• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Category Archives: Poesia Antiga

Elogio do Homem – fragmento de Antígona de Sófocles

18 Segunda-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Antígona, Grécia, Irmãos Limbourg, Sófocles

Très Riches Heures 06Assistimos hoje, nas tragédias aéreas e outras em que mortes acontecem, à angústia e ansiedade dos familiares das vítimas em recuperar os corpos dos seus e providenciar-lhes sepultura. É algo que parece uma necessidade humana interior, e funciona com castigo insuportável ser impedido de o fazer.

Essa é a motivação de Antígona na tragédia do mesmo nome de Sófocles (497/6-406/5 a.C.) ao desobedecer à ordem de Creonte, dando sepultura ao irmão morto, e com isso enfrentando o castigo de ser emparedada viva.

Além da terrível consequência pessoal com origem na motivação afectiva, são vastas para o homem enquanto ser social as implicações que atravessam o conflito vivido no desenrolar da tragédia.

Confrontam-se nela a fonte do poder e o seu exercício, a necessidade de obediência à lei para a estabilidade de uma sociedade organizada, e os limites da vontade de quem manda, exigindo o equilíbrio entre exercício legítimo de poder e arbítrio.

Pelo meio temos, numa fala do coro que permanece entre os mais famosos poemas do legado grego, o registo de quanto o ser humano é capaz, recordando no final que apenas a morte nos faz parar.

Très Riches Heures 03Como refere Maria Helena da Rocha Pereira (MHRP) em nota à sua tradução que abaixo transcrevo, na ode o coro celebra as conquistas do homem: a navegação, a agricultura, a caça, a pesca, a domesticação dos animais, a fala, o pensamento, a política, a construção de casas, a medicina.

De então para cá, se o essencial das conquistas que propiciam a continuidade da espécie se mantém, é sobretudo na luta contra a doença que nos nossos dias as aptidões humanas se mostram mais efectivas, e seriam permanente motivo de espanto e admiração se por pouco parássemos a olhar para trás, sem necessidade de recuar muito no tempo.

Très Riches Heures 09O texto de Antígona (442 a.C.) de Sófocles tem feito correr rios de tinta, ocupado pensadores, e estimulado a criação artística. Leitores curiosos encontram em Antigonas de George Steiner um panorama desta vastidão. Acresce que a peça é de leitura compulsiva e de avassalador efeito, pelo menos na tradução de MHRP.

Termino citando Ruy Belo num poema que há pouco tempo trouxe ao blog:

O desafio de antígona e de prometeu

é hoje ainda o nosso desafio

embora como um rio o tempo haja corrido

Do sono da desperta Grécia  vv. 27-29

Très Riches Heures 10Se já referi a tradução de MHRP, que mais à frente virá, fazendo justiça ao poema com uma fiel tradução a partir do grego, começo  no entanto, com uma outra versão, pela mão da inspiração poética de David Mourão-Ferreira:

 

Elogio do Homem

 

Inúmeras são do mundo as maravilhas,

mas nenhuma que ao homem se compare:

é vê-lo sobre as ondas, entre as ilhas,

as águas percorrer do branco mar;

ou é vê-lo, diante da mãe-Terra,

sem pausa revolvê-la com seus potros,

fazendo que dos grãos que a terra encerra

em frutos se desdobrem todos, todos!

 

Ele, só, captura com seus laços,

ou com redes que faz entrelaçadas,

os pássaros ligeiros dos espaços,

os peixes que se ocultam entre as vagas…

E consegue os cavalos ir domando,

adrede utilizando suas manhas;

ao bicho mais feroz torná-lo manso,

como acontece ao touro das montanhas.

 

Sob tectos, se abriga da friagem;

sob tectos, das chuvas inclementes…

E vede: o pensamento, a linguagem

sua conquista são exclusivamente.

É o Ser dos recursos infindáveis:

até contra o futuro se faz forte;

e cura-se de males incuráveis…

Aquilo que o detém? Somente a Morte.

 

Antígona vv. 332-62

 

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da poesia europeia – I

Très Riches Heures 07E agora a tradução da Prof. Rocha Pereira:

 

Coro

 

Muitos prodígios há: porém nenhum

maior do que o homem.

Esse, co’o sopro invernoso do Noto (1),

passando entre as vagas

fundas como abismos,

o cinzento mar ultrapassou. E a terra

imortal, dos deuses a mais sublime,

trabalha-a sem fim,

volvendo o arado, ano após ano,

com a raça dos cavalos laborando.

 

E das aves as tribos descuidadas,

a raça das feras,

em côncavas redes

a fauna marinha, apanha-as e prende-as

o engenho do homem.

Dos animais do monte, que no mato

habitam, com arte se apodera;

domina o cavalo

de longas crinas, o jugo lhe põe,

vence o touro indomável das alturas.

 

A fala e o alado pensamento,

as normas que regulam as cidades

sozinho aprendeu;

da geada do céu, da chuva inclemente

e sem refúgio, os dardos evita,

de tudo capaz.

Na vida não avança sem recursos.

Ao Hades somente

não pode fugir.

De doenças invencíveis os meios

de escapar já com outros meditou.

 

Da sua arte o engenho subtil

p’ra além do que se espera, ora o leva

ao bem, ora ao mal;

se da terra preza as leis e dos deuses

na justiça faz fé, grande é a cidade;

mas logo a perde

quem por audácia incorre no erro.

