão do poeta: morrer por um bocadinho, / de vez em quando, / e recomeçar depois, / achando tudo mais novo? Já tinha pensado nisso? Lá se acabavam os Uff!

E agora, o que dizer do sexo? É do que mais a poesia fala, às escondidas, ou às claras. Depende de como correm os tempos:

 

…
Quando ela surgiu diante de meus olhos, o manto caído aos pés,
no corpo inteiro nem uma só mácula se me mostrou:
Que ombros! Que braços eu vi e toquei!
A beleza dos seios, como se pôs a jeito dos meus afagos!
Como era liso, abaixo da linha do peito, o ventre!
Que grandiosidade e perfeição nas coxas! Que frescura nas pernas!
Que mais minúcias direi? Nada vi que não mereça elogio,
e foi a nudez do seu corpo que apertei contra o meu.
O resto, quem o não sabe? Depois da fadiga, repousámos ambos.
Assim possam correr muitas vezes as minhas tardes!
(***)

 

Quem não o deseja?
Isto escreveu Ovídio há mais de 2000 anos, pois terá morrido por volta do ano 17 ou 18, ainda Cristo vivia. De então para cá é falar do mesmo sempre de diferentes formas. E esse é um dos mistérios da poesia: do velho fazer o novo.

Os poemas, às vezes, até libertam a imaginação, e despertam para o que nunca pensámos, fazendo-nos olhar o mundo de outra maneira. E a Poesia é cheia de mistérios, como sabe quem a lê. Quem não a lê não os conhece. Um dos mistérios que revelo hoje é a existência do Labirintodonte, para benefício de quem lê poesia uma vez por ano. Oxalá consiga o(a) leitor(a) decifrar o seu mistério.

 

Vamos então ao Labirintodonte. Sabemos o que não é:
1) não é uma ave;
2) não é um elefante;
3) não é um réptil;

 

Então o que é?
a) anda de pé como o chimpanzé;
b) é o pretendente de la vache qui rit;
c) é um bicho de seu natural pensativo.

 

O mistério está quase a nu, e assim não vale. Há que ler até ao fim para, talvez, desvendar o enigma. Afinal, o que é a vida sem mistérios? Apenas acrescento que o demiurgo, autor de tão extraordinária criatura na forma escrita, foi Alberto Pimenta (1937), e deu-nos a conhecer um ser que só se pensar sabe que está vivo, se não é apenas carne. Pronta para o matadouro(?).

 

 

O Labirintodonte

O Labirintodonte
não é uma ave
de emigração
como o porfirião
nem um
mamífero petulante
como o elefante
nem um
réptil repelente
como a serpente
o labirintodonte
anda de pé
como o
chimpanzé
e o sagui
e é o pretendente
de
la vache qui rit
é um bicho
de seu natural pensativo
pois precisa
de pensar
para saber
que está vivo.

in O Labirintodonte, edição do autor, 1970.

 

E por hoje terminamos com poesia. Para o ano haverá novo Dia. Felicidades.

Notas
(*) Fausto Guedes Teixeira, encontra-o aqui.
(**) José Gomes Ferreira, encontra-o aqui.
(***) O poema de Ovídio encontra-o aqui, e aqui, em várias versões.

Abre o artigo a imagem de um outro ser imaginário, O Homem da terra, desta vez o demiurgo foi Karel Appel (1921-2006). Deu-lhe existência em 1960, antes, portanto, de o Labirintodonte ser concebido, mas o labirinto da vida já surgia a seus pés. Só não sabemos se já precisava pensar para saber que estava vivo, e por isso, lia poesia.

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O amor e o corpo num poema de Irene Lisboa

17 Domingo Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa do sec. XX

≈ 2 comentários

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Irene Lisboa, K B Brehmer

As pernas são belas, 

quando juntas. 

Que beleza a das pernas!

De alto a baixo 

um veio as desune, 

as distingue, 

as separa e arredonda 

como a dois esbeltos, firmes corpos… 

 

 

Apesar do título, e deste início, não é o erotismo o que associamos à poesia de Irene Lisboa (1892-1958), e também não é do que trata o poema que escolhi trazer ao blog. Fala ele do corpo, sim, mas do seu envelhecimento, e da perda de préstimo para o amor.

 

Que é um corpo? 

