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Se algum leitor se desse ao trabalho de seguir no blog a poesia que aborda prazer e sexo, espantar-se-ia com a variedade expressiva para falar do mesmo e em todas as épocas e latitudes. Hoje mais um exemplo, não de um poeta, mas de um prosador que escreveu alguma poesia, José Saramago (1922-2010). Com o seu poema, Incêndio, dou continuidade ao que há pouco escrevi no blog: que a poesia portuguesa do século XX abunda na representação do erótico, manifestação do desejo físico e sua consumação, cobertos por linguagem velada, se não mesmo metafórica.

 

Incêndio

Convoco o cheiro, a polpa sensitiva
Dos dedos curiosos e da boca,
Convoco a cor dos olhos, e os cabelos,
E o lume que neles há, e a voz rouca.

Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.

Reúno estas memórias. No meu sangue
As infundo e converto como brasas,
E ardo, violento: assim, ao vento,
Ardem de lés a lés searas rasas.

in Provavelmente Alegria.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de René Magritte (1898-1967), La lectrice soumise, A leitora subjugada.

Fantasiemos um pouco sobre esta imagem de abertura.
Representará uma mulher ainda nova, modesta com a sua pessoa, pouco favorecida pela beleza física, a quem a vida não proporcionou os prazeres descritos no que acaba de ler.  Curiosa, segue o meu conselho, e de artigo em artigo cresce o espanto sobre os prazeres que é possível gozar e ela ignora:
— Ai os poetas romanos! E os do Al -Andaluz então… . Meu Deus! Tanta religião e aquilo…
Para cúmulo, admiradora da prosa do nosso Nobel, nem percebe bem o que ele quer dizer com aquele:


Convoco o grito, o espanto e o temor,
O corpo recurvado, a violência,
O suor que arrefece — e o sorriso
Que te cobre de paz e inocência.

Será que se refere mesmo ao que ela está a pensar? Incrédula, quase deixa cair o livro onde foi procurar o poema para se certificar da sua existência. …

E aqui ponho fim à fantasia. Até à próxima…

 

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