 

(1) vento sul

 

Fragmento de Antígona, vv. 332-371

 

Sófocles, Antígona, 3ª edição, INIC, Coimbra, 1992.

Très Riches Heures 02Acompanham o artigo algumas das iluminuras dos irmãos Limbourg para o livro Les Très Riches Heures du Duc de Berry (1416) dando conta de tarefas do calendário agrícola: sementeiras, colheitas, vindima.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Cleantes de Assos — Hino a Zeus

11 Segunda-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Grega

≈ 2 comentários

Etiquetas

Cleantes de Assos, Grécia, Peter Paul Rubens

Anónimo - atribuido a Rubens - Hercules FarneseAProvavelmente, para o ser humano que pensa, o mais difícil é aceitar quanto o seu conhecimento do mundo será sempre apenas parcial, e nessa medida, a verdade que o conduz será sempre vulnerável ao que não sabe e desconhece. É esta a limitação que introduz incerteza nas nossas vidas e leva ao conceito de algo absoluto, exterior a nós, onde as dúvidas não existem. O que no caso dos gregos antigos é o conceito de Zeus, deus de poder absoluto que tudo sabe e à sua semelhança fez o homem:

 

Em ti está a nossa origem; a sorte de ser a imagem de um deus,

só a nós coube, entre tantos seres mortais que vivem e rastejam sobre a terra.

 

Cito parte da reflexão que o filósofo estóico Cleante de Assos (séc. IV-III a. C.) desenvolve no Hino a Zeus, único texto seu com dimensão chegado até nós, e que a seguir transcrevo em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.

 

É um conceito de um deus regulador que o poema desenvolve, a quem se pede a salvação dos homens da ignorância, e lhes conceda a sabedoria que permite viver com honra:

 

salva os homens da funesta ignorância,

sacode-a, ó pai, da sua alma, concede-lhes que obtenham

a sabedoria com cujo apoio tudo governas com justiça,

a fim de que, honrados, te correspondamos com honra,

 

Pelo meio é dada conta dos comportamentos daqueles para quem esta vontade sobrenatural não faz lei:

 

São eles mesmos, insensatos, que se precipitam cada um para seu mal,

uns com uma pressa funesta de alcançar fama,

outros voltados para a ganância desordenada,

outros ainda para a licença e os doces prazeres físicos;

 

É de novo um entendimento do divino como regulador de comportamentos que aqui lemos, como também já acontecia com o fragmento de teatro filosófico de Crítias que em artigo anterior transcrevi. Mas em Cleantes encontramos não a fala de um ateu, mas um crente agradecido pois entende-se feito à imagem do deus, no que é a invenção maior da mitologia grega.

 

Cleantes de Assos (séc. IV-III a. C.)

 

Hino a Zeus

 

Ó mais glorioso dos imortais, deus de muitos nomes e sempre poderoso,

Zeus, senhor da natureza, que tudo governas com leis,

salve! Pois a todos os mortais é lícito falar-te.

Em ti está a nossa origem; a sorte de ser a imagem de um deus,

só a nós coube, entre tantos seres mortais que vivem e rastejam sobre a terra.

Por isso te entoarei um hino e cantarei sempre o teu poder.

A ti obedece todo este mundo que gira em torno da Terra,

por onde quer que o leves, e de boa mente te é submisso.

Seguras nas invictas mãos, como teu servidor,

o raio incandescente e de dois gumes, sempre vivo.

Sob o seu impulso, caminha toda a obra da natureza:

com ele diriges a tua Palavra universal, que passa através de tudo,

misturando-se com o astro luminoso maior, e também com os menores.

Não se faz sobre a terra obra alguma sem ti, ó deus,

nem sobre o etéreo pólo divino, nem sobre o mar,

excepto os actos dos malvados na sua demência.

Mas tu sabes ajustar mesmo o que é discordante

e ordenar o que é caótico, e ódio em ti é amor.

E assim harmonizaste tudo o que é nobre com o que é vil, numa só unidade,

de modo a originar uma Palavra eterna de tudo,

a que fogem aqueles dos mortais que são inferiores,

insensatos, sempre a almejar a posse do bem,

sem verem nem atenderem à lei universal do deus,

em cuja obediência seriam connosco felizes.

São eles mesmos, insensatos, que se precipitam cada um para seu mal,

uns com uma pressa funesta de alcançar fama,

outros voltados para a ganância desordenada,

outros ainda para a licença e os doces prazeres físicos;

procedem sem pensar, arrastados de um lado para o outro,

apressando-se com vigor para que suceda o contrário dos teus desejos.

Mas ó Zeus remunerador de tudo, senhor das nuvens negras e do raio coruscante,

salva os homens da funesta ignorância,

sacode-a, ó pai, da sua alma, concede-lhes que obtenham

a sabedoria com cujo apoio tudo governas com justiça,

a fim de que, honrados, te correspondamos com honra,

cantando sem cessar as tuas obras, como cumpre

a um mortal, já que, nem para homens nem para deuses,

há maior honra do que celebrar sempre a tua lei universal.

 

in Hélade, 8ªedicao, Edições Asa, 2003.

 

Abre o artigo um desenho anónimo, atribuido a Peter Paul Rubens (1577-1640) conhecido como o Hércules Farnese.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Um fragmento de Crítias

03 Domingo Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Grega

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Bruegel o Velho, Crítias

Bruegel - O peixe graúdo come o peixe miúdo 600px

É dos recuados tempos da Grécia Clássica que uma reflexão lúcida sobre a necessidade de deuses para regular as sociedades humanas nos chega. Refiro-me ao fragmento de uma obra de Crítias (aluno de Sócrates e protagonista de um dos diálogos de Platão), único que se conhece, e a seguir transcrevo.