Um dom que se oferece… 

…

Que é um corpo? 

Um dom… 

Ai, não é!

Os corpos, 

como as flores, as bravas, 

murcham, muitas vezes, 

ao Deus dará… 

 

 

Começa o poema numa ilusória narrativa, dando conta da volúpia daquelas manhãs, quando, ao despertar, o mundo parece perfeito…

 

Há pouco, 

ainda deitada, 

tinha, de um lado, 

a palizez do céu, 

e do outro 

uma espécie de labaredas 

sem cor…

umas vassouradas de sol.

…

Quedo-me a gozar 

esta doçura… 

esta vaga esplêndida 

de luz…

 

e neste langor chega a reflexão:

…

Desentorpeço-me. 

Arredo de mim a roupa.

Olho-me.

Que é um corpo? 

…

Um dom? 

Não, um castigo!

 

 

Esta exclamação explica a leitura do amor feita por Irene Lisboa:

…

Amor! 

Quanto te encantas 

com as graças recatadas

dos gestos,

das formas,

da vida do corpo…

Com tudo te prendes! 

Amor! 

Que é para ti o corpo?

Uma violenta sedução, 

de que logo te enfastias… 

Amor, tão cruel! 

Passas e não deixas sinal… 

Amor! 

…

 

 

Esclarecido, mas não convencido (ver nota iconográfica), levo-o(a), leitor(a), ao poema que ao longo da conversa retalhei:

outro dia

 

Que quietação 

depois destas manhãs

e destas tardes de vento! 

Quedo-me a gozar 

esta doçura… 

esta vaga esplêndida 

de luz…

 

Há pouco, 

ainda deitada, 

tinha, de um lado, 

a palizez do céu, 

e do outro 

uma espécie de labaredas 

sem cor…

umas vassouradas de sol.

 

Desentorpeço-me. 

Arredo de mim a roupa.

Olho-me.

Que é um corpo? 

Um dom que se oferece… 

Que é um corpo? 

Um mar morto… 

Que é um corpo? 

Um tronco, 

uma planta de pé delgado, 

que alarga

e lança de si dois ramos,

os braços…

 

As pernas são belas, 

quando juntas. 

Que beleza a das pernas!

De alto a baixo 

um veio as desune, 

as distingue, 

as separa e arredonda 

como a dois esbeltos, firmes corpos… 

 

Que é um corpo? 

Um dom… 

Ai, não é!

Os corpos, 

como as flores, as bravas, 

murcham, muitas vezes, 

ao Deus dará… 

Como os seixos, 

rolados e confundidos 

entre algas e outros seixos, 

passam despercebidos… 

Um dom? 

Não, um castigo!

 

Amor! 

Quanto te encantas 

com as graças recatadas

dos gestos,

das formas,

da vida do corpo…

Com tudo te prendes! 

Amor! 

Que é para ti o corpo?

Uma violenta sedução, 

de que logo te enfastias… 

Amor, tão cruel! 

Passas e não deixas sinal… 

Amor! 

 

O pobre seixo, 

a flor que não animaste,

vivem

com aquela beleza 

e aquela tristeza 

dos sempre esquecidos…

Vivem!

 

in Poesia I, um dia e outro dia… e outono havias de vir, Editorial Presença, Lisboa 1991.

 

 

Nota iconográfica

 

Abre o artigo a imagem de uma obra de K B Brehmer (1938-1997), Aufsteller 13, de 1965. Trata-se de uma impressão sobre cartão laminado e dobrado, acrescentado de uma caixa.

O corpo feminino como escultura, vendido em embalagem de cartão, é uma outra medida da ilusão entre corpo, amor/desejo, e o seu uso.

É recorrente trazer ao blog abordagens de amor, desejo, beleza física, e a conveniência da lucidez sobre o seu valor. De modo nenhum acontece o que diz o poema:

…

Que é para ti o corpo?

Uma violenta sedução, 

de que logo te enfastias… 

Amor, tão cruel! 

Passas e não deixas sinal… 

Amor! 

…

 

Só mais um exemplo: no filme The Wife, agora em circulação, ele, amor e desejo, são subjacentes à história. Lamentavelmente, uma boa história, e porque cinematograficamente mal contada, apesar da excelente interpretação de Glenn Close, um filme falhado.

