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Chegados os dias de verão como o que hoje nos assaltou, surge uma irresistível vontade de correr para os parques e namorar à sombra das árvores.

Hoje, a vida urbana, os hábitos e a gente em redor, tudo está longe do que acontecia séculos passados. Apesar disso, desses tempos remotos chegam-nos por vezes relatos em que uma frescura quase nossa contemporânea se conserva. É o caso do poema que hoje vos trago, na versão original francesa do último quartel do século XVIII e a sua tradução/adaptação portuguesa de meados do século XIX.

Dá ele conta da inscrição numa árvore de um momento de felicidade irrepetível (?) e afinal, é ainda uma prática usual nos nossos dias.

VERSOS

Entalhados numa laranjeira
(Trad. de Parny)

Laranjeira que encobriste

Os meus êxtases d’amor,

Guarda em ti sempre estes versos:

São de ternura um penhor.

 

E dize aos que a tua sombra

Buscarem na primavera,

Que, se o júbilo matasse,

Há muito que eu já morrera!

Agosto de [18]64
 

O poema traduz, com adaptação, uma das POÉSIES ÉROTIQUES do Chevalier de Parny, publicadas em 1778 tinha o autor 25 anos.

A tradução, respeitando no espírito o original, muda a árvore de murta para laranjeira. No entanto, os dois últimos versos estão consideravelmente atenuados em relação ao original:

Que si l’on mouroit de plaisir, / Se de prazer se morresse,
Je serois mort sous ton ombrage. / À tua sombra eu já morrera.

Mas veja-se o poema original:

VERS GRAVÉS SUR UN MYRTE.

Myrte heureux, dont la voûte épaisse

Servit de voile à nos amours,

Reçois et conserve toujours

Ces vers enfans de ma tendresse;

Et dis à ceux qu’un doux loisir

Amènera dans ce bocage

Que si l’on mouroit de plaisir,

Je serois mort sous ton ombrage.

Como curiosidade refiro que, mais à frente no livro POÉSIES ÉROTIQUES, o poeta num outro poema apaga as inscrições na árvore, pois afinal “o tempo desuniu os corações que a casca da árvore ainda unia”.

A versão portuguesa do poema é de E. A. Vidal, na verdade Eduardo Augusto Vidal (1841-1907) e escreveu-a quando moço nos 23 anos.

Apresentado à sociedade e ao mundo por Bulhão Pato nas páginas da Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, Eduardo Augusto Vidal, que assina E. A. Vidal, aí deixou alguns poemas e prosas, das quais a segunda e terceira das Cartas Obscuras são um prodígio de graça, sobre o casamento de um Sr. Esperidião.

Este nosso poeta editou poesia em livro, Harmonias da Madrugada (1859), Folhas Soltas (1865) e Cantos do Estio (1868) de onde retirei o poema transcrito. A um talvez sucesso de estima seguiu-se um provavelmente merecido repouso de esquecimento que agora perturbei para trazer aos leitores do blog esta sua poesia.

 Sobre o autor do poema original, Chevalier Evariste de Forges de Parny  (1753-1814) hoje pouco se sabe e lê, ainda que tenha sido provavelmente popular entre os românticos portugueses, pela presença aqui e ali nas obras dos nossos poetas, de versões de poemas seus.

Deixo-vos com mais um poema de Parny, O Dia Seguinte, recolhido no mesmo conjunto de poesias eróticas, acompanhado de uma versão literal para os leitores não familiarizados com a lingua francesa.

Trata o poema do dia seguinte à estreia nos prazeres do sexo da nossa já conhecida Leonor, a qual, como seria de norma, ao doce remorso do “encantador pecado” acrescenta o desejo de a ele voltar.

Le Lendemain /O Dia Seguinte

Enfin, ma chère Eléonore, / “Enfim, querida Leonor,

Tu l’as connu ce péché si charmant. / Conheceste-o, este encantador pecado.

Que tu craignais même en le désirant : / Que temias mesmo ao desejá-lo:

En le goûtant, tu le craignais encore. / Tendo-o saboreado, ainda o temes.

Eh bien, dis-moi, qu’a-t-il de si effrayant? / Pois bem, diz-me, que tem de tão assustador?

Que laisse-t-il après lui dans ton âme? / Que te fica na alma depois dele?

Un léger trouble, un tendre souvenir, / Uma ligeira turbação, uma terna lembrança,

L’étonnement de sa nouvelle flamme, / A surpresa da sua nova chama,

Un doux regret, et surtout un désir. ” / Um doce remorso, e sobretudo un desejo


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