Como certeiramente notou Ruy Belo, é na Grécia arcaica que,

… / Pela primeira vez o homem se interroga / sem livro algum sagrado sob a sua inteligência / …

São versos do poema Do sono da desperta Grécia, onde o poeta desenvolve uma profunda reflexão sobre a herança da civilização grega antiga.

 

A reflexão de Crítias, reflexão de um ateu no séc. V a.C., não é uma reflexão paradigmática da relação dos gregos antigos com a mitologia ou o sentimento religioso, ainda que deste praticamente nada saibamos a não ser o que até nós chegou por via da poesia e do teatro, sobretudo, e é, como se sabe, diferente de informação documental objectiva.

No que ao fragmento de Crítias respeita, ressaltaria quanto ele torna evidente a necessidade de regulação nas sociedades humanas como forma de suster o governo da lei do mais forte, sendo que, quando tal se revela impossível, é o além que esperamos nos acuda.

 

Fragmento de Crítias   Houve um tempo em que a vida humana não estava organizada e, à maneira dos animais, a força é que mandava, pois nenhum prémio havia para os bons, nem para os maus havia castigo. Só mais tarde os humanos decidiram estabelecer leis repressivas a fim de que a justiça imperasse e a insolência fosse dominada. Se alguém lesasse outro, isso era considerado delito. Mas, como as leis só conseguiam evitar aquelas acções violentas que eram praticadas às claras, e não as que se praticavam às escondidas, então, parece-me, um indivíduo avisado e sábio teve a ideia de introduzir entre os mortais a crença nos deuses, a fim de amedrontar os maus, se cometessem alguma má acção às escondidas, por palavras ou em pensamento. Introduziu assim a divindade, dizendo que há um ser que floresce com força imperessivel que ouve e vê com o espírito e o pensamento e tudo alcança e tem natureza divina, que ouve tudo o que é dito entre os mortais e é capaz de ver tudo o que se faz. Que, se silenciares algum mal em que medites, isso não escapará aos deuses, tal é a sua inteligência. Dizendo isto, tornou mais atraentes os seus ensinamentos e mentiu, ocultando a verdade sobre as palavras. Disse também — para, dizendo-o, amedrontar mais os homens — que os deuses habitam lá onde julgou que existiam os terrores para os mortais e as vantagens para a sua triste existência: na abóbada celeste, onde se vêem os raios, os terríveis ruídos do trovão e o clarão brilhante do céu estrelado, belos ornamentos que o tempo produziu. É lá que brilha a massa incandescente dos astros e de lá vem a chuva suave que cai sobre a terra. Criou assim belamente os temores por meio de palavras, colocou a divindade num ambiente adequado e, pelo medo, acabou com a injustiça.   Assim, creio, houve um homem que primeiramente convenceu os mortais a acreditar na existência duma raça divina.

in Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Edições Afrontamento, Julho 2011.

 

Abre o artigo um filosófico desenho de Bruegel o Velho (1525-1569), denominado O peixe graúdo come o peixe miúdo, dando afinal conta de como numa sociedade desregulada, a lei do mais forte domina, sem o limite do castigo que a justiça, dos homens ou dos deuses, pode aplicar.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

“Tivesse eu sabido” — poema de A. C. Swinburne

25 Quarta-feira Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

A. C. Swinburne, Emile Bernard

Bernard_Emile-Madeleine_in_the_Forest_of_Love 1888

Nos acasos felizes que a poesia proporciona, cruzam-se por vezes os poemas dando conta de uma intemporal unidade do sentir humano. É assim que, depois do poema anterior de António Manuel Couto Viana (1923-2010), Saudade de um corpo, me cai nos olhos uma mais geral e meditativa reflexão poética de A. C. Swinburne (1837-1909) sobre o que não fizemos na vida quando a possibilidade existia, deixando a oportunidade passar ao lado:

Tivesse eu sabido, quando a vida era um vento tépido e feliz,

Brando e ruidoso na aurora e na névoa brilhante do orvalho,

Que havia de chegar o tempo em que, suspirando os corações diriam:

“Tivesse eu sabido…”

Chega sempre, o tempo de olhar para trás e duvidar do acerto das escolhas. Há apenas que viver com elas, ainda que, por vezes sintamos que:

… a própria alma, à deriva e perdida como o vento, suspira:

“Tivesse eu sabido…”

 

Quem nos dera pela vida fora não vir a suspirar: “Tivesse eu sabido…”

 

 

 

“Tivesse eu sabido”

 

Tivesse eu sabido, quando a vida era um vento tépido e feliz,

Brando e ruidoso na aurora e na névoa brilhante do orvalho,

Que havia de chegar o tempo em que, suspirando os corações diriam:

“Tivesse eu sabido…”

 

Nem sequer as rosas rindo ao beijarem-se,

Nem, ao sol, o mais encantador riso ondulante do mar,

Teriam vindo fascinar a minha alma para que neles reparasse.

 

Agora o vento é como uma alma desterrada a rezar inutilmente

As preces que não conseguimos ouvir se o coração lhes resiste,

Agora que a minha própria alma, à deriva e perdida como o vento, suspira:

“Tivesse eu sabido…”
O poema, em tradução de Maria de Lourdes Guimarães, foi transcrito de Poemas, edição Relógio d’Água, Lisboa, 2006.