 

 

 

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Saudade! Gosto amargo de infelizes

11 Segunda-feira Mar 2019

Posted by viciodapoesia in Poesia Portuguesa antiga, Poesia Portuguesa do sec. XX, Poesia Portuguesa sec XIX

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Almeida Garrett, António Botto, Bernardim Ribeiro, Bernardo de Passos, Fernando Pessoa, Geza Voros, Marquesa de Alorna, Sebastião da Gama

Saudade, que vos farei?
Pois vos não posso deixar,
por descanso vos busquei:
achei-vos para cansar.
…
(*)

 

A saudade, esse impalpável desejo do que se perdeu, por nós anda, associado à tristeza e ao desgosto.
Subtil e imprecisa, é a palavra perfeita para o complexo de sentimentos que nos assaltam no tempo, ao avivar de recordações e memórias, de pessoas, acontecimentos e lugares, com quem e onde fomos felizes.

Ó sino da minha aldeia,
…
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
(**)

 

A saudade passa na poesia sem cessar, por vezes de forma consciente e explícita. São sem fim os poemas onde ela transparece.
Se titulei o artigo com um verso de um poema de Almeida Garrett (1799-1854):

Saudade! Gosto amargo de infelizes.
Delicioso pungir de acerbo espinho,
Que me estás repassando o íntimo peito
Com dor que os seios d’alma dilacera,
— Mas dor que tem prazeres — Saudade!

 

agora recuo um pouco no tempo, à poesia de métrica precisa, melodia irresistível, e pendor filosofante da Marquesa de Alorna (1750-1839), de quem não há muito trouxe ao blog uma glosa sobre a saudade.

 

Marquesa de Alorna — Sem título

Sozinha no bosque
com meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.

 

Quando a memória o consente, nem sempre a saudade será tristeza, o que Sebastião da Gama (1924-1952) capta no poema Lembrança:

 

Lembrança

Foi naquela tarde,
já distante…

Mas foi tão nítido e tão vivo,
Amor!, o beijo que me deste,
que não consegue ser saudade.

Flor cálida, vermelha flor tenrinha
que nos lábios contentes me deixaste…

Triste, já o Outono se avizinha.

Só essa flor não quer tombar da haste…

 

Deixo-o agora, leitor, com dois poemas em que saudade e melodia do verso se enlaçam, ajudando com isso a sossegar as almas que a saudade atravessa.

Primeiro um poema de Bernardo de Passos (1876-1930), deliciosa brincadeira à volta da palavra pena: pena (desgosto) e pena (revestimento das aves):

 

Saudades…

Saudades de amor são penas
que nascem do coração…
É como a pena das aves,
quanto mais, mais brandas são!

Meu coração fez um ninho
como o das aves, perfeito,
juntando todas as penas
de que ele me encheu o peito…
E nesse ninho, a sonhar,
dorme, assim, horas serenas,
como dorme um passarinho
sobre o seu ninho de penas…

 

E por fim, uma canção de António Botto (1897-1959) escrita com uma mestria de sabor popular:

 

Canção

De saudades vou morrendo
E na morte vou pensando;
Meu amor, porque partiste
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão triste
Ó alegrias cantai!
Mas quem acode ao que eu digo?
— Enchei-vos d’água meus olhos,
Enchei-vos d’água, chorai!

 

Encerro este longo artigo com esperança, esperança de que, qual flor, a saudade há-de murchar como anseia a Marquesa de Alorna neste poema final:

 

Saudade

A uma flor chamam Saudade,
Que é primor da natureza;
Mas a que nasce em meu peito
É produção da tristeza.

Enquanto a saraiva, os Notos
Destes gelados países
Açoutam as plantas, cresce,
Lança profundas raízes;

Mas se um dia, transplantada,
Outro terreno buscar,
Alívio terá meu peito,
E a saudade há-de murchar.

 

Notas:
(*) Atribuído a Bernardim Ribeiro no manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, (cód. 11353).
(**) Fernando Pessoa, 1ª publ. in Renascença. Lisboa: Fev. 1924.
Os restantes poemas encontra-os o leitor em A Saudade na Poesia Portuguesa, seleção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, Portugália editora, 1967.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Geza Voros (1897-1957), Mulher em vermelho, de 1933.

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