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Sabe quem a pratica, do gozo, do aconchego da sesta. De toda a volúpia que o principio da tarde desvela após refeição prazenteira. Um peixe grelhado, um vinho, suculenta fruta em remate, e depois o leito.

E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousámos os dois…

São segredos que as terras quentes conhecem desde a mais remota antiguidade, sobremaneira apetecidos nestas escaldantes tardes de verão. É a essa antiguidade que hoje vou buscar um relato poético de Ovídio (43 a.C – 17 d.C. ) dando conta dos prazeres de uma dessas tardes de prazer, e com o poeta comungo:

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Eis a bela tradução de David Mourão-Ferreira (1927-1996)

Era intenso o calor. Do meio-dia passava.
Deitei-me sobre a cama a ver se repousava…
Na cerrada janela apenas uma fresta
permitia filtrar-se uma luz de floresta;
ou, antes, uma luz que mais par’cia irmã
da que antecede a noite ou precede a manhã…
É a luz que convém à jovem reservada,
para que em seu pudor não fique perturbada.

Eis que chega Corina, a túnica cingida,
sobre o pescoço branco uma trança caída…
(Semirámis? Laís? Dir-se-ia uma delas…
Só pode comparar-se às que foram mais belas!)
A túnica lhe arranco, embora de tão leve
nem sequer me constranja o tecido que a veste.
Tenta ainda lutar a fim de se cobrir,
mas o que mais deseja é deixar-se despir…
E quando fica, enfim, de pé, sem nenhum véu,
nem um defeito só vejo no corpo seu!
Oh, que ombros divinais! Oh, que braços divinos!
Que ventre tão perfeito! E que peitos erguidos!
Coxas tão juvenis! Ancas? Bem mais maduras…
Pra quê enumerar, se toda é formosura?
E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousámos os dois…

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Amores, Livro I, 5

Foi ao pintor da gente feliz, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), que fui buscar a ilustração para esta bela memória poética.

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