 

Termino com o original inglês:

 

‘Had I Wist’

 

Had I wist, when life was like a warm wind playing

Light and loud through sundawn and the dew’s bright mist,

How the time should come for hearts to sigh in saying

‘Had I wist’ —

 

Surely not the roses, laughing as they kissed,

Not the lovelier laugh of seas in sunshine swaying,

Should have lured my soul to look thereon and list.

 

Now the wind is like a soul cast out and praying

Vainly, prayers that pierce not ears when hearts resist:

Now mine own soul sighs, adrift as wind and straying,

‘Had I wist.’

 

Escrevia eu estas notas, e súbito irrompe o saxofone de Ben Webster e o piano de Art Tatum tocando uma intemporal versão de My one and only love. Não resisto a acrescentá-la ao artigo.

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Art+Tatum+-+Complete+Pablo+Group+Masterpie+-+74+-+My+one+and+only+love.mp3
A abrir, a imagem de uma pintura de Emile Bernard (1868-1941), Madeleine na floresta do amor, de 1888.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Camões — Catarina bem promete…

10 Terça-feira Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Camões

Larry Rivers - Popcorn 1970

É um prazer sempre renovado perder-me na poesia de Camões (1524-10 Junho 1580). Aos poemas familiares que cantam na cabeça nas mais inesperadas situações, e se renovam a cada leitura, acrescentam-se outros, fugazes, que no trivial da ideia nos levam ao encontro do homem por detrás do génio. Desses,  transcrevo hoje três redondilhas em voltas sobre mote, onde de ardências de amor e esquivanças femininas se trata.

 

Começo com um poema de dúbio sentido onde calores masculinos se disfarçam.

Esforçaram-se especialistas em encontrar fundamento histórico para explicar a letra desta redondilha. Por mim é sem questão: é uma gabarolice em torno da firmeza da erecção do poeta e um convite ao acto sem destinatária identificada.

 

Mote

 

Quem disser que a barca pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

 

 

Volta

 

Se vos quereis embarcar

e para isso estais no cais,

entrai logo; que tardais?

Olhai que está preiamar!

E se outrem, por vos fretar,

vos disser que esta que pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

 

Esta barca é de carreira,

tem seus aparelhos novos;

não há como ela outra em Povos,

boa de leme e veleira.

Mas, se por ser a primeira,

aos disser alguém que pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

Notas

V. 12 — Povos — localidade do concelho de Vila Franca, próxima do rio Tejo.

 

Agora, para a doença que ataca homens e mulheres, o conselho com o remédio óbvio: Eu cá sinto a vossa dor / e, se vós sintis a minha, / dai e tomai a mezinha.

O mote explica o assunto do poema de forma cabal.

 

A üa dama que estava doente

 

Mote

 

Da doença em que ardeis

eu fora vossa mezinha

só com vós serdes a minha.

 

 

Voltas

 

É muito para notar

cura tão bem acertada,

que podereis ser curada

somente com me curar.

Se quereis, Dama, trocar,

ambos temos a mezinha:

eu a vossa, e vós a minha.

 

Olhai que não quer Amor

(por que fiquemos iguais),

pois meu ardor não curais,

que se cure vosso ardor.

Eu cá sinto a vossa dor

e, se vós sintis a minha,

dai e tomai a mezinha.

 

Notas

V. 2 — mezinha — remédio

V. 13 — pois — já que; não curais — não tratais.

V. 13-14 — ardor — tomado no duplo sentido de paixão e febre.

 

Termino com as promessas e esquivas de uma Catarina: Mas pois folgais de mentir, / prometendo de me ver, / eu vos deixo o prometer, / deixai-me vós o cumprir: / Haveis então de sentir / quanto fica mais contente / o que cumpre que o que mente.

 

Mote alheio

 

Catarina bem promete…

Eramá! como ela mente!

 

Voltas Próprias

 

Catarina é mais fermosa

para mim que a luz do dia;

mas mais fermosa seria,

se não fosse mentirosa.

Hoje a vejo piadosa;

amanhã tão diferente,

que sempre cuido que mente.

 

Catarina me mentiu

muitas vezes, sem ter lei;

mas todas lhe perdoei

por ûa só que cumpriu.

Se, como me consentiu

falar, o mais me consente,

nunca mais direi que mente.

 

Má, mentirosa, malvada,

dizei: para que mentis?

Prometeis, e não cumpris.

Pois, sem cumprir, tudo é nada.

Não sois bem aconselhada;

que quem promete, se mente,

o que perde não no sente.

 

Jurou-me aquela cadela

de vir, pela alma que tinha.

Enganou-me: tem a minha;

dá-lhe pouco de perdê-la.

A vida gasto após ela

porque ma dá, se promete;

mas tira-ma, quando mente.

 

Tudo vos consentiria

quanto quisésseis fazer,

se esse vosso prometer

fosse por me ter um dia;

todo então me desfaria

convosco; e vós, de contente,

zombaríeis de quem mente.

 

Prometeu-me ontem de vir,

nunca mais apareceu;

creio que não prometeu

senão só por me mentir.

Faz-me enfim chorar e rir:

rio, quando me promete;

mas choro, quando me mente.

 

Mas pois folgais de mentir,

prometendo de me ver,

eu vos deixo o prometer,

deixai-me vós o cumprir:

Haveis então de sentir

quanto fica mais contente

o que cumpre que o que mente.

 

Notas

Eramá! — interjeição usada na língua popular do tempo, como se vê em Gil Vicente, às vezes com a forma ieramá (nota da edição das Redondilhas de Hernani Cidade).

 

V. 13 — cumprir tem na época, entre outros, o sentido de satisfazer, dar satisfação.

V. 15 — o mais me consente — consente-me mais que falar-lhe.

V. 21 — bem aconselhada — de bom conselho, previdente, sensata.

V. 23 — nem sabe o que perde.

V. 24 — cadela — na Comédia de el-rei Seleuco encontra-se este falar namorado: ” Vossos descuidos? Cadela! / Ah, minh’alma  Sois tão bela…”— É possível que o sentido não fosse então meramente depreciativo, como hoje.

V. 33-34 — trocadilho entre vários sentidos: prometer, por me ter, por meter. — no texto o verbo prometer vem sempre grafado com a forma pormeter.

V. 41 — se não só por — a não ser para.

V. 45 — mas pois — mas visto que.

V. 48 — vide nota ao V. 13.

Transcrição dos poemas e notas de Luis de Camões, Lírica Completa I, prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, 1980.

A imagem de abertura mostra uma obra de Larry Rivers (1923-2002).

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Outra noite de amor num poema de Ibn Safar Al-Marînî (séc. XII)

03 Terça-feira Jun 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Ibn Safar Al-Marînî

Miniatura persa 09

Em mais um poema do Al-Andalus numa versão de David Mourão-Ferreira, lemos o relato da antecipação e gozo de uma noite de amor.

No contraste entre a escuridão da noite e a luz que o amor traz corre o poema em belíssimas imagens, quais estas:

fixei-a nos olhos

para que não deixasse de cumprir

a promessa de visitar-me como um sol,

…

E veio então, como a claridade da aurora

a abrir caminho por entre as trevas.

…

E com ela passei a noite, enquanto a noite

mais ao longe dormia,

…

até que veio separar-nos

o estandarte da madrugada.

 

Entrego-vos ao poema:

 

Poema

 

Quando o sol declinava,

já quase a desaparecer,

fixei-a nos olhos

para que não deixasse de cumprir

a promessa de visitar-me como um sol,

no momento em que a lua por entre as trevas,

inicia a viagem nocturna.

 

E veio então, como a claridade da aurora

a abrir caminho por entre as trevas.

Perfumavam-se os horizontes à minha volta,

anunciando a sua chegada

como o aroma anuncia a flor.

 

Recorri com beijos a marca dos seus passos

como recorre o leitor as letras de uma linha.

 

E com ela passei a noite, enquanto a noite

mais ao longe dormia,

e o amor despertava

por entre os ramos do seu tronco,

a duna das suas ancas,

a lua da sua face…

 

E umas vezes a abraçava

e outras vezes a beijava,

até que veio separar-nos

o estandarte da madrugada.

 

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da Poesia Europeia – I, Colóquio Letras nº163, Lisboa Janeiro-Abril de 2003.

 

Tradução indirecta feita a partir da histórica versão castelhana de Emilio Garcia Gomez.

 

Do poeta, Ibn Safar Al-Marînî (séc. XII), saberei dizer-vos que é provavelmente o poeta identificado no volume IV da Biblioteca do Al-Andalus pelo nome IBN AL-MARINI, ABU L-HASAN: Abu l-Hasan `Ali b. al-Marini nascido em Almería no século XII, e mais não sei. A falta de normalização em português da escrita de nomes árabes cria estas dificuldades.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Memória de uma noite num poema de António Feijó

28 Quarta-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

António Feijó, Tom Wessellmann

Tom Wesselmann - Grande nu americano 1963

Encontros fortuitos, paixões de ocasião, nem sempre as noites deixam memória, e às vezes quando deixam, são memória dolorosa que não apetece recordar. Estas, se se recordam em poesia, são poemas amargos, de quem está de mal com a vida. Não assim com António Feijó (1859-1917) e a noite relatada no poema Passeio Bucólico.

Em António Feijó há uma constante bonomia, um estar de bem consigo, que mesmo nos transes mais dolorosos faz do seu verso uma cativante companhia.

No poema com que hoje brinco, além da verosimilhança da história, encontramos a mescla de graça e ironia que atravessa sobretudo a sua poesia reunida nos livros Bailatas e Novas Bailatas.

 

Começa o poema com a descrição de um dia de inverno sem intempérie, propiciando o bem-estar que o bom tempo traz:

 

Na gema de um inverno atravessado

De ventanias, trovoadas, neve,

Nem d’encomenda um dia assim banhado

De sol, e sem a viração* mais leve.

 

vão em passeio poeta, companheira e o belo tempo.

 

Nem d’encomenda!… e os beijos que nós demos

Por essa estrada! Já não tinham conta…

Quantas loucuras infantis fizemos!

E que apetite, para a ceia pronta!

 

Anoiteceu, e com o apetite aberto, também para a comida, o nosso par ceia:

 

Mas havia mais hóspedes à mesa;

Tivemos de guardar certa aparência…

Foi somente depois da sobremesa

Que trocámos um beijo, e com decência.

 

Resguardadas as efusões amorosas em nome da decência, do resto da noite diz-nos o poeta:

 

O que após se passou…, a musa cala,

Pois não há rimas nem palavras de oiro

Para exprimir o amor que nos embala

Na posse do mais íntimo tesoiro!

 

Podemos facilmente adivinhar o que este falso pudor esconde. Só que, manhã chegada, a coisa ficou difícil. Senão vejamos:

 

Mas quando de manhã nos separámos,

Foi como um mundo inteiro que desaba!

Gritos, soluços, pranto que chorámos…

O sonho, quando é bom, logo se acaba!

 

E a inevitável despedida, pois era amor de um dia, acontece:

 

Ah! Como os nossos corações batiam,

Recordando as noturnas maravilhas!

 

Perante tanto encanto, tremendo seria o desgosto com a separação. Ao poeta ficamos a saber que:

 

Dos meus olhos as lágrimas corriam

Silênciosas e grandes como ervilhas…

 

Da mulher que tanta felicidade trouxe não mais saberemos. A vida continua e,

 

Depois, como era feira, na estalagem,

Entre um rumor de viola e de fandango,

Sozinho, à mesa, sem a tua imagem,

Devorava essas lágrimas com frango!

 

Satisfeito o corpo nas necessidades básicas, ficou, pelo lido, a memória desta aventura de um dia, que o poeta remata ao recordá-la:

 

E assim se terminou esta aventura

Em Vila Nova de Famalicão;

Mas a lembrança dela ainda perdura,

Aquecendo o meu velho coração…

 

A história está contada. Resta a leitura sequencial do poema que a seguir vos entrego.

Passeio Bucólico

 

Lembras-te quando fomos de passeio

A Vila Nova de Famalicão?

Que lindo dia! Um dia igual não creio

Que se torne a encontrar nesta estação.

 

Na gema de um inverno atravessado

De ventanias, trovoadas, neve,

Nem d’encomenda um dia assim banhado

De sol, e sem a viração* mais leve.

 

Nem d’encomenda!… e os beijos que nós demos

Por essa estrada! Já não tinham conta…

Quantas loucuras infantis fizemos!

E que apetite, para a ceia pronta!

 

Mas havia mais hóspedes à mesa;

Tivemos de guardar certa aparência…

Foi somente depois da sobremesa

Que trocámos um beijo, e com decência.

 

O que após se passou…, a musa cala,

Pois não há rimas nem palavras de oiro

Para exprimir o amor que nos embala

Na posse do mais íntimo tesoiro!

 

Mas quando de manhã nos separámos,

Foi como um mundo inteiro que desaba!

Gritos, soluços, pranto que chorámos…

O sonho, quando é bom, logo se acaba!

 

Ah! Como os nossos corações batiam,

Recordando as noturnas maravilhas!

Dos meus olhos as lágrimas corriam

Silenciosas e grandes como ervilhas…

 

Depois, como era feira, na estalagem,

Entre um rumor de viola e de fandango,

Sozinho, à mesa, sem a tua imagem,

Devorava essas lágrimas com frango!

 

E assim se terminou esta aventura

Em Vila Nova de Famalicão;

Mas a lembrança dela ainda perdura,

Aquecendo o meu velho coração…

 

*vento

 

Transcrito de Novas Bailatas, 1926. Modernizei a ortografia.

A imagem de abertura respeita a uma pintura de Tom Wessellmann de 1963, Grande num americano.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Canção de Amor — Anónimo séc X-XI

25 Domingo Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Raros/Curiosos

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Arpad Szenes, Carmina Cantabrigiencia, Poesia Goliárdica

Arpad Sczenes - A alcova 1935

Transcrevo a seguir uma canção de amor do cancioneiro goliárdico Carmina Cantabrigiencia.

Estes cancioneiros, escritos em latim medieval, e acompanhados da forma de os cantar, gozam de uma aura de licença decorrente da suposta vida dos seus autores, ainda que em muitos poemas não fujam à sátira sobre vícios e desmandos da época. São na sua maioria canções anónimas, e seriam cantadas por estudantes universitários da Europa medieval, que, não exactamente diminuídos de posses, circulariam de universidade em universidade, levando uma vida de estúrdia, repartida entre comes e bebes, mulheres, e jogo, a atender ao teor de algumas das canções conhecidas.

Talvez o mais conhecido destes cancioneiros seja Carmina Burana, do qual noutro artigo falei. O cancioneiro onde se encontra o poema de hoje é mais antigo e conhecido como Carmina Cantabrigiencia — Canções Cantabrigenses ou de Cambridge, assim chamado por pertencer à universidade de Cambridge.

 

 

Iam, Dulcíssima Amica, Venito

 

Vem agora, doce amiga,

a meu coração tão cara!

Vem agora a minha casa,

para ti toda enfeitada…

 

Há véus que pendem do tecto;

e há cadeiras, e almofadas;

e também não faltam flores,

por entre ervas perfumadas…

 

A mesa já está servida,

de iguarias carregada;

e haverá límpido vinho,

e tudo o que mais te agrada…

 

Ouvirás, ao som da flauta,

doces músicas tocadas;

por um moço e uma donzela

belas canções entoadas…

 

Ele canta ao som da cítara,

ela na lira embalada…

E os servos trazem taças

com bebidas aromáticas…

 

—”Agrada-me mais que a mesa,

A agradável sobremesa;

Mais que a rica pitança,

A amorosa confiança.”

 

Vem agora, minha irmã,

acima de tudo amada,

ó clara luz dos meus olhos,

parte maior da minh’alma!

 

—”Sempre vivi na floresta,

Não amei lugares de festa;

Evitei sempre o gentio,

E das gentes me desvio.”

 

Meu amor não queiras tardar

Empenhemos-nos em amar.

Sem ti viver é bem duro,

O nosso amor está maduro.

 

Porquê, amiga, entreter,

Se por fim se irá fazer?

O teu que fazer acelera,

Pois eu já não tenho espera.

 

Carmina Cantabrigiencia, tradução de David Mourão-Ferreira versos 1-20, 25-28 in Vozes da Poesia Europeia – I.

 

Os restantes versos do poema são tradução minha a partir de versão castelhana, e apresentam-se em itálico no poema.

 

Para os leitores curiosos, tanto do original latino do poema, como de outra poesia goliardica, desde que leiam castelhano,  encontram um manancial na edição Poesia Goliardica, tradução de Miguel Requena, edição Alcantilado, Barcelona, 2003 .

 

A abrir, a imagem de A alcova, pintura de Arpad Szenes (1897-1985).

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Os sonetos a Nize do Abade de Jazente

23 Sexta-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Abade de Jazente, Jean Frederic Schall, Paulino Cabral de Vasconcelos

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Aparte algumas aventuras galantes de que deixou eco na sua poesia, terá Paulino Cabral de Vasconcelos (1719-1789), Abade de Jazento  tido paixão por uma Nize, cujas vicissitudes podemos seguir através de variados sonetos reunidos na sua obra.

 

Sendo Nize um nome convencional na poesia portuguesa do século XVIII, os variados poemas dedicados a uma Nize podem sê-lo às mais variadas mulheres. Lendo os sonetos dedicados pelo Abade de Jazente a Nize, estes parecem ser dedicados sempre à mesma mulher. Acrescenta esta convicção a carta onde explicitamente menciona esta sua paixão ao amigo a quem escreve num momento de melancolia.

 

Nestes sonetos seguimos as vicissitudes de uma relação, desde o ardor inicial da paixão à indiferença e despedida.

 

Os sonetos encontram-se disseminados ao longo da obra publicada, sem indicação de data. Apenas o assunto permite introduzir alguma cronologia, o que vamos tentar na sequência da sua transcrição.

O elevado número de sonetos com Nize como pretexto, torna incomportável com o formato do blog a transcrição da totalidade. Vejamos, por isso, algumas etapas principais desta paixão:

 

*

Eu como, eu bebo, eu durmo, e sem receio

Do que há de vir a ser, a vida passo,

Ora de Nize no gentil regaço,

Ora das Musas no sonoro enleio.

 

Às vezes pesco, às vezes jogo, ou leio,

E torres vãs também no vento faço;

Depois me vou meter naquele espaço,

Onde Descartes tinha o seu passeio.

 

De lá mil orbes vejo, e de improviso

Soltando ao pensamento as vagas velas,

Turbilhões de cristal sem medo piso.

 

E pondo-me por cima das estrelas,

Descubro a terra em baixo, e me dá riso

Contemplando do mundo bagatelas.

 

**

Enxuga o pranto ó Nize; e sossegado

Afouta mostra o rosto belo à gente;

Que um sucesso no mundo tão frequente,

Não deve ser por ti tão lamentado.

 

Tinha de ser: torne-se a culpa ao fado:

Tudo se esqueça, e viva-se contente;

Que em parte se confessa delinquente,

Quem não sabe ocultar o seu cuidado.

 

Não tens que recear; que à mocidade

Se perdoa um descuido; e sendo bela,

Até se lhe disfarça uma maldade.

 

A honra é nome vão, que só disvela

As rústicas vilãs: e a Nize idade

Toma os casos de amor por bagatela.

 

***

Vinde cá doces musas, que somente

Divertir-me convosco agora intento,

Pois neste solitário apartamento

Não é fácil sem vós viver contente.

 

Ao doce som da cítara cadente

Daremos aos penhascos sentimento,

Pulsando vós harmónico instrumento,

E eu cantando o mal, que o peito sente.

 

Tocai qu’eu principio: uma saudade

Expressada nas frases d’harmonia,

Compaixão às montanhas persuade.

 

Mas ah! Quanto me engana a fantasia;

Pois movendo os penedos à piedade,

Mover não sei de Nize a rebeldia.

 

****

Eu que cantei na verde mocidade

Essa ardente paixão, que amor se chama;

Que a tanto homem de bem, que a tanta Dama,

Tira o repouso, e rouba a liberdade:

 

Que cantei desse Nume sem piedade

As setas, o carcás, e aquela chama,

Que abrasa aos Sábios, que os heróis inflama;

Que acende até no trono à Magestade:

 

Eu que da bela Nize o génio inquieto

Quis me servisse no verdor dos anos

Aos versos meus de principal objecto;

 

Eu, conduzido enfim dos próprios danos,

Mudei de assunto, e em vez de um louco afecto

Canto agora as lições dos desenganos.

 

Poemas transcritos de Poesias, texto integral da 1ªedição, INCM, Lisboa 1985.

 

A imagem de abertura respeita a uma pintura de Jean Frederic Schall (1752-1825).

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Filinto Elíseo — Anfiguri e dois epigramas

19 Segunda-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Filinto Elíseo, Jackson Pollock

Pollock - Numero 8 1949

Epigrama

 

Prometeu, quando fez o homem primeiro,

Macho e fêmea, dous corpos fez, pegados:

Porém Jove um composto assim inteiro

Partiu em dois terníssimos bocados.

Daqui nos vem andarmos sempre ao cheiro

Dos membros, que nos foram arrancados.

— Ei-la — (nos diz o Coração) — É aquela —

Mas vamos a prová-la, e nunca é ela.

 

 

A exigência de uma sólida cultura clássica, a dureza do verso, a persistente recusa no uso da rima, sobretudo nas odes, tudo contribui para afastar o leitor moderno da poesia de Filinto Elíseo (1734-1819). E contudo, que grande poeta!

 

É no fluir encantatória do verso (aqui com rima) que reside todo o fascínio do Anfiguri de Filinto Elíseo que mais à frente transcrevo.

Género poético raro, de difícil factura com sucesso, este anfiguri antecipa todas as vanguardas literárias que o século XX conheceu e nos próximos artigos ilustrarei. É simultaneamente poesia dadaista e surrealista no conteúdo, e experimental no exercício sobre a palavra que tão caro foi às vanguardas poéticas ao longo do século XX.

 

Hoje as preocupações poéticas de criadores centram-se sobretudo nos relatos do “eu e o mundo” no tom sério que, supõem, convém à poesia. O non-sense, o absurdo, ou tão só o trabalho sobre a palavra, se têm cultores, não têm leitores.

Voltando ao que me ocupa hoje, define o dicionário anfiguri como obra literária de sentido confuso; e assim será. Mas ser de sentido confuso não significa ser sem sentido. E é aí que o desafio se coloca: perscrutar os sentidos possíveis num anfiguri que seja também, como é aqui o caso, um poema, notável pela organização rítmica da palavra, essência mesma da poesia.

Pollck- Fora da rede numero 7 1949

ANFIGURI

 

Dá cá o presunto,

Rapaz enfeitado:

Quem não comeu bocado

Não morre de fome.

Morreu Lobisomem

Em camas de neve

Co’a pena que escreve

Decretos de Amor

Que quis com primor

Em rico tapete

Depor o sainete

Da concha Ciprina.

Eu vi a Menina,

Que vence as formosas

C’os lírios, e rosas,

Falar de sob-capa

A bichos do Papa.

Foi muito daninho

Às cepas do Minho

O sol deste inverno:

Quem pôs o governo

Nas mãos da criança

Não canta nem dança;

Mas põe geringonça

Nos papos da Onça.

Garrido estribilho,

Com palha de milho

Vai mui penitente

Nas pelas da gente

Sorver a mostarda,

Que trouxe a Bastarda

Nas garras do lobo.

O magro Farrobo

Nas altas ameias,

Sem ligas, sem meias

Gritou tartamudo:

“Trazei-me veludo

De pelo encarnado

Que dê mau olhado

A três feiticeiros.”

Os velhos gaiteiros

Rebentam de riso

Co’as trovas de guizo

Na vã carapuça.

Bem vai quem se aguça

Por ver o chavelho

Do bom scaravelho

Pintado de azul;

E a penca ao Taful

Da parda caraça,

Que bem se almofaça

C’o texto da Glosa.

E viva essa Moça,

Que compra o rebique,

E diz no despique:

“São bons carapaus.”

Ásados maraus

Com pança balofa

Refrescam a fofa

Nas costas do Alfeito.

Mas foi mui bem feito

Trazerem castanhas

De avulsas maranhas

Do monte Pegú.

O Cucurucú

Despindo as baetas

Mostrou carapetas

Nos Alpes gulosos.

Vieram gostosos

Os nabos Turquinos

Trazer aos meninos

As torres da Sé.

Não ouve, não vê

Cruel rapazia

Dragão que assobia

Deserto e Filhota.

O Céu se encapota

Com manto de sarro

E chove catarro

Por gordas goteiras.

Sacode as peneiras

Brincam Demonico;

Lá leva no bico

Barbudo alguidar.

Mandei bugiar

O homem de ferro,

Que vai como um perro

Capar os picanços.

Passeiam mui mansos

Subtis Jesuítas

Varrendo as Mesquitas

De São Sarabando

Aqui vão quebrando

Os ecos das bombas,

Que estouram nas trombas

Dos Rinocerontes.

Com seis Faetontes

Nas pregas da cauda

Compunha uma lauda

De vãos palavrões

Para as Conclusões

O grande Enxobregas,

Que estanca as bodegas

Da esconsa Prosódia.

Gentil palinódia

Discanta o Sultão

No grão Casarão

Que Merlim lhe acabou.

Aqui me mandou

O seu mensageiro

O mui marralheiro

Autor da matraca,

Que intrépido ataca

Com seus consoantes

Os versos tonantes

Sem tais maravalhas;

E afia as navalhas

Trombudo Censor,

Sem pejo, sem dor.

Eu nestes entrementes

Vos lanço a seus dentes

Versículos louquinhos.

Pollck - pintura 1945

Para despedida, hoje, da poesia de Filinto Elíseo, termino com outro epigrama do poeta.

Epigrama

 

Entender de comércio é gran venida

Para dourar com cabedais a vida:

Val mais que tenças, mais que bons morgados.

Saibam que Filis d’alugar seu leito,

Que apenas lhe custou vinte cruzados,

Tira dez mil, cada ano, de proveito.

Poemas transcritos de Obras Completas, volume I, edição APPACDM, Braga, 1998, integrado em Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, edição de Fernando Moreira a partir da 2ª edição, Paris, 1817.

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Jackson Pollock (1912-1956).

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...
← Older posts
Newer posts →

Visitas ao Blog

  • 2.368.468 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 898 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • As três Graças - escultura de Canova e um poema de Rufino
  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz
  • Vasos Gregos

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Site no WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 898